Acaso ou destino
15 Capítulo 14 - Laços que não se quebram
Thomas passou a primeira noite em La Push sob a proteção da matilha.
A decisão não fora simples.
Ele era humano, conhecia a existência dos vampiros e testemunhara a transformação dos lobos. Pelas leis dos Volturi, apenas isso seria suficiente para condená-lo à morte ou obrigar os Cullen a transformá-lo.
Sarah recusou as duas possibilidades.
Thomas também.
— Tenho cinquenta e oito anos, uma esposa e dois filhos adultos — declarou durante a reunião realizada na casa de Billy. — Não pretendo me tornar imortal e muito menos permitir que me matem para preservar um segredo que não pedi para conhecer.
Carlisle permaneceu do lado de fora da reserva, participando da conversa por telefone. Edward e Bella estavam com ele na divisa, enquanto o restante dos Cullen e dos Denali organizava a chegada das testemunhas.
— Os Volturi afirmarão que sua sobrevivência representa uma violação direta das leis — Carlisle explicou através do aparelho.
Thomas estava sentado à mesa da cozinha. Apesar de tudo o que acontecera, seu estado de saúde permanecia perfeito.
— Foram os homens de Aro que revelaram esse mundo para mim — argumentou. — Se não tivessem me sequestrado, continuaria acreditando que meu retorno foi apenas um milagre médico.
— Isso precisa fazer parte de seu depoimento — Sarah disse.
Billy colocou um gravador sobre a mesa.
— Registraremos tudo.
Jacob permanecia encostado na parede ao lado de Sarah. Não gostava da presença de Thomas na reserva, mas reconhecia a importância do testemunho.
— Comece pelo hospital — orientou.
Thomas olhou para Sarah.
— Não me lembro de tudo.
— Diga apenas o que recorda.
Billy iniciou a gravação.
Thomas informou o nome completo, a data de nascimento e a profissão. Depois descreveu a dor no peito, a perda de consciência dentro da ambulância e as imagens fragmentadas que surgiram durante a reanimação.
— Lembro-me de escuridão — disse. — Não era como dormir. Eu estava me afastando, mas ainda ouvia alguém me chamando.
Sarah sentiu um arrepio.
— Reconheceu a voz?
— A sua.
Ela permaneceu imóvel.
— Você dizia que eu ainda estava ali e que não me deixaria partir.
— Eu disse isso dentro da sala?
— Não sei se ouvi com os ouvidos.
Thomas respirou fundo.
— Depois surgiu uma luz. Era prateada e quente. Quando acordei, senti como se alguma coisa tivesse reconstruído meu corpo por dentro.
Jacob segurou a mão de Sarah.
— E os sequestradores? — Billy perguntou.
— Dois homens entraram no quarto durante a madrugada. Usavam uniformes do hospital. Um deles disse que eu faria novos exames. Quando percebi que não seguíamos para outro setor, tentei pedir ajuda.
— Eles o atacaram?
— Um deles tocou meu pescoço. Depois disso, acordei no depósito.
— O que ouviu enquanto estava lá?
Thomas ficou sério.
— Falavam sobre Sarah. Disseram que Aro precisava de uma prova de que o poder funcionava em humanos. Também mencionaram um julgamento e uma acusação de criação de uma nova espécie.
Billy desligou o gravador.
— Isso contradiz a versão dos Volturi.
— Por isso queriam impedir que Thomas testemunhasse — Sarah concluiu.
— Ou levá-lo ao julgamento e controlar o que diria — Jacob acrescentou.
Thomas olhou para o telefone sobre a mesa.
— Aro consegue controlar pensamentos?
Edward respondeu do outro lado da ligação:
— Não diretamente. Mas alguns membros da guarda conseguem manipular emoções, vínculos e percepções. Chelsea pode enfraquecer sua lealdade a uma pessoa ou fortalecer a ligação com outra.
— Então pode me fazer acreditar que desejo ajudá-los.
— Pode fazê-lo sentir que pertencem ao mesmo lado — Edward explicou. — A decisão ainda parecerá sua.
Thomas empalideceu.
— Como me protejo?
Sarah apertou a mão de Jacob.
A luz prateada surgiu brevemente entre seus dedos.
— É isso que vamos descobrir.
A esposa de Thomas recebeu uma explicação parcial.
Ele telefonou e disse que o sequestro estava relacionado a uma tentativa de extorsão contra o hospital. A polícia acreditava que os responsáveis poderiam voltar, por isso permaneceria alguns dias em um local protegido.
A mentira o incomodou.
Contudo, contar toda a verdade colocaria outra pessoa sob as leis dos Volturi.
A família Ateara o recebeu em uma casa vazia próxima à residência do velho Ateara. Seth e Embry ficariam responsáveis pela vigilância durante o dia. À noite, outros membros da matilha assumiriam.
Thomas aceitou as condições sem reclamar.
— Depois do que vi, dois lobos gigantes no quintal parecem uma medida razoável.
Seth sorriu.
— Finalmente alguém reconhece nosso profissionalismo.
— Você tem quinze anos — Leah observou.
— E sou um lobo gigantesco.
— Continua tendo quinze anos.
Thomas olhou de um para o outro.
— Vocês fazem isso o tempo todo?
— Infelizmente — Embry respondeu.
A normalidade daquela discussão fez Thomas sorrir pela primeira vez desde o sequestro.
Sarah percebeu.
Talvez La Push possuísse esse efeito sobre as pessoas. Mesmo cercada pelo impossível, a comunidade transformava o medo em algo que podia ser dividido.
O treinamento daquela tarde aconteceu na divisa.
Do lado quileute estavam Sarah, Jacob, Billy, Ateara, Sam e Leah.
Do lado externo permaneciam Carlisle, Bella, Edward, Alice, Jasper e Eleazar. Kate e Tanya patrulhavam a área com Emmett e Garrett.
O objetivo era ampliar a proteção de Sarah sem que ela precisasse tocar cada pessoa individualmente.
Bella começou projetando o próprio escudo sobre Sarah e Jacob.
— Consigo cobrir todo o grupo — explicou —, mas preciso saber se sua luz pode fortalecer minha barreira sem retirar seu controle.
— Não quero controlar seu dom — Sarah respondeu.
— Nem eu — Bella concordou. — Se sentir que está tentando assumir o escudo, recue.
Jacob segurou a mão de Sarah.
— Está pronta?
— Sim.
Bella estendeu a barreira.
Sarah fechou os olhos.
A presença do escudo parecia uma superfície fria e flexível ao redor dela. Em vez de empurrá-lo ou tentar alterá-lo, concentrou-se em sua própria centelha.
A marca aqueceu.
A luz percorreu sua mão e alcançou Jacob.
O ciclo se abriu.
Sarah direcionou parte da energia para a barreira de Bella.
O escudo ganhou um brilho prateado.
Expandiu-se sobre Billy, Ateara, Sam e Leah, atravessando a linha da fronteira sem tocar o território físico.
— Consigo sentir todos — Bella informou. — Mas ainda tenho o controle.
— Edward? — Carlisle perguntou.
Ele tentou ouvir os pensamentos dentro da barreira.
— Nada.
— Jasper?
— Não sinto qualquer emoção — respondeu.
Eleazar concentrou o dom.
— Também não consigo identificar habilidades.
Alice observou o futuro.
— Todos desapareceram.
Sarah abriu os olhos.
— Até Thomas?
— Ele não está dentro da barreira — Alice respondeu.
— Quero tentar alcançá-lo.
Jacob olhou para ela.
— Está a quase dois quilômetros.
— Os Volturi tentarão usar Chelsea contra ele. Precisamos protegê-lo à distância.
Bella manteve o escudo.
— Encontre o vínculo, não a pessoa.
Sarah pensou em Thomas.
Não havia entre os dois uma ligação semelhante àquela que possuía com Jacob. Contudo, Sarah salvara a vida dele duas vezes. Tocara sua centelha quando estava próxima de se apagar.
Talvez uma parte daquela conexão ainda existisse.
A luz se expandiu pela floresta.
Não fisicamente.
Era como se procurasse um fio invisível deixado entre duas vidas que haviam se encontrado.
Sarah o encontrou.
Fraco.
Distante.
Mas presente.
Na casa próxima à de Ateara, Thomas sentiu um calor atravessar o peito.
Edward ficou imóvel.
— Não consigo mais ouvir os pensamentos dele.
Alice confirmou:
— Thomas desapareceu do futuro.
Carlisle observou Sarah.
— Você ampliou a proteção por meio do vínculo criado durante a cura.
— Significa que posso proteger qualquer pessoa que já curei?
— Talvez — Eleazar respondeu. — Ou qualquer pessoa cuja centelha você tenha tocado.
Sarah pensou em Carlisle.
A luz encontrou outro fio.
O vampiro levou a mão ao peito.
Seu coração não voltou a bater, mas a pele adquiriu uma temperatura quase imperceptível.
Edward olhou para o pai.
— Também não consigo ouvi-lo.
— Sarah — Carlisle chamou. — Tente alcançar os demais.
Ela procurou os vínculos ao redor.
Bella.
Leah.
O pássaro curado.
O cão atropelado.
Cada vida tocada por seu poder deixara um fio.
Alguns eram fortes. Outros quase invisíveis.
Sarah tentou ampliar a proteção.
A dor atingiu sua cabeça.
A barreira oscilou.
Jacob percebeu imediatamente.
— Pare.
— Consigo alcançar mais.
— Está sentindo dor.
— Ainda posso...
Ele soltou a mão.
O ciclo se desfez.
A luz desapareceu.
Sarah abriu os olhos, irritada.
— Por que fez isso?
— Porque não estava ouvindo.
— Eu sabia o que estava fazendo.
— Estava tentando alcançar pessoas demais.
— Precisamos conhecer meu limite.
— Acabou de encontrá-lo.
— Jacob...
— Não.
Todos permaneceram em silêncio.
Sarah olhou ao redor, consciente de que discutiam diante das duas famílias.
— Podemos conversar em particular?
Jacob assentiu.
Eles se afastaram até a praia, ainda dentro da reserva.
Sarah caminhou pela areia sem esperar que ele a acompanhasse.
Jacob permaneceu alguns passos atrás.
— Você prometeu que eu teria controle sobre meu poder.
— E terá.
— Soltou minha mão no meio do treinamento.
— Porque estava com dor.
— Poderia ter avisado.
— Eu avisei.
— Disse apenas para parar.
— E você ignorou.
Sarah se virou.
— Não pode usar o vínculo para me controlar.
A acusação o atingiu.
— Foi isso que acha que fiz?
— Você sabia que, ao soltar minha mão, interromperia o ciclo.
— Sabia.
— Então tomou a decisão por mim.
Jacob fechou os olhos e respirou profundamente.
— Está certa.
A resposta imediata desfez parte da raiva dela.
— Estou?
— Eu deveria ter explicado o que faria e dado a você a oportunidade de recuar.
— Mas faria de novo.
— Se acreditasse que sua vida estava em risco, sim.
Sarah soltou o ar.
— Isso não é um pedido de desculpas muito bom.
— Estou tentando ser honesto.
Ele se aproximou.
— Sarah, senti sua força diminuir. Não era apenas dor de cabeça. A energia que retornava pelo ciclo começou a falhar.
— Por que não disse isso?
— Porque entrei em pânico.
A palavra a surpreendeu.
Jacob raramente admitia o medo.
— Pensei que, se tentasse alcançar mais alguém, o ciclo pudesse se romper com você ainda presa fora do próprio corpo.
Sarah olhou para o mar.
— Eu não percebi.
— Por isso soltei sua mão.
— E se tivesse me explicado, eu teria parado.
— Sei disso agora.
Ela se virou novamente.
— Preciso confiar que o vínculo não será uma corrente.
Jacob se aproximou até restar pouco espaço entre eles.
— E eu preciso confiar que não se destruirá para salvar todas as pessoas que encontrar.
— Sou médica.
— É exatamente o que me assusta.
Apesar da discussão, Sarah quase sorriu.
— Podemos estabelecer uma regra.
— Pensei que não gostasse das minhas regras.
— Esta será nossa.
Jacob esperou.
— Se você sentir que o ciclo está falhando, diga exatamente o que percebe. Eu paro imediatamente.
— E se não parar?
— Pode soltar minha mão.
— Combinado.
— Mas apenas se explicar primeiro.
— Combinado.
Sarah estendeu a mão.
Jacob a segurou.
— Ainda está com raiva?
— Um pouco.
— Posso fazer alguma coisa?
Ela o observou.
— Pode me contar por que o imprinting escolheu você.
— Ninguém sabe como isso funciona.
— Não estou perguntando cientificamente. Quero saber o que acredita.
Jacob olhou para as ondas.
— Antes de você, eu achava que o imprinting existia para garantir a continuidade dos metamorfos. Que escolhia a pessoa geneticamente mais adequada.
— E agora?
— Agora acho que escolheu alguém que me obrigaria a ser melhor do que eu era.
Sarah ficou em silêncio.
— Você não facilita nada — ele continuou. — Questiona todas as minhas decisões, ignora minhas ordens e entra em situações perigosas antes que eu consiga impedir.
— Isso não parece elogio.
— Ainda não terminei.
Jacob tocou o rosto dela.
— Você me faz pensar antes de agir. Obriga-me a distinguir proteção de controle. E, quando olha para mim, não vê apenas o lobo, o líder ou o homem que amou outra pessoa. Você vê tudo e ainda permanece.
Os olhos de Sarah se encheram de lágrimas.
— Estou com medo de permanecer.
— Eu sei.
— Porque todas as pessoas que amo acabam sendo arrancadas de mim.
— Não sou fácil de arrancar.
Ela sorriu entre as lágrimas.
— Convencido.
— Realista.
Sarah encostou a testa no peito dele.
— Estou me apaixonando por você.
O coração de Jacob perdeu o ritmo.
Por um instante, ele não conseguiu responder.
Sarah ergueu o rosto.
— Diga alguma coisa.
— Estou tentando lembrar como falar.
Ela riu.
Jacob segurou seu rosto entre as mãos.
— Eu amo você.
A declaração não saiu impulsiva.
Saiu firme.
Inevitável.
— Sei que o imprinting começou antes de conhecê-la. Mas eu amo a mulher que discute comigo, que atravessa uma floresta para salvar um paciente e que ainda acredita na verdade quando todos dizem que ela não será suficiente.
Sarah sentiu as lágrimas descerem.
— Isso parece injusto.
— O quê?
— Eu disse que estou me apaixonando e você respondeu com uma declaração inteira.
— Sou competitivo.
Ela o beijou.
O ciclo se abriu sem que utilizassem qualquer poder. A luz surgiu ao redor deles, refletindo-se na areia molhada.
Não era cura.
Era reconhecimento.
Quando retornaram à divisa, todos fingiram não ter observado a luz na praia.
Paul não conseguiu sustentar o silêncio.
— Resolveram a discussão?
Rachel acertou seu braço.
— Ai!
Sarah ignorou os dois.
— Encontramos o limite atual. Consigo proteger as pessoas cujas centelhas toquei, mas não muitas ao mesmo tempo.
— Quantas? — Carlisle perguntou.
— Thomas, Leah, Bella e você foram os vínculos mais claros. Quando tentei procurar outros, comecei a perder força.
— Precisamos criar prioridades — Billy concluiu.
— No julgamento, Bella manterá o escudo principal — Sarah disse. — Eu o ampliarei através do ciclo com Jacob. Thomas ficará dentro da proteção.
— E os outros? — Sam perguntou.
— A barreira de Bella consegue alcançar todos — Edward respondeu. — A força de Sarah será necessária apenas se os Volturi tentarem romper o escudo.
Carlisle concordou.
— Não devemos exigir que ela sustente sozinha a proteção de todo o grupo.
O telefone de Alice tocou.
Não era uma ligação.
Uma mensagem havia chegado ao aparelho.
Ela leu e olhou para Carlisle.
— É de um número italiano.
— O que diz?
Alice mostrou a tela.
“Marcus solicita uma conversa privada com a Filha da Lua e seu guardião. Amanhã, ao cair da noite, na divisa norte. Sem Aro. Sem a guarda.”
Todos reagiram ao mesmo tempo.
— É uma armadilha — Jacob afirmou.
— Provavelmente — Sam concordou.
Carlisle permaneceu pensativo.
— Marcus não costuma agir sem Aro.
— Quem é Marcus? — Thomas perguntou através do telefone ligado à reunião.
— Um dos três líderes dos Volturi — Carlisle explicou. — Seu dom permite enxergar os vínculos entre as pessoas.
Sarah olhou para Jacob.
— Então ele consegue ver o imprinting.
— E o ciclo — Eleazar acrescentou.
— Por que desejaria falar conosco? — Billy perguntou.
Carlisle demorou a responder.
— Marcus perdeu a companheira há muitos séculos. Desde então, existe nele um desejo profundo de morrer.
Sarah compreendeu.
— Ele acredita que posso devolvê-la?
— Didyme foi destruída — Carlisle disse. — Não existe um corpo para ser curado.
— Então talvez deseje que eu cure o que restou nele.
Jacob apertou a mão dela.
— Você não vai encontrá-lo sozinha.
— A mensagem pediu nós dois.
— Ainda pode ser uma armadilha.
Alice tentou olhar o futuro.
Seus olhos ficaram distantes.
— Não consigo ver Sarah e Jacob, mas vejo Marcus na fronteira.
— Sozinho? — Carlisle perguntou.
— Sim.
— E depois?
A expressão de Alice se alterou.
— Vejo Aro diante de um trono vazio.
O silêncio caiu sobre os dois grupos.
Marcus não queria apenas conversar.
Pretendia oferecer alguma coisa capaz de mudar o julgamento.
E talvez custasse a própria existência.
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