Acampamento
1 Capítulo 1 - Isa
Capítulo 1 — Isa
Meu coração batia tão rápido que eu achava que a qualquer momento desmaiaria. Meus braços começavam a doer e tenho certeza que os de Alex também. Certamente ele estava ficando cansado, mas não me soltava de jeito nenhum. Eu tentava me concentrar naquela cena, no meu Alex fazendo tudo pra me tirar daquele perigo horrível, mas não conseguia distrair minha cabeça do medo de cair lá embaixo e me machucar bastante, e o pior, arrastar Alex comigo e ficarmos os dois presos e feridos sem que ninguém pudesse nos encontrar.
— Alex! Mais forte! Mais forte! Você consegue! – Eu disse com a voz um pouco forçada devido ao esforço de me manter presa a ele.
Alex continuou me puxando com um esforço imenso até eu conseguir tocar o solo firme acima do barranco.
— Apoia na minha perna! – Ele dizia enquanto continuava me puxando pra cima.
Finalmente após mais alguns segundos de agonia ele conseguiu me envolver por baixo dos braços e me puxou pra cima, e eu estava definitivamente fora daquele barranco. Quando pude me sentar ao lado dele ficamos algum tempo respirando ofegantes e ainda nervosos, absorvendo que já estávamos salvos. Ou quase, pois enquanto estivéssemos ali, bem na beirada daquele barranco não estaríamos completamente seguros.
— Alex... – eu dizia sorridente, ainda um pouco sem ar – Você salvou minha vida!
— Você me deve o celular que caiu do meu bolso – ele respondeu sem saber exatamente o que dizer, pude notar que não estava realmente zangado.
— Não importa! – Exclamei o puxando pra um abraço – Você é meu herói!
Estávamos pra voltar ao acampamento quando ele tentou me colocar de pé e gritei de dor ao sentir meu pé esquerdo fraquejar. Alex queria verificar o que havia de errado, mas eu estava nervosa demais e com medo de piorar a situação, então logo eu estava sendo carregada nas costas dele. Saímos o mais rápido possível de perto do barranco e procuramos pela trilha de volta, mas simplesmente não a encontrávamos e estava ficando escuro. Comecei a me sentir angustiada, por mais que Alex me pedisse calma e prometesse que ficaria tudo bem. Ele também estaria em risco. Depois de muito tempo andando e muito cansaço, como se nos fosse concedido um milagre, encontramos uma velha cabana entre as árvores. Estava bem conservada e poderia nos abrigar bem durante a noite. As janelas já não fechavam, pois nem estavam mais ali, mas ao menos havia uma porta que poderia ser mantida no lugar com ajuda de uma pedra pesada. Folhas secas e galhos de árvores pequenas estavam espalhados pelo chão de terra.
Alex me levou para dentro e com algum esforço me ajudou a sentar no chão. Meu pé doía muito e eu não conseguia evitar me lamentar por isso. Quando me sentei, senti um calafrio percorrer meu corpo e uma sensação de fraqueza me tomar. Alex estava preocupado. Eu gemia de dor e ele levou as mãos ao meu rosto e minha testa enquanto eu tentava me aquecer. De repente ficou muito, muito frio.
— Isa... – ouvi Alex dizer em tom de voz nada feliz – Ah não... Você tá quente. Tá com febre.
— Ai, Alex, eu tô com frio... Eu tô com muito frio, Alex – lamentei.
Ele queria que eu trocasse a camisa do meu uniforme pelo casaco dele, mas por motivos óbvios aquilo não seria uma boa ideia ali, então ele me envolveu com o casaco e pude me aquecer um pouco. Alex pediu pra verificar meu tornozelo e eu permiti, mas o assustei ao gritar de medo.
— Te machuquei?!
— Não... É que eu tô com medo.
— Tá... Mas eu vou com cuidado, tá?
Ele falou com um olhar que me passou tanta confiança que não falei mais nada quando ele levantou a perna da minha calça e tirou meu sapato e minha meia com cuidado quase cirúrgico. Eu tentava ficar quieta, mas não evitava arfar e murmurar de dor às vezes. Alex estava sendo muito gentil e cuidadoso, mas ainda doía muito. Ele tocou meu pé suavemente e passou alguns minutos avaliando o quanto eu devia ter me machucado.
— Isa... Eu acho que não tem nada quebrado. Você só torceu. É melhor amarrar isso com alguma coisa. Se não imobilizar logo vai doer mais e vai ficar pior.
— Mas... Alex... Não temos nada aqui. Nem faixas, nem gaze... E não dá pra amarrar só com a meia.
Vi Alex ficar pensativo por algum tempo e depois me olhar.
— Isa... Eu vou tirar a camisa e vou rasgar ela pra poder amarrar seu tornozelo.
— Ah... Não... Alex... Não precisa fazer isso. Se eu ficar quietinha sem mexer meu pé até nos encontrarem deve resolver... – fui interrompida por mais um gemido involuntário de dor e frio, meu pé latejava e eu estava congelando cada minuto mais.
Já ia falar de novo quando percebi que já não adiantava. Alex havia tirado a camisa e começava a rasgá-la. Tentei não me distrair com ele daquele jeito, eu não podia negar que Alex era um deus grego. Agora entendia porque Cristina havia enlouquecido por ele desde que o vira sem camisa naquele jogo de futebol. Mas diferente de Cristina, eu sempre o amara, há muitos anos, antes mesmo de perceber. Meu amor era verdadeiro e ia muito além de toda aquela beleza que Alex tinha. Voltei à realidade e realmente me preocupei. Estava quase escuro. Ele sentiria frio.
— Ah... Alex...
— Fala – ele me olhou rapidamente, continuando a rasgar o tecido.
— É... Vo... Você... – eu estava um pouco sem jeito de falar com ele ali daquele jeito – Você... É... É que... Você... Você vai sentir frio assim... Com o peito assim... Descoberto.
— Eu sei. Mas eu tenho que amarrar seu tornozelo com isso aqui – ele respondeu analisando o andamento de sua tarefa – Olha só, isso vai doer um pouquinho porque tem que ficar apertado, tá? Pronto.
Alex levou as mãos outra vez ao meu pé machucado e hesitei de medo outra vez, sou muito medrosa com essas coisas. Tentei me concentrar na parte boa do momento, meu Alex cuidando de mim. As mãos dele tocando minha pele pareciam me causar um choque, como se uma onda de calor me atingisse. Por um instante o frio desapareceu e a sensação era muito boa. Senti meu coração acelerar e até conseguir sorrir, mas brevemente, pois uma pontada de dor me trouxe de volta à vida real quando Alex precisou apertar o tecido em volta do meu pé.
— Peraí... Alex... – eu repetia enquanto ele começava a envolver meu pé com uma parte do tecido rasgado, sendo tão cuidadoso quanto antes – O que queria me perguntar...? Alex...! Não, Alex... – eu pedia com medo.
Alex tentou me tranqüilizar, a imobilização improvisada estava quase terminada.
— O queria me perguntar quando nos perdemos? – Gemi de dor, interrompendo o que eu dizia.
— Isa, peraí... – ele pediu, quase finalizando a amarração, mas me olhando preocupado ao me ouvir gemer várias vezes.
— Ai... Alex... Eu tô com frio – eu me abraçava, tentando me aquecer, apertando o casaco dele em torno dos meus ombros.
Alex parou o que fazia, e assumiu um olhar totalmente preocupado, levando a mão a minha testa outra vez, e afagando meu cabelo no processo. Aquilo me confortou.
— Ah, Isa... Você tá com febre.
— Mas eu tô muito gelada... – a sensação de fraqueza aumentava e eu só queria me deitar ou me apoiar em algo.
— Eu sei...
— Isso tá doendo, Alex. Tá muito apertado... – me lamentei novamente.
Alex finalmente terminou de amarrar meu tornozelo e se levantou, me segurando pelas costas, por baixo dos braços.
— Eu vou te deixar mais confortável.
Ele me puxou pra trás, até eu conseguir me encostar na parede, e anunciou que iria procurar lenha para acender uma fogueira, mas como já disse, sou muito medrosa.
— Não, não, não, não!! – Eu falei o agarrando pelo braço pra que se sentasse ao meu lado, assustando-o no começo – Não, não, Alex! Não! Não vai, por favor! Não me deixa aqui sozinha! E se vier um animal, ou um morcego?! Por favor, não! Não me deixa sozinha! – Implorei segurando firme a mão dele.
— Exatamente por isso que eu vou fazer uma fogueira... Pra espantar os animais. E pra te esquentar também, pra que você não fique sentindo frio – ele disse calmamente afagando meu braço – Deixa eu ir lá... Tá?
Nós trocamos um olhar profundo por um instante, e outra vez eu confiava nele cegamente.
— Então tá bom... – respondi quando ele levou a mão ao meu rosto para afastar uma mecha de cabelo.
Alex se levantou e me olhou até sair da cabana. Eu estava exausta, com frio, fraca, começava a me sentir tonta, e tudo isso estava deixando minha mente confusa, fazendo meu medo da situação aumentar. Tentei dormir, mas não consegui. Eu podia ouvir o vento soprando lá fora e o céu fechado indicava que deveria chover em breve. Felizmente Alex não demorou a voltar, embora já estivesse escuro quando ele chegou, e veio com lenha suficiente para uma fogueira que duraria até o amanhecer. Trouxe também uma pedra pra manter a porta fechada e colocou alguns galhos grandes contra ela para evitar que o vento a abrisse. Antes de fazer qualquer coisa, ele pegou a outra parte de sua camisa rasgada e colou sobre mim, protegendo meus braços e meu pescoço do frio.
— Assim tá melhor? Aguenta firme, Isa. Logo vamos ter uma fogueira – ele sorriu, tentando me encorajar, e retribuí o sorriso.
Confesso que fiquei impressionada ao descobrir que Alex tinha habilidade para fazer fogueiras assim do nada. Eu conhecia a teoria, mas não podia garantir que atingiria o objetivo.
— Pronto... Já fiz a fogueira. Daqui a pouco vai ficar bem quentinho – ele me disse sorridente enquanto tentava se aquecer perto do fogo.
— Alex, vem cá.
— Que? – Ele disse gentilmente e me olhou, preocupado outra vez, como ele era doce!
— É que... Eu... Eu queria te explicar porque... Porque eu te fiz... Achar que éramos namorados – falei um pouco embaraçada.
— Isa, olha... Não fala nada, tá? – Ele disse ao vir se sentar ao meu lado – Não fala porque você tem que descansar, tem que esquentar o corpo, tem que ficar bem, tá bom? Assim, quietinha. Não fala nada.
Meu coração falhou quando ele me abraçou, me deitando contra o peito, e pude sentir os lábios dele contra minha testa. Fiquei literalmente sem palavras. Meu Alex, com quem eu sonhava todos os dias há tantos anos estava me abraçando depois de passar todo aquele tempo cuidando de mim. Sem falar que agora eu teria uma grande e verdadeira história pra fazer aquela Cristarântula soltar aranhas pela boca e subir pelas paredes de raiva. Se não estivesse tão fraca eu teria soltado uma gargalhada enorme quando pensei em Cristina esperneando e se descabelando de raiva e Alex provavelmente pensaria que eu estava enlouquecendo. Eu queria ficar ali pra sempre, com ele me abraçando e me aquecendo e cuidando de mim, mas além de saber que aquele sonho custaria muito alto, meu corpo não estava ajudando.
— Mas... É que eu tô com dor de garganta e tô com muita sede – eu disse de olhos fechados, incomodada com a dor, mas tentando aproveitar ao máximo a proximidade e o calor do meu amado.
Alex beijou meus cabelos e me abraçou mais forte.
— Cantil com água eu não tenho, mas... Olha... Deixa eu procurar água, tá? – Ele falou ao se afastar.
Quando o calor dele desapareceu senti como se me tomassem um pedaço do meu coração e o frio voltasse ainda pior. Alex me olhava, esperando minha aprovação pacientemente. Eu estava de fato operando com mais lentidão por causa da febre.
— Eu só vou ver rapidinho e venho pra cá. Você fica aqui – ele disse afastando o cabelo do meu rosto outra vez.
Tentei protestar, mas eu confiava nele, sabia que não me deixaria.
— Tá...
Alex se levantou e seguiu para perto das janelas. Eu o seguia com o olhar. Só então percebi que estava chovendo. Aquela febre, a dor e a fraqueza, além do som das chamas crepitando na fogueira, haviam me distraído do som da chuva. Alex pareceu pensar durante algum tempo e depois procurou alguma coisa no chão. Tentei me enrolar melhor com o casaco quando a voz dele chamou por mim e o vi se aproximar.
— Aqui... Consegui um pouquinho pra você.
Ele se abaixou ao meu lado e em suas mãos tinha uma grande folha, mas não seca como as outras, e nela havia água da chuva. Alex levou a folha aos meus lábios.
— Bebe devagar, bebe...
Coloquei minhas mãos sobre as dele para guiar a folha até minha boca e bebi lentamente até a última gota, sentindo o incômodo em minha garganta aliviar um pouco. Alex ainda foi outras vezes até a janela e me trouxe mais água. Na última ele rasgou um pedaço pequeno do tecido da camisa que estava sobre meu colo e o molhou na chuva, dobrando-o e afastando meu cabelo, para pôr o tecido úmido em minha testa.
— Isso vai ajudar... Você continua quente – Alex falou ao tocar meu pescoço.
Ele cuidou de mim e molhou o pano mais algumas vezes, o colocando na minha testa até eu começar a ficar realmente cansada. Deitei no chão para tentar dormir. Alex me cobriu e ficou perto da fogueira, me observando. Por vários minutos eu tentei adormecer, mas meu corpo doía e eu não conseguia relaxar. De repente barulhos altos me assustaram em meio ao som da chuva. Pareciam morcegos e pareciam estar bem perto. Abri os olhos e me ergui assustadíssima. Chamei desesperada por Alex e logo ele estava o meu lado, me abraçando de novo enquanto eu cobria os olhos com as mãos.
— Calma. Fica tranqüila, não foi nada. Não foi nada – ele dizia me balançando de leve – Vai ficar tudo bem. A gente vai ficar aqui, junto, e eu vou te proteger.
Me deitei contra ele de novo, sentindo-o beijar e acariciar meu cabelo e me abraçar forte outra vez, afagando meu ombro tentando me aquecer.
— Alex... Se... Se lembra quando... Quando a Cristina... Me trancou no porão da casa dela?
— Como... – Alex começou, surpreso, não se lembrava dos acontecimentos de sua fase de amnésia – Ela te trancou no porão da casa dela?
Eu assenti.
— Mas... Por que?
— Porque... Porque... Ela não queria que ficássemos juntos. E aí você chegou... E então me disse que... Que eu estava no seu coração – eu respondi, com a respiração ofegante, estava me sentindo realmente mal, eu precisava dormir.
Alex me olhou, afastando meu cabelo do meu rosto, e eu não soube dizer se além de surpreso ele estava feliz ou insatisfeito. Eu estava de olhos fechados, mas podia jurar que senti felicidade na voz dele quando disse meu nome em seguida.
— Ah, Isa... – ele falou com um pequeno suspiro.
De repente eu podia sentir o coração de Alex batendo mais forte e acelerado contra meu ouvido.
— Ai Alex... Eu tô... Eu tô ouvindo o seu coração... E ele bate... No mesmo ritmo que o meu, Alex – eu disse baixinho, meio que sem pensar, mas falei com sinceridade.
Percebi que deixara Alex sem palavras e ele não me deu exatamente uma resposta. Gemi de dor de novo, meu corpo estava gritando que precisava de repouso. Abri os olhos brevemente quando Alex se recostou melhor à parede e fez eu me deitar no colo dele, me abraçando outra vez.
— Olha... Nós vamos sair dessa, tá? – Ele começou.
Eu murmurava de dor e me mexia no colo dele procurando uma posição que não doesse ou incomodasse tanto, minha cabeça latejava um pouco.
— Pode ficar calma. Eu vou te proteger. Eu te prometo, tá?
Finalmente eu encontrei uma posição confortável e apenas dei um aceno positivo com a cabeça para as palavras dele, permanecendo de olhos fechados. Alex apertou o abraço quando beijou meu ombro e eu sorri. Não sei exatamente em que momento adormeci, mas em nenhum segundo senti o calor do meu querido Alex se afastar de mim, além da mão dele acariciando meu cabelo quando percebia que eu estava com dor ou quando eu tremia de frio. Aquilo me acalmou tanto que senti meu medo de toda aquela situação evaporar e o som da chuva de repente também me pareceu confortável. A certo ponto percebi que Alex me dizia alguma coisa bem baixinho, mas não pude entender, pois o sono finalmente me tomava e acabei por dormir.
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— Isa...
A voz dele me chamava baixinho, distante, como se fosse um sonho. Só podia ser um sonho, meu amado Alex me acordando? Até que meus sentidos se tornaram mais ativos, senti o abraço firme em minha volta e lábios gentis beijando meu ombro esquerdo. Um calor muito bom vinha de alguma coisa que estava na minha frente, embora o ambiente parecesse frio. Então comecei a me lembrar. Eu estava deitada no colo de Alex, dormindo nos braços deles, estávamos perdidos, em uma cabana, e havia uma fogueira. Eu estava doente, machucada, com dor e frio, e ele tinha cuidado de mim a noite toda. Devia ser de manhã agora, podia perceber a claridade, mesmo com os olhos fechados. Abri os olhos, piscando algumas vezes e senti Alex acariciar meu rosto.
— Bom dia, Isa – ele sorriu – Você suou muito de madrugada até que a febre finalmente passou. Eu fiquei preocupado.
Meu coração saltitava de alegria dentro do peito. Alex tinha acabado de me dizer que estava preocupado comigo?! Eu precisava dividir toda aquela alegria com alguém porque ia transbordar. Estava doida para contar tudo à Gordinha e deixar aquela Crisruína roxa de ciúmes, mas também não queria me separar do meu Alex! Mas aquela era a realidade, em algum momento seríamos encontrados, não podíamos ficar perdidos pra sempre, não que eu me importasse de ficar perdida com ele só mais um pouquinho.
— Você tá bem? Ainda dói? – Alex perguntava com a voz mais suave que eu já tinha ouvido dele.
— Não... – respondi depois de constatar que minha garganta já não doía e sentia apenas pontadas leves de dor no meu tornozelo – Obrigada, Alex. Me desculpa por te obrigar a ficar acordado pra cuidar de mim.
— Não, não, Isa. Você não me obrigou a nada. Quando dormiu você tava tonta, com febre, confusa, com dor, com frio... Eu nunca, nunca, ia deixar de cuidar de você numa situação dessas. Então nunca mais deixa isso passar pela sua cabeça, me promete?
— Tá bom... – falei baixinho.
— Ainda tá chovendo um pouquinho, acho que vai parar, mas ainda dá pra conseguir água. Vou pegar pra você.
Alex me tirou do colo dele e me acomodou no chão com toda a delicadeza do mundo e é claro que meu coração protestou por aquilo. Fiquei deitada no chão vendo o garoto que eu mais amava seguir até uma das janelas com a mesma folha da noite passada nas mãos e depois de beber um pouco de água, trouxe a folha pra mim. Eu já estava bem acordada e me sentia muito melhor, consegui me sentar sem dificuldades e Alex me ajudou a beber.
— Faz muito tempo que amanheceu?
— Mais ou menos uma hora. Devem ser umas seis e meia da manhã agora. Eu acho que a essa hora alguém já deve tá procurando a gente. Nos resta esperar.
Sentamos contra a parede da cabana. A fogueira ainda estava acesa, embora a maior parte dela já tivesse virado cinzas, mas o restante era suficiente para nos aquecer por mais algum tempo. Apertei o casaco em torno de mim. Eu ainda sentia frio, não mais pela febre, mas estava bem frio. Alex pegou o tecido branco da camisa e me cobriu, me abraçando outra vez. Eu não queria saber porque, só queria que ele continuasse me abraçando. Apesar da noite gelada que havíamos passado, a pele dele estava quentinha, provavelmente porque havíamos dormido bem perto da fogueira. Não entendi o que aconteceu em seguida. Alex me abraçou mais forte, suspirou e beijou minha testa demoradamente. Eu queria aquilo mais e mais, ainda que fosse estranho acontecer, pois ele era namorado da Cristarântula. Então lembrei de um detalhe importante. A noite toda Alex não havia tocado uma única vez no nome de Cristina, muito menos se preocupado em como ela deveria estar no acampamento, como se nem existisse.
Eu, Isa, parecia ter me tornado seu mundo. Alex cuidara de mim como se eu fosse uma princesa. Eu quase poderia dizer como se eu fosse “sua” princesa, porque o jeito como ele me abraçava e me olhava... Apesar da nossa situação, aquelas haviam sido as horas mais bonitas e especiais de toda a minha vida. Era como sonhar acordada. Meu Alex, o garoto que eu mais amava, e o mais lindo de todo o mundo pra mim, com quem eu sonhava há tanto tempo, cuidando de mim, me abraçando, beijando meus cabelos, me acalmando. me protegendo e me aquecendo em seus braços por toda a noite... Até parecia ter ficado com raiva ao saber que aquela Tarântula tinha me trancado no porão, pois antes de dormir podia ouvi-lo suspirar de vez em quando como se pensasse, mas dessa vez com raiva. Depois de algum tempo ele se acalmou e me acarinhou de novo até eu dormir. Meu coração doeu. Aquilo me faria sonhar com certeza, mas a queda também parecia tão certa... Por que Alex fazia aquilo comigo? Por que ele parecia brincar com meu coração e ser tão inocente ao mesmo tempo? Não tive tempo de pensar em uma resposta, nem de perguntar a ele, pois batidas e vozes na porta anunciaram que o professor Olimpo e outros alunos haviam nos achado.
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