Acidente de Trânsito
1 Estranhos
Notas iniciais
“Amor eternizado”
“A noite não tinha luar
O uivo do lobo era baixo, quase como um grunhido
Seus lábios trêmulos brilhavam sem vida, molhados pelo gosto oceânico que caía de seus olhos
As mãos se fecharam sobrea lâmina da espada, rasgando-as
Molhou o rosto com o sangue das mãos, acariciou lentamente a face do rapaz
Beijou seus lábios sangrentos enquanto a espada entrava e perfurava seu estômago
Caiu do seu lado, com a cabeça no seu peito e os braços envoltos no corpo sem vida
A lua abriu espaço entre as sombrias trevas e iluminou os dois corpos caídos perto da floresta
Um lobo solitário surgiu e saciou sua sede com o sangue dos dois amantes
De longe ouve-se um grito, em seguidas passos rápidos naquela direção
Uma maldição, vinda de um coração traído, é rogada sem dó ou piedade
O olhar de horror invade o semblante dos pais ao verem a cena de traição e morte. Mas também de amor
E o vento, suavemente, como se quisesse dar um enterro digno, soprou sobre eles, dizendo lentamente:
Aqui jaz aqueles que amaram como Romeu e Julieta”
Rosalie bocejou, era inevitável bocejar com aquela idiotice, Jane voltou para sua carteira, sob o aplauso dos colegas, e Rosalie percebeu que agora ela devia aplaudir. Suas aulas de literatura se resumiam a bocejar, copiar e aplaudir nas horas certas, nem um livro chamara sua atenção, nem mesmo Romeu e Julieta, todas as histórias lhe pareciam apáticas e insossas.
Com a mudança de aula Rosalie se animou um pouco mais, mesmo que a próxima aula fosse física. Mas até lá era mais fácil fingir algum interesse, ela gostava dos números, tinha um número quatro simpático e um oito balofo, e se divertia dando diferentes formas para seus números.
Rosalie não era a melhor aluna em alguma matéria, estava sempre na média, sempre raspando pela recuperação, mas não se preocupava muito com suas notas. Na realidade, Rosalie não se preocupava com as coisas ao seu redor, era como se o seu mundo fosse sintonizado numa frequência estranha àsdemais.
O professor fez uma pergunta sobre a matéria, olhando significativamente para Rosalie, na vã esperança que ela respondesse. Ela olhou assombrada para o professor, sem se quer imaginar qual seria a pergunta e muito menos a resposta.
–Raiz de sete sobre quinhentos e dezenove – alguém respondeu.
Rosalie respirou aliviada, e ia voltar para um seis de regime quando o professor lhe fez uma pergunta direta:
–Rosalie, qual a velocidade média do problema?
Ela fez uma careta, franziu a testa, fingindo pensar sobre o assunto, depois deu de ombros e respondeu:
–Não faço a mínima ideia.
–Acabaram de responder essa questão! – bradou o mestre.
O professor estava bravo, não que isso importasse muito a Rosalie, ela achava estranha a feição dele quando ficava naquele estado. Fora isso, ela permanecia impassível, como se nada houvesse acontecido.
–Última chance para você Rosalie, ou você responde essa questão ou diminuirei um ponto de sua média. O que é velocidade média e como ela pode ser calculada?
Todos olharam para ela, a resposta parecia óbvia, mas Rosalie não a sabia. Com um suspiro fraco, ela se preparou para perder um ponto.
–Velocidade média é a média da velocidade de um objeto durante um espaço de tempo e percursos delimitados. A fórmula é a variação do espaço dividido pela variação do tempo.
A resposta veio da mesma pessoa que respondera a questão anterior. Várias cabeças se voltaram para o fundo da sala, inclusive a de Rosalie, e pela primeira vez ela viu quem respondia.
Era um nerd, pelo menos foi essa a primeira ideia que ela teve dele. O rapaz era alto, com olhos castanhos partindo para o verde, pele clara e feições suaves. Vestia uma malha grossa com uma cor crua, os cabelos jogados para trás, louro-acastanhados.
–Creio que a pergunta não foi dirigida ao senhor- reprovou o professor, furioso.
–Sinto se fiz algo errado, professor. Como ela não respondeu pensei que poderia dar a resposta certa.
Nesse momento o sinal tocou e mais que depressa Rosalie e os outros alunos saíram. Era hora do intervalo, os alunos iam se arrumando no espaçoso refeitório, alguns já na fila para comprar lanches. Rosalie foi até uma simpática mesa já cheia. Sentou entre um garoto sardento que brincava com uma pequena bola e um garoto grande que não parava de comer.
–Oi – ela cumprimentou.
Alguns balançaram a cabeça, outros responderam, mas apenas dois olharam para ela e sorriram. Cada integrante da mesa estava absorto em sue mundinho particular, inerte ao que acontecia ao redor.
–Vai ter corrida hoje a noite – uma menina falou para Rosalie.
Foi a primeira vez, desde que entrara na escola naquela manhã, que Rosalie saiu de seu topo e mostrou interesse por algum assunto.
–Onde? – ela perguntou curiosa
–Na estrada velha, perto da casa do Demetri. A gente vai sair da casa do Grabe e ir direto para lá.
–Que horas?
–Meia noite. Vai ter uma corrida só de carros depois. Aparece lá.
–Se der eu vou – o que era na verdade um sim.
Em outra mesa, Jane acabava de chamar o aluno novo para se sentar com ela e seus amigos.
–Qual é o seu nome? – ela perguntou educadamente.
–Jasper.
–Prazer, eu sou Jane, estes são…
E apresentou o resto do grupo, a nata intelectual da escola. Aquela era a mesa dos nerds, e não havia dúvidas de que aquela seria mesa de Jasper.
–Foi muito gentil responder as perguntas pela Rosalie – comentou maliciosamente uma moça baixa chamada Victória
–Ela é bem distraída – ele disse.
–Distraída?! – exclamou Jane – Ela é estranha!
Jasper olhou para Jane, assombrado, depois olhou para a mesa onde Rosalie estava e compreendeu o que havia de estranho. Nenhuma das pessoas conversava, todos estavam apáticos, como se nada ocorresse ao redor. Às vezes trocavam alguns monossílabos e acenos de cabeça, mas era só isso. Jasper franziu a testa, pois, para ele, aqueles estudantes pareciam mortos, sem vestígio de vida.
–Eles são sempre quietos? – ele perguntou, acenando para a mesa de Rosalie.
–Quietos? Eles são um bando de zumbis! – taxou Victória.
–Eles não conversam, eles não brigam, eles não riem, eles não se aproximam de outros alunos. Não tem matérias ou professores preferidos e normalmente sempre estão com uma expressão vazia – Jane lançou um olhar de desprezo para aquela mesa e prosseguiu – Rosalie é como eles, fria, distante, é como se ela não vivesse nesse mundo. Nada a atinge, se ela tirar um zero ou se ela tirar um dez sua reação será a mesma. Ela e os amigos dela são muito estranhos.
Nesse momento, Rosalie se levantou e começou a atravessar o corredor indo em direção à lanchonete da escola. Ao passar pela mesa dos nerds, Victória disse bem alto para que ela ouvisse:
–E falando em gente estranha…
Mas Rosalie não ouviu, ou fingiu que não ouviu, e continuou andando. Jasper a seguiu com o olhar, viu a garota pedir uma maçã e um copo de suco, pagar pelo lanche e voltar para seu lugar, a expressão, assim como Jane dissera, vazia.
Passado algum tempo o sinal tocou e os alunos voltaram para as salas de aula. Jane fez questão de acompanhar Jasper até a sala dele e indicou as próximas salas nas quais ele teria aula, e quando terminou, sorriu amavelmente e foi para o outro prédio ter sua aula de geografia.
Jasper estava parado na porta vendo os loiros cabelos de Jane perderem-se na multidão quando um corpo tombou com o dele e vários cadernos caíram no chão.
–De novo não! – exclamou uma voz fraca.
Ele olhou para trás e logo reconheceu a menina. Agachou-se e ajuntou os livros rapidamente, entregando-os para ela. Rosalie olhava para ele espantada, como se nunca houvessem feito aquilo antes, mas logo sua expressão voltou a um vazio inexplicável.
–Obrigada – ela agradeceu na mesma voz fraca e entrou na sala.
A aula de história foi boa, Jasper participou várias vezes enquanto Rosalie, sentada sozinha no fundo da classe, desenhava as datas e rabiscava o contorno de uma moto na capa do caderno. Como os alunos sentavam-se em pares não demorou muito para que o par de Jasper se mostrasse profundamente irritado com o falatório dele, por isso, quando foram para a aula de matemática, outro garoto pediu para que Jasper fosse sentar com outra pessoa.
E a única pessoa que não tinha um parceiro era Rosalie
–Posso me sentar com você – ele perguntou.
Rosalie apenas balançou a cabeça afirmativamente, empurrando seu material para uma das extremidades da mesa. Sentar com ela era o mesmo que sentar sozinho,e Jasper gostou, era bom não ter ninguém para reclamar de sua nerdisse, ou criticar o seu falatório, porém quando a aula teórica acabou e o professor pediu a resolução dos exercícios em dupla é que o garoto percebeu qual seria o seu maior problema com ela: a comunicação.
–Você quer fazer qual exercício primeiro? – ele perguntou.
Rosalie deu de ombros, sem tirar os olhos do caderno.
–Você vai responder algum exercício?
Ela não respondeu.
–Rosalie, estou falando com você! – ele explodiu elevando a voz.
Muitos alunos olharam para eles, mas ela não reagiu, continuou rabiscando e quando se deu por satisfeita disse, olhando para o vazio:
–Responda o que você quiser, se você não conseguir responder espera que eu vá conseguir?
–Isso é um trabalho em dupla, você tem que fazer alguma coisa!
–Eu não pedi para sentar com você – ela exclamou, impassível.
Não havia mais nenhum aluno que não olhava para eles. O professor mirava boquiaberto os dois, espantado com tantas palavras ditas por Rosalie.
Jasper sentiu raiva, aquela menina conseguira tirá-lo do sério. Sentia seus instintos, até então presos na forma de homem civilizado, a flor da pele, e se não fosse pela presença dos outros alunos, ele teria perdido completamente a calma.
O sinal tocou, anunciando o fim da aula e da discussão. Rosalie pegou seus livros e saiu da sala com os e nada houvesse acontecido, deixando para trás um professor boquiaberto, alunos espantados e um Jasper tremendo de raiva.
Naquela tarde, quando Jasper chegou em casa, a raiva ainda queimava dentro dele. O jovem correu para o quarto, se jogou na cama e fechou os olhos com a maior força que pôde. Não adiantou, a imagem de Rosalie se formou em sua mente e não saiu de lá. Era como se a face sem expressão estivesse a centímetros da sua,ele até coseguia sentir o cheiro de maçã que saía da boca feminina.
Sacudiu a cabeça com força e prometeu a si mesmo que esqueceria de vez aquela garota, e que no dia seguinte simplesmente a ignoraria.
Satisfeito com seu plano ele levantou e foi tomar um banho. Quando a água quente deslizou por seu corpo, arrepiando de início sua pele, mas depois relaxando seus músculos, Jasper estava novamente clamo.
–Ela não vai me tirar do sério amanhã! – prometeu a si mesmo.
Sorriu de leve, puxando uma toalha branca para junto de seu corpo molhado. Na sua cabeça, a face de Rosalie reapareceu.
Caramba, o pior de tudo é que ela é muito bonita para ser tão estranha!
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