Abusivo: A história que ninguém conta
22 Capítulo 21
Carlinha
Bom dia Grupo!!! Animados?
06:30
Bruno
Opa!!! Super... Cadê a Cat?
06:31
Carlinha
É mesmo... Cat como você está? Conseguiu se acertar com o boy?
06:31
Rodrigo
Bom dia , gente... Já estou me arrumando pra passar ai.
06:32
Rodrigo
Cat, to buzinando aqui embaixo. Cadê você?
07:15
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:15
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:16
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:17
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:20
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:37
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:40
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:46
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:47
LIGAÇÃO PERDIDA ÀS 07:50
Carlinha
Cat, diga que você está chegando... Por favor...
08:00
Bruno
Cat, o nosso grupo é o próximo, onde você está?
08:23
Carlinha
Catarina, eu não acredito que você foi capaz de fazer isso...
08:23
Bruno
VOCÊ ME PAGA, SUA VADIAAAAAA!!!!
08:23
Era assim que estava tela do meu celular nesta manhã. Hoje era o dia da apresentação do trabalho, daquele trabalho que o Jean rasgou. E eu não estou lá e não tenho coragem para responder, então apenas fico sentada na cama olhando para aquele celular tentando ver uma maneira de responder aquelas mensagens. Também não conseguia esquecer que hoje era a festa de grande importância para Jean e não poderia simplesmente ir embora para Campo Grande por causa da faculdade... seria jogar meu relacionamento no lixo e perder o Jean.
Rodrigo
Catarina, nós precisamos conversar... Posso ir até o apartamento?
09:32
— Você não deve nada a eles – fala Jean tomando o celular das minhas mãos e o colocando do seu lado da cama.
— Jean será que poderia me devolver o meu celular? – Questiono fazendo com que Jean me olhe.
Ele tinha acabado de sair do banho, estava apenas com uma toalha enrolada na cintura e exalando cheiro do sabonete. Sem dizer nada, se deita sobre mim apenas me olhando como se fosse me devorar.
— EU preciso de você inteiramente sendo minha. – Diz Jean com uma voz rouca e seus lábios próximos ao meu.
— Eu sou sua... Mas eu...
Meus lábios logo são interrompidos por seu beijo intenso até ficar sem ar, mas ele logo para e sai de cima de mim. Ele continua a se arrumar enquanto minhas notificações ecoam pelo quarto.
— Eu reservei um horário para você em um salão de beleza muito recomendado aqui em São Paulo. – Comenta Jean terminando de se vestir para o trabalho.
— Eu pensei em me arrumar em casa...
— Não mesmo, meu amor – recusa Jean — Mulher minha frequenta salão com tudo o que tem direito para ser a mulher mais linda da festa e todos invejarem a sorte que tenho.
Um sorriso bobo surge em meus lábios, de alguma maneira aquelas palavras do Jean só me davam mais segura sobre a minha aparência. Sei que ele me vê bonita, mas sempre quer o melhor de mim e seu cuidado com a minha aparência sempre foi para potencializar a minha beleza.
****
Após Jean sair do trabalho decido ir para o salão que ele havia escolhido, mas quando chego mais parecia um spa do que um salão de beleza. Conforme eu fui entrando no ambiente, havia uma placa enorme com o nome do lugar e escrito Spa. A recepção parecia uma galeria de arte moderna, havia poucas mulheres aguardando a vez, todas eram muito elegantes e me pergunto por que estavam ali se já estavam todas muito bem arrumadas?
— Bom dia... eu tenho uma reserva. – Falo tímida para a recepcionista que continua com os olhos fixos na tela do computador.
— Por favor, a reserva está em qual nome?
— Catarina.
— Não consta no sistema, senhora. Haveria algum sobrenome para que eu possa buscar no sistema? – Pergunta a recepcionista que continua me ignorando.
Paro para pensar por um tempo no sobrenome.... Pelo estilo do lugar e como conheço Jean, sei muito bem qual arriscar.
— Vasconcellos.
Após um tempo procurando, ela parece ter encontrado e abre um sorriso de orelha a orelha para mim.
— Perdão, Senhora Vasconcellos, me acompanhe, por favor. — Pede a recepcionista que levanta e começa a andar na frente para me guiar. — A Senhora Chateaubriand está lhe aguardando.
— Desculpe...Quem? – Questiono.
— A senhora Chateaubriand, a sua agenda está vinculada a dela para fazerem juntas os mesmos procedimentos estéticos de hoje.
Entramos em um corredor com algumas portas que havia lâmpadas acima para indicar qual estava ocupada ou vazia, algumas estavam acesas e outras apagadas. A porta aonde paramos estava acesa, indicando estar ocupada.
— A senhora vai se trocar na porta a esquerda. Pode deixar seus pertences dentro da bolsa que guardaremos para a senhora até sua agenda acabar. Os telefones são proibidos durante o processo para a senhora poder relaxar melhor. Espero que se divirta e aproveite nossos serviços. – Finaliza a recepcionista que abre a porta e em seguida se retira.
Faço como ela me pede, então olho novamente o visor do meu celular e haviam 15 ligações perdidas. Ignoro recordando as palavras que Jean havia dito e visto o roupão pendurado no cabide. Olho no espelho grande que estava ali e me senti como uma estranha naquele lugar.
Quando saio do vestuário havia apenas uma parede para separar o cômodo mais à frente de onde vinha uma luz clara. Mal entro e vejo uma senhora sentada acima de uma mesa de massagem com seus cabelos grisalhos e curtos, ela tinha postura e sorria sutilmente para mim enquanto indicava a mesa a frente a ela.
— Fico feliz que você veio, Catarina. – Ela continua sorrindo para mim e arruma seu roupão. — Finalmente consegui associar o nome ao rosto.
— Eu não sei bem o que dizer... Desculpe, mas não a conheço. – Digo subindo na mesa e noto que o sorriso em seu rosto sumiu.
— Sou Laura Chateaubriand, esposa do Doutor Chateaubriand … O Diretor do hospital, onde o seu marido está realizando sua residência. — Explica a senhora.
Eu fico extremamente corada, não sabia o que dizer e só pensava no que Jean diria se soubesse que destratei mal a esposa do chefe dele. Com certeza ele iria brigar comigo e muito. Porém, antes que eu pudesse responder algo para ela, duas mulheres entram na sala e para ao lado de nossas mesas.
— Podemos começar, senhoras? — Questiona uma delas recebendo um leve aceno afirmativo de Laura.
As funcionárias retiram nossos roupões, nos indicam para deitar e iniciam a massagem. Ao mesmo tempo que era relaxante, era constrangedor e eu não sabia o que conversar com aquela senhora tão intimidadora.
— Desculpe-me por não conhecê-la.. – Digo na expectativa de quebrar aquele silêncio constrangedor.
— Tudo bem, querida. O Dr. Jean deve ter esquecido de falar sobre mim. Afinal vocês ainda estão em fase de adaptação por conta de tantas mudanças. Sei muito bem como é mudar para outra cidade, arrumar o apartamento e ainda dar conta dos planos de casamento. Vocês possuem a mesma idade que eu Frederico tínhamos quando nos casamos. Parece um flashback.
Decido não corrigi-la para não ocorrer mais nenhum constrangimento entre nós. Entretanto devo admitir que suas palavras ficaram martelando em minha mente… Será que Jean disse que iriamos nos casar e não me disse nada? Talvez ela esteja confundindo o médico, mas quem sou eu para corrigir ela e não pretendo fazer isso.
— Sim, realmente está uma correria as nossas vidas. Tive que vir para ajudá-lo a pedido dele.
— Admiro isso em algumas mulheres que ainda apoiam seus maridos em seus sonhos. — Comenta Laura com ar de satisfação.
As moças finalizam as nossas massagens de imediato se retiraram da sala me deixando sozinha com Laura que começa a se vestir e eu faço como ela.
— E preciso confessar uma coisa — continua a Senhora Chateaubriand — Eu pedi para Jean que arranjasse uma forma de passarmos um dia juntas. Ele falou tão bem de você que aguçou a minha curiosidade para saber quem é a jovem que domina aquele rapaz. – Laura levanta da cama e caminha para fora do quarto, apenas decido a acompanhar.
Fico feliz em saber que Jean fala sobre mim, mas eu não gostei nada de saber que agora toma as decisões por mim.
— Eu imagino como será a noite de hoje.
Laura realmente era uma mulher gentil, me contou sobre seus projetos sociais que realiza em parceria com o hospital. Claro tudo isso entre um sorriso e outro para alguém que a reconhecia. O spa era frequentada por mulheres de homens importantes da sociedade paulistana, mesmo que eu tenha recebido aulas de etiquetas, sentia que não era o suficiente para estar entre essas senhoras que vinham de famílias de renomes e donas de propriedades em muitos lugares do Brasil.
Agora consegui compreender melhor o esforço de Jean para se destacar entre essas pessoas que estão presentes na festa de hoje à noite e não serei eu que vou estragar o momento de Jean. Tento observar Laura e como ela se comporta para aprender algo e só farei exatamente como ela.
Foi servido champanhe para nós, mesmo que o gosto seja horrível eu ainda assim bebi um pouco e sorri enquanto nossas unhas eram feitas. Os procedimentos estéticos pareciam não ter fim, já estava chegando a hora do almoço e meu estômago estava implorando por comida.
— Onde iremos almoçar? – Pergunto para Laura.
— Querida...Uma mulher precisa fazer sacrifícios para ficar bonita, mas se precisar comer as meninas podem trazer um tira gosto a você e não existe um restaurante no spa.
— Não, obrigado eu estou bem. – Minto.
Depilação, esfoliação, massagem e mais massagem, algumas coisas eu não sabia nem mais qual era o nome do procedimento. Estava preocupada com a hora, pois ainda tinha que pegar o smoking de Jean para a noite.
— Agora vamos arrumar nossos cabelos e fazer nossas maquiagens. – Fala Laura animada e sempre caminhando à minha frente.
O salão de beleza era enorme, tinha vários profissionais e estava bem equipado todo o ambiente. As mulheres só ficam lendo suas revistas para passar o tempo enquanto os profissionais realizavam os procedimentos em seus cabelos.
— O que fará em seu cabelo, Catarina? – Questiona Laura.
— Ainda não pensei. – Digo encarando minha imagem no espelho e Laura atrás de mim tocando em meus fios.
— Querida, já pensou em ficar loira? Você tem um rosto tão lindo e o seu cabelo assim o deixa muito pálido… apagado.
Continuo me encarando, pensativa. Não consigo me ver loira, enquanto isso vejo Laura cumprimentar um profissional, pareciam ser amigos há tempos até porque este lugar parece ser frequentado por Laura com bastante frequência.
— Catarina, este é meu cabeleireiro Márcio. – Apresenta Laura sorrindo e segurando no braço de Márcio. — Ele faz maravilhas em qualquer cabelo.
— Minha rainha, você que é maravilhosa. O que eu faço é apenas ressaltar essa beleza.
Os dois riem, ficam conversando por um tempo até lembrarem que estou ali e então retornam à atenção. Márcio pega em meu cabelo, olha, cheira meu cabelo e faz uma cara de desprezo.
— Querida você precisa de um milagre aqui. Ainda bem que a minha musa está ao meu lado. – Diz Márcio arrancando risada de Laura.
— Eu estava apenas pensando em uma escova e ir com ele solto para a festa. – explico deixando Laura boquiaberta como se eu tivesse dito algum insulto.
— Querida, eu sei o que é melhor para você. A minha musa me disse que você ficaria linda loira. – Comenta Márcio. — E eu olhando para o seu cabelo agora… afirmo que sim.
— Sim ficará muito linda loira, o que acha, Catarina? Será que Jean irá gostar? — Pergunta Laura ao meu lado fazendo um carinho em meu rosto e me olhando no espelho.
— Está bem, Márcio pode me deixar loira e faça o que for necessário.
Laura sorri de orelha a orelha enquanto Márcio bate palminhas e começa a mexer em meu cabelo. Ele fez tudo sem que eu pudesse olhar no espelho o resultado, a única coisa que eu estava torcendo era para Jean gostar do resultado e se orgulhar da mulher que sairei daqui hoje. Mesmo após meu cabelo arrumado, Marcio ainda aprontou minha maquiagem enquanto outro profissional arrumava os cabelos de Laura.
****
O resultado era um penteado de rabo de cavalo meio solto com tranças laterais e uma parte alta acima da cabeça, mas estava com mechas loiras e uma maquiagem marcantes nos olhos. Era surpreendente a mudança, parecia que era outra mulher a minha frente. Laura estava maquiada de maneira suave e seus cabelos prontos enquanto sorria para mim.
— Belo rosto o seu Catarina, tão jovem e bela. – Dizia ela segurando meu rosto de maneira sutil e sorria. — Seu marido vai se orgulhar muito de como você ficou.
Finalmente o dia no spa havia acabado, Laura ainda me levou em casa com seu motorista particular e me deixou à frente do prédio. Ao entrar no apartamento percebo que Jean ainda não tinha chegado, mas pela hora marcando no relógio de parede sua chegada estava próxima. Para minha surpresa, quando chego no quarto estava o smoking dele pendurado na parede ao lado de um vestido com um bilhete.
Espero que você goste do vestido
Com amor J.
O vestido era muito lindo, vinho e com um decote que pede um colar e eu já comecei a pensar em algumas joias que iriam combinar. Coloquei o vestido que caiu como uma luva em meu corpo e realçava minhas curvas. Coloquei um dos colares que comprei com a Stephanie e combinei com um par de brincos lindos também comprados há um tempo atrás. Quando estava finalizando e colocando as sandálias, escuto um barulho de molho de chaves batendo na fechadura e já sabia que era Jean entrando. Vou até a sala e espero ele entrar para ver a reação dele sobre meu novo visual.
— Catarina, eu... – Diz Jean que fica boquiaberto e deixa a chave cair da mão. — Você está tão... Uau.
— Uau? – Digo sorrindo para ele e dou uma volta para ele ver tudo.
Jean se aproxima de mim como se não acreditasse no que estava vendo, ele toca em meu rosto com um brilho nos olhos e olha para meu cabelo e sorri.
— Você está loira, meu amor. Você ficou.... Muito linda loira como havia imaginado.
A reação de Jean estava me deixando extremamente feliz, era como se eu tivesse realizado um desejo dele e ele estava completamente bobo por mim. Jean me dá alguns beijos pelo rosto, mas quando seu olhar desceu para o pescoço seu sorriso some.
— Cadê a corrente que lhe dei?
— Eu achei que as joias iriam combinar mais do que aquela correntinha. – Digo sorrindo para Jean enquanto passa a mão na barba rala em seu rosto.
— Coloque-a. – Ele vai até a porta do apartamento fecha, pega a chave e a pendura, por fim vai para o quarto.
Eu o acompanho, vou trocar o colar pela correntinha enquanto Jean estava tirando a roupa para entrar no banheiro.
— Como foi com a Laura? – Pergunta Jean.
— Foi interessante, eu não entendi muito bem por que ela estava achando que a gente estava casados ou quase casados… Ela também disse que estava feliz com a minha mudança para cá.
— Ela disse isso? – Pergunta Jean de dentro do banheiro e escuto o chuveiro ligar
— Jean, o que você disse a ela? – Pergunto quando paro na porta do banheiro e cruzo os braços.
— Você sabe como são as velhas, adoram aumentar qualquer coisa que a gente diz e ela deve ser um pouco surda. – Ele ensaboa o corpo. Por um momento aquela imagem me distrai, mas ainda fico intrigada com tudo que aconteceu no dia.
— Ela não me pareceu surda. Eu queria entender o motivo dela achar que estou morando aqui. Você sabe que vou voltar para Campo Grande amanhã. Lembra?
— Encerrou o assunto. – Ele termina o banho passa por mim me empurrando contra o portal da porta. — Vê se não estraga essa noite.
Vou para cozinha e bebo uma água, respiro bem fundo para me acalmar e fico aguardando Jean na sala.
— Esse baile vai mudar as nossas vidas e você vai ficar ao meu lado o tempo todo apenas sorrindo e rindo. Não quero que você beba muito, seja gentil, educada e não me corrija na frente de ninguém. Faça uso das aulas de etiqueta que eu paguei. – Diz Jean enquanto termina de passar a gravata borboleta no pescoço e sorri para mim. — Vamos?
Aquelas regras do Jean eram compreensíveis, afinal o envergonhei na própria formatura dele. Eu estava me esforçando ao máximo para nada acontecer de ruim esta noite. O meu esforço para melhorar as coisas com Jean. Ainda tinha um sentimento de culpa no fundo, culpa por ter estragado uma noite de extrema importância para ele, uma noite que eu organizei e consegui estragar. Foi minha culpa Jean ter se afastado de mim enquanto estávamos longe um do outro, culpa por ter errado mais de uma vez com ele e culpa por não ser o suficiente para ele quando me pede.
****
O lugar era lindo, bem arborizado e tinha uma linda iluminação por fora. Os panos davam um ar de Oriente Médio ao lugar. Ao entrar parecia um palácio, havia um lustre ao centro do salão que tinha mais de dez mil cristais e o ambiente tinha detalhes em dourado parecendo ser ouro no telhado e nas lacunas.
— Sorria, meu bem. – Sussurra Jean para mim apertando minha mão.
Laura e seu marido Frederico estavam logo a frente cumprimentando os convidados e quando nos viram, sorriram e abriram os braços como se a gente fosse amigos de anos.
— Jean, meu garoto. – Fala Frederico que abraça Jean dando alguns tapas em suas costas.
— Senhor Frederico, deixe que eu apresente uma pessoa a você.
Eu cumprimentava Laura quando Jean me toca nas costas e me guia para cumprimentar Frederico.
— Esta é minha amada de quem eu tanto falo para o senhor. – Diz Jean sorrindo e eu estendo a mão para senhor Frederico apenas sorrindo. — Minha Catarina.
— Minha jovem, parece que eu a conheço há anos. Por favor, recolha esta mão e me dê um abraço. – Pede Frederico que vem me abraçando e me deixando sem graça me fazendo corresponder o abraço sem tirar o sorriso forçado no rosto.
— É um prazer lhe conhecer Senhor Chateaubriand. – Digo envergonhada.
— Frederico, querida… — corrige o Doutor — Já conhece minha esposa Laura? Ela quem organizou esta festa esplêndida...Ah, vocês mulheres conseguem fazer tantas coisas e cuidam tão bem de nós. – Finaliza Frederico ao beijar o rosto de sua esposa.
— O que seria de nós sem elas. — Complementa Jean fazendo o mesmo comigo e eu sorrio para ele.
— Eu lhe disse que a corrente ficaria muito bem nela, Jean. Sabe, eu dei uma dessa para minha esposa quando éramos jovens, mas em você ficou realmente linda, igual a dona. – Elogia Frederico. — Muito linda, como você disse inúmeras vezes.
Aqueles elogios já estavam me deixando muito constrangida. Jean aperta minha cintura, me fazendo respirar fundo e apenas manter o sorriso estampado no rosto sem saber o que dizer.
— Vamos entrar querida? Não queremos monopolizar o Doutor e sua linda esposa em sua recepção. — Jean me guia pela cintura deixando os Chateaubriand na porta recebendo outras pessoas.
— Ele parece gostar bastante de você. – Digo para Jean.
— Preciso dele para conseguir minha permanência no hospital. Se ele gostar de mim, os outros também vão gostar e aprovar. — Comenta Jean, sério.
— Sua sorte é que você tem ainda dois anos... – comento tentando acalmá-lo.
— Que os meus concorrentes tenham o mesmo pensamento medíocre que o seu – fala Jean, ríspido — Para pessoas que realmente querem chegar longe e conquistar a cadeira de diretor do Hospital, temos de começar bem antes... Aliás, todos que aqui estão querem a cadeira de diretor do Chateaubriand. – Afirma Jean.
— Então todos estão aqui por interesse?
— Óbvio. Ele está para se aposentar, ele realmente é incrível no que faz, mas está passando da validade e vai ter que passar aquela cadeira para alguém. — Diz Jean enquanto pega duas taças de champanhe e me entrega uma. – Beba.
— Eu não gosto de champanhe. – Digo tentando devolver a taça ao Jean.
— Você se acostuma, agora beba e sorria para eles.
Jean bebe um gole da taça e ergue em direção de Frederico que sorri. Eu fico surpresa com esse lado tão ambicioso de Jean, mas como ele explicou havia outros agindo da mesma maneira e só estavam próximo daquele senhor por interesse.
Por um momento olho para eles com um pouco de pena enquanto eles continuam sorrindo e recebendo abraços de algumas pessoas. Será que eles sabem? Até quando eles terão essa atenção toda das pessoas? Por um momento meu sorriso sumiu enquanto olhava para aquele casal de idosos, se for levar em contas os cabelos brancos e as rugas em seus rostos.
— Vamos ali cumprimentar mais algumas pessoas e por favor mantenha o sorriso no rosto. – Pede Jean que me dá um selinho rápido antes de me arrastar para outras pessoas.
Era uma roda de pessoas conversando de maneira animada, quando Jean se aproxima todos sorriem e cumprimentam a nós.
— Esta é Catarina. Meu bem, estes são alguns dos meus colegas de trabalhos. – Anuncia Jean.
— É um prazer conhecê-los — Digo tentando não ser muito forçada.
Os amigos de Jean me cumprimentam brevemente e em poucos minutos todos eles já estão falando de trabalho. Fico parada ao lado do Jean igual a uma estátua sorridente observando meu namorado tomar conta da conversa. Em todas as mesas onde fomos, ele conseguia se transformar no Sol a quem todos seguiam. Um dom que eu definitivamente não possuía. A única habilidade que eu tinha no momento era sentir meu celular vibrar em minha bolsa enquanto fingia naturalidade. Encosto meu rosto levemente no pescoço do Jean que gargalhava mais uma das várias rodas de pessoas que percorremos naquela noite:
— Preciso ir ao banheiro. — Sussurro.
— Não demore. — responde Jean sem tirar o sorriso dos lábios, mas os seus olhos demonstravam um certo ar de irritação.
Caminho pelo salão em direção ao banheiro feminino sentindo meu celular vibrar. Minha curiosidade já não me permitia ignorar aquelas chamadas, então assim que entro, já abro minha bolsa encontrando 20 chamadas não atendidas e correios de voz. Ligo para minha caixa postal eletrônica que já anuncia que tenho mais recados do que já tive em toda minha vida.
O primeiro recado era de Carla dizendo que estavam me aguardando na sala. Alguns do Bruno calmo e o último dele me xingando de todos os nomes possíveis. O último recado era de Rodrigo… Ele respirava pausadamente na linha até que permite as palavras saírem de sua boca e ficarem gravadas em minha caixa:
Sabe… quando decidimos te chamar para o trabalho, todos da sala foram contra. Eles disseram que você iria nos decepcionar. Eu nunca acreditei, achei que você merecia uma segunda chance… Pelo menos, essa decepção nos mostrou a verdade em relação à falta de caráter. Torço que para o que quer que tenha escolhido ao invés de nós, você possa nunca deixar na mão, como fez conosco.
A gravação acaba e as lágrimas insistem em cair de meus olhos… Limpo-as o mais rápido que consigo para não manchar a maquiagem. Eu havia feito uma escolha de fato, justamente para não decepcionar a quem eu amo. Porém, acabei decepcionando os meus amigos. Fecho os olhos pedindo a Deus para que eles um dia possam me perdoar e então saio do banheiro encontrando o Jean na porta.
— Agora que já matou a curiosidade… podemos ir? — Pergunta Jean segurando o meu braço fortemente — Nós vamos nos sentar com os Chateaubriand, eles fizeram questão. Sabe o que isso significa? Que eu sou o favorito a permanência… É uma vaga muito disputada na área em que eu escolhi...
Aceno com a cabeça concordando, não que fizesse muita diferença para ele, que me vira nos colocando frente e frente e então segura os meus dois braços, enquanto diz com um sorriso nos lábios:
— Tire essa cara de velório do rosto e faça o que me prometeu.
Ele me vira novamente e então voltamos a caminhar em direção a mesa dos anfitriões. O casal sorri ao nos ver e o Jean me posiciona ao lado de Laura que está animada com os músicos. Seu marido me encara, insistentemente, ao mesmo tempo em que o Jean sussurra em meu ouvido:
— Já volto.
Ele se afasta rapidamente, tento acompanhá-lo, mas Laura começa a puxar assunto comigo e eu acabei o perdendo de vista.
— Você está deslumbrante. — Elogia Laura — Acertei ou não na escolha do cabelo?
— Sim, você foi ótima. Muito obrigada. — Agradeço, tímida.
— Mocinha, no meu jantar de apresentação de residentes essa bela mulher… — Começa Frederico segurando a mão da esposa — Foi pedida em casamento. Era o mínimo que eu poderia fazer por todo apoio que ela me deu.
— Nossa, que lindo. — Digo, emocionada com o amor que mostravam — E como a senhora se sentiu com esse pedido?
—Diga-me você — responde Laura enigmática.
O casal se vira em direção ao palco onde está Jean parado com uma taça de champanhe nas mãos.
— Boa noite a todos...
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