Acampamento de Verão - Interativa
1 Capítulo 1 - Abrimos as portas!
Notas iniciais
Samantha
Mal passava das sete da manhã quando o ônibus dobrou a esquina no velho bar São Miguel. Mesmo ainda cedo, dona Isaura estava na calçada, com sua saia florida e o avental de babados. Seu Bento, no auge dos seus setenta e poucos anos, sentado em sua velha cadeira de balanço, cochilava com o cachimbo na boca.
Era engraçado voltar ali e ver a mesma cena, as mesmas pessoas, as mesmas funções. Como se o tempo não tivesse passado. Por um instante, voltei aos meus sete anos de idade e me lembrei da primeira vez que os conheci. Léo, pentelho que só, derrubando o baleiro de vidro enquanto mamãe, irritada e envergonhada, dividia-se entre pedir desculpas ao seu Bento atrás do balcão, que ria divertido, e dar um puxão de orelha no meu irmão, enquanto dona Isaura dizia:
— Deixe o menino, foi sem querer!
Despertei da minha lembrança já muito além na estrada, quando o ônibus parou num solavanco e o motorista olhou para trás, um tanto desconcertado.
— Desculpe pessoal... – Disse ele. – Mas parece que o pneu furou.
Olhei para trás também, na esperança de não ser a única alma viva naquele ônibus. Mais duas pessoas levantaram a cabeça, curiosos. Um senhor de cabelos grisalhos e uma mulher, aparentemente irritada.
— E o que eu tenho com isso? – Reclamou a mulher. – Eu paguei a passagem até o litoral!
— Sinto muito, dona. Mas outro pneu só quando a oficina mandar. Sabe como é, corte de gastos... – Respondeu o motorista, coçando os poucos cabelos que ainda restavam na careca grisalha.
— Esse é o seu dia de sorte, Samantha! – Disse para mim mesma, já pensando no trambolho de mala que eu teria que carregar até o acampamento. – Você devia ter vindo com o Léo quando teve chance, mas não, quis bancar a boa moça e cumprir a carga horária estendida do estágio ... Isso que dá!
Desci do ônibus, sem muitas opções, e peguei minha mala no bagageiro. A mulher ainda discutia com o motorista quando passei por eles. Para a minha sorte, faltavam mais de cinco quilômetro de terra até o acampamento, com a companhia de uma mala de rodinhas gigante e de uma mochila que eu mal conseguia colocar nas costas. Yay, que começo de férias sensacional!
Chequei o celular numa esperança vã de que estivesse com sinal. Como eu esperava, a revolução tecnológica ainda não tinha chegado até ali.
Arthur
— Mais pra esquerda! Não, não, pra direita agora! Isso, ah, não! Um pouquinho mais pra esquerda e... Pra cima! Aí, aí! Ótimo! – Minha mãe palpitava enquanto eu e Leonardo tentávamos pendurar a imensa placa na entrada do acampamento.
— Querida, não precisa tanto! Os meninos já estão nessa a manhã toda! – Meu pai, que acabara de cortar a grama e agora estava recolhendo os equipamentos, comentou.
— Tudo tem que estar perfeito, Sérgio! – Dizia dona Graça. – É nossa inauguração oficial, tem que sair perfeito! – Repetiu.
— Se continuarmos nessa velocidade, vamos inaugurar só no próximo verão! – Léo brincou.
— Para de ser pentelho, moleque! – Bradou dona Graça, com um ar de riso. – Me deixe aproveitar esse momento!
Era a reabertura do Acampamento Sol Poente, o sonho de vida de minha mãe, e naquele dia nada poderia dar errado.
— A Samantha ainda não chegou? – Lena, que saía da recepção com um arco de bolas de bexiga, perguntou.
— Você conhece a Sam, quando ela cisma com algo, não tem santo que tire da cabeça dela... – Respondi. – Pelo que eu entendi, ela ia ficar de plantão no hospital até tarde e depois pegava um ônibus!
— Aham, tá bom! Se deixar a bichinha fica naquele hospital até ó... – Lena brincou.
— Olha como chama sua irmã! – Dona Graça reclamou.
— É bichinha mas é com amor, mãe! – Léo completou.
— Esses jovens de hoje em dia, se deixar, não tem mais respeito! Não tem mais esse negócio de família não... É tudo com esse palavreado chulo! – Essa é minha avó, dona Dolores. Com seus oitenta anos, esbanja saúde e tem uma cabeça que dá de dez a zero em muito jovem por aí! Ah, isso sem falar nas mãos de fada que essa mulher tem. Não é à toa que mamãe chamou ela para ajudar na cozinha do acampamento!
— Vovó, vovó... – Léo a abraçou, rindo. – A senhora sabe que somos os seus netinhos do coração! – E deu um beijo na testa dela.
— Não me venha com beijinhos, Leonardo Francisco! – Reclamou ela.
— Tá bom, tá bom! Não tá mais aqui quem falou! – Léo riu, dando mais um beijo no rosto dela e saindo correndo.
— Esses meninos... – Vovó reclamou, mas riu enquanto voltava para dentro.
Continuamos a organização, revisamos novamente a lista de acampantes, checamos os horários de chegada, organizamos o refeitório e decoramos a recepção, tudo sob a supervisão da general Graça.
Estávamos terminando de colocar as lanternas na entrada quando Bartolomeu, o nosso enorme e nada adestrado border collie, correu em direção à porteira como doido, latindo e abanando a cauda.
— Ei família! – Ouvimos uma vozinha esbaforida. – Uma mãozinha caía bem, hein?
— Samantha! – Minha mãe gritou, feliz. Nada deixa dona Graça mais feliz do que os quatro filhos no ninho.
Fui até a porteira e encontrei uma Samantha suja de lama da cabeça aos pés, com o cabelo despenteado e toda desengonçada.
— E aí ma... – Não consegui terminar, pois fui cortado pelo furacão Samantha.
— Você não sabe o que aconteceu!! Atrasei para pegar o ônibus e perdi o que vinha direto. Fiz escala em São Paulo e demorou mais que o dobro do tempo. Pra ajudar o ônibus quebrou logo depois do bar São Miguel. Ah, a propósito, seu Bento e dona Isaura estavam lá e adivinha? Na mesmíssima posição de sempre! Parece até um quadro! Seu Bento na cadeira e dona Isaura na calçada! Ah é, voltando para a história do ônibus, ele quebrou faltando cinco quilômetros! CINCO QUILÔMETROS ARTHUR, VOCÊ SABE O QUE É ISSO? Tive que vir caminhando na estrada de terra. Tinha uma parte com lama no caminho e, olha só, caí que nem um saco de batatas! Isso com essa mala gigantesca e a mochila nas costas... Juro que considerei tirar um cochilo na lama mesmo, mas fiquei com medo de uma vaca pisar em cima de mim, sabe como é, as fazendas aqui por perto tem um monte de animais que ficam andando no meio da estrada. Onde já se viu, deixar o pobre animal andar sozinho, e se ele se perder? Nossa... Cruel! Mas aí...
— Samantha! – Léo, que a essa altura da história já tinha nos alcançado na porteira. – Samantha! – Chamou ele de novo e ela parou, aqueles olhos enormes arregalados. – Respira!
— Mas eu nem estava... – Ela começou.
— Estava sim, maninha. – Respondi, rindo.
Bartolomeu pulou em cima da Sam, feliz em rever a dona depois de tanto tempo. Para ser sincero, eu também estava feliz com esse momento, pois pela primeira vez em dez anos nossa família estaria reunida no verão. Trabalhando? Sim, mas nos divertindo juntos também.
Fale com o autor