Acho que posso me acostumar com isso...
2 Capítulo 2
Notas iniciais
- Bom dia... Tomara que você tenha um... – disse a mim mesma. Afinal não tinha mais ninguém ali... não tinha mais ninguém comigo.
Eram 7:00 horas da manhã, meio sonolenta, fui até o banheiro. Encarei por alguns minutos aquele rosto que eu via no espelho. Sempre que o olho, não me vejo, sinto que estou perdida, sozinha... como sempre... O rosto que eu vejo ali, é rosto de uma vencedora e de uma perdedora. Sim, vencedora porque finalmente sai das ruas, conquistei uma casa (já conto como aconteceu) e levo uma vida tranqüila. Mas, perdedora porque ainda vivo no passado, ainda moro lá e, por mais que eu tente, não consigo me mudar de lá, não consigo vir para o presente, o passado me marcou e essa marca vai ser para o resto da vida!
Lavei meu rosto. Aquela água gelada no meu rosto me arrepiou, ela era como uma ducha de realidade. Pra eu saber onde eu estava, e como cheguei até ali. Quer que eu explique? Ok... lá vai: Depois que sai, ou melhor, fugi do Orfanato Mão Estendida, não tinha pra onde ir, acho que eu ainda não acreditava que eu havia perdido tudo. Bom, como logo reparariam que eu fugi, resolvi correr, mas antes disso, fui na janela de um dos quartos e falei baixinho: “Um dia eu volto, eu volto pra te buscar! E você vai morar comigo ali – apontei para um prédio de luxo do outro lado da rua- a gente vai morar ali!”. E uma menininha que estava escondendo as “provas” de que havia me ajudado a escapar, com um gesto afirmativo com a cabeça, olhou diretamente em meus olhos e sussurrou: “Eu sei que você vai! Eu sei que vai voltar, mas pra que tudo dê certo você tem que ir! Anda corre se não a tia pega você! Corre!”. Eu gostava daquele lugar... as monitoras eram legais, cuidavam bem das crianças mas, aquele não era meu lugar.
Depois daquilo eu corri, o mais rápido que pude. O vento fazia carinhos bruscos em meus cabelos e, ao mesmo tempo em que lagrimas escorriam no meu rosto, eram deixadas para trás, eram esquecidas.
Eu esbarrei várias vezes em pessoas que apenas estranhavam e me olhavam com pena. Eu, naquela hora apenas pensava: “Porque pena? Eu não preciso disso! Minha família esta aqui! Eu sei que sim! Eu não perdi eles! Eu não perdi ELE!”. Logo mais e mais lágrimas desciam meu rosto, não conseguia controlá-las.
Fale com o autor