Acima das nuvens
1 Katie
Notas iniciais
Prólogo — Katie
Durante quatro, dos dezessete (quase dezoito) anos da minha vida, eu e minha mãe sempre assistíamos Reality shows que enfatizavam a realidade, enquanto comíamos pipoca queimada e dormíamos ao doce som dos barulhos noturnos (que minha mãe sempre disse que eram comemorações de festas, mas que para mim sempre foram gemidos) que os vizinhos faziam.
Era tedioso, como sempre, mas eu pretendia manter a tradição. Mesmo que agora, não era mais minha mãe quem assistiria comigo.
– Katie! Vou ter uma festa de reencontro do Ensino Médio, quer vir? – Maya disse toda sorridente, como se aquele sorriso pudesse ajudar em algo.
– Não – Respondi olhando para a tela desligada da televisão. – Hoje é noite de sexta, esqueceu da "antiga tradição familiar?" – Falei fazendo gestos com as mãos.
– Estou aqui a menos de uma semana, me explique isso. – Ah é mesmo, ela não sabia.
Maya entrou na minha vida uma semana atrás, quando minha mãe decidiu que eu precisava de uma colega de quarto (pois é, ela não me aguentava mais) e me obrigou a colocar um anúncio de "aluga-se quarto", para poder trocar os "News" e se mudar de New Orleans para New York.
O único problema é que ninguém queria morar em um sobrado na parte (digamos razoável) do centro de New Orleans e para ajudar, eu não tinha muitos amigos. A não ser, os virtuais. Porém, eles tinham setenta e sete por cento de chance de serem estupradores ou velhos tarados de noventa anos, então por alguns meses, desisti.
Até que, uma garota com rímel borrado e lágrimas escorrendo decidiu tocar a campainha do meu sobrado, e o melhor, de madrugada.
– Hey! Soube que você está alugando quartos? – Ela disse apontando para o anúncio de "aluga-se" colado na porta.
– Pois é, interessada?
– Sim, na verdade muito. – Respondeu dando ênfase a palavra muito.
– Então... Você quer fazer uma visita?
– Não, eu me mudo direto, amanhã talvez, pode ser?
– Aham – Acenei com a cabeça pensando no por que de ela estar chorando.
– Até.
No dia seguinte, Maya bateu na porta do sobrado e me deu um sorriso forçado, abri a porta enquanto segurava a Sleep (minha gata) no colo e respondi com um sorriso de"boas vindas".
[...]
Maya não parecia interessada em nada do que eu dizia, pois eu perguntava coisas aleatórias como "Por que você está se arrumando tanto para ir" e ela respondia com "Aham" "Claro" "Lógico" e coisas do tipo. Enfim, não me restava mais nada a fazer, além de abrir o notebook e escutar Give me love enquanto observava a Sleep brincar em frente à televisão.
– E entãoooooo, como estou?
Não que eu tenha algo contra com os vestidos, mas bem, esse era brega e repugnante. Senti uma grande vontade de contar isso pra ela, mas aparentemente, esse tipo de vestido estava na moda então sinceramente, se era um brega que as pessoas gostavam, quem seria eu para não aprovar?
– Está ótima! – Tentei soar mais sincera o possível.
– Bem, adeus então. – Respondeu enquanto corria em direção à um carro preto estacionado no outro lado da rua.
[...]
Nos tempos livres eu sempre procuro fazer alguma coisa, eu odeio ficar desocupada.
Geralmente, tento aprender uma palavra nova, cozinhar alguma coisa chilena que eu encontrasse no livro de receitas estranho que a minha tia me deu, ver algum programa deprimente na televisão, ouvir qualquer música que eu achasse interessante ou simplesmente observar a Sleep fazendo o que ela faz de melhor: dormir (daí vem o nome, Sleep).
Porém, eu não estava com a mínima vontade de fazer nada dentro de casa naquela noite. Por mais que já fosse tarde, New Orleans não dorme cedo.
Quando minha mãe estava comigo, nós passeávamos por alguns parques que por algum milagre emocionante (ou o google) nos ajudou a encontrar, infelizmente, os parques não tinham a mínima graça e eu só ia por causa da minha mãe.
As únicas coisas que eu gostava, eram as antigas bibliotecas (nunca exploradas, pelo menos na minha cabeça).
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