Notas iniciais
Espero que gostem, pessoal.

Uma risada seca e amarga surgiu novamente, mas desta vez não consegui segurar. Gargalhei, não havia sido uma piada, nem nada, mas aquilo tudo era muito estranho. Sempre soube que eu era diferente, e tals, mas não chegando a esse ponto. E o pior de tudo, é que eu achava que minha mãe estava louca.

Ela me olhou, com olhos de quem já esperava essa reação, ou uma pior. Tirou as mãos dos meus ombros e as passou em meus cabelos desarrumados. A calma que vinha de minha mãe era quase palpável. Como ela podia estar calma, nessa situação; pensei. A minha crise de riso inesperada cessou. E as feições de minha mãe continuavam impassíveis.

– Mãe, por favor. Como você pode brincar em uma situação dessas? Eu... Eu não estou entendendo mais nada. – disse. Minha mãe se afastou de mim abruptamente, colocou suas mãos no chão da floresta, e ficou longos segundos assim.

– Filho, você precisa acreditar em mim. E tem que ser logo, seu pai já está chegando. – ela disse, e se levantou. Seu olhar agora era de urgência.

– Mãe... Vamos parar com essa loucura. Desde quando eu sou um... Mestiço? Isso não pode ser. – meu desespero aumentava a cada minuto.

– Desde quando você nasceu, ora. O mundo é muito mais do que seus olhos podem ver, Math. Uma sociedade secreta existe nesse mundo. E fazemos parte dela. – Ela pegou minha mão, interrompendo a historia. – Venha comigo, precisamos encontrar um lugar estratégico, e prometo que te contarei tudo que quiser.

Eu a segui, relutante. Obriguei-me a me mexer. Afinal, ela era minha mãe, e não importa o que acontecesse, ela me protegeria. O sol já não era mais visível no céu, que adquiriu uma coloração azul escura, quase roxa. A chegada do anoitecer lançava sombras fantasmagóricas nas arvores. Engoli em seco. O frio já estava ficando insuportável, eu daria tudo por um casaco e um sanduiche. Subimos um pequeno morro de grama e no sentamos em uma pedra degastada pelo tempo.

– Agora, me conte tudo que sabe. Antes que eu saia correndo, e te chame de louca. – minha mãe me examinou, e um sorriso surgiu em seus lábios.

– Ok. Filho, a nossa família é bastante diferente das demais, temos sangue magico. – Ela deve ter notado minha incredulidade. – Sim, sei que soa estranho, mas você e seu irmão são mestiços. Logo, seu pai é um vampiro e eu sou uma bruxa.

Aquilo ficava cada vez pior. Bruxa, vampiro? Isso não estava acontecendo.

– Existe uma sociedade secreta, composta por criaturas com sangue magico. E nós somos parte deles. Nessa sociedade existem lobos, vampiros, bruxos, guerreiros e mestiços. Muito deles vivem em aldeias separadas do mundo humano. Muitas guerras já ocorreram, e muito sangue magico já foi derramado. Os humanos são cruéis. Você me entende.

– Não, claro que não. Mas achei essa historia bem foda. Porque não me disse antes? – perguntei.

– Você era uma criança, não merecia carregar esse fardo. Já íamos te contar em breve, seu aniversario de quinze anos é amanha. Todos os jovens da sua idade vão para uma escola especial, onde aprendem a desenvolver os seus poderes. – minha mãe disse, seu rosto estava límpido.

– Escola? Porque não moramos nessas aldeias, mãe?

– Sim, Math. Uma escola. E sua vaga já esta garantida, você começara amanha. – meus olhos arregalaram um pouco. Uma escola nova, pelo menos eram pessoas esquisitas iguais a mim. – E não moramos nas aldeias, pelo simples fato de querermos ter uma vida normal. Quando seu pai e eu nos casamos, eu não podia ter filhos. Pensávamos que seríamos apenas nós dois, e resolvemos morar fora da aldeia. Ter uma vida normal, trabalhar, ter um futuro melhor. Mesmo não gostando muito de humanos. Na nossa sociedade, os trabalhos são escassos. As melhores profissões ficam para os burgueses. Depois de alguns anos casados, você nasceu. Foi o dia mais feliz de minha vida. Cogitamos voltar para a aldeia, mas resolvemos que era melhor não. E decidimos que quando chegasse a hora, você saberia e estudaria na Academia Lotus.

Ela acabou de falar. Meus olhos estavam marejados, aquela historia me comoveu. Eu não queria acreditar, mas sim, era verdade. Eu era meio vampiro, e para acrescentar, meio bruxo. O Cristhian que me aguarde; pensei. Eu olhei para minha mãe, ela me estudava apreensiva.

– Eu acredito em você. É tudo muito louco, mas isso sou eu. Sempre quis me descobrir, nunca pensei que seria assim, mas consegui. Agora sei quem sou. – disse. Uma lagrima rolou na bochecha de minha mãe.

Ela passou os dedos em minha bochecha, onde o Cristhian havia socado mais cedo. Uma leve dor me atingiu, quando ela me tocou. Não me importava, aquilo era um carinho. E eu precisava muito de um pouco de carinho. Minha mãe me olhou por mais alguns minutos, e depois pôs as mãos novamente no chão.

– O que esta fazendo mãe. – perguntei.

– É um dos meus poderes. – ela me respondeu alguns segundos depois. – Sou uma bruxa. E cada bruxo tem afinidade com um dos elementos, o meu é a terra. Eu posso escutar as pessoas por meio da terra, e fazer aquilo com a defesa viva.

Lembrei-me de minha mãe fazendo uma barreira com as arvores.

– Eu terei esses poderes? – perguntei. Minha empolgação estava aumentando.

– Não necessariamente esses. Mas terá sim. – Meus olhos brilharam, eu teria poderes. Um silêncio caiu sobre nós. – Seu pai e seu irmão, estão aqui.

Alguns segundos depois meu pai surgiu de trás de um arbusto, com meu irmão logo atrás. Minha mãe correu ate eles e os abraçou. Eu fiz o mesmo.

– Como vai o nosso garotão. – meu pai perguntou, passando a mão em meus cabelos, despenteando-os mais ainda.

– Ele sabe de tudo, Wilde. – minha mãe o respondeu, pegando meu irmão mais novo, Sammy, no colo.

– Sabia que você não me esperaria Edna. E como ele reagiu? – meu pai sorriu.

– Ei, eu estou aqui. Parem de falar como seu eu não estivesse presente. – gritei para os meus pais.

– Melhor do que eu imaginava, senão teria que amarra-lo em uma arvore. – eles me ignoraram e sorriram. Bufei.

– Como vocês chegaram aqui. – mudei de assunto.

– O carro está na estrada. Passamos em casa, está um caos. Acho que somos procurados. Teremos que voltar para a aldeia. – meu pai respondeu, parecendo triste.

– Estou com medo. – Sammy disse, quebrando o silêncio.

– Sammy tem razão, já está escuro. Temos que sair daqui. – Minha mãe disse e começou a andar em direção ao carro.

Meu pai e eu a seguimos. Nosso futuro agora estava incerto, nossa casa foi destruída e eu teria que frequentar uma escola com pessoas magicas. Meu mundo tinha acabado de virar de cabeça para baixo. Mas enquanto estivéssemos juntos, nada nos abalaria.