Onde eu moro o verão é no início do ano e eu estava mais uma vez em um. A casa de veraneio cada vez mais se tornava um lugar insuportável para passar; não havia luz e nem água (e se houvesse luz não haveria geladeira, assim como se houvesse água não haveria descarga).

Tão desconfortável que eu daria razão a ela caso reclamasse como nos outros verões (a casa de veraneio nunca foi confortável), mas ela chamou todo o caos carinhosamente de “acampamento”.

“Neste verão estaremos fazendo um acampamento enquanto estivermos aqui."

Como ela mudou... Se fosse outro tempo, pediria pra voltar e me chamaria de doida por ainda insistir na casa de veraneio. Mas ela via meu esforço em deixar tudo o mais confortável possível que até elogiava o café feito no fogão elétrico, cuja a água nunca fervia por completo e um frio ficava bem no fundo, como acontecia ao mergulharmos no mar da praia ali perto.

Nada cooperava nessa viagem, o céu ficou nublado por dias e me senti culpada por estar lhe dando outro verão merda. Mas ela bateu fotos e me mostrou como ficava bonito a luz solar escapando das densas nuvens pra refletir sobre o mar. O reflexo era redondo e ela chamou de holofote.

"Acho que só podemos ver essa luz tão cristalina sob um céu tão negro. Faz parecer que é sorte nossa, né?"

Quandoelacomeçou a ser assim... Pra ser assim você tem que cair muito. Só resta escalar quando se está no fundo do poço e eu não fui a única que percebi isso.

Tomara que nos verões seguintes as coisas estejam mais fáceis, pois percebo sua melancolia quando fica horas sozinha.

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