Acampamento
4 Capítulo 4
Uma breve bagunça se seguiu: garotos chamando meninas pra dançar e meninas desesperadas tentando ser vistas pelos mais bonitos, mas eu estava em paz, bem relaxada, apesar de todo barulho.
Pedro se aproximou de mim, ele parecia um pouco aborrecido, mas sua voz ainda era suave.
— Escuta, Emy... Essa dança, ela é intercalada. Quando o DJ anunciar, vamos trocar de par, e ele provavelmente não fará isso só uma vez. Então... Se por acaso não conseguirmos conversar bem, você poderia me encontrar quando acabar a festa, lá na ponte que eu te levei. Sabe chegar até lá?
— Sei.
— Então ótimo. Até logo, Emy.
Foi difícil não odiar Wes naquele momento. Mas pensando melhor, eu agora teria um encontro de verdade com Pedro. Oh Wes, muito obrigada!
Eu só não entendi porquê Pedro não começou a dança comigo, já que tinha me convidado... Bom, isso pouco importava naquele momento, eu só pensava no encontro. Com tantas "princesas" dançando ali, Pedro escolheu logo eu para lhe fazer companhia, e eu havia adorado isso.
Em pouco tempo todos já estavam com seus pares e preparados para dançar, mas Wes insistia em olhar para mim e mover os lábios dizendo "só começo quando você puxar alguém para dançar!"
Wesley não tinha jeito, queria à todo custo me fazer passar vergonha. Bom, se isso ia fazê-lo me deixar em paz, era isso que eu iria fazer. Havia um rapaz ainda sentado, parecia um pouco desengonçado, e antes de entrar no salão eu o tinha visto fugindo de umas meninas que zombavam dele. Me aproximei com meu melhor sorriso.
— Olá?
— Ah! — ele pareceu sair de um transe — Oi!
— Você não vai dançar essa noite?
— Quem? Eu? Ah não, ninguém quer dançar comigo.
— Oh, pobrezinho- eu respondi com tom de ironia, mas ele pareceu nem notar. — Bem, me chamo Emy. — estendi minha mão, a qual ele apertou sem titubear.
— Guilherme.
— Gostaria de dançar comigo, Guilherme?
Ele fez cara feia, gaguejou, olhou para os lados e quando ia dizer "não" eu resolvi inverter os papéis.
— Ah... Desculpa, você já tem par, não é? É que com tanta menina bonita por ai dançando... Ninguém me tirou pra dançar, e eu resolvi ter coragem e... Ah esquece, bom baile pra você. — disse virando as costas e sem deixá-lo responder, mas em poucos segundos senti sua mão puxando meu braço e me levando até o centro da pista de dança.
Guilherme falou sobre muitas coisas, riu muito e me fez rir de uma forma diferente. Ele tinha a mesma idade que eu, mas não era um novo-exilado, seu único problema era seu TDAH, por causa do transtorno ele sentia dificuldade em fazer amigos ou se aproximar de alguma menina. Ele era lindo, e enquanto dançamos senti olhares de meninas sobre ele o tempo inteiro.
— Atenção, moçada — disse Allan, que quando vi ja estava no lugar de Wes — está na hora do intercâmbio de par!! Vamos lá, não quero ver ninguém continuar com a mesma pessoa!
Guilherme não me soltou quando Allan anunciou que devíamos trocar de par, e eu também não fiz questão, pelo menos enquanto Pedro não interferisse.
Ouvimos alguém pigarrear atrás de nós, e nos viramos:
— E ai, Gui, conheceu minha vizinha?
— Ah, oi Wesley — respondeu ele, com um sorriso e um toque íntimo, quase um abraço em Wesley- é, ela me disse que vocês cresceram juntos.
— Andaram falando de mim, é isso mesmo?
Era perfeitamente compreensível: Wesley era o tipo de pessoa que acolhe todo mundo direto para o fundo do coração dele, eu sentia como se eles fossem irmãos.
— Mas e então, vai me deixar dançar ou não? — Wes perguntou, e Guilherme respondeu que sim, mas ele não resistiu a uma brincadeira: pegou na mão e na cintura de Guilherme, pediu "com licença" para mim e começou uma dança um tanto esquisita entre os dois, onde Wes se sentia completamente à vontade e Guilherme completamente constrangido.
— Bom acho que estou sobrando aqui- disse, pigarreando e quase chorando de rir daquela situação.
— Oh, Emy, não se preocupe, tem Wes pra todo mundo! — respondeu Wesley, soltando Gui e me puxando para longe dele numa dança totalmente desarmonizada e fora do ritmo mas não havia problema, eu estava me divertindo como jamais me diverti em nenhuma festa.
Enquanto passávamos por alguns casais, reparei em Gabi, que estava sozinha. Franzi a testa questionando o que ela estava fazendo sozinha, ela respondeu que seu par estava no banheiro. Apontei para Gui e ela entendeu o recado, depois que ela o tirou para dançar, não os vi o resto da noite.
— Pensa que eu não estou vendo você dando uma de cupido, dona Emilly?
Wes me fez rir a noite inteira. Contou piadas, zombou de mim, me fez voltar ao passado, direto para o tempo em que brincávamos de "pai e filha".
— Ora, Wesley, você adorava essa brincadeira!!
— Claro que adorava! Era a única hora em que eu podia dizer "Emilly, fica em casa de castigo enquanto eu vou trabalhar", e então você ficava quietinha e desgrudava para eu poder brincar com meus amigos!
— Sabia que você foi cafajeste desde criança! Escuta, Wes, ja acabou o intercâmbio de par?
Wesley desacelerou um pouco o ritmo e se aproximou um pouco demais de mim.
— Ér... Eu não sei, porquê? Estou tão ruim assim?
— Ah, qual é Wes! Você vem pra cá desde os oito anos e ainda não aprendeu a dançar!!!
Ele voltou ao normal e riu. Sua risada é contagiante.
— Eu é que vou dormir com os pés enfaixados de tanto que você pisou!
— Droga, Wes. Sempre uma carta na manga, não é? Olha só... Na moral? Estou exausta! Acho que vou pro quarto.
— O que? Mas já? — ele parou a dança e se afastou para me olhar. — Tudo bem então, eu vou com você.
— Imagina, Wes. Pode curtir seu baile! Eu te aluguei o tempo todo, com certeza quer dançar com outras meninas!
— E quero mesmo! Só que você pisou tanto nos meus dedos que agora estou incapacitado — ele se jogou em cima de mim — acho que alguém vai ter que me carregar até meu quarto...
— Ah Wes! Você vai.... Me matar assim... Wes!!! — mesmo de tênis, eu fui capaz de cair no chão com ele em cima de mim. Brincadeira sem graça. Não gostei.
Por cinco segundos, Wesley parou de dar risadas e se concentrou em alguma coisa em mim, o que me deixou muito sem graça.
— O que é? — perguntei, afim de descontrair.
— É que... Você continua a mesma destrambelhada de sempre! Além de acabar com meus pés ainda me derruba no chão! — ele respondeu se levantando e estendendo a mão pra mim.
— Wes, cala essa boca e vamos logo embora. Está ouvindo? É... É minha cama chamando por mim.
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