Minha cabeça estava recostada no vidro do carro, meus olhos pesavam e bocejei. Meu irmão dormia ao meu lado, e meus pais conversavam baixo nos bancos da frente. Já havia dormido, há alguns minutos, mas a ansiedade me acordara. Já estávamos viajando pela interestadual a mais de uma hora. Meus hematomas ainda doíam, mas amenizaram, graças à compressa de gelo que compramos em um mercado de beira de estrada. Meu pai também havia comprado alguns chips, que comi em cinco minutos, devido à fome que eu estava.

A rua estava escura, e a floresta que a circundava era totalmente sinistra. Minha mãe disse que chegaríamos em algumas poucas horas, então simplesmente deixei o sono me vencer.

Acordei quando estávamos adentrando em uma cidadezinha pacata. A rua era revestida de paralelepípedos, e as casas possuíam uma decoração bastante rústica. Tudo aqui era bem diferente de Londres, onde eu vivia. A cidade estava completamente adormecida, olhei no relógio do carro, já passava de uma da manhã. Mas ainda sim, essa cidade possuía uma vida noturna ativa. Vários homens e mulheres estavam em alguns bares, sorrindo e com copos de bebidas nas mãos. Alguns nos olhavam, quando passávamos de carro, mas nenhuma suspeita era levantada. Seus rostos continuavam com aquela alegria, que eu acreditava ser fornecida pelo álcool. Meu pai estacionou o carro alguns quarteirões depois, em uma ruela que não havia saída. A rua era bem bonita, com casas dos dois lados e postes com uma iluminação amarelada, que dava certo charme ao local.

– Crianças, sejam bem vindas a Arayan. – meu pai disse. Sua voz carregava um pouco de nostalgia.

Arayan, o nome daquela cidade ricocheteou um pouco em minha cabeça. Então, esse seria o meu novo lar. Uma parte de mim estava feliz, mas outra parte queria uma vida normal, longe disso tudo. Lembrei-me de quando minha mãe me disse sobre esses povos, com certeza nessa cidade teria lobisomens, e outras criaturas andando por ai. Terei que me acostumar com isso; fiz uma nota mental.

Descemos do carro, e descarregamos a pouca bagagem que trazíamos. Que consistia simplesmente em alguns alimentos que compramos no mercado da estrada. As únicas roupas que possuíamos no momento, eram a que estávamos vestidos. Apoiei minha sacola no porta-malas do carro, e amarrei meu moletom na cintura. Mesmo estando de madrugada, o clima aqui era bem seco, e não fazia frio. Nem sequer estava ventando.

Meu pai nos conduziu para uma casa no lado direito da rua. Como todas as outras, essa era bastante rústica. Suas paredes eram feitas de uma rocha bastante espessa, e o telhado era de madeira vermelho. Suas janelas eram grandes, e uma varanda bastante antiga circulava a casa. A casa em si estava com um aspecto de descuidada, os anos sem um habitante poderia fazer isso. Imaginei de quem seria a casa, quando minha mãe sanou minha dúvida.

– Essa será nossa casa daqui para frente, gostaram?

– Nossa? Vocês a compraram quando? – perguntei surpreso.

– Assim que nos casamos. Saímos da aldeia para morar em Londres, e a deixamos aqui, caso precisávamos. – Meu pai me respondeu dessa vez. – Graças aos céus, não a vendemos mês passado Edna, para custear aquela viajem. – Meu pai falou novamente quando chegamos à porta da casa. Ficamos parados alguns segundo na porta, até que meu pai tascou um selinho em minha mãe. Eca; pensei.

Meu pai tirou uma chave antiga do bolso, e destrancou a porta com um estalo. A porta de madeira era pesada, e rangeu um pouco ao ser aberta. Adentramos a casa, tinha teia de aranhas no teto, e o ar aqui dentro fedia a mofo, mas nada que uma janela aberta não resolveria.

– Legal. – Sammy disse quebrando o silêncio.

Fizemos um pequeno tour pela casa. A casa por dentro era tão rústica, quanto fora. As paredes eram pintadas com uma cor bem forte, e os móveis eram de madeiras antigas. A casa possuía dois andares, no segundo era onde ficavam os quartos. Logo escolhi onde seria o meu. Era o maior quarto da casa, e tinha uma vista incrível, e só o consegui porque era meu aniversário. A vista dava para um castelo majestoso ao longe, que descobri mais tarde, seria onde eu estudaria. Depois de andarmos pela casa, e ter escolhido todos os quartos, descemos para a cozinha e minha mãe preparou uma refeição simples com a comida que tínhamos. Almôndegas, batata cozida e salada de brócolis. Não era a melhor combinação, mas era o que tinha para o jantar. No final, a comida estava boa e nos satisfazemos.

Depois de acabar o jantar, ajudei minha mãe a tirar mesa, e lavar a louça. Enquanto ela lavava, eu as secava. Meu pai continuava sentado à mesa, lendo jornais antigos e meu irmão cochilava com a cabeça recostada na mesa.

– Prometo que irá se acostumar, é só uma questão de tempo. – minha mãe me disse, enquanto eu sacava os talheres.

– Sim mamãe. Tudo aconteceu muito rápido, mas prometo que darei o meu máximo. – disse de volta. Meu pai se levantou e acordou meu irmão, cochichando algo em seu ouvido. Sammy deu um pulo da cadeira, e saiu com meu pai da cozinha.

– Eu sei que vai filho. E posso garantir você irá amar a nova escola. E como vão os machucados? – ela perguntou enquanto secava as suas mãos em um pano de prato.

– Vai bem, mãe. Depois da compressa de gelo e os analgésicos, estão bem melhores. Só preciso de uma noite de sono, e tudo ficará bem. – terminei de secar a louça, e me sentei novamente na cadeira. – E, aliás, quando começam as minhas aulas?

– Provavelmente amanhã, ou daqui a alguns dias. Você já possui idade suficiente, teremos que ver se o ano letivo já se iniciou. – ela me respondeu. – E falando em ter idade suficiente...

Assim que minha mãe fechou a boca, meu pai e o Sammy entraram na cozinha carregando um bolo – ou melhor, um mini bolo – com algumas velas acessas, suas chamas dançavam enquanto meu pai se aproximava. Meus olhos marejaram, eles não haviam esquecido. Já era quase quatro da manhã, as primeiras horas do meu décimo quinto aniversario. Minha família cantou um breve parabéns, e me abraçaram, um de cada vez, me desejando felicidades. Minhas lagrimas rolaram, mas dessa vez de felicidade. Eu amava a minha família.

– Não é muito, Math. Mas com tudo isso acontecendo, foi o máximo que podemos fazer, espero que entenda...

– Claro que ele entende Wilde. Nós o compramos naquele mercado. Pedimos para a que balconista enrolasse de modo que você não desconfiasse. E você não desconfiou. – minha mãe disse. Ela pegou o bolo das mãos de meu pai e me entregou. – Faça um pedido, querido.

Eu segurei aquele bolinho como se fosse algo muito precioso. Ele era de chocolate, com alguns confeitos e glacê. Fechei meus olhos. Que a minha família sempre seja assim, inabalável. Pedi com todas as minhas forças e soprei as velinhas. Todos me olhavam ansiosos. Minha mãe limpou uma lágrima fujona do canto dos olhos.

– Foi o melhor aniversário de minha vida...

Eu mordi o bolo, e o passei, para que todos pudessem morder também. Quando chegou em Sammy, ele o pegou e correu para seu quarto. Todos rimos. Depois de mais alguns abraços, subi para o meu quarto. Meu dia havia sido longo, vários acontecimentos. Tomei o banho mais rápido de minha vida, e corri para a cama. As cobertas até o queixo. O travesseiro era macio, meus olhos lutavam contra o sono. Permiti-me cair em um sono profundo. E naquela noite, sonhei com um futuro bastante promissor.

Notas finais
Espero que gostem... Deixem sugestões. XO