Notas iniciais
Olá, se você veio aqui ^^

Era uma vez um rapaz deitado em seu sofá; seu polegar direito pressionava incansavelmente um botão do controle remoto, pois nele ainda habitava a esperança de que algo decente estaria passando na tevê, mesmo que ao longo de cinco minutos ele não houvesse encontrado porcaria alguma. Esse rapaz sou eu, só pra constar. E não era apenas por esperança, eu também queria algo para tirar uns pensamentos maus que meu cérebro produzia a respeito de uma megera nojenta idiota ingrata que será minha colega de classe ao longo deste triste ano.

Qual o nome dela mesmo?

Não, Gray, você está cheio de raiva e tem um tio macumbeiro... Daqui pra você pedir pra ele jogar uma praga nela não é longe, continue chamando-a apenas de megera.

— Gray!

No que ouvi o berro da minha mãe, finalmente em casa, me senti como um cachorro e rapidamente me pus de joelhos no sofá, o olhar ansioso para porta, brilhando enquanto a via ser aberta. Dona Ur – mamãe – estava ofegante, segurando sacolas.

— Querido, você pode me ajudar?

Esse foi um dos momentos de euforia mais rápidos da minha vida, a frustração chegou tão cedo que assustou. — Oh, mãe... — eu voltei a me sentar no sofá, suspirando. — Cadê o Lyon?

— Bem aqui — ela virou a cabeça, indicando o lado de fora, e eu pude ver um cidadão de cabelos platinados se arrastando com as mãos cheias de sacolas grandes de compras. — Seja forte, moleque!

— Anda logo, Gray! — ele choramingou, os cantos dos olhos visivelmente recheados de gotículas de lágrimas, o que já melhorou meu dia.

Raras vezes eu vejo o Lyon naquele estado, pois ele é sempre muito ocupado, trancado no quarto com alguma menina ou dando de irmão mais velho que não se importa com o pobre coitado que seu irmãozinho – eu — é.

— Ou você quer ser filho único?

Olhei-o com entusiasmo sutil, pensando com seriedade no que ele disse...

Seria muito tedioso.

Por isso fui ajudar: foi uma forma de agradecer por ele ser como é, me tratando mal como me trata, falando poucas vezes comigo e me usando de empregado sempre que possível.

Eu retornei ao sofá com um Doritos em mãos – eu sei que qualquer dia desses, de tanto que consumo isso, ainda vou enjoar -, e Lyon estava tomando muito do espaço, jogado lá como uma estrela do mar e respirando difícil.

— Que que você tem? — minha boca estava cheia, mas eu não perderia a chance de conversar.

Ele me deu um olhar de canto, óbvio e irritado, e eu soltei um risinho discreto, levando minha atenção para a tevê, porém imaginando o que ele passou tendo que andar pelo supermercado enorme quarenta e tantas vezes por causa da memória falha da mamãe com a lista de compras.

É sempre assim. Mas acho que a memória dela não está falhando apenas com aquilo... Ou ela parou de me amar. Por acaso não percebeu que o filhinho, que passou um mês todo longe dela, voltou? Do Lyon eu nem espero um “senti saudades”, mas nas outras vezes ela sempre lembrava de dizer uma frase do tipo.

Olhei para a cozinha, tristonho, vendo-a organizar algumas compras em seus lugares.

Esse é o pior dia da minha vida.

— Cadê o teu colar, Coisinho? — quando virei para encarar Lyon, ele já estava bem perto de mim, olhando analiticamente para o meu pescoço, seu cenho franzido. — Você nunca tira...

Os pensamentos maus tornaram a inundar minha mente, quando lembrei da causa do meu precioso colar não estar onde era seu lugar.

Megera...

— A culpa é da novata da minha classe. — falei, simples, pegando o controle remoto e outra vez tentando jogar para a tevê a função de limpar a imagem da moça de cabelos azuis das minhas lembranças tristes do dia.

— E o que ela fez? — eu não o olhei, mas tinha certeza que se o olhasse veria um sorriso malicioso desenhado na sua cara.

Ele tem a ilusão de que o irmão é galinha como ele... Coitado.

— Nada.

— Então, tá. — ele meteu a mão no meu Doritos e removeu-a de lá cheia – ou seja, só restava vento no pacote.

Maldito filho da minha mãe... Se aproveita porque é maior...

— Como foam as auras? — perguntou, de boca cheia, cuspindo migalhas pelo sofá e em mim, que não tive reação, só mantive a boca fechada para aquilo não voar para dentro e eu acabar engolindo.

— Normais... — respondi em alerta, quando ele fechou a boca e só se ouvia o mastigar. — Pega. — deixei com ele o pacote vazio de Doritos e me levantei do sofá, dando uma espiada rápida na cozinha antes de ir para o quarto e me trancar lá, me conformando que aos dezessete anos eu já não merecia mais receber carinho da minha mãe.

Eu até anotei numa folha avulsa do caderno: “Não abandonar um filho quando ele tiver dezessete anos, porque ele vai se sentir mal” – não que no futuro eu vá ler aquilo, mas os professores sempre me disseram que se escrevendo também se decora.

Mesmo sendo fim de tarde, havia um calor tremendo no meu quarto, que me obrigou a escancarar as janelas e tirar todo o uniforme da escola. Só de samba-canção, eu parei em frente à minha cama e olhei tudo ao meu redor.

Meu quarto é no estilo sótão, com janelas grandes, e é bem espaçoso – o que sobra de espaço caberia um outro quarto. Ele é maior que o do Lyon, pelo que lembro. É que essa casa, antes de eu vir morar aqui, há mais de dez anos, teve que ser reformada, e eu – que havia acabado de assistir O Pesadelo e gostado do quarto do garotinho – implorei por meses até minha mãe ajeitar o meu dessa forma.

Às vezes, sou meio insistente.

Surpreendentemente, não havia nada empoeirado e estava tudo organizado, então não me preocupei em arrumar e apenas me joguei na cama – na ponta do quarto – e virei na direção da parede, para a luz de fora não atrapalhar meu sono e reencontro com meus amados travesseirinhos...

Após ser chacoalhado impiedosamente, fui obrigado a abrir meus olhos e ver quem era a maldita criatura que perturbou minha paz, e não fiquei surpreso ao ver a imagem feliz do Natsu, de pé, próximo à minha cama.

Ele é a pessoa que Deus mandou para atrapalhar meu sono na maioria das vezes e ser meu melhor amigo desde sempre. Mas...

— Que droga... — afundei a cara num dos meus travesseiros, dando as costas para ele e tentando dormir novamente. — Tchau.

— Ei! Não é assim que se trata o rei dos seres de cabelos róseos, que vai tomar seu planeta e escravizar os humanos!

— Hum.

— Levante-se, escravo! — ele fingia indignação, tanto que vacilou e riu. Prendi a risada e desobedeci-o. — Meus servos te sequestrarão e nunca mais se ouvirá falar de você!

— Vou poder dormir? — murmurei, preguiçoso, virando a cabeça o suficiente para enxergá-lo, com as mãos na cintura e uma pose imperativa.

— Eternamente! — sorriu largo e veio me empurrar para o lado, em seguida sentou perto de mim. — Você vai agora?

— Seus servos vêm me buscar?

— Não, retardado! — puxou uma mecha do meu cabelo, com força. — Quero dizer pra casa do seu pai! Você vai buscar suas coisas agora?

Neguei com a cabeça, me encolhendo na cama e apertando um outro travesseiro entre os braços.

O colar que perdi – por culpa da novata megera – foi-me dado pelo meu pai, eu não vou aparecer na casa dele sem aquilo!

— Que foi? — ele se inclinou em cima de mim, tentando olhar na minha cara, mas eu evitava, emburrado.

— Sai!

— Que revolta é essa?

Hesitei, mas dei de ombros, crispando os lábios e pensando no que dizer.

— Olha — sentei-me, virando de frente com Natsu. — Você consegue perceber alguma coisa diferente? — indiquei a região do meu pescoço, onde em geral o meu colar ficava todo tempo possível.

Natsu segurou o queixo e entrecerrou os olhos, passando a me analisar – desnecessariamente – por completo. — Magrelo, como sempre... Olhos caídos, como sempre... Cabelo bagunçado, como sempre... — arregalou os olhos – demais –, percebendo a ausência de uma coisa de acinzentada em torno do meu pescoço. — Cadê o...

— Eu perdi. — falei, demonstrando algum ânimo, para não deixar óbvio que eu queria vegetar até o aparecimento do meu colar. — Foi a novata.

Desculpe, eu precisei falar.

— Ela te roubou!? — ele berrou, com o cenho franzido e um olhar assustado.

— Não, não... — abaixei o olhar, pensando no que aconteceu, e, pela soneca, já não xingando a moça, como antes eu fazia. — A gente esbarrou num corredor... Eu acho que ele voou do meu pescoço.

Tudo bem, a culpa não é dela. Mas, ainda assim, o olhar que ela me deu quando tentei ajudá-la com uns livros seus que caíram – tão gélido que me fez sentir calafrios -, me faz culpá-la gratuitamente.

— Ah, tá... — ele suspirou, parecendo muito aliviado, e uma sobrancelha minha arqueou, eu fiquei confuso. — Ne... — levantou da minha cama e caminhou até uma cômoda ao lado da porta, pegando um livro, então retornou e jogou-o em mim. — Achei no corredor, quando fui te procurar... Mas não tem seu nome, então... Acho que não é seu, certo?

Dela?

— Devolve, então! — joguei-o de volta e virei a cara, enfiando as mãos entre as pernas e bufando.

— Erza não vai gostar de saber disso... — deu uma risada gaiata.

Apelão desgraçado...

Levantei da cama, emburrado, e tomei o livro de suas mãos. — Vou fazer a tua caveira com a Lucy! — apontei o dedo indicador entre seus olhos, deixando Natsu vesgo ao olhá-lo, depois pulei na cama.

— Ela não vai te querer só por me odiar!

Desde quando eu quero ela?!

Ele riu debochado, agarrando meu braço e me fazendo levantar, em seguida passou o seu ao redor do meu pescoço e caminhou para fora do meu quarto, me levando junto. — Percebi que a tia fez compras hoje... Bora comer pela madrugada toda?

— Hum... — assenti, enquanto folheava o livro de Matemática em minhas mãos, concentrado atrás de uma identificação, mais especificamente, o nome da ingrata – se ela me tivesse deixado ajudar com os livros, não teria esquecido esse.

— Tô empolgado! — Natsu me largou e saiu correndo escada abaixo, e eu fui devagarzinho, com os olhos colados no livro.

Só naquele instante, percebi que era noite, ou seja, dormi até muito, mesmo que eu tivesse a impressão de que só pisquei os olhos. Pelo fato de a sala estar de luz apagada, a escada não estava sendo iluminada, o que dificultou um pouco minha análise do livro alheio.

No entanto, uma das últimas páginas fez meus olhos arregalarem, eu me satisfiz com o achado. Numa letra grande e torta, estava escrito o nome Lockser.

Notas finais
Espero que tenha gostado, e desculpe por ter posto tão pouca coisa a princípio X]