POV. Carollyn Black (Anteriormente conhecida como Harley Black)

Certo, tudo bem que a único que tem o meu respeito é Hades, mas acho que os filhos de Hefesto chegam bem perto de merecer a minha aprovação.

Tudo começou comigo indo até o chalé de Hefesto para arrumar alguém para fazer a biga para mim e Hellthorne (digo, Sammy. Agora somos amigas).

- Com licença – abri a porta e sorri – Alguém poderia me atender?

- Pois não, moça? – perguntou Leo Valdez, o conselheiro do chalé, sorrindo para mim. Eu hein, esse parece o elfo latino do Papai Noel.

Pisquei graciosamente e dei um sorriso tímido. Infalível.

- Será que você poderia me ajudar? – perguntei – Eu e minha amiga nos inscrevemos para a corrida de bigas, mas não temos a menor ideia de como fazer uma.

- Oh, mas isso não é problema! – Leo ficou de pé na hora – Pode deixar que eu construo a carruagem para você!... E sua amiga.

E agora, estamos Sammy e eu assistindo Leo construir uma biga grega. Manipular as pessoas é tão bom que quase preencheu a minha cota diária de maldade, que ultimamente tem estado tristemente baixa. Talvez eu tenha que matar alguém, não sei.

- Coloque runas – instrui – E também alguns botões que, pressionados, disparem arpões. Quero a melhor biga da competição.

- Pode deixar – Leo obedientemente começou a trabalhar nos tais botões.

Sammy olhou-me e perguntou baixo:

- Como vai seu... Namorado?

Ele não é meu namorado! – gritou uma voz nova na minha cabeça.

Quem é você agora, praga? – perguntei.

Ué, eu sou a sua voz boa interior!

Eu, a minha voz ruim, a minha voz muito ruim e todas as outras riram em uníssono na minha cabeça. Talvez meus lábios também tenham deixado escapar um pequeno riso.

Voz boa? Sério? E eu achando que o mundo não piorava...

- Damon está ótimo, obrigada – sorri – E o seu, querida?

Sammy corou. Urgh. Que tipo de pessoa cora? Será que sou a única pessoa que nunca corou? Que coisa ridícula!

- Ian Bucker não é meu namorado – disse ela – Ele é... Meu amigo.

- Ah, sim – concordei sorrindo afetuosamente. Estou sorrindo demais ultimamente.

Leo terminou a biga, sorriu bobamente de novo e nós nos despedimos dele, Sammy empurrou a biga até o Chalé de Hécate, onde tínhamos espaço para guardá-la.

- Essa biga realmente ficou ótima – sorriu Sammy olhando para a tal – Não quer treinar?

- Temos que amarrar dois pégasos ali, subir e não cair – olhei de soslaio para ela – Precisa treinar isso, Sammy?

Sammy revirou os olhos, despediu-se e saiu do meu chalé. Sim, nossa biga realmente era perfeita. Feita de ferro estígio, contava com runas mágicas nas rodas que a protegiam de danos e duas lanças cruzadas na frente. Perfeita para acabar com os outros competidores.

Sentei-me na ponta mais sombria varanda do Chalé de Hécate e fiquei lá, olhando as pessoas sem que elas pudessem me ver. Adoro fazer isso, me dá uma sensação de poder.

- Hey, sua esquisita – disse uma voz aguda demais.

Um olhar para a esquerda revelou Gwen Carter, uma filha de Afrodite. Ela tinha cabelos negros, olhos cor de mel e lábios vermelhos cheios. Porque ninguém me deixa em paz, droga?

- O que você quer? – perguntei irritada.

- Porque está com o Damon?

Sorri desagradavelmente.

- Te interessa?

- Sim, ele é meu ex-namorado e não quero que você acabe com a vida dele como fez com a do Ben! – exclamou.

Na verdade, foi o contrário.

- Vai para a esquina e não me enche, sua estúpida Barbie siliconada – disse.

- Sua grossa! Pelo menos, eu tenho chance de ser alguém no futuro! – falou.

Meu sorriso desagradável voltou, e vi o medo surgir naqueles olhos cor de mel.

- Oh, sério? – perguntei com a voz doce – Seria uma pena se essa sua chance se esvaísse como o ar dos seus pulmões. E é isso que eu quero que você faça. Mas não aqui, faça isso no Chalé de Afrodite.

Gwen saiu andando tranquilamente para o Chalé de Afrodite, abriu a porta e entrou. Pronto, acho que a minha cota de maldade está completa por hoje.

* * *

- Campistas – disse Quíron solenemente – É com pesar que informo a morte de Gwen Carter, uma memorável filha de Afrodite. Ela foi encontrava em seu chalé, e filhos de Apolo disseram-me que o motivo do falecimento foi falta de ar. Gwen estará para sempre em nossos corações

Bem, no meu ela não estará nem nunca esteve. A mortalha rosada de Gwen foi queimada, filhos de Afrodite choravam em tristeza. Sammy aproximou-se de mim.

- Foi você! – exclamou baixo – Você jurou aos deuses, jurou que...

- Eu não jurei nada, e não fui eu – a mentira veio com tanta facilidade quanto a respiração — A estúpida deve ter se matado.

- Então porque não está triste? Porque não está demonstrando nenhuma emoção?

- Porque Conjuradores das Trevas não têm emoções – respondi indiferente.

Já era noite quando voltei ao meu chalé. Lou estava consolando sua namorada, que era amiga de Gwen. Abri a porta do chalé e lá, me deparei com uma garota de cabelos negros, olhos cor de mel e lábios vermelhos cheios. O ar deixou meus pulmões.

- Gwen Carter? – perguntei arregalando os olhos – Eu vi sua mortalha ser queimada!

- Voltei para te assombrar – sua voz parecia um sussurro.

- Que se dane, não tenho medo de fantasmas – falei dando de ombros – Só tome cuidado, as coisas que você poderá ver são assustadoras para uma enjoada filha de Afrodite.

O rosto sério de Gwen dissolveu-se em uma risada escandalosa. Mas a risada aos poucos foi mudando, até tornar-se uma risada que me deu calafrios. Uma risada que eu conhecia.

- Olá Evangeline – disse fechando os punhos, que tremeram levemente – Como é bom revê-la.

Evangeline Rosier, minha prima. Uma Evo das Trevas, que pode transformar-se em quem bem entender. Tem cabelos loiros como o sol, olhos azuis frios como gelo e a boca sempre vermelha como sangue. E o perfume. O maldito perfume de rosas que me dá náuseas desde a infância.

- Olá, querida – disse sarcástica – Quando soube dessa morte, logo presume que foi sua culpa. Então minha linda priminha foi para as Trevas? Estou tão, tão orgulhosa!

Evangeline é cinco anos mais velha do que eu, e foi embora de Gatlin quando eu tinha dez. Mas aí, minha infância já tinha sido uma desgraça.

- Obrigada – sorri deixando os olhos dourados voltarem a tona.

- Hum... Deixe-me ver – Evangeline colocou um dedo no queixo e começou a pensar – Ilusionista?

- Não.

- Empática?

- Não.

- Taumaturga?

- Passou longe.

- Sibila?

- Não, mas sei ler perfeitamente na sua cara que você é uma vadia.

Evangeline riu como se eu tivesse dito-lhe uma piada.

- Então desisto – ela sorriu e por debaixo daqueles óculos escuros com armação de coração, vi o brilho dos olhos dourados – Qual sua vocação, minha florzinha?

- Sou uma Sirena das Trevas – respondi seca.

Certo, agora o riso dela foi realmente escandaloso.

- Sirena? – ela perguntou ainda rindo – Minha gentil e adorável priminha é uma Sirena?

- Nunca fui gentil e adorável, seu verme nojento – disse já cansada de frias cortesias – Porque diabos está no Acampamento Meio Sangue?

- Achou que era a única? – perguntou sorrindo – Nossos pais tinham gostos parecidos, ao que me parece. Sou filha de Nix, deusa da noite. Muito apropriado.

- Mas os deuses foram proibidos de ter filhos com Conjuradores – falei. Meu coração palpitou com um pouco mais de força.

- E Nix liga? Nix é a deusa que contém o segredo da imortalidade dos deuses; se alguém a irritar, vai todo mundo morrer – Evangeline sorriu – Amo minha mamãe. Além de que Evangeline Rosier não está no acampamento, mas sim, Rose Bell, filha de Ares.

A aparência de Evangeline mudou. Agora ela tinha uns vinte anos, cabelos lisos negros e opacos, olhos castanhos vivos e pele bronzeada.

- Sra. Rose Bell, ou simplesmente Professora Bell – um sorriso feliz brotou nos lábios finos e rosados – Serei sua instrutora de esgrima, pois Quíron queria um meio sangue experiente para treinar os semideuses contra perigos.

- Ótimo – disse fria – Será que agora, Professora Bell, pode sair daqui? Quero dormir.

- Claro – disse Evangeline/Rose – Até a aula de esgrima, queridinha.

E saiu, fechando a porta e deixando aquele nauseante perfume de rosas. E então, ali parada e sem mais nem menos, uma lágrima escorreu rapidamente pela minha bochecha e pingou no chão.

Não muito depois, eu já estava soluçando enroscada na posição fetal na minha cama.

Sua patética. Pare de chorar. Conjuradores das Trevas não choram.

Finalmente compreendi que essa voz corrigindo-me na minha cabeça ao longo desses anos, é a voz de Evangeline. A voz que fez da minha infância um inferno e dos meus dias uma agonia sem fim.

Pare de chorar, imbecil! Alguém irá escutar seus soluços!

Que se foda. Que se foda a Evangeline. Que se foda o Benjamim. Que se foda todos nesse acampamento. Estou chorando, e dane-se. A última vez que lágrimas caíram dos meus olhos foi aos oito anos, quando Evangeline dissera que meu pai não morrera, só me abandonara porque não aguentava ficar comigo.

Sempre ela.

Ouvi a porta do chalé se abrindo. Pronto, se alguém tinha que me ver chorar, que veja.

- Carol? – era Lou – O que houve? Você está... Chorando?

- Estou, merda! – exclamei com raiva. Raiva dele, de mim, da Evangeline, de todo mundo – Me deixe sozinha!

Ele sentou-se na beirada da minha cama.

- Porque você está assim? – Lou perguntou suavemente.

- Não te interessa – respondi busca, com a cabeça escondida pelo cobertor e as lágrimas ainda rolando lentamente – Vá embora.

- Sabe que seus poderes de Sirena não funcionam quando você não me olha nos olhos.

Joguei o cobertor para longe e o encarei.

- Só vá embora – falei, sem convicção. Eu queria que ele ficasse, eu queria um abraço. E Lou era meu irmão, o mais próximo de família que eu já tive... Ou quisesse ter.

Lou colocou sua mão na minha bochecha e secou as lágrimas com o polegar. Ele entendeu que eu não queria falar sobre o motivo do choro, então me puxou para o seu colo e começou a fazer carinho nos meus cabelos.

- Sabe de uma coisa? – disse Lou com suavidade – Eu sou filho único. Sempre quis ter uma irmã mais nova.

- Não sou sua irmã – disse com maus modos.

- Para mim, é.

Bufei. Conjuradores da Luz, tão bonzinhos.

Quando eu me acalmei, fechei os meus olhos, que doíam por tanto chorar. Lou pousou dois dedos na minha têmpora direta e murmurou algumas palavras. Na minha mente, surgiu a imagem de um homem alto, forte, com cabelos pretos e olhos cinzentos segurando um bebê com brilhantes olhos azuis.

- Eu te amo, Carol – disse o homem beijando a testa do bebê – Nunca se esqueça disso. Papai ama muito você.

Sorri de canto.

Obrigada, Lou.

Notas finais
... Porque todo vilão sempre é traumatizado com alguma coisa U-U