Acaso ou destino

8 Capítulo 7 Quarenta e sete segundos


Sarah despertou com a sensação de que havia dormido durante vários dias.

Seu corpo estava pesado, sua boca permanecia seca e uma dor profunda espalhava-se pelos músculos, semelhante ao cansaço provocado por um esforço físico extremo. Durante alguns segundos, ela não reconheceu o quarto.

Então viu as caixas junto à parede, as cortinas ainda não instaladas e a floresta além das janelas.

Estava em casa.

As lembranças retornaram de uma única vez.

Carlisle.

O sangue em sua mão.

A pele fria sob seus dedos.

E o som impossível que surgira dentro do peito do vampiro.

Tum.

Sarah fechou os olhos, mas a recordação tornou-se ainda mais nítida.

Tum.

Durante quarenta e sete segundos, o coração morto de Carlisle Cullen havia voltado a bater.

Ela tentou sentar-se, mas uma tontura intensa a obrigou a permanecer deitada.

— Devagar.

A voz de Jacob veio do outro lado do quarto.

Ele estava sentado em uma poltrona próxima à janela, inclinado para a frente, com os cotovelos apoiados nos joelhos. Ainda usava a roupa do dia anterior, e as sombras sob os olhos denunciavam que não dormira.

Sarah olhou para o relógio sobre a mesa de cabeceira.

— Que horas são?

— Pouco depois das sete.

— Da manhã?

— Sim.

— Dormi a noite inteira?

— Quase quatorze horas.

Ela tornou a tentar se levantar.

Jacob chegou à cama antes que seus pés alcançassem o chão.

— Você precisa permanecer deitada.

— Preciso beber água.

— Eu busco.

— Jacob, consigo andar.

— Ontem também disse que estava bem, segundos antes de desmaiar.

— Foi apenas uma queda de pressão.

— Sua pressão chegou a oito por cinco.

Sarah o encarou.

— Quem verificou?

— Seu avô. Carlisle explicou como usar o aparelho e como interpretar os valores.

— Carlisle esteve aqui?

— Não.

A resposta foi imediata.

— Então como ele...

Jacob mostrou o telefone.

— Ficou orientando tudo à distância. Seu avô tinha um aparelho de pressão e insistiu em trazê-lo.

Sarah observou a mesa ao lado da cama. Além do equipamento, havia um termômetro, garrafas de água, suco, frutas e uma quantidade exagerada de alimentos.

— Todos passaram a noite aqui?

— Seu avô dormiu no quarto de hóspedes. Billy voltou para casa algumas horas atrás. Sue preparou comida suficiente para alimentar a matilha inteira.

— E você?

— Fiquei acordado.

— A noite toda?

— Precisava observar sua respiração.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Minha respiração?

— Carlisle disse que, como não conhecemos os efeitos do seu poder, deveríamos prestar atenção a qualquer alteração.

— E você não confiou que meu avô pudesse fazer isso?

— Ele precisava dormir.

— Seres humanos costumam dormir, Jacob.

— Eu não precisava.

Ela o examinou com atenção.

A tensão nos ombros, a rigidez do maxilar e a maneira como seus olhos percorriam constantemente o rosto dela demonstravam que não se tratava apenas de vigilância.

Jacob estava assustado.

Sarah estendeu a mão e tocou os dedos dele.

— Eu estou bem.

Ele olhou para as mãos unidas.

— Você não sabe disso.

— Estou consciente, orientada e consigo discutir com você. São bons sinais.

— Seu coração ficou lento.

— Foi uma resposta vagal provocada pelo esforço e pela queda da pressão.

— Não entendi metade do que disse.

— Significa que meu organismo reagiu ao desgaste. Agora solte minha mão e traga água.

Jacob não a soltou.

Sarah também não insistiu.

O calor que vinha da pele dele era reconfortante. Depois do contato gelado com Carlisle, tocar Jacob parecia uma confirmação de que ela continuava cercada por vida.

— Você ficou com medo — afirmou.

— Sim.

A honestidade dele a surpreendeu.

— Pensei que não tivesse medo de nada.

— Antes de você, eu também pensava.

O coração de Sarah acelerou.

Jacob percebeu. Com sua audição, seria impossível não notar. Ainda assim, não sorriu nem tentou usar o momento para se aproximar. Apenas permaneceu ao lado dela, segurando sua mão.

— Não faça isso novamente — pediu.

— Tocar Carlisle?

— Usar esse poder sem saber o que ele tira de você.

— Não fiz de propósito.

— Então precisamos descobrir como impedir que aconteça outra vez.

— Ou aprender a controlar.

Jacob finalmente soltou a mão dela.

— Eu sabia que diria isso.

— Sou médica. Não posso ignorar um fenômeno capaz de fazer um coração morto voltar a bater.

— Carlisle não é seu paciente.

— Naquele momento, era.

— Sarah...

— Quarenta e sete segundos, Jacob.

Ela olhou para a própria mão. Do corte restava apenas uma linha fina, embora o ferimento devesse levar mais tempo para cicatrizar.

— Durante quarenta e sete segundos, Carlisle teve pulsação, circulação sanguínea e atividade cardíaca. Não foi uma contração isolada. Por alguns instantes, o corpo dele começou a funcionar novamente.

— E o seu estava parando.

— Não estava.

— Você perdeu a consciência.

— Por menos de um minuto.

— Para mim, pareceu muito mais.

Sarah voltou a olhá-lo.

Havia tanta angústia na voz dele que qualquer resposta defensiva desapareceu.

— Desculpe.

— Não precisa pedir desculpas.

— Você me pediu que não fizesse isso.

— E faria diferença?

Ela pensou antes de responder.

— Provavelmente não.

Jacob soltou uma risada sem humor.

— Pelo menos é honesta.

— Prometo que não tentarei repetir até compreendermos melhor o que aconteceu.

— Essa promessa possui muitas condições.

— É a única que posso fazer.

Ateara entrou no quarto carregando uma bandeja antes que Jacob respondesse.

— Finalmente acordou.

O velho colocou o café da manhã sobre a mesa e beijou a testa da neta.

— Como está se sentindo?

— Cansada, mas bem.

— Jacob disse que você deveria permanecer deitada.

Sarah olhou para ele.

— Desde quando meu avô aceita ordens suas?

— Desde que passou a concordar comigo.

Ateara sorriu.

— É muito agradável quando duas pessoas teimosas encontram uma causa em comum.

— A causa sou eu?

— Exatamente.

Sarah tentou esconder o sorriso.

— Preciso ir ao hospital. Minha apresentação deveria ter acontecido ontem.

— Carlisle conversou com a direção — Ateara informou. — Disse que você teve uma indisposição depois da viagem e que começará quando estiver recuperada.

— Ele não poderia tomar essa decisão por mim.

— Eu tomei — Jacob declarou.

Sarah o encarou.

— Você telefonou para o meu trabalho?

— Carlisle telefonou. Eu apenas concordei.

— Não precisava concordar.

— Você estava desacordada.

— Durante menos de um minuto.

— Depois dormiu quase quatorze horas.

Ateara ergueu as mãos.

— Vou deixá-los discutir. Quando terminarem, Sarah tomará o café e continuará na cama.

— Vovô...

— Não atravessei vinte e quatro anos de silêncio para encontrar minha neta e permitir que ela volte ao trabalho depois de desmaiar por usar um poder desconhecido.

Ele saiu antes que Sarah pudesse protestar.

Jacob parecia satisfeito.

— Não sorria.

— Não estou sorrindo.

— Seus olhos estão.

O sorriso finalmente apareceu nos lábios dele.

Sarah sentiu o próprio humor melhorar, apesar do esforço para permanecer irritada.

Naquele mesmo horário, a família Cullen estava reunida na ampla sala da casa cercada pela floresta.

Carlisle permanecia de pé diante das janelas. Desde que retornara do encontro com Sarah, levara a mão ao peito dezenas de vezes, como se esperasse sentir novamente o movimento sob as costelas.

Esme o observava em silêncio.

Durante séculos, aceitara que o corpo de Carlisle permaneceria para sempre imóvel. A ideia de que o coração dele batera, ainda que por poucos segundos, despertava nela sentimentos difíceis de nomear.

Esperança.

Medo.

E uma tristeza profunda por não ter presenciado o momento.

— Como foi? — perguntou.

Carlisle voltou-se para ela.

— Doloroso no início.

— O coração?

— Não. A lembrança.

Esme aproximou-se e tocou o lugar onde não havia pulsação.

— Você sentiu o sangue circular?

— Senti um calor espalhar-se pelo peito. Depois pelos braços e pelo rosto. — Carlisle fechou os olhos. — Eu havia esquecido como era.

— E a lágrima?

Um sorriso discreto surgiu no rosto dele.

— Quente.

Esme encostou a testa na de Carlisle.

— Quarenta e sete segundos — Edward disse do outro lado da sala.

Todos olharam para ele.

— Carlisle repete esse número em pensamentos desde que voltou.

— Porque cada segundo permanece perfeitamente registrado — explicou Carlisle.

Alice estava imóvel perto da escada. Seus olhos desfocados indicavam que procurava alguma coisa no futuro.

Jasper tocou seu braço.

— O que consegue ver?

— Quase nada.

— Por causa dos lobos? — Bella perguntou.

Mesmo transformada, Bella ainda conservava muitos gestos de sua vida humana. Sua aparência, porém, já não deixava dúvidas sobre o que se tornara. A pele estava pálida e imóvel, os movimentos eram silenciosos e os olhos dourados observavam Alice com atenção.

— Em parte — respondeu Alice. — Sempre que Sarah está perto de Jacob ou de outro metamorfo, o futuro desaparece. Mas, mesmo quando tento enxergá-la sozinha, encontro uma espécie de luz.

— Uma luz? — Rosalie repetiu.

— Prateada. Ela cobre tudo.

Edward tentou procurar alguma imagem na mente da irmã, mas encontrou apenas fragmentos confusos.

— Talvez seja o poder de Sarah — sugeriu Carlisle.

Alice tornou a se concentrar.

Dessa vez, seu corpo ficou rígido.

Jasper a segurou.

— Alice?

Os olhos dela se abriram.

— Eles sabem.

— Os Volturi? — Carlisle perguntou.

— Vi Aro. Ele estava sorrindo.

— Isso não reduz muito as possibilidades — Emmett comentou.

Rosalie lançou-lhe um olhar de censura.

— O que mais viu?

Alice apertou as mãos.

— Uma mulher estava ao lado dele. Não a conheço. Tem cabelos brancos e olhos vermelhos.

— Selene — Carlisle disse.

— Quem é? — Bella perguntou.

— Uma integrante pouco conhecida da guarda. Aro a mantém afastada dos demais porque o dom dela é valioso demais.

— Ela vê o futuro? — Edward quis saber.

— Não exatamente. Selene consegue localizar poderes adormecidos. Quando toca um objeto pertencente a alguém, enxerga o potencial sobrenatural daquela pessoa, mesmo que a habilidade ainda não tenha despertado.

Alice levantou-se.

— Então foi ela. A vidente mencionada pelo invasor que os lobos encontraram.

— Deve ter localizado alguma coisa pertencente à linhagem de Sarah — Carlisle concluiu. — Talvez um objeto guardado desde a primeira mulher Mitena.

Edward se recordou das informações fornecidas por Carlisle.

— Há outro detalhe que precisamos compreender. Quando você esteve com Sarah, percebeu alguma alteração mental?

Carlisle negou.

— Apenas o retorno temporário das funções do corpo.

— Se há algum bloqueio nela, isso explicaria por que Selene encontra o poder, mas talvez não consiga enxergar todos os detalhes — Alice observou.

Rosalie cruzou os braços.

— E também torna Sarah ainda mais valiosa para Aro. Ela pode devolver temporariamente características humanas aos vampiros e neutralizar habilidades mentais.

— Ele não desistirá — Esme concluiu.

Carlisle olhou para a floresta.

— Precisamos voltar a conversar com Billy.

— Os lobos não permitirão que nossa família entre em La Push — Edward lembrou.

— E não pediremos isso — respondeu Carlisle. — O tratado será respeitado.

— Então onde será a reunião? — Bella perguntou.

— Sarah mora fora da reserva. Poderemos nos encontrar na casa dela, desde que ela e os anciãos concordem.

Carlisle não pretendia transformar o encontro em uma invasão. A decisão caberia a Sarah, Billy e Ateara. Nenhum Cullen atravessaria a fronteira de La Push, e Edward não teria acesso às histórias reservadas aos anciãos.

Alice ficou imóvel novamente.

Dessa vez, a visão durou poucos segundos.

— Sarah concordará.

Sarah passou o restante da manhã tentando descansar.

A tentativa fracassou.

Ateara retornou à própria casa para buscar algumas roupas, mas prometeu voltar antes do almoço. Rachel apareceu com Sue, trazendo ainda mais comida. Billy telefonou duas vezes. Embry e Quil continuavam patrulhando a floresta.

Jacob não se afastava por mais de alguns minutos.

Sarah o encontrou na varanda pouco depois do meio-dia. Ele falava ao telefone com Sam e encerrou a ligação assim que ela abriu a porta.

— O que aconteceu?

— Nada.

— Jacob.

Ele guardou o aparelho no bolso.

— Encontramos rastros durante a madrugada.

— Perto daqui?

— Não muito.

— Isso não é uma resposta.

— A alguns quilômetros.

Sarah cruzou os braços.

— Quantos?

— Pelo menos quatro odores diferentes.

— Vampiros?

— Sim.

Ela olhou para a floresta.

Durante toda a manhã, tentara convencer-se de que estava segura dentro da casa. Saber que quatro criaturas circulavam nas proximidades destruiu essa sensação.

Jacob percebeu a mudança em seu rosto.

— Eles não chegarão perto.

— Você não pode ter certeza.

— A matilha cercou a região.

— Vocês não podem patrulhar cada centímetro da floresta o tempo todo.

— Podemos tentar.

Sarah se apoiou no corrimão.

— É verdade que meu sangue possui um cheiro diferente?

A pergunta surpreendeu Jacob.

— Quem disse isso?

— O vampiro que vocês enfrentaram sabia que eu havia chegado. Como?

Jacob se colocou ao lado dela.

— Ele disse que seu sangue despertou quando você retornou a estas terras. Descreveu o cheiro como uma chama acesa no escuro.

Sarah sentiu o estômago se contrair.

— Então eles podem me encontrar onde quer que eu esteja.

— O cheiro fica mais forte quando você sangra. Sem um ferimento, precisam estar relativamente próximos.

— Isso deveria me tranquilizar?

— Não muito.

Ela olhou para a mão quase curada.

— Carlisle não tentou me atacar.

— Carlisle possui séculos de autocontrole.

— Talvez possamos trabalhar com ele.

Jacob fechou a expressão.

— Você acabou de prometer que não repetiria o experimento.

— Trabalhar não significa cortar minha mão novamente.

— Conheço médicos. Em algum momento, isso significa agulhas.

— Estou percebendo certo preconceito.

— E eu estou percebendo entusiasmo demais com algo que fez você desmaiar.

Sarah se virou para ele.

— Tenho o direito de compreender o que existe dentro de mim.

— Tem.

— E Carlisle pode ajudar.

— Pode.

Ela estreitou os olhos.

— Isso foi mais fácil do que eu esperava.

— Não disse que gosto da ideia.

— Apenas que não tentará me impedir.

— Tentarei impedir as partes perigosas.

— E quem decidirá quais são?

— Podemos discutir.

— Isso é progresso.

Jacob sorriu levemente.

O telefone de Sarah tocou dentro da casa.

O nome de Carlisle apareceu no visor.

Ela atendeu sob o olhar desconfiado de Jacob.

— Doutor Cullen.

— Como está se sentindo?

— Cansada, mas bem.

— Teve novas tonturas?

— Apenas quando tento me levantar depressa.

— É importante manter-se hidratada. Seu organismo parece ter consumido muita energia durante a manifestação.

— Cheguei à mesma conclusão.

Houve uma pequena pausa.

— Sarah, precisamos conversar.

Jacob aproximou-se o suficiente para ouvir os dois lados da ligação.

— Sobre o quê?

— Os Volturi sabem que seu poder despertou.

— Como?

— Existe uma vampira chamada Selene. O dom dela permite identificar habilidades sobrenaturais adormecidas. Alice teve uma visão de Selene ao lado de Aro.

Sarah olhou para Jacob.

— Quanto tempo temos?

— Não sabemos. Aro raramente age com pressa. Primeiro tentará fazer parecer que você possui uma escolha.

— Como?

— Provavelmente enviará um convite.

— E, se eu recusar?

— O convite se transformará em ordem.

Jacob retirou o telefone da mão dela.

— Sarah não irá a Volterra.

— Estamos de acordo — Carlisle respondeu.

— Precisamos reunir o conselho.

— Minha família também precisa participar. Existem informações sobre os Volturi que apenas nós conhecemos.

— Vocês não entrarão em La Push.

— Não pediremos isso. Podemos nos encontrar na casa de Sarah, que fica fora dos limites da reserva, desde que ela permita.

Jacob olhou para ela.

Sarah estendeu a mão, exigindo o telefone de volta.

— Quem viria?

— Eu, Esme, Alice, Jasper, Edward, Bella, Rosalie e Emmett.

— Oito vampiros dentro da minha casa?

— Sim — Carlisle respondeu. — Entenderei se preferir que apenas alguns de nós participem.

— Preciso falar com meu avô e com Billy.

— Naturalmente.

— E quero regras.

— Diga quais são.

— Ninguém toca em mim sem permissão. Nenhum experimento será realizado. Se qualquer um de vocês sentir que pode perder o controle, irá embora imediatamente. E nenhuma história pertencente exclusivamente aos anciãos será discutida diante de quem não tenha autorização para ouvi-la.

— Todos concordarão.

Sarah olhou para Jacob.

Ele claramente odiava a ideia.

— A reunião será ao anoitecer — decidiu.

— Estaremos aí.

Ela encerrou a ligação.

— Não — Jacob disse.

— Você ouviu Carlisle concordar com todas as regras.

— Serão oito vampiros dentro da sua casa.

— Cercados pela matilha.

— Isso não me deixa menos preocupado.

— Preciso conhecer aqueles que podem ajudar.

— Edward consegue ler pensamentos.

Sarah ficou imóvel.

— Ler pensamentos?

— Sim.

— Carlisle esqueceu de mencionar essa parte.

— Alguns Cullen possuem dons. Alice vê o futuro, Jasper influencia emoções, Bella cria um escudo e Edward ouve pensamentos.

— E Carlisle?

— Carlisle é apenas irritantemente calmo.

Sarah caminhou até a porta.

— Então quero conhecê-los ainda mais.

Jacob a acompanhou.

— Essa não foi a reação que imaginei.

— Se Edward pode ler pensamentos, talvez consiga identificar o que os vampiros que nos procuram estão planejando.

— Ele precisaria estar perto deles.

— Também quero descobrir se consegue ler os meus.

— Descobriremos esta noite.

Pouco antes do anoitecer, Billy e Ateara chegaram.

Sam posicionou os membros da matilha ao redor da propriedade. Apenas ele, Jacob e Paul permaneceriam dentro da casa. Os demais patrulhariam a floresta.

Sarah estava sentada no sofá quando três carros surgiram na estrada.

Jacob se colocou ao lado dela.

— Ainda pode desistir.

— Não vou desistir.

— Fique perto de mim.

— Isso é uma ordem?

— Um pedido.

Ela ergueu os olhos para ele.

— Então ficarei.

A família Cullen entrou lentamente.

Carlisle foi o primeiro, acompanhado por Esme. Depois vieram Rosalie e Emmett, Alice e Jasper, Edward e Bella.

Todos possuíam a mesma palidez, a mesma temperatura impossível e os mesmos movimentos silenciosos, embora cada um despertasse uma impressão diferente. A beleza sobrenatural tornava o conjunto fascinante e ameaçador ao mesmo tempo.

Bella já não se distinguia deles pelo calor, pela respiração ou pelos batimentos cardíacos. A transformação estava completa. Seus olhos dourados, no entanto, ainda conservavam uma expressão mais próxima da humanidade do que os de alguns membros da família.

Sarah sentiu o instinto ordenar que recuasse.

Jacob tocou discretamente sua mão.

O medo diminuiu.

Alice parou assim que os viu juntos.

— Interessante — murmurou.

— O quê? — Sarah perguntou.

Alice sorriu.

— Quando você toca Jacob, os dois desaparecem do futuro.

Edward, ao lado de Bella, mantinha os olhos fixos em Sarah.

— E da minha percepção — acrescentou.

— Você está tentando ler meus pensamentos?

— Desde que entrei.

Jacob rosnou.

Sarah apertou sua mão, fazendo com que se calasse.

— E consegue?

Edward franziu a testa.

— Não.

Bella deu um passo à frente.

— Ele também não consegue ler os meus pensamentos.

Sarah olhou para ela.

— Por quê?

— Meu dom é uma espécie de escudo mental.

— E o meu?

Edward continuou observando-a.

— Com você é diferente. Não encontro uma barreira. É como se seus pensamentos estivessem fora do alcance de qualquer habilidade.

Sarah soltou a mão de Jacob.

Edward inclinou a cabeça.

— Agora consigo ouvi-lo novamente.

Jacob tornou a segurar a mão dela.

— E agora?

— Silêncio.

Todos olharam para os dedos entrelaçados.

— Então meu poder protege as pessoas que toco? — Sarah perguntou.

— Talvez as pessoas com quem você estabeleça uma ligação — Carlisle ponderou. — O toque pode apenas ativar ou ampliar essa proteção.

Ateara observava a cena com preocupação.

— Isso fazia parte da lenda?

— Não da versão que conhecemos — Billy respondeu.

Alice aproximou-se alguns passos, respeitando a distância estabelecida.

— Posso tentar olhar seu futuro?

— Você ainda não estava tentando?

Alice sorriu.

— Gosto dela.

Jacob fechou a expressão.

— Mantenha distância.

— Não preciso tocá-la.

Alice se concentrou.

Seus olhos perderam o foco.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então ela inspirou por reflexo, embora seu corpo já não necessitasse de ar.

— Vejo uma estrada.

— Que estrada? — Carlisle perguntou.

— Não sei. Está coberta por névoa. Sarah está no centro, mas existem dois caminhos.

— O que há neles?

— Em um, o coração de Carlisle volta a bater.

Esme segurou o braço do marido.

— E no outro? — perguntou.

A expressão de Alice tornou-se assustada.

— Todos os corações param.

O silêncio pesou sobre a sala.

Sarah sentiu os dedos de Jacob apertarem os seus.

Antes que alguém pudesse fazer outra pergunta, três batidas soaram na porta.

Sam entrou imediatamente pela cozinha.

— Ninguém se aproximou pela estrada.

Jacob colocou-se diante de Sarah.

Emmett e Jasper assumiram posições defensivas.

As batidas se repetiram.

Lentas.

Perfeitamente espaçadas.

Carlisle ficou imóvel.

— É assim que eles anunciam uma visita formal.

— Os Volturi? — Sarah perguntou.

Ninguém respondeu.

Jacob caminhou até a porta, mas Carlisle segurou seu braço.

— Se fosse um ataque, não teriam batido.

— Isso não significa que seja seguro.

— Não — Carlisle concordou. — Significa apenas que desejam conversar primeiro.

Sarah se levantou.

— Abram.

Jacob olhou para ela.

— Fique atrás de mim.

Ele abriu a porta.

Não havia ninguém na varanda.

Apenas uma pequena caixa de madeira escura repousava diante da entrada.

Sobre a tampa, entalhada em prata, havia uma única letra:

V.

Carlisle pegou a caixa e a colocou sobre a mesa.

Dentro havia uma rosa branca e um envelope vermelho.

O nome de Sarah estava escrito na frente.

— Não toque — Jacob advertiu.

Carlisle abriu o envelope.

A mensagem era curta.

Ele leu em voz alta:

— “À última descendente da Lua Vindoura, Aro Volturi apresenta seus respeitos e convida Sarah Mitena Ateara a conhecer a família que aguardou pacientemente por seu nascimento.”

Jacob soltou um rosnado.

Carlisle continuou:

— “Volterra estará pronta para recebê-la na próxima lua cheia. Esperamos que aceite nosso convite por vontade própria, pois seria lamentável transformar uma reunião tão esperada em uma busca desagradável.”

Sarah olhou para a data escrita no final da carta.

Faltavam doze dias para a lua cheia.

No fundo da caixa havia uma fotografia.

Ela mostrava Sophia saindo do hospital em Grand Forks poucos meses antes de morrer.

No verso, outra frase fora escrita:

“Durante vinte e quatro anos, sua mãe escondeu você de nós. Não cometa o mesmo erro.”

As pernas de Sarah enfraqueceram.

Jacob tomou a fotografia de suas mãos antes que ela caísse.

A raiva transformou completamente o rosto dele.

— Eles estavam observando sua mãe.

As lágrimas surgiram nos olhos de Sarah.

Durante toda a vida, Sophia acreditara que mantivera a filha escondida.

No entanto, os Volturi sempre estiveram próximos.

Apenas aguardavam.

Carlisle voltou a colocar a mensagem sobre a mesa.

— Isto não é um convite.

Sarah enxugou o rosto e voltou a encarar a fotografia.

O medo permanecia, mas já não era a única coisa que sentia. Havia raiva, indignação e uma necessidade crescente de compreender tudo o que sua mãe enfrentara sozinha.

— Eu sei — respondeu.

Do lado de fora, os lobos começaram a uivar.

Não era apenas um chamado de alerta.

Era uma promessa de proteção.

E, se os Volturi insistissem em transformar a ameaça em ataque, seria também uma promessa de guerra.