Abusivo: A história que ninguém conta
9 Capítulo 8
Jean... Jean... Jean... Jean...
Jean... Jean... Jean...Jean...
Fecho meus olhos e os abro mais uma vez, e o nome dele continua cravado na carne do meu anelar direito. Fecho minha mão com força , tentando fazer com que aquela marca feita pela aliança desapareça, sem sucesso. Levanto meu rosto e me encaro pela primeira vez: olhos fundos, cabelos desgrenhados, maquiagem borrada e uma ruga no meio da testa. Sim, uma ruga que só aparece quando estou estressada. Mas por que eu estaria estressada? Ainda mais depois de ontem... Ontem...
Fecho meus olhos e volto a noite anterior, de volta ao palco com o buquê de flores nas mãos, a galera gritando " Aceita!" e o Jean aos meus pés. Ele parecia calmo, apesar do seu maxilar rígido me mostrar o contrário. No fundo, eu queria que todos parassem , que aquela luz em meu rosto desaparecesse, que o Jean ficasse de pé e que tudo aquilo fosse mais uma brincadeira. Eu estava com medo de tomar aquela decisão que é importante na vida de uma garota. Meus lábios se abrem devagar, sei que sairá um não, mas então :
— Sim – sussurro.
Ele sorri, se levanta , rouba mais um beijo dos meus lábios trêmulos e então se vira em direção da plateia com os braços erguidos, como se tivesse vencido:
— Ela disse sim!
Gritos, assobios, palmas , a balada romântica volta ainda mais estrondosa, recebo mais abraços do que consigo contar. Então o Jean vem, toma minha mão e enfia a aliança em meu dedo sem a menor cerimônia. Depois mais abraços, fotos vídeos, era como se eu tivesse me tornado uma celebridade, mas eu apenas tinha se tornado a namorada do Jean. Qualquer pessoa acharia aquele momento romântico, até mesmo memorável. Porém, eu não consegui sentir nada disso. Na verdade, eu queria esquecer ...
— Era isso que você queria, certo? – pergunta Jean já dirigindo em direção à minha casa. Ele me encara, meio irritado, já que em meu rosto estava um grande ponto de interrogação. Ele pigarreia e reforça – Você queria ser minha namorada, certo?
— Sim – respondo, sem graça.
— Então por que raios você me deixou ajoelhado igual a um palhaço? – questiona Jean, bravo — Tem ideia do quanto isso foi humilhante?
—Eu fui pega de surpresa – digo, sem jeito.
— O que fez foi cu doce, já que não existia outra resposta para o meu pedido. – reage Jean. Ele estaciona em frente a minha casa. Seus dedos tocam meus cabelos e descem até meu queixo — Mas está perdoada, só nunca mais faça isso... Agora vamos para a parte divertida...
— Parte divertida? – pergunto, nervosa.
— A comemoração – responde Jean tomando meus lábios.
Suas mãos exploravam cada parte do meu corpo sem qualquer receio. Eu tento controlá-las, mas cada vez que o faço , meus lábios recebem uma mordida, me advertindo. Tento afastá-lo, mas ele impõe toda sua força contra mim. Não imaginava minha primeira vez assim com o Jean, dentro de um carro. Não quero assim, então o empurro e ele me encara, chocado.
— O que foi? – pergunta.
— Eu não posso... Não posso fazer assim.
—Você é minha namorada é claro que pode – voltando em minha direção. Sua mão vai direto para minha camisa — Eu sei que não se arrependerá.
— Não! – grito, nervosa. Ele se afasta , irritado.
— Qual é o problema, Catarina?
— O problema é que não quero ter minha primeira vez dentro de um carro – respondo , brava ajeitando minha roupa.
— Se é esse o problema, melhor entrarmos – comenta Jean abrindo sua porta.
— A Dona Ester não permite a entrada de rapazes aqui – aviso.
— Mas não sou qualquer um, sou teu namorado – reage Jean, irritado.
— Você só é meu namorado há duas horas , Jean.
— Obrigado por me lembrar disso, Catarina. – rebate Jean.
— Não foi isso que eu quis dizer... O que eu quero dizer é que ela precisa te conhecer primeiro, ter confiança em você para que então eu consiga que tenha acesso aqui. Eu não quero lembrar que a minha primeira vez foi dentro de um carro , em uma rua deserta, escondidos porque não podemos entrar na minha casa.
O silêncio toma conta do carro. O rosto inexpressivo do Jean me preocupa, ele está prestes a explodir...
— É isso o que você quer então? – pergunta o Jean, sério.
— Sim – respondo, aliviada. Achei que ele fosse fazer um escândalo, me obrigar a sair do carro e pedir sua aliança, terminando comigo.
— Como você quiser, Catarina. – solta Jean, contrariado – Faço tudo por você... Agora preciso ir para casa, esta tarde. Tenha uma boa noite – finaliza sem olhar para minha cara.
Eu desço do carro com o buquê nas mãos e ainda sendo a namorada do Jean, mesmo na dúvida se realmente quero ser.
****
Lavo meu rosto, tirando as marcas da maquiagem da noite anterior, ajeito meu cabelo , sem sucesso. Seguro a aliança entre meus dedos por alguns momentos e então a coloco de volta em meu anelar. Decido não trocar meu pijama , até por que não tenho a menor pretensão de sair de casa hoje.
Fecho meu quarto e vou em direção a casa da Dona Ester que uma hora dessas já deve ter preparado o café da manhã. Escuto risadas vindas de sua varanda. Nunca tinha escutado Dona Ester rindo como naquela manhã de sábado.
—Catarina – chama Dona Ester do outro lado da mesa de madeira, sorridente — Você tem uma bela visita.
Jean se vira com um sorriso de orelha a orelha. Ele se levanta e caminha em minha direção, entrega uma rosa e me beija.
— Bom dia, leãozinho – diz Jean tocando os meus cabelos soltos.
— O que está fazendo aqui? – pergunto tentando ajeitar meus cabelos.
— Estou fazendo minha parte – responde Jean calmamente.
****
Jean conquistou Dona Ester antes mesmo de terminarmos o café. Ela estava maravilhada com as histórias do promissor médico que esbanjava simpatia à mesa. Ele fazia questão de segurar minha mão ou me abraçar durante o momento em que começou a contar sobre a noite anterior enquanto eu recebia olhares curiosos dela:
— Eu estava apaixonado por ela, mas não tinha certeza se era recíproco. Sabe como é , às vezes ela só queria diversão. Mesmos em saber , eu arrisquei . Armei tudo com o pessoal da organização e fiz a surpresa para ela que até chorou de emoção. E foi assim que eu pedi Catarina em namoro, Dona Ester. – continua Jean me encarando, carinhoso
— Só Ester – ela o corrige, me deixando surpresa. Se as meninas escutassem iam cair duras no chão com tamanha liberdade que ela estava oferecendo ao meu namorado — Bom, eu realmente acho precipitado, pois no meu tempo o homem tinha que pedir a mão da moça aos pais dela.
— Como a senhora sabe – começa Jean entrelaçando seus dedos nos meus — No momento é difícil pedir a mão para eles que moram tão longe. Porém, a Catarina disse que só aceitaria namorar comigo, com uma condição: Que eu falasse com a senhora, que é uma segunda mãe para ela. Eu concordei plenamente e já a considerava uma pessoa muito boa, agora a conhecendo de perto, tenho certeza de que a senhora não é só boa como justa. Sei o quanto deve ser difícil para a senhora cuidar de todas essas moças e concordo plenamente que deve impor limites para a entrada de homens aqui.
— Bom , você sabe como é a geração de vocês. Cheia de hormônios...
— Sim, por isso fiz questão de aqui mostrar minhas intenções e pedir a mão de Catarina em namoro. Quero poder vir aqui e não tenho problema algum em ficar sentado na sala sendo vigiado pela senhora. Só quero que saiba que eu amo a Catarina e que minhas intenções são as melhores. A senhora me dá sua benção para namorar Catarina?
— Claro que dou minha benção. Minha recomendação é que faça o mais breve possível esse pedido para os pais dela, principalmente a mãe dela. Aliás, Catarina, sua mãe sabe a existência desse rapaz?
— Sabe – minto descaradamente enquanto tento me lembrar quando foi a última vez que falei com a minha mãe. Não que ela não me ligasse, ela o fazia todo o tempo, mas eu sempre estava ocupada ou então cansada e acabava rejeitando suas ligações. Mas faço uma promessa mental: Assim que ela me ligar , irei contar tudo para ela. — Inclusive ela está radiante com a notícia.
— Que ótimo – responde Dona Ester se levantando — Jean, você é bem vindo aqui em casa, venha quando quiser.
— Eu agradeço sua confiança em mim, nem sei se sou merecedor –diz Jean, sorrindo.
— Sei que é um bom rapaz, por isso confio em você. Bom, agora tenho coisas para fazer, mas fique à vontade. Catarina, mostre o lugar para ele.
— Está bem – digo me levantando com o Jean — Venha.
Ele segura minha mão bem forte. Sei que exatamente qual é o lugar que Jean gostaria de conhecer primeiro.
****
—E este é o meu quarto – mostrando meu cantinho que deixei por último.
Jean caminha devagar, sua expressão de desprezo pelo lugar está nítida a ponto de me deixar envergonhada. Entendo que a realidade dele é bem diferente, mas aquela era a minha, tudo o que poderia ter por enquanto. Toca no buquê que me deu que foi colocada em um pote de sorvete e então senta em minha cama, me encarando, sério.
—Bom, finalmente conheci o castelo da minha princesa – diz Jean batendo com a mão ao seu lado, devagar. — Sente-se.
— Tudo bem – digo sentando ao seu lado.
Ficamos nos observando , então ele se aproxima, com cuidado, coloca meus cabelos para trás da minha orelha. Seus lábios tocam os meus com receio, aumentando a intensidade, até ficar impossível pensar. Suas mãos tocaram meus ombros,deslizando pelas alças do meu pijama até caem pelos meus braços. Meu corpo reage ao seu toque que continua pelo meu pescoço... minhas mãos apertam suas costas... Seus lábios percorrem minhas saboneteiras , enquanto seus dedos exploram por debaixo da minha blusa, encontrando meus seios excitados. Sua mão pega a minha e a conduz em direção a sua ereção. Eu o desejo, mas minha razão fala mais alto e me afasto devagar.
— O que foi desta vez? – sussurra Jean, ofegante. Suas carícias continuam...
— Eu não posso – digo segurando suas mãos — Eu não posso...
— Como assim não pode? Eu fiz o que você pediu... A Ester não se importa mais conosco.
— Eu agradeço por ter feito isso, mas não é isso – digo me levantando, nervosa — O problema não é só ela.
— Tem mais? – pergunta Jean arqueando as sobrancelhas. — Além de ter que pedir sua mão para uma velha mal amada que com certeza dava mais que chuchu na serra quando tinha a nossa idade?
— Jean, não fale assim da Dona Ester. Não é culpa dela eu não querer que as coisas sejam assim, você precisa entender que é a minha primeira vez e quero que seja com alguém que conheça plenamente. Eu quero conhecer a sua família e quero que conheça a minha também. Quero me entregar a uma pessoa que eu saiba exatamente quem é , de onde veio, seus planos, sonhos e anseios. Quero fazer isso tendo plena certeza de que sei quem é você.
— E você sabe quem sou... – diz Jean me puxando pela cintura.
— Sei? Então por que eu não sinto isso? Sabe eu não me sinto sua namorada.
— Mas você é. Você tem uma aliança com o meu nome nela. – diz beijando minha barriga.
— Jean, pare. – digo me afastando em direção a minha mesa de canto. — Eu preciso mais do que isso.
— Diga o que precisa e farei por você – declara Jean se levantando — Faço qualquer coisa por você.
— Eu preciso de um tempo com você. Preciso conhecer seus pais, criar uma ligação com eles e que eles me conheçam. Quero que nossas famílias se conheçam...
— Tudo bem. Se for isso o que você quer. – solta Jean passando a mão pelo rosto. — Eu falarei com os meus pais sobre você e marcarei um almoço ou jantar para que a conheçam. Mas isso só irá ocorrer mês que vem , pois ele estão de férias e estão fora do país.
— Tudo bem , eu espero até lá.
— Eu sei que sim... Só não se arrependa depois.
— Como assim? Por que eu iria me arrepender?
— Meus pais não são muito acessíveis.
— Você acha que eles não gostarão de mim?
— Sinceramente, eles não gostarão nenhum pouco de você. – responde Jean tocando em meus cabelos enquanto observa o meu quarto — Eu amo o seu jeito exótico , rebelde... Amo o fato de você estar buscando seu lugar ao sol, mas eles são o meu oposto nesse pensamento.
— Então , acho que teremos um problema com eles? Digo, eles não gostarão de mim e não aprovarão o nosso namoro... Eu não quero ser a inimiga dos seus pais. A garota que não é bem vinda por eles...
— Sim, você terá. Mas não se preocupe, meu amor – diz Jean me abraçando — Eu ajudarei você a conquistá-los , como fez comigo.
— E como faremos isso?
— Bom, se realmente quer conhecer os meus pais e fazê-los gostar de você. Catarina, você precisa mudar... um pouco.
— Como assim?
— Não se preocupe com os detalhes– diz Jean me beijando em seguida — Só quero que saiba que farei de você a namorada ideal para os meus pais.
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