Acaso ou destino
19 Capítulo 18 - A força de dois
Carlisle ouviu o relato de Sarah em silêncio.
A reunião foi realizada na divisa pouco depois do amanhecer. Apenas as pessoas indispensáveis foram chamadas.
Do lado quileute estavam Sarah, Jacob, Billy e Ateara. Sam permanecia alguns metros atrás, responsável pela segurança.
Do outro lado estavam Carlisle, Edward, Bella e Eleazar.
Ninguém mais sabia o que acontecera naquela noite.
Sarah contou sobre a luz que envolvera seu corpo e o de Jacob, sobre a marca avermelhada que surgira no centro da lua e sobre o símbolo prateado que aparecera no peito dele.
Não descreveu os detalhes íntimos.
Não era necessário.
Todos compreenderam que a ligação fora consolidada de uma forma que ultrapassava o imprinting.
— Depois, Jacob foi para a floresta — Sarah concluiu. — Curei uma planta sem tocá-lo e não perdi força.
Carlisle permaneceu pensativo.
— E conseguiu sentir a presença dele durante todo o tempo?
— Não apenas a presença. A pulsação, a força e a direção em que estava.
— E você? — perguntou a Jacob.
— Senti quando ela utilizou o poder. Também vi por alguns segundos aquilo que Sarah estava vendo.
Edward se concentrou.
— Não ouço nenhum dos dois.
Jacob olhou para ele.
— Sarah está ao meu lado.
— Não é por isso. Antes, o bloqueio sobre você diminuía quando não estavam se tocando. Agora não encontro qualquer pensamento, mesmo quando Sarah se afasta.
— Vamos testar — Carlisle sugeriu.
Sarah caminhou alguns metros para trás, permanecendo dentro da reserva.
Edward continuou olhando para Jacob.
— Nada.
Ela se afastou ainda mais.
— Continua bloqueado — confirmou.
Eleazar fechou os olhos.
— O dom de Sarah permanece ao redor dele.
— Mesmo sem contato — Bella observou.
— A centelha dela está dentro de Jacob — Eleazar explicou. — Não é apenas uma proteção externa. Tornou-se parte da essência dele.
Carlisle voltou-se para Sarah.
— E a força de Jacob permanece em você.
Ela assentiu.
— É como uma chama quente junto da minha própria centelha.
— Consegue diferenciá-las?
— Sim, mas não consigo separá-las.
Jacob ficou tenso.
— Ninguém tentará separar.
— Não pretendo — Carlisle garantiu. — Preciso apenas compreender.
Alice não estava presente, mas aguardava com Jasper a alguns quilômetros da fronteira. Carlisle telefonou e pediu que tentasse enxergar o futuro de Jacob.
A resposta veio poucos segundos depois.
— Ela não vê nada — informou.
— Nem mesmo quando estamos distantes? — Sarah perguntou.
— Não. Antes, Jacob reaparecia nas visões quando o contato entre vocês terminava. Agora os dois permanecem invisíveis.
Eleazar abriu os olhos.
— Demetri também não conseguirá rastreá-los.
— Por quê? — Billy perguntou.
— O dom dele encontra uma pessoa através da assinatura mental. Sarah retirou os dois do alcance das habilidades externas.
Sam se aproximou.
— Então os Volturi não podem localizá-los se fugirem.
Jacob olhou para Sarah.
Durante um breve instante, a possibilidade pareceu oferecer uma saída.
Poderiam deixar Forks.
Aro não conseguiria seguir suas mentes, e Alice não veria o caminho escolhido. Se abandonassem a região antes da chegada dos Volturi, talvez evitassem o confronto.
Sarah compreendeu o pensamento sem precisar ouvi-lo.
— Não vou fugir.
— Ainda não sugeri — Jacob respondeu.
— Mas pensou.
Ele pareceu surpreso.
— Consegue ler minha mente?
— Não com palavras. Senti a esperança.
Edward observou os dois.
— O vínculo também transmite emoções.
— Apenas quando são intensas — Sarah explicou. — Não conheço os pensamentos específicos.
Jacob segurou sua mão.
— Poderíamos desaparecer.
— E deixar Aro destruir todos que nos ajudaram?
— Se não estivermos aqui, não haverá motivo para atacar.
Carlisle balançou a cabeça.
— Aro não aceitará perder um poder que procura há séculos. Usará os Cullen, a matilha e os familiares de Sarah para obrigá-los a retornar.
— Meu avô — Sarah disse.
Ateara tocou seu ombro.
— Não baseie sua decisão apenas em mim.
— Não é apenas o senhor. Thomas, Sue, Rachel, todos na reserva...
Billy concordou:
— A fuga transferiria o perigo para aqueles que permanecessem.
Jacob sabia que estavam certos.
Ainda assim, o instinto exigia que tirasse Sarah dali.
— Podemos esconder as outras pessoas — sugeriu.
— Quantas? — ela perguntou. — E durante quanto tempo?
Ele não respondeu.
Sarah aproximou-se.
— Não quero enfrentar Aro. Estou com medo. Mas a guerra começou antes de meu nascimento. Meus pais tentaram fugir e ambos morreram carregando esse medo.
— O que pretende fazer?
— Encerrar isso.
A força da decisão percorreu o vínculo.
Jacob fechou os olhos.
Quando voltou a abri-los, a resistência havia se transformado em aceitação.
— Então enfrentaremos juntos.
— Juntos.
A luz surgiu discretamente entre suas mãos.
Eleazar observou.
— O ciclo está estável.
— Existe algum risco de a ligação consumir um dos dois? — Billy perguntou.
— Não sinto transferência desigual — Eleazar respondeu. — As duas centelhas se fortalecem mutuamente.
— Então a união tornou o poder permanente — Ateara concluiu.
— Permanente e recíproco — Carlisle corrigiu. — Sarah consegue se restaurar através da força de Jacob, mas ele também recebeu parte da proteção e da graça dela.
— O que isso significa para minha transformação? — Jacob perguntou.
— Precisamos observar.
— Não agora — Sarah disse imediatamente.
Jacob olhou para ela.
— Você realizou todos os testes.
— E quase morreu em vários deles.
— Exagero.
— Atravessou uma parede no hospital.
— E me curei.
— Não vamos testar nada colocando você em risco.
Um pequeno sorriso surgiu nos lábios de Carlisle.
— Aparentemente, a proteção agora funciona nas duas direções.
Jacob não conseguiu esconder o próprio sorriso.
— Finalmente.
Sarah lançou-lhe um olhar.
— Não se acostume.
A notícia sobre a antecipação da chegada dos Volturi se espalhou apenas entre aqueles que participariam da defesa.
Os moradores humanos de Forks não poderiam saber.
Em La Push, as famílias foram orientadas a evitar a floresta e permanecer próximas à aldeia durante os dias seguintes. A explicação oficial falava sobre animais selvagens avistados na região.
Ninguém pareceu acreditar completamente.
Ainda assim, todos obedeceram.
Na divisa, os aliados começaram a chegar.
O clã irlandês foi o primeiro.
Siobhan, Liam e Maggie foram recebidos por Carlisle fora das terras quileutes. Maggie possuía a capacidade de reconhecer mentiras, o que poderia ser essencial diante das acusações dos Volturi.
Depois chegaram os egípcios: Amun, Kebi, Benjamin e Tia.
Jacob reagiu ao ouvir o nome de Benjamin.
Sarah também.
O vampiro percebeu.
— Algum problema?
— Era o nome de meu pai — ela explicou.
Ele inclinou a cabeça respeitosamente.
— Então espero honrá-lo durante este encontro.
Amun não demonstrou o mesmo entusiasmo. Mantinha Benjamin próximo, claramente preocupado que Aro tentasse recrutá-lo para a guarda.
Os nômades chegaram em grupos menores.
Alguns aceitaram testemunhar por amizade aos Cullen. Outros queriam apenas observar a possível queda dos Volturi.
Todos permaneceram fora da reserva.
A clareira da divisa tornou-se o ponto de encontro entre os dois mundos. Os quileutes levavam informações e recebiam estratégias, mas nenhum vampiro atravessava a linha.
Edward também não entrou em La Push.
Quando precisava falar com Billy ou Ateara, encontrava-os na fronteira. As histórias dos anciãos e as reuniões internas continuavam restritas à tribo.
Sarah transitava entre os grupos apenas até a linha divisória. Jacob permanecia sempre do lado quileute, próximo o suficiente para manter o ciclo.
Embora não precisassem mais se tocar para conservar a ligação, os dois raramente deixavam de fazê-lo.
Thomas prestou novo depoimento na presença de Maggie.
A conversa aconteceu na divisa, com ele ao lado de Sarah e dos quileutes. Maggie permaneceu no território externo.
— Diga seu nome — orientou Carlisle.
— Thomas Henry Reed.
— Foi sequestrado por integrantes da guarda dos Volturi?
— Não sei se pertenciam oficialmente à guarda. Disseram que trabalhavam para Aro e que Sarah seria julgada.
Maggie assentiu.
— Verdade.
— Os sequestradores ameaçaram matá-lo para obrigar Sarah a se entregar?
— Sim.
— Verdade — Maggie confirmou.
— Sarah curou seu coração no hospital?
Thomas olhou para ela.
— Sim.
— Verdade.
— Ela ou qualquer membro da família Cullen tentou transformá-lo, recrutá-lo ou criar uma nova espécie?
— Não.
Maggie voltou-se para os presentes.
— Verdade absoluta.
Billy segurava o gravador.
— Isso desmonta a terceira acusação.
— Se Aro permitir que Maggie fale — Edward ponderou.
Siobhan cruzou os braços.
— Ele a ouvirá.
Amun soltou uma risada amarga.
— Aro ouve apenas aquilo que pode utilizar.
— Então o obrigaremos a escutar diante de todos — Sarah afirmou.
Maggie observou-a.
— Ela acredita no que diz.
— Não precisava confirmar — Jacob respondeu.
— É meu dom.
— E este é meu território.
Sarah tocou o braço dele.
— Maggie está tentando ajudar.
Jacob relaxou.
A vampira irlandesa sorriu.
— Ele realmente obedece apenas a você.
— Não espalhe — Sarah respondeu.
Alguns dos presentes riram.
Por alguns minutos, o encontro pareceu menos próximo de uma guerra.
No final da tarde, Carlisle organizou as provas.
O diário de Benjamin permaneceria com Billy até o momento do julgamento. Apenas cópias de algumas páginas seriam mostradas inicialmente.
Os registros médicos de Thomas estavam com Carlisle.
As declarações sobre o ataque ao hospital seriam apresentadas por Bella, Emmett, Jasper e Jacob. Maggie confirmaria que nenhum deles mentia.
Marcus revelaria o assassinato de Didyme e a manipulação de Chelsea.
— Se ele comparecer — Amun disse.
— Comparecerá — Sarah respondeu.
Maggie olhou para ela.
— Verdade.
— Isso significa apenas que Sarah acredita — Amun argumentou.
— Às vezes, acreditar é o que torna uma escolha possível — Siobhan disse.
Amun não respondeu.
Edward abriu um mapa da clareira escolhida para o encontro.
O local ficava fora de La Push e distante o suficiente de Forks para evitar testemunhas humanas. Os Cullen e os aliados formariam uma linha diante da floresta. A matilha permaneceria escondida entre as árvores até ser necessário aparecer.
Sarah e Jacob ficariam no centro, protegidos pelo escudo de Bella.
— Não gosto de ficarmos expostos — Jacob disse.
— Aro precisa vê-los — Carlisle respondeu. — Se permanecerem escondidos, alegará que estão preparando uma emboscada.
— Estamos preparando uma defesa.
— E precisamos demonstrar isso.
Sarah estudou o mapa.
— Onde Thomas ficará?
— Atrás dos aliados — Edward informou. — Dentro do alcance do escudo de Bella.
— E meu avô?
Ateara respondeu:
— Ao lado de Billy.
— Não.
— Sarah...
— Os dois são humanos.
— Somos líderes da tribo — Billy disse. — Não ficaremos escondidos enquanto os jovens lutam.
Jacob tentou apoiá-la:
— Meu pai...
Billy ergueu a mão.
— A decisão está tomada.
Sarah fechou os olhos.
Não poderia exigir dos outros uma liberdade que negava a eles.
— Fiquem dentro do escudo — pediu.
— Ficaremos — Ateara prometeu.
Carlisle apontou para a área norte.
— Kate e Zafrina protegerão este lado. Benjamin poderá controlar o terreno se a guarda avançar.
O vampiro egípcio assentiu.
— Posso abrir uma fissura entre os grupos sem ferir ninguém.
— Apenas se o ataque começar — Carlisle advertiu.
— Naturalmente.
— E eu? — Sarah perguntou.
Todos permaneceram em silêncio.
— Não sou apenas a pessoa que precisa ser protegida.
— Sua função é permanecer viva — Jacob respondeu.
— Também posso ampliar o escudo, neutralizar dons e retirar o veneno.
— Apenas se for necessário — Carlisle disse. — Aro tentará provocar uma manifestação para estudar seus limites.
— Então não mostraremos nada que ele ainda não saiba.
Eleazar concordou.
— A maior vantagem de Sarah é a incerteza.
Edward olhou para Jacob.
— O mesmo vale para você. Aro não sabe quais mudanças a consolidação provocou no lobo.
— Nem nós — Sarah recordou.
— Descobriremos se for necessário — Jacob respondeu.
Ela não gostou daquela possibilidade.
Antes que discutissem, Alice ficou imóvel.
Todos reconheceram o início de uma visão.
Jasper segurou sua mão.
— O que vê?
As imagens mudavam rapidamente.
Neve.
Capas escuras.
Olhos vermelhos.
Aro caminhando no centro, ladeado por Caius e uma guarda numerosa.
— Eles estão próximos — Alice disse.
Carlisle franziu a testa.
— Quanto?
— Algumas horas.
— Isso é impossível — Esme afirmou. — Ainda deveriam estar na Europa.
— Vieram em grupos e se reuniram ao norte de Seattle.
— Quantos? — Sam perguntou.
Alice tentou contar.
— Mais de trinta.
Os aliados ficaram tensos.
— E Marcus? — Sarah perguntou.
Alice procurou.
— Não consigo vê-lo.
— Por causa da proteção dela — Edward concluiu.
— Ou porque não está com eles — Amun sugeriu.
Sarah rejeitou a dúvida.
— Ele virá.
Maggie inclinou a cabeça.
— Verdade.
Um uivo atravessou a floresta.
Outro respondeu ao norte.
Sam se transformou.
A mente coletiva da matilha recebeu a informação de um dos lobos de patrulha.
Um grupo numeroso de vampiros acabara de atravessar o rio.
Jacob olhou para Sarah.
— Eles chegaram.
— Antes da lua cheia.
— Aro nunca pretendeu cumprir o prazo.
Carlisle começou a distribuir instruções.
Os aliados seguiram para a clareira. Os lobos correram pela floresta. Billy e Ateara foram conduzidos para posições protegidas.
Sarah permaneceu ao lado de Jacob.
O céu ainda guardava as últimas cores do entardecer quando os dois chegaram ao local do julgamento.
A clareira parecia silenciosa.
Vazia.
Mas a floresta ao redor estava repleta de lobos, vampiros e testemunhas.
Sarah sentia cada centelha.
Os Cullen como luzes frias e imóveis.
Os metamorfos como chamas quentes.
Os humanos como pulsações frágeis.
E Jacob como parte dela.
O sol desapareceu.
A lua surgiu entre as nuvens, ainda incompleta.
Então o vento mudou de direção.
O cheiro adocicado alcançou a clareira.
Da linha oposta das árvores, figuras encapuzadas começaram a surgir.
Uma.
Cinco.
Dez.
Mais de trinta.
Formaram uma linha escura diante dos Cullen.
Jane e Alec ficaram à frente da guarda. Demetri e Felix posicionaram-se nas laterais. Chelsea permaneceu próxima dos líderes.
Caius surgiu primeiro.
Depois Marcus.
Por último, caminhando com a serenidade de alguém que acreditava já ter vencido, apareceu Aro.
Marcus não olhou para Sarah.
Mas ela sentiu o fio prateado que ainda os ligava.
A proteção permanecia intacta.
Aro abriu os braços.
— Meus queridos amigos — saudou. — Que reunião extraordinária.
Seus olhos vermelhos encontraram Sarah.
Depois se moveram para Jacob.
O sorriso se ampliou.
— Finalmente conheço a lua e seu lobo.
Jacob segurou a mão de Sarah.
As duas centelhas responderam.
Sob as roupas, a lua surgiu sobre o peito dele.
A marca dela brilhou.
E, pela primeira vez em muitos séculos, o sorriso de Aro vacilou.
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