Acampamento

3 Capítulo 3


Eram 19:30, o jantar começaria às 20:00. Eu definitivamente não tinha me preparado para isso. Quer dizer, eu havia sido avisada de que teriam festas e eventos, mas eu pensei em festinhas tipo de colégio, bem bobas e simples, e foi com certeza o pensamento mais errado que eu ja tive. As garotas estavam eufóricas, com vestidos que mais pareciam de debutantes, os rapazes se perfumavam até os pés, tudo parecia um grande casamento onde todos estavam atrasados.

— De certa forma, é mesmo quase um casamento — disse Mari, e eu nem havia percebido que tinha pensado alto — só que só dura um mês. É esse momento que temos para impressionar os garotos, as garotas, os professores, a direção... Nosso comportamento hoje vai resultar no tratamento do resto do mês. Vamos ver... — continuou ela mexendo nas minhas coisas — Qual é Emy, tem que ter algum vestido por aqui!

Não adiantava ela procurar, eu não tinha nenhum vestido para aquele tipo de festa. Shorts e calças por toda parte, havia um único vestido, que minha mãe me obrigou a colocar na mala, mas ele parecia um trapinho perto daquelas roupas de festa que todos usavam.

Cristo, aquilo seria um jantar ou um baile? Aquilo não era mesmo um acampamento comum.

— Hun, meninas? Vocês podem ir na frente, que eu vou assim que encontrar o meu vestido. Não se atrasem por mim. — disse, mentindo sobre não saber onde havia colocado meu deslumbrante vestido, e tentando fazê-las saírem logo do quarto.

— Você vai mesmo né? Promete? — Perguntou Gabi.
— É claro, guardem um lugar pra mim junto com vocês. — Eu não ia. Rá! Eu não ia mesmo.

Depois de muita conversa fiada, consegui finalmente fazer as meninas saírem, mas sem mencionar que minhas intenções eram ficar trancada naquele quarto DURANTE O MÊS INTEIRO.

Depois que elas saíram, encontrei meu "projeto de vestido" jogado na bagunça do chão, e o vesti, só por curiosidade, pra ver como ficaria. E até que não ficou nada mal. Era um vestido todo delicadinho, manguinha meiga, decote comportado, rodado, rosa (ou cor de pele, nude, sei lá, não era tão rosa assim), e tinha uma faixa preta na cintura com um laço. Super brega, mas era fofo.

Tirei o vestido e estava prestes a deitar apenas de roupa de baixo, mas minha cama estava repleta de roupas. Olhei em volta: o quarto inteiro estava uma bagunça, como as meninas conseguiram fazer aquela zona só pra colocar um vestido e arrumar o cabelo?

"Bom... Alguns vão à festas, outros arrumam quartos" pensei. Vesti um pijama, o mais fresquinho que tinha, pois estava muito calor, e comecei a tentar organizar tudo. Assim que terminei, olhei no relógio: 20:50. Abri minha mala, peguei uma colher e um pote de creme de amendoim, mas quando estava prestes a sentar na cama para comer, alguém bateu na porta.

"Quem ousa interromper um momento tão glorioso, tão formidável?" quis perguntar, mas apenas mudei o rumo e fui em direção a porta.

Era só Wesley.

— Oi, Wes — disse, mas ele não respondeu. Estava com um "Ahh..." engasgado na garganta, com cara de besta ambulante e olhando meu corpo. Havia esquecido que estava de pijama. — Ah, qual é, Wes? Você já me viu só de calcinha, você ja me abraçou só de calcinha, e agora vai empacar com um pijaminha curto? — disse, irônica.

— Ah... É, mas... Ora, Emy! Você não tinha... Isso! — ele disse indicando meus seios — e nem isso! — indicou minhas pernas.

Sempre o mesmo Wes.

— Oh! Seu cretino! — eu disse, fingindo indignação — mas e aí, você só veio aqui pra me ver de pijama e ter certeza de que o tempo passa ou...

— Eu vim buscar você — ele disse, mudando as feições de seu rosto e olhando em seu relógio. — Cinco minutos pra se arrumar ou eu chuto a porta e te levo de pijama mesmo. Te espero aqui fora. — ele disse e bateu a porta, se colocando fora do quarto e me deixando sem escolha. Merda.

Com ele era sempre assim: ou era do jeito dele, ou...

Bom, era sempre do jeito dele.

Coloquei o vestido, soltei o cabelo, passei até perfume, mas na hora de escolher entre um vans cinza e um salto rosa (esse sim era bem rosa, e de Gabi), a primeira opção me pareceu melhor.

Quando saí do quarto, Wes me olhou como se eu fosse a tão esperada noiva.

— Anda, fala vai.

— Falar o quê?

— Que eu estou linda, fantástica e pareço uma garota.

— Eu jamais diria isso — ele disse, rindo e andando na minha frente — afinal, a parte do linda e fantástica talvez... — ele disse, e se interrompeu — agora sobre parecer uma garota...

— Cala a boca, Wes!

— Anda logo, Emy!

*

Ao chegar na entrada da festa, me dei conta que de maneira nenhuma eu iria dormir cedo: já eram 21:40 e o jantar nem ao menos estava sendo servido, nem sequer os organizadores haviam chegado. Hun, eu já estava entediada antes mesmo de começar o tal "baile".

— Emy, eu só tenho que fazer uma coisinha, e já volto, tá?

— Bem a sua cara: trazer uma garota à festa e deixá-la sozinha pra se divertir. — disse, zombando da cara dele, que beijou meus cabelos e sussurrou no meu ouvido:

— Pois é, a diferença é que... Eu não trouxe uma garota!

— Seu paspalho.

— Suas amigas estão ali! — ele apontou para a mesa em que elas estavam enquanto se afastava, e desapareceu da minha vista.

Ao me aproximar da mesa, Gabi e Mari sorriram, e suspiraram, como se acabassem de ver o casal dos sonhos. Mas assim que me sentei, outra coisa, uma bem melhor, eu localizei.

— Emy, o que o maior gato do acampamento viu em você? — disse Gabi, zombando de mim.

— Ah, pode acreditar, ele não é, nem de longe, o maior gato desse lugar... — respondi, encarando descaradamente o par de olhos azuis que havia encontrado, e eles olhavam diretamente para mim.

Pedro estava incrível, é claro. Estava cercado de garotas, mas logo se desvenciliou delas e veio até a nossa mesa. Cristo, como ele era cheiroso!

— Com licença, meninas — disse ele à Mari e a Gabi — posso roubá-la um instante? — ele disse, pegando minha mão e me levando pra fora do salão onde estava a festa.

— Nossa, que lugar lindo! — disse ao chegar à ponte onde Pedro me levou. Ela era pintada de branco, e estava decorada com flores coloridas e folhagem verde. Abaixo dela, um lago imenso e sem graça. Mas e dai, quem faziam os momentos eram as pessoas, não os lugares.

— Jura? Você gostou? Nossa, que bom! Eu não sabia como fazer isso, e você ter gostado desse lugar já foi um bom começo. — disse ele, eu sorri e o olhei confusa. — Escuta, Emily... Depois do Jantar de Iniciação, sempre tem um baile... E depois uma baladinha, é claro, mas esse baile... Olha é um baile normal — ele sorriu e encarou o lago. Ficava tão lindo envergonhado...

— Calma Pedro, é só dizer — eu disse sorrindo, tentando deixá-lo mais confortável.

— Eu não trouxe ninguém pro baile, então... Será que você gostaria de dançar comigo?

— Ah, dançar... Eu não sei dançar... — comecei a falar, mas ele havia ficado tão nervoso por esse momento, e fez um olhar tão decepcionado... Eu não pude resistir — Bom, eu faço um esforço — ele sorriu e me abraçou — mas já peço desculpas por pisar em seu pé desde de já.

Nós rimos um pouco e ele me levou de volta ao salão. Disse que como era da direção, tinha que fiscalizar o salão o tempo todo, e não poderia ficar ali conosco, mas que na hora da dança ele voltaria para me buscar.

Assim que ele saiu, as meninas me encheram de perguntas, e estavam bem mais ansiosas do que eu para essa tal dança.

— Menina, vê se deixa algum bonitinho pra gente!! — disse Mari, divertida e fingindo constrangimento.

— Não se anima não Mari — disse Gabi — o baile nem começou e ela já tem par, imagina só o troca troca de parceiro que não vai ser...

Nós três rimos, mas eu não estava nem ai para outros pares, por mim dançaria a noite toda com ele. Aquele jantar agora já não me parecia má idéia...

Por conta do atraso dos organizadores, o jantar já estava sendo servido. Engraçado, eu estava sem um pingo de fome.

Todo mundo estava comendo e conversando, quando eles finalmente deram as caras pelo salão, e assim que entraram, os veteranos se levantaram e começaram a fazer barulho e bater palmas.

— Desculpem pelo atraso, crianças, se eu fosse gay não teria tanto problema, mas escolhi me casar com uma mulher e desde então nunca mais consegui chegar na hora certa em lugar nenhum — ele era um homem de uns quarenta anos, mas parecia cheio de energia como uma criança. Sua mulher, que estava ao lado, fez cara feia e deu-lhe um empurrãozinho. — Meu nome é Allan, e eu desejo à todos uma boa noite!!!

Ele disse em voz alta ao que todos responderam não com um "boa noite" de volta, mas com muito alvoroço e barulho.

— Eu sou a Helena, motivo dos atrasos, esse verão será diferente. Ah sim, temos uma nova proposta para vocês! Mas não se animem, rapazes: mocinhas no quarto de mocinhas e nada de marmanjo em suas camas!

Os garotos soltaram um ''ahhh'' de decepção. Eu realmente havia simpatizado com aquele casal tão peculiar.

— Para os novos exilados — Helena continuou — as regras são: se sair na porrada com alguém, está fora; se roubar ou danificar algo de outra pessoa, está fora; se trapacear em alguma atividade, está fora; se sabotar alguma apresentação, está fora; se ocorrer algum tipo de relacionamento que não seja profissional com os não-exilados, está fora. Basicamente, podem fazer o que quiserem aqui, tudo o que é proibido lá fora, tambem é por dentro dos muros. Certo?

— E agora que o amor da minha vida disse as partes chatas,vamos à diversão!!! — todo mundo vibrou, era essa a parte tão esperada da noite.

— As atividades obrigatórias deste ano serão aulas de música e de natureza, podem escolher a matéria que quiserem. E é só pessoal, esse ano não tem mais atividades!!! Chega de quatro matérias por verão! — uma nova onda de barulho encheu o salão — porém, esse mês teremos gincanas. Vocês serão divididos em quatro grupos, e no final do mês terão uma recompensa. Os grupos foram divididos entre Birds, Monkeys, Snakes e Tigers.

— Ao acabar a festa, olhem dentro do travesseiro que escolheram, e encontrarão uma carta com o animal que representará seu time. O nosso Sarau ira acontecer, porém, não sera mais de noite: como nos saraus tradicionais, será feito de madrugada, com início às 00:00 e término às 6:00. Nos teremos também esse mês um... Musical. Serão selecionadas algumas pessoas de cada time, e ficarão responsáveis pela história e pelas músicas, daremos mais detalhes depois.

— Bom galera, por enquanto é isso. Os detalhes da gincana, das aulas e dos eventos nós daremos por essa semana para vocês, enquanto isso... Divirtam-se na festa!!!

Nessa hora, um DJ surgiu em um palco que eu ainda não tinha reparado, e começou a tocar uma música lenta. Reparei nele : era ninguém menos que Wesley. Não consegui conter uma risada ao vê-lo ali comandando aquela máquina, comandando uma festa inteira.

Minha atenção logo foi tomada pelos olhos azuis que se aproximavam, já com um sorriso envergonhado no rosto.