Acho que vai nevar.
5 Precipitação.
Notas iniciais
Combinamos de nos encontrar as dezoito horas,para tomar um café. Aquela sensação de vazio e vergonha foi se apagando gradativamente e na manhã seguida eu ainda pensava no tal estagiário, mas com menos intensidade. Ao chegar para a primeira prova, me despedi da Mel, e fechei os olhos pedindo pro destino desistir de mim, e fazer com que ele não me visse o dia inteiro. Entrei na sala, e tratei de ficar longe das janelas.
Pela primeira vez em muitos dias, estava totalmente concentrada na prova, e nas questões, consegui respondê-las com clareza e certeza. As horas passam rápido quando o relógio não tem nenhum perigo a lhe oferecer, logo já estava livre das provas do dia, e ainda com meia hora de antecedência para o encontro. A essa hora Mel, ja estava no café,e fui lá para encontrá-la.
– Oi irmãzinha querida.
Ela estava no balcão, me debrucei nele e a cumprimentei com a minha energia habitual.
– Nossa,não sei como você consegue lidar com essas suas mudanças de humor repentina.
Todo mundo muda de humor o tempo todo, menos eu, eu mudo com mais frequência do que gostaria, e não por motivos próprios, sempre senti que eu era uma espécie de parabólica sentimental. Se pessoas próximas a mim sentem algo, eu também sinto, mesmo que elas nem mesmo me contem sobre suas dores e problemas, eu simplesmente sinto, e absorvo, e então meu humor muda.
Obviamente nunca contei a ninguém, não quero que pensem que eu me acho especial, para conseguir atenção, ou que sou algum tipo de vigarista, eu me acostumei a sentir,absorver e não transparecer.
– E então, planos para hoje ?
– Ah, nada muito importante, tomar um café com o cara da festa, ir para casa, me preparar para amanhã e então dormir, e esperar por mais um dia entediante na minha vida.
Falei para ela fazendo cara de cachorro sem dono. Ela riu e me deu um beijo no rosto, e então disse que precisava contar o estoque,e que se precisasse era só chamar.
Então sentei na mesa ao lado da parede de vidro, e fiquei mais um vez, observando o mundo lá fora. Estava frio e chovia regularmente, aquele clima bucólico e gélido me fazia sentir tão bem, tão leve e sem problemas, tão completa e perfeita, por alguns segundos, eu esqueci como era a minha vida.
– Pontualidade inglesa.
Alguém se aproximou de mim, e logo sentou-se ao meu lado. Era Ezequiel o garoto misterioso e sombrio da festa. Seus olhos eram escuros e penetrantes, um convite para uma noite eterna de conversas e devaneios.
– Quer comer alguma coisa?
Perguntei,rezando para ouvir algo positivo.
– Um desses bolinhos com frutas no meio, parecem divertidos.
Ele escolheu um bolinho de bluebarry o mesmo que compro toda vez que fico aqui. Eu pedi o mesmo que ele, bolinho com um café bem quente com muito creme em cima. Conversamos sobre tudo, sobre como conhecemos Jorge, e o quão divertido ele era, e quão nossos gostos combinavam.
Ezequiel parecia um versão masculina e mais bem vestida de mim. Gostávamos do mesmo tipo de música, das mesmas comidas, e do mesmo estilo de vida boêmio e descontraído. Parecia que finalmente eu, havia encontrado a minha metade no meio de um furacão.
Nos beijamos no fim do encontro, suas mãos quentes e confortáveis passaram por trás da minha nuca,mexendo nos fios de cabelo espalhados por lá. Ele me prendeu sutilmente prendendo sua cintura da minha, eu estava presa em um abraço que eu desejei ser infinito e confortável como uma tarde de chuva no inverno, estávamos unidos, por milhares de gostas de chuva e por um beijo eterno.
– Nos vemos amanhã?
– Ah, pode ser, mas tem que ser depois das provas.
– Então amanhã, as dezoito, aqui, tudo bem ?
– Claro.
Eu apenas sorri para ele,coloquei uma mecha de cabelo atrás da orelha e fui pegar o ônibus,mas por dentro eu dava pulos de alegria e podia ainda sentir o beijo quente que ele me deu.
O mundo parecia muito mais colorido e receptivo,meu coração estava vibrante, quente e calmo, eu finalmente encontrei meu abrigo, podia finalmente ficar em paz.
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