Academia Prodígios - Interativa
2 Capítulo 2
Notas iniciais
[17/10/2016 – Isadora]
Isadora Lobos franzia o rosto em caretas inquietas rapidamente, se olhava no grande espelho de seu quarto e jogava os fios castanhos de seu cabelo de um lado para o outro, como se ele fosse ficar perfeito magicamente. Não iria. Por um segundo teve vontade de pegar seu celular e ligar para o número já tão conhecido por si, apenas para perguntar ao dono do número como ficava mais bonita, e sabia que ele riria de si e diria que ficava linda de todas as formas, mas não ligou. Ele devia estar com a namorada, namorada que, infelizmente, não era ela.
Voltou a focar seu olhar em seu próprio reflexo, era bonita com seus cabelos castanhos e olhos escuros, e também tinha suas adoráveis covinhas nas bochechas, jogou o quadril para o lado em um passo de dança que deveria ser perfeito e preciso, mas não foi. Pousou a mão sobre o quadril ao sentir uma pontada de dor, sua expressão era de frustração, no dia seguinte seria sua audição para a Academia Prodígios, e não passaria pela dança.
Uma sensação gelada percorreu o estômago da morena, tinha plena certeza de que iria passar na audição, tinha talento o suficiente, mas não conseguia evitar aquele nervosismo que parecia devorá-la de dentro para fora. Havia lido sobre como eram as audições, já havia alguns posts na internet sobre isso, eram três as pessoas que iriam lhe pontuar, o diretor da academia, uma professora de dança e uma professora de canto. Todos os testes eram gravados e os que fossem classificados com as maiores notas recebiam vagas.
Seu celular tocou e logo o puxou de cima de uma pequena mesa, se jogou na cama olhando para a tela, sorriu ao ver a palavra "lindeza" acompanhada de um coração, atendeu–o rapidamente.
—Doritos. –a voz do outro lado da linha a chamou pelo mesmo apelido que usava desde seus 10 anos, sem qualquer formalidade ou cumprimento antes. –Vou sair com a Patrícia hoje. –voltou a falar, Isadora murchou consideravelmente.
—Pensei que já estivesse com ela. -resmungou em resposta.
—E estou, mas eu vou para uma festa com ela mais tarde. –explicou em um tom simpático. –Não fique com ciúmes, Dora, você sabe que a Patrícia morre de ciúmes de você.
—Não estou. –mentiu, e sabia que ele havia percebido.
—Dora, eu liguei mesmo pra perguntar se eu posso dormir ai hoje, amanhã tem o teste e estou tendo problemas com a minha mãe. –a voz dele diminuiu do outro lado da linha, sempre diminuía quando ele falava sobre um problema.
—Pode, Arthur. -falou carinhosamente, quase como se falasse com uma criança.
—Ok. Tenho que ir, te ligo depois, amor. –e assim que ele terminou de falar e a garota murmurou um baixo tchau, ele desligou a ligação.
Isadora deixou o celular cair na cama, e por poucos minutos encarou o teto apenas tentando não pensar em nada, e logo se entregou ao sono.
[18/10/2016 – Mel]
Mel Bergamo não estava se sentindo exatamente bem, mas pelo menos não havia vomitado como cinco pessoas naquela ampla sala já haviam. Estava ansiosa e insegura, tinha muito talento, mas quantas pessoas naquela sala não deviam ter tanto ou até mais que ela? Pela quantidade de pessoas usando sapatilhas ali, achava que pelo menos uma.
Tentava controlar sua ansiedade e acalmar o nervosismo que estava sentindo, mas até o momento não estava funcionando muito bem. Mel apertava suas mãos uma contra a outra, uma mania que sempre aparecia quando estava nervosa, talvez fosse uma forma de se acalmar. Um novo nome foi chamado, Otávio Arantes se não se enganava, mas havia sido difícil escutar com alguns gritinhos femininos que surgiram. Não olhou para o garoto, mas percebeu quando ele passou por si com seus tênis pretos e seu andar confiante, confiança que ela queria ter naquele momento.
Um homem moreno e forte entrou na sala, era um professor e, naquele dia, um juiz. Vestia uma calça preta e regata branca, quase a mesma roupa que si, a diferença era que Mel usava legging e no lugar dos tênis havia delicadas, e ao mesmo tempo resistentes, sapatilhas.
—Todos os que vão fazer audição por esporte, me sigam. –a voz grave soou na sala e várias pessoas se levantaram para segui-lo, e de alguma maneira aquilo a deixou mais tranquila.
—E se eu não passar? –um garoto moreno perguntou para a garota que estava ao lado de Mel, a garota ao lado abriu um sorriso.
—Mas você vai, Arthur. –sussurrou para ele e tocou a testa do garoto com os lábios, pareciam se conhecer a anos. –Eu te desejaria boa sorte, mas você tem talento demais para precisar de sorte. Quebre a canela deles, meu anjo. –ela encorajou o garoto, que sorriu parecendo mais disposto com o encorajamento.
—Arrase com eles, Dora. –o tal Arthur falou antes de sair da sala seguindo o professor e o não tão pequeno grupo.
Antes mesmo que Mel pudesse desejar que alguém estivesse ali com ela, mas não podia pois ali só entravam participantes, o garoto que havia entrado no auditório saia e outro nome era chamado, e para seu nervosismo aumentar, era justamente o seu. Levantou-se da cadeira onde estava sentada, e foi em direção a sala com passos lentos, apertava as mãos com ainda mais força e seus lábios estavam secos, se permitiu olhar para cima uma vez, e entrou naquela sala de cabeça erguida.
Caminhou até o palco que havia naquele gigantesco auditório, só havia três pessoas ali, quatro se contasse consigo, mas aquilo era o suficiente para seu estômago se revirar. Não tinha medo de palco, pelo menos não muito, mas o ballet era seu sonho, e não podia desistir dele por causa de um medo.
−Mel Bergamo, certo? –o único homem na sala perguntou com um sorriso simpático, como quem tentava passar confiança para si. Assentiu, sentia que gaguejaria se tentasse falar. –Tem quinze anos e pretende fazer uma apresentação de ballet. –ele continuou, lia aquelas informações em um tablet pelo que Mel conseguia ver. –Bom, boa sorte.
Uma música começou a tocar e naquele momento Mel deixou todo o nervosismo sair de seu corpo, primeiro com movimentos tão lentos e delicados que parecia estar flutuando, e em algum lugar dentro de si realmente estava. Mexia o corpo com graciosidade e leveza, e aumentava o ritmo de seus passos conforme a sinfonia se tornava mais rápida, não havia mais insegurança ou nervosismo, e naquele momento voltara a ser apenas uma garota com um esplêndido talento.
[20/10/2016 – Nícolas]
Nícolas Figueira era conhecido, talvez não tanto quanto gostaria, mas era. Jogado numa cadeira um tanto desconfortável, com suas roupas surradas e marcadas por tintas, esperava seu nome ser chamado enquanto observava duas garotas que estavam paradas perto de si, não havia tantas pessoas naquela sala quanto nas outras, talvez tivessem feito os testes outro dia, ou simplesmente não houvesse muita gente que soubesse pintar e esculpir.
Ao seu lado, pendurada na cadeira, estava uma bolsa onde havia guardado suas melhores pinturas e esculturas para apresentar naquele "teste", para Nick eram apenas formalidades, iriam passá-lo por seu nome, era claro. Seu nome foi chamado fazendo com que se levantasse, sendo obrigado a tirar seus belos olhos verdes-mar das garotas, pegou sua bolsa e se dirigiu a sala com um sorriso.
—Hum... Nícolas Figueira, né? –a mulher na sala de testes perguntou assim que o loiro terminou de fechar a porta, seus olhos estavam presos em um pequeno notebook que estava apoiado sobre suas pernas. –Por que eu devo te passar neste teste? –ela perguntou direta, surpreendendo Nick. –Não se sinta agredido, é uma pergunta padrão para você falar sobre seus talentos artísticos. –ela explicou ainda sem olhá–lo, e dali o loiro só era capaz de ver um rabo–de–cavalo tão loiro quanto seu cabelo e a forma de um nariz pequeno e delicado. –Que eu espero que sejam melhores que os das dez últimas pessoas que vieram aqui. –ela murmurou baixo, mas Nícolas conseguiu ouvir e deu uma pequena risada, a mulher finalmente levantou o rosto, fazendo a boca do garoto se escancarar.
Ela tinha uma pele clara como se nunca houvesse pegado sol, os cabelos loiros estavam perfeitamente presos, e seu nariz era tão certinho quanto parecia, tinha lábios pequenos e rosados, porém o mais interessante em seu rosto eram seus peculiares olhos em um tom de violeta, e mesmo assim não havia sido isso que chamara a atenção de Nícolas. Amethista Soares, aquela poderia mesmo ser a artista brasileira mais famosa dos últimos três anos? Havia estado em exposições dela!
—Pelo visto sabe meu nome. –ela comentou com as bochechas rosadas, ficava com vergonha sempre que alguém a reconhecia.
—Amethista Soares. –ele falou e ela assentiu, apenas confirmando que realmente era ela. Parecendo tímida e um pouco desajeitada, voltou a falar:
—De qualquer maneira, preciso ver seus trabalhos. –Nick puxou de dentro da bolsa duas pastas, uma apenas de desenhos e outra de pinturas, e entregou nas mãos dela.
Observou as expressões que a garota fazia ao observar suas obras, parecia gostar de algumas, já outras não lhe chamavam tanto a atenção mesmo sendo excelentes, e ela demorava mais tempo nas pinturas de rostos, onde se concentrava em verificar se cada um dos traços havia sido feito com perfeição. Assim que terminou de ver todas as obras das duas pastas escreveu algo no notebook e voltou a olhá-lo, lhe devolvendo seus pertences.
—Faz escultura? –ela perguntou e o garoto assentiu, tirou três esculturas não muito grandes de dentro da bolsa e entregou-a. Ela observou cada mínima formação e canto como uma crítica artística teria feito, e logo anotou mais alguma coisa em seu notebook, devolvendo as esculturas para ele. –Muito boas. –ela elogiou brevemente e ganhou um sorriso e um agradecimento em troca. –Mas preciso que me prove que tem talento. Entenda, não posso simplesmente acreditar que as pinturas são da pessoa que me apresenta-as, apenas hoje houveram sete pessoas me apresentando obras que não os pertence. –ela se explicou novamente. –Não gosto de duvidar do talento das pessoas, mas como deve saber muitas pessoas estão fazendo o teste para que eu possa confiar que todas tem talento real para as artes.
– Certo. –Nícolas concordou, cada um daqueles trabalhos realmente pertenciam a ele, a loira lhe entregou um caderno para desenhos já aberto em uma folha branca, lápis, borracha, e uma caixa de lápis e canetinhas.
−Caso prefira fazer uma pintura, pode usar aquela tela. –apontou para uma tela branca grande sendo segurada por um cavalete de madeira no canto da sala. –Só, pelo amor de Deus, não me diga que prefere fazer escultura. Estou morrendo de dor nas costas e ate agora todos que resolveram fazer esculturas me mostraram cachorros ou bodes de argila, daquele tipo que a gente faz quando tem sete anos e muito tempo livre.
Depois de alguns minutos onde o garoto se focou completamente em seu desenho e Amethista voltava a escrever algo em seu notebook olhando para ele algumas vezes, Nícolas terminou seu projeto e virou-o para ela, que arregalou os olhos surpresa.
−Eu estou bonita assim? –perguntou ao observar com atenção o desenho de seu rosto sendo segurado bem a sua frente. Estava perfeito, como se fosse um espelho, e a única coisa que não estava exatamente igual a ela eram os olhos, o que ela entendia considerando que não havia aquele tom nos lápis de cor. –Bom... Aguarde o resultado sair, será liberado no site da Academia Brasileira para Prodígios no dia 17 de janeiro. Boa sorte. –Foram as ultimas palavras dela antes de chamar outro nome.
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