Acaso?
7 Capítulo 7
Notas iniciais
-Hugo, o café já está na mesa. – A senhora Duarte falou após dar duas batidinhas na porta.
-Ta bom, mãe, já estamos indo. –Hugo falou bocejando. –Marcelo, acorda. –Hugo falou cutucando Marcelo com a ponta do pé, mas o amigo nem se quer dava sinal de vida. –Anda Marcelo, acorda. –Hugo continuou cutucando, até que um cutucão foi mais forte do que ele imaginara e fez com que Marcelo bolasse direto de encontro ao chão.
-Ai! –Marcelo soltou um berro abafado pelo chão que encontrava a sua boca.
-Desculpa! –Hugo falou dando um pulo da sua cama e indo em direção ao amigo que já estava sentado no chão.
-Não foi nada... –Marcelo falou tentando estancar o filete de sangue que escapava pelo canto inferior dos seus lábios.
-Pera, vou pegar alguma coisa pra limpar isso. –O moreno se levantou e foi em direção ao banheiro do seu antigo quarto e voltou com um bolo de papel higiênico. –Acho que isso da...
Hugo colocou o papel com cuidado sobre a boca do maior, ele sentiu dificuldade de visualizar de onde o sangue estava escorrendo e foi se aproximando de Marcelo, até perceber que não restava mais de um palmo que separasse os dois rostos.
-Pode deixar comigo. –Marcelo mudou sua expressão, de dor, passou para raiva, ele segurou o pulso do menor que se assustou com a expressão e atitude do amigo, era certo que ele o tinha derrubado da cama e agora seu lábio estava sangrando, mas não via motivos para que Marcelo o tratasse com dureza, já que tudo que Hugo estava fazendo, era tentando ajudar o grandão.
Marcelo levantou e se trancou no banheiro, deixando Hugo sentado no chão sem entender absolutamente nada.
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-Ainda não acredito que você caiu da cama. –Disse o senhor Duarte soltando pequenas gargalhadas.
Marcelo estava com um curativo no lábio, assim que o senhor Duarte falou com ele, o grandão somente concordou com a cabeça antes que seu rosto ficasse totalmente vermelho, Hugo porém não ria, ainda estava confuso com relação a atitude de Marcelo.
-Hugo, a minha apresentação de balé é amanhã. –Falou Diana empolgada com a presença do seu irmão mais velho, seria a primeira vez que ela dançaria na frente de um publico. –Ainda bem que você não vai perder! – A pequena falou pegando um pote de doce de goiaba e espalhando em uma fatia de pão.
-Ainda bem mesmo, mamãe disse que você tem se esforçado muito. –Hugo falou sorrindo.
-Uhum! – Falou a menina tomando um gole de suco. –Eu quero ser que nem você. –A menina disse abrindo um largo sorriso, estava faltando alguns dentes, mas mesmo assim, era um dos sorrisos mais lindos do mundo para o moreno.
O peito de Hugo se encheu com uma felicidade extraordinária, não foi fácil convencer seus pais sobre a decisão de dançar balé, eles moravam em uma cidade muito pequena, cercada de preconceitos e ouvir a sua irmãzinha, falando que queria ser igual a ele, o orgulho que ele sentia de si mesmo, era imensurável.
-Hugo, eu quero que você vá no mercado pra mim. –Falou a senhora Duarte bebericando o seu café.
-Claro mãe, você vem junto Marcelo? –Hugo perguntou para o amigo, porem Marcelo não olhou de volta e só fez que “sim” com a cabeça.
-Ta bom, a lista ta em cima do balcão da cozinha, hoje vamos ter lasanha e de sobremesa, torta de banana! –A senhora Duarte falou empolgada.
Todos que estavam na mesa, explodiram de felicidades, lasanha e torta de banana era basicamente a receita favorita de toda a família, a felicidade de Jonas foi tanta, que ele ameaçou subir em cima da mesa, mas a senhora Duarte já o havia parado no meio da sua tentativa. Em situações normais, Hugo também explodiria de alegria, mas o ato de Marcelo ainda estava sendo bem vivido em sua cabeça.
Quando todos acabaram de tomar café, o senhor Duarte entregou as chaves do seu carro para Hugo, já que o carro de Marcelo estava ainda na estrada esperando o reboque.
Chegando ao mercado, Marcelo foi pegar o carrinho, enquanto Hugo se dirigiu para as prateleiras onde ficavam os itens da lista.
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-Qual que você acha melhor? –Perguntou Hugo segurando dois condimentos, um em cada mão. Marcelo não respondeu nada e isso frustrou Hugo fazendo com que ele acabasse se irritando com o amigo.
-Marcelo, desisto de tentar entender o porque de você esta com essa cara feia. –Hugo disse quase gritando.
-Tem certeza que você quer entender?! –Marcelo já falava totalmente alterado, parecia que para ele, já havia caído a última gota d’água.
-Marcelo, fala baixo, tem gente olhando. –Hugo falou tentando acalmar Marcelo, um casal que estava fazendo compras estava olhando aterrorizado para os dois.
-Eu quero mais é que se dane! –Marcelo falou empurrando o carrinho, que para sorte de Hugo, não estava cheio o suficiente para que ele não conseguisse parar a tempo antes que ele se chocasse com a prateleira mais próxima.
-Hoje não é um bom dia pra ele... –Hugo falou tentando dar uma desculpa para o casal que continuava chocado.
-Marcelo... –Hugo falou colocando a mão no ombro do amigo que estava sentado no chão escorado na prateleira de uma ala que estava deserta.
-Não me toca. –O grandão falou com a cabeça baixa, sua voz estava tremula, mas Hugo não sabia se estava com raiva ou triste. O moreno recuou a mão e se sentou do lado de Marcelo, como Hugo era menor que o amigo, mesmo sentados a diferença era visível, e foi essa diferença que possibilitou Hugo ver o rosto de Marcelo, que estava vermelho.
-Desculpa... Eu não tenho direito de ficar com raiva de você... Só porque você... Enfim. –Marcelo falou calmamente, mas a voz ainda estava tremula.
-Esta tudo bem... –Hugo falou para o amigo, mas Marcelo continuou com a cabeça baixa. – Serio, não tem problema. – Hugo sorriu para o amigo que levantou a cabeça, o moreno percebeu que o grandão estava confuso, irritado ou qualquer outra coisa que estava o afligindo, achou melhor não piorar a situação e deixar toda a confusão de lado, prezava a amizade de Marcelo demais para virar as costas para o amigo na primeira besteira que ele fizesse.
Marcelo soltou um breve riso e se levantou, depois ajudou Hugo a se levantar, o moreno abraçou o amigo como um ato de amizade. O calor que emanava de Marcelo fez com que Hugo se sentisse vivo, protegido, o cheiro do maior era embriagante como o de um campo de rosas, mas as lembranças do sonho da noite anterior vieram a tona e Hugo se desfez do abraço na mesma velocidade que ele tinha iniciado. Assustado pela lembrança do sonho, Hugo não sabia o que fazer, sua cabeça agora estava emaranhada como um novelo de lã.
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Hugo permaneceu calado pelo resto do dia, quando a lua já estava no seu ápice e as estralas emanavam um brilho cintilante, a última piada foi contada e todos se dirigiram para os seus respectivos quartos.
-Boa noite... –Hugo falou fechando a porta e escutando os “Boa noites” do lado de fora.
A noite estava quente, a janela do quarto estava aberta, facilitando a entrada da luz da lua, dos sons da noite como, grilos, corujas e o som do próprio vento que entrava no quarto fazendo com que as cortinas da janela dançassem.
O moreno se deitou no seu lado da cama de solteiro, apesar do calor, Hugo deixou apenas a cabeça do lado de fora, o resto do corpo estava coberto pelo seu lençol, já Marcelo, estava com apenas o seu short, quase uma cueca aos olhos de Hugo.
-Boa noite. –O grandão falou sonolento.
-Boa noite... –O menor respondeu.
-Marcelo... –O moreno falou quase como um sussurro, uma coruja piava do lado de fora da casa.
-Fala. –O maior respondeu já com os olhos fechados.
-Acho que te amo...
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