Acaso
1 único
São Paulo, uma noite em algum lugar, em algum dia qualquer, sem uma marca importante no calendário, sem expectativa. Só mais um dia. Uma noite.
- Você? – meus olhos brilharam quando, depois de tanto tempo, reencontrei aquele sorriso de olhos fechados, inconfundível pra mim.
- Você! — e o sorriso se abriu mais ainda, me deixando aliviada pela receptividade.
Era como se eu tivesse voltado no tempo. Quatro anos, onze meses e treze, ou melhor, quatorze dias — já passava da meia-noite. Senti aquele frio na espinha, acho até que meu rosto ficou corado. Não que eu ainda fosse aquela menininha envergonhada, mas foi assim que me senti, de volta ao turbilhão que já havia sentido um dia. As pernas bambearam levemente como quando esbarramos na nossa paixão adolescente e não sabemos como agir.
O cumprimento foi tímido, ninguém ousou dar um passo a frente ou abrir os braços em busca de um abraço. Talvez porque nossos cérebros estavam tão confusos que era difícil até mesmo para realizar uma ação simples. Fiquei ali imaginando o que se passava por trás daquele olhar. Será que lembrava da nossa história do mesmo jeito que eu lembrava? Será que todas aquelas lembranças também viajaram por sua mente?
Ouvi aquela voz familiar com um tom malicioso:
- Você parece diferente… parece mais.. mulher – a filha da mãe ainda sabia como me provocar.
Droga! Naquele momento, tive a certeza que fiquei corada. Pronto, já ia acabar com a impressão que deixei no ar. Mas não, para a minha surpresa, não. O olhar que recebia ainda era o mesmo. Finalmente nos aproximamos. Um beijo no rosto e só o toque suave da nossa pele já foi suficiente para sentir as tais borboletas no estômago (e tenho certeza que não foi só em mim).
Eu, como sempre, não sabia ao certo o que falar. Então, ouvi:
- Achei que você iria me ligar — nem deu tempo para que eu pudesse me sentir mal por nunca ter ligado. Mas tudo bem, já faz tanto tempo. Talvez não fosse o momento certo, não é?
- A gente nunca vai saber.
Rimos. As escolhas que a fazemos na vida nos afetam mais do que podemos imaginar, só que, às vezes, demoramos para perceber. E naquele momento percebi como tudo poderia ter sido muito diferente. Mas não adiantava mais lamentar. Estávamos ali, perto, mais uma vez. Os olhares que não sabiam se se cruzavam, se vigiavam as mãos tensas ou se acompanhavam aquilo que um dia pertenceu apenas a nós. Fui obrigada a procurar por alguma aliança. Confesso que senti certo alívio quando não encontrei, embora não fosse o suficiente para me deixar feliz. E, de novo, não fui eu que quebrei o silêncio quase constrangedor:
- Então, o que tem feito?
- Hum — pensei em tudo na minha vida monótona -… lembra dos meus dois sonhos? Aqueles que eu vivia te contando. Realizei um deles. Meu livro.
- Sério? — de novo, aquele sorriso lindo se fez (e me desfez) no rosto dela.
- É, há um ano. Lembrei de você, daquele papo sobre as pedrinhas que sempre aparecem no caminho. Demorou, mas eu aprendi a passar por elas.
- Fico feliz por isso.
- E você, como tem passado?
- Enlouquecendo… Nunca achei que faculdade desse tanto trabalho. Mas tá valendo muito a pena. Agora falta pouco pra acabar.
Foi a minha vez de sorrir sinceramente. As coisas sempre se acertam, não importa como, elas sempre se acertam. Mesmo que de um jeito diferente do que desejamos.
A conversa durou horas. Assuntos banais, coisas da vida, pequenas e grandes paixões, trabalhos, chefes malditos, viagens, novos sonhos, frustrações, aventuras… Tudo, menos o assunto que mais interessava: nós. Não que fosse o assunto mais pertinente, mas convenhamos, era inevitável. Até que, quase no início da manhã, o silêncio constrangedor voltou (e olha que ficamos horas sem a presença dele). Dessa vez, consegui quebrar o gelo, não sei se da melhor forma, mas retomei a conversa:
- Eu te procurei depois que a gente terminou. Uns dois meses depois.
Aquele olhar surpreso não me surpreendeu. Continuei:
- Na verdade, procurei alguém que te conhecia. Então soube que você tinha voltado a namorar. Foi então que desisti de vez.
- Não durou mais do que três meses. Não era pra ser, mas eu tive que tentar.
- Hum… pena que cheguei um pouco adiantada.
- Quanto tempo durou mesmo? Um mês?
Fiz que sim com a cabeça, enquanto tentava visualizar cada momento daquele um mês que namoramos-terminamos-namoramos-terminamos… Não foram muitos momentos, confesso, mas foram tão intensos que sobreviveram aos anos. E, em uma sintonia de pensamentos, deixei escapar um dos mais marcantes, sem sabe que a voz dela completaria a frase:
- Sabe, lembrei daquela manhã no…
- Táxi?!
Talvez o mais marcante de todos. Incrivelmente simples, incrivelmente bobo, incrivelmente marcante e apaixonado. Duas meninas dividindo o banco de trás num táxi, após uma noite de balada. O sol nascendo e deixando os olhos claros. Um abraço, um colo, um carinho. E aquela melancolia que aparece quando sabemos o quanto o momento é perfeito, porém efêmero.
- Falando em táxi — olhei no relógio -… Está na minha hora.
- E deixar você ir embora assim, sem mais nem menos? Deixe seu telefone pelo menos.
- Eu tinha pensado em deixar meu endereço. A não ser que você ainda tenha métodos para descobrir qual é – rimos de uma de nossas piadas internas.
- Não, não tenho. E também não tenho papel pra anotar.
Senti um tom de desculpa esfarrapada.
- Então vem comigo que eu te mostro onde é.
- Mas e seus pais? – ela franziu uma sobrancelha, como quem não acreditava em coisas tão fáceis.
- Moro sozinha agora, esqueci de contar.
E pudemos ter mais um — talvez o primeiro de verdade, talvez o único, talvez mais um de muitos – encontro no táxi.
- FIM -
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