Aconteça o que Acontecer...

3 Capítulo 3 - Emily Johnson


“O sorriso mais bonito que já vi em toda essa cidade” era o que o Sr. Hill sempre dizia quando via a pequena Emily. A garota tinha a mania de prender seu cabelo em dois pequenos rabos de cavalo que desciam ao longo do seu fino pescoço.

Mesmo quando ainda era uma pequena criança possuía um olhar profundo, intrigante e bem peculiar. Seus olhos arregalados por trás daqueles óculos quadradinhos davam charme para a pequena Emily de apenas dez anos. Ao contrário do amigo, ela era uma criança normal.

Emily possui um grande dom de unir pessoas, mesmo não sendo intencionalmente ela sempre encontra um jeito de fazer as pessoas se conhecerem. Os Johnsons só conheceram os Hills graças a inocente garota.

Se existia uma coisa que incomodava muito a menina era a opinião alheia, aquela especial característica de “não se importar” era um dos mais difíceis desafios para ela. Houve uma vez em que seus dois dentes da frente caíram, deixando um enorme buraco no sorriso da criança. Bom, se Nathan não tivesse a forçado a abrir a boca Emily passaria semanas, talvez meses sem falar por medo de alguém notar.

A história de Emily Johnson e Nathan Hill começou na segunda semana de aula da terceira série, eles se lembram muito bem, afinal quem não se lembraria, eles passaram quase duas horas presos no auditório da escola, por sorte foram encontrados e... Não me lembro do resto.

Os Johnsons moravam a duas quadras da casa de Nathan, o pai de Emily era professor de história, o que explicava sua incrível capacidade em se lembrar de todos os acontecimentos históricos americanos. Dedicação a definia, horas de estudo sempre fazia a diferença quando ela recebia seu boletim.

Uma vez a senhora Hill teve a brilhante ideia de pagar Emily para ensinar o seu filho. Apesar de toda amizade, a jovem não era nem um pouco dócil ensinando, toda vez que Nathan começava a se desfocar do assunto recebia logo um duro olhar de repreensão, aquele era o lado sério da garota.

Suas características refletiam diretamente em seu modo de viver, a garota colecionava marca-páginas e tinha uma assustadora paixão por livros, eles eram seu único tesouro, uma grande estante em seu quarto os guardava, aquele era um lugar proibido e ninguém, sem exceções, podia tirar um livro de lá.

O tempo não havia sido generoso apenas com Nathan, não fora apenas ele que se transformara completamente, Emily teve mudanças bem radicais também. Na adolescência ela havia se tornado uma garota fissurada por moda e brigava muitas vezes com Nathan por seu estilo próprio.

Ela possuía uma beleza natural, assim como o amigo era um tipo de beleza diferente. Seus cabelos eram cobre-escuro, sua pele era tão lisa quanto uma folha de papel e branca como um floco de neve. Seu corpo era muito bem proporcional a sua altura e ela possuía curvas bem agudas e demarcadas por todo corpo.

Sabe o que aconteceu com aquelas duas crianças? Bom, acho que elas cresceram não é mesmo? Vê-los juntos agora é a prova mais inquestionável de que a verdadeira amizade não pode, em hipótese alguma, ser abalada pela ventania causada pelo tempo. Quem os visse passando pelos corredores da escola diria que eles eram um casal perfeitamente feliz.

Nathan sempre encontrava um jeito de apanhar da amiga por falar alguma besteira, geralmente Emily dava um soco no braço direito e ele jurava que fazer aquilo todo dia estava deixando a menina mais forte. Ela passava horas e horas sob aquela árvore com ele, contando as nuvens e sonhando acordados. Apesar de sua paixão por moda o que Emily sempre quis fazer foi publicidade.

A jovem era como um poço de dúvidas, se sentia muito estranha ao ver o amigo com outras garotas ou quando ele a pagava no colo para aprontar alguma. Emily sempre negou para si mesma que aquilo era alguma coisa além de amizade, e afinal aquilo era normal, eles cresceram juntos então todo aquele ciúme era natural.

Sejamos francos, nunca podemos afirmar algo para nós mesmo se não soubermos quais são nossas verdadeiras capacidades. Negar uma verdade para o coração é como pegar a realidade e desfragmentá-la, criando um mundo perfeito. Sem dúvida ela tinha bons motivos para evitar qualquer coisa por Nathan, toda aquela amizade poderia acabar em um grande e vazio nada.

Uma das coisas que mais a irritava era o fato de constantemente receber convites de um dos garotos mais populares do colégio para sair e sem pensar duas vezes ela negava, negava com plena e absoluta certeza e logo em seguida vinha o arrependimento e a sensação de culpa, o que estava acontecendo?

A vida é isso, é sempre a mesma coisa. Buscamos entender o que somos e no final há uma série de razões para tudo, que nem mesmo com todo tempo do mundo seríamos capazes de entender cada uma delas, mas mesmo assim seguimos adiante, colocamos movimento em nossos sonhos e de tudo isso guardamos apenas memórias, nossas formas de ser feliz em momentos de escuridão.