Acho que não é só amizade
5 Capítulo 5
Nem mesmo um banho demorado me despertou, a noite foi realmente péssima: meus fones de ouvidos estavam chiando e, por medo deles explodirem nas minhas orelhas, decidi que seria melhor ouvir os berros da moça que o Lyon trouxe. Eu me senti ouvindo um filme de terror, em certos momentos me questionei se meu irmão por acaso não estaria batendo nela ou torturando com uma machadinha, porque era o que parecia. Depois de arrumar minhas coisas, eu roubei uma maçã do fruteiro e corri de casa antes de encontrar a tal moça, pois eu acabaria olhando-a demais atrás de algum hematoma e o Lyon se zangaria.
Por algum motivo, enquanto eu andava em direção à praça, eu não estava mais tão empolgado quanto ontem, quando a Juvia disse que tudo bem para me esperar ali. Isso foi bom, porque ela não estava esperando quando passei por lá, e eu não me frustrei muito. Acho que era previsível por causa daquela risadinha que ela deu antes de ir. Ela só não me queria no pé dela mesmo.
Entrei na sala de aula ainda com a maçã na mão, sem uma mordida sequer, e fui para minha mesa. Erza não estava lá, só o Natsu e a Lucy, terminando algum dever de casa. O Gildarts foi o primeiro professor a entrar, e ele anunciou que ficaria todo o primeiro horário porque tinha um trabalho para nós e provavelmente demoraríamos a terminá-lo. Mandou que fizéssemos quartetos, e a classe começou a parecer um formigueiro no mesmo instante, todo mundo arrastando cadeiras e mesas para formar as equipes. E foi aí que começou a gritaria.
A Levy, que sentava ao meu lado, na frente, arrastava a sua mesa para perto do Gajeel, que sentava no fim da sala, enquanto o xingava de vários sinônimos de grosseiro por ele não a estar ajudando com aquilo, que estava pesado.
— Gray... — Lucy fez seu melhor olhar pidão para mim, e eu rapidamente entendi o que ela queria. Aquilo foi uma maneira fofa de me expulsar para colocar a Levy ali.
— A gente pode pedir ao Gildarts pra colocar ela aqui sem precisar tirar o Gray — a Erza disse, olhando para o professor como se pensasse no que dizer a ele para conseguir o que queria.
— Tem nada não! — eu sorri, um pensamento muito interessante se formando na minha cabeça. Se eu ia ficar com o Gajeel, mas o trabalho era a quatro, teríamos que arrumar mais gente – dã. E eu bem via uma ótima candidata sentada solitária ao lado de uma janela. — Fiquem com Deus!
— Eh? — Natsu franziu o cenho, confuso.
Apontei a lousa, onde o Gildarts escrevia a matéria da aula, coisa que o olhos puxados provavelmente não sabia. Física. Natsu arregalou os olhos, como se entrando em pânico, e eu peguei minhas coisas e saí dali rapidinho, rindo dele.
Avisei para a Levy que ela deveria voltar para a frente e terminei de arrumar a mesa dela de frente com o Gajeel, depois joguei minhas coisas lá.
— Ei! — a Juvia parou ao meu lado, com a mochila nos braços, me encarando com revolta. — Esse lugar é da Juvia, sai!
— Não quero! — puxei a cadeira e me sentei, olhando-a ousadamente.
— Por que você está aqui? — quase berrou, passando por trás de mim e indo para a mesa ao lado do Gajeel, que de repente estava sendo ocupada pelo encapuzado – sujeito do qual eu não lembrava. — Gajeel!
— Quem é você? — ele perguntou ao novato, encarando-o com certa raiva, talvez pela intromissão.
— Eu não tenho com quem ficar, e ele — me indicou. — é responsável por mim.
— Então vá se sentar do lado dele! — o grandão berrou, fazendo o encapuzado se afastar um pouco.
— Não, tô com preguiça.
Por acaso aquilo estava sendo muito legal e favorável. — Ne, você vai ter que se sentar do meu lado mesmo... — tentei fingir algum desapontamento, puxando a cadeira da mesa ao meu lado para a Juvia.
Ela bufou, jogando sua mochila na mesa e se sentando, tentando demonstrar ao máximo o quanto era contra sua vontade.
— Você não devia ficar assim, sabia? — me inclinei para ela, sorrindo maldosamente. — Esqueceu que eu sou seu sensei de física? Quer dizer que eu sou bom nessa matéria e nós vamos tirar dez!
— Ah, é, Juvia! — Gajeel assentiu, lembrando disso. — Deixa ele aí mesmo.
Ela bufou outra vez, e meu sorriso se alargou. — Muhahaha! — murmurei, em seguida prestando atenção no professor, que começou a explicar como seria o trabalho.
Era uma coisa tão imbecil, de cálculos, que eu bati a cabeça na mesa, murchando. Não entendi por que o Gildarts disse que precisavam ser quatro pessoas para tentarem terminar antes do intervalo. Eu terminei antes de completar meia hora, escrevendo preguiçosamente, debruçado na mesa, uns números horríveis, mas legíveis.
— Pega, copia no seu caderno — arrastei as respostas para Juvia, continuando com o meu queixo na mesa; eu estava desmotivado.
— Por que pra ela primeiro? — o encapuzado perguntou, com a voz desacreditada – não dava pra ver nada da cara dele por causa do capuz.
— Você já ouviu aquele ditado, “primeiro as meninas”? — perguntei com a voz arrastada, e ele não respondeu. — Mesmo que não pareça, ela deve ser uma menina, né, Juvia? — olhei-a de canto, a tempo de ver seu olhar se tornar irritado.
— Não diga o nome da Juvia! — fez bico, empurrando meu caderno para o encapuzado, e ele comemorou num sussurro.
— Pega aqui, gigante — ele colocou o caderno entre a sua mesa e a do Gajeel, e o grandão logo sorriu contente, começando a copiar.
— Vacilou — eu disse a ela. — Agora vai ser a última, Juvia.
— Para de chamar a Juvia de Juvia!
— Não. Juvia. — dei um sorrisinho sem mostrar os dentes, olhando para ela divertidamente.
As suas bochechas ganharam um tom rosado, aí ela virou a cara, expirando forte.
Passei um tempinho encarando-a, ilusoriamente pensando que ela me olharia e xingaria, ou coisa assim. Como não aconteceu nada, eu olhei para frente, encontrando um Gajeel concentrado entre o meu caderno e o seu, e um encapuzado aparentemente me fitando, a mão segurando a caneta, mas sem usá-la. Ele, após uns segundos, se inclinou para o Gajeel e cochichou algo no ouvido dele, que parou de escrever e mirou os olhos em mim enquanto ouvia. Pouco a pouco sua expressão foi ficando de pura estranheza para mim.
— Não, o Gray não é disso! — ele negou com a cabeça, olhando para o encapuzado como se ele fosse louco.
— Como assim não é disso? — o novato perguntou, com a cabeça virada na direção dele.
— Ele não faz essas coisas.
A cabeça do novato virou para frente, me mirando, talvez. — Você é gay?
Uma sobrancelha minha arqueou automaticamente após a pergunta, e eu fiquei meio sem reação, exatamente porque eu não sabia qual devia ser a tal reação. O Gajeel me encarou, curioso, e a Juvia também – e eu tive a impressão de que toda a classe imitou a ação.
— Por que a pergunta?
— Porque...
— Ok, nada disso na minha aula — Gildarts, ao lado da mesa do Gajeel, olhava duramente nós quatro. —, tá desconcentrando todo mundo!
E isso provou que minha sensação de estar sendo olhado por todos era real.
— Depois que vocês terminarem de copiar do Fullbuster, podem ficar fazendo qualquer coisa, mexer no celular, conversar... Tá bom? Só não desconcentrem os mais humildes de inteligência. — ele saiu.
— Ne, estão perto de terminarem? — eu me esforcei e ergui o tronco, apoiando os cotovelos na mesa e a cabeça nas mãos para não acabar desmoronando. — Eu quero dormir, e ela quer ir olhar pela janela, sabiam?
— Mas você não pode ir dormir depois daqui! — o encapuzado disse, copiando. — No intervalo, você vai estudar comigo, esqueceu? Você é o professor de física e matemática!
Eu desabei sobre a mesa, gemendo pela dor de não poder dormir durante os minutos de intervalo e também porque bati a testa com certa força. A Juvia riu baixinho, e quando a espiei, ela parou, fazendo careta para mim.
— Não faz careta, eu estudo com você segunda-feira, pode sorrir!
Ela não sorriu, só corou e fez bico, desviando o olhar.
Quando deu o intervalo e na sala só sobramos os dois novatos e eu, o jeito foi ir me sentar junto com o encapuzado.
— Qual o seu nome? — perguntei um tanto curioso, ao me dar conta de que não sabia isso.
— Não te interessa. — disse simplista, abrindo o livro de física e pegando o caderno.
Respirei fundo, não deixando que qualquer sentimento ruim surgisse. — Tá bom.
A experiência de tentar ensinar alguma coisa para aquele ser foi, sem dúvida, complicada, um sinal de que eu podia ser forte em situações assustadoras. Ele, na verdade, parecia se fingir de imbecil para me irritar, e conseguiu muitas vezes, eu quase bati nele, mas por sorte me contive.
— Erza! — esqueci a chatice do novato e corri para ela no momento em que a vi passar pela porta, ainda no intervalo, segurando potinhos. Eu a abracei por longos segundos, recuperando meu bom-humor.
— Pra você! — ela me deu um pudim, sorrindo.
— Bigado. — falei com os olhos brilhando em direção ao doce.
— E tem outra coisa pra você! — a observei enquanto ela foi para sua mesa e mexeu na sua bolsa, tirando de lá uma caixa cinza meio grandinha, com um laço branco em cima. — Pega! — sorriu largamente, estendendo a caixa para mim.
— O que é? — eu a recebi, balançando para ver se descobria o que seria, o que não foi possível.
— Pra você usar amanhã! — ela acariciou os meus cabelos, em seguida saltitou para fora da sala de aula, sem mais explicações.
Mas eu entendi de imediato o que ela queria dizer. E também entendi o motivo dela ter me dado o pudim. Erza costumava me bajular quando queria que eu me fantasiasse de alguma coisa para ela.
Preferi não abrir a tal caixa ali, e o Natsu me apoiou nisso.
— Quero ser o primeiro a ver! — ele riu, empolgado, enquanto nos aproximávamos da minha casa.
Revirei os olhos, sentindo minhas bochechas esquentarem, então abri a porta. A respiração parou de fluir, e o Natsu e eu estagnamos do lado de fora, olhando o que acontecia na sala. Basicamente, havia uma menina, pelada, em cima do Lyon, no chão, entre a mesinha de centro e o sofá. Eles devem ter percebido a claridade que invadiu a sala, e pararam o que faziam um pouco depois, o Lyon imediatamente me olhando com ódio.
— Bate na porta, idiota! — ele berrou, pegando um jarro de enfeite de cima da mesinha e ameaçando jogá-lo em mim, que recuei para detrás do Natsu, que recuou uns três passos para trás. O Lyon, porém, não o fez, colocando o jarro de volta no lugar, talvez por saber que a dona Ur odiaria ter aquilo quebrado. — Sai daqui!
Natsu e eu corremos para o meu quarto; o olhos puxados, a partir do topo da escada, rindo descontroladamente.
— Bem feito pra ele, Gray — ele começou a se acalmar, fechando a porta atrás de si. — Vai... — ofegando, Natsu apontou para a caixa. — Quero ver!
— Espera lá fora! — falei, envergonhado, deixando a mochila de lado e segurando a caixa.
Natsu me olhou desconfiado. — E por que eu teria que esperar lá fora?
— Porque sim! — disse um pouco alto, as bochechas queimando.
— Tá... — ele continuou olhando desconfiadamente, e saiu.
Fiquei parado por uns segundos, ouvindo bem onde Natsu estaria, só depois comecei a desabotoar a camisa, ainda prestando atenção nos barulhos vindos de fora – alguns vindos da sala. Eu abri a caixa após jogar a camisa na cama, e encontrei uma roupa amarela. Quando eu ia tirá-la da caixa, a porta abriu repentinamente e o Natsu pulou para dentro do quarto, berrando.
— Então, o que você escondia? — ele me olhou entrecerrado, de cima a baixo. Seus olhos foram arregalando devagarzinho, e ele assentiu como um bobo, aos poucos entendendo. — Ah...
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