Academia S
1 Capitulo 1 - Nó de Carrasco (Parte 1)
Notas iniciais
Capitulo Um
Nó de Carrasco
“Ás vezes penso como seria curioso ter um vislumbre do futuro, uma rápida visão de fatos que nos aguardam numa data não revelada. E se pudéssemos espiar por um minúsculo buraco no Tempo e dar por acaso com um lampejo do que virá anos à frente? Alguns desses momentos não teriam sentido para nós, e desconfio que outros nos assustariam além do suportável. Se soubéssemos o que assoma no horizonte, evitaríamos certas coisas, escolheríamos a opção B em vez de A na bifurcação da estrada (...). O Tempo, claro, corre apenas num sentido. Aqui, no vazio e pétreo presente, estamos abrigados do conhecimento dos riscos que nos esperam, protegidos dos horrores futuros por uma ignorância cega.”
— Sue Grafton
Os passos pela rua eram ligeiramente trêmulos, mas constantes. Ela não parou na quitanda que adorara descobrir dias atrás, nem na casa da vizinha da frente, que já havia se mostrado amável e divertida. Foi direto para casa, onde abriu a porta com certa dificuldade, a tranca já não era nova e emperrava, e ainda tinha de lidar com a sacola de compras que carregava.
Depois de alguns segundos de batalha conseguiu entrar e, assim que pôs o pé na sala, olhou toda a extensão do cômodo ainda por decorar, assim como a pequena cozinha que tentava se esconder atrás de apenas um balcão divisório. Aquilo fora seu sonho por tanto tempo. Não desejara um casarão ou nada do tipo, apenas um lugar pra chamar de seu e que pudesse compartilhar com quem amava. Ficara tão feliz e empolgada ao receber as chaves que jamais diriam que a mesma garota que faltara dar pulinhos dias antes fosse a mesma que agora apenas franzia o cenho e era incapaz de sorrir.
Pôs as chaves sobre a mesinha onde a caixa de livros e revistas ainda esperava por ser esvaziada. Caminhou em direção a cozinha, onde colocou a sacola de compras sobre o balcão e fitou o exterior pela janela. Seu pequeno jardim dos fundos estava descuidado, o que a fez lembrar dos planos de plantar algumas flores ali. Sua mão tremeu levemente.
Ela a enfiou dentro do saco plastico e retirou a única coisa que comprara naquele dia, um metro de corda. O segurou brevemente antes de fazer um delicado e firme trabalho trançado, parando apenas quando atingiu seu objetivo. Em suas mãos a corda não era mais apenas uma reta. Foi quando começou a chorar. Algumas gotas apenas, seguidas de pequenos tremores no corpo, mas se houvesse alguém ali não teria deixado de perceber que havia algo errado. Não havia.
Mesmo com as lágrimas, certificou-se de que o nó era resistente o bastante com um puxão forte. Ele manteve-se intacto. Suas mãos passaram a tremer mais. Ela estava totalmente consciente de seus atos. Voltou para a sala apenas para chegar a escada que existia em seu pé esquerdo e levava ao próximo andar. Seus pés se moveram continuamente ate superar todos os degraus, pararam apenas alguns segundos antes de voltar a caminhar em direção ao seu destino. O quarto no fim do corredor.
Girou a maçaneta e a porta se abriu facilmente, o ambiente tão convidativo quanto sempre, mas desta vez o convite era negro. As lágrimas aumentaram, ela não iria parar. Iria até o fim, sabia disso.
Andou alguns passos pelo cômodo e parou ao centro, de costas para a janela que ela deixava sempre aberta para que uma brisa agradável pudesse resfriar o lugar, retirou a varinha do bolso com uma das mãos e apontou para a corda que permanecia na outra:
— Levites – murmurou gaguejante.
A corda levitou sobre sua mão, subindo até se distanciar alguns centímetros acima de sua cabeça. Balançou ao receber as lufadas de ar e a varinha caiu no chão com o som oco do encontro de madeira contra madeira.
Pegou então uma das caixas colocadas a um canto e posicionou-a embaixo da corda a levitar. Subiu na caixa e encaixou a corda em seu pescoço com um único gesto.
— É o fim – pensou, enquanto com a ponta dos pés empurrava a caixa para longe de si. Seu único apoio. Seu corpo ficou a levitar junto com a corda e tremeu por alguns segundos em espasmos, não que seu corpo lutasse para viver.
Fale com o autor