Abusivo: A história que ninguém conta
7 Capítulo 6
Sem dúvida a minha última semana antes do início das aulas foram as mais intensas que já vivi. Jean fez questão de me levar a todos os seus lugares favoritos preenchendo os meus dias com as mais diversas atividades, desde rapel em um lugar chamado "inferninho", até o restaurante mais exclusivo da cidade. Cheguei ao ponto de eu só ir ao pensionato, tomar um banho rápido e sair novamente. Era tudo tão único que por diversas vezes me pegava lembrando de fazer algumas perguntas a respeito dele e que acabavam sendo esquecidas na próxima aventura.
Ele também não fazia questão alguma de falar a respeito de coisas pessoais, as únicas palavras que saíam de sua boca eram informações sobre os lugares, gracejos, piadas e perguntas a respeito do como eu me sentia sobre cada um daqueles lugares. Isso quando estávamos sozinhos, pois onde nós íamos sempre surgia um conhecido, ou até mais, não deixando espaço para qualquer tipo de assunto mais íntimo. No começo da semana ficava incomodada com essa situação , mas com o tempo percebi que aquele era o mundo dele e eu apenas sua convidada. Ou como ele mesmo fazia questão de dizer quando eu o questionava:
— Estou lhe dando o privilégio de conhecer o melhor que a vida tem a oferecer, não entendo por que ainda insiste em ser uma dessa pessoas simplórias que gostam de deve focar em coisas insignificantes. Não seja esse tipo de pessoa... é tão decepcionante.
De fato, ele estava certo mais uma vez, eu estava sendo apresentada ao melhor, ao exclusivo e ao invés de me sentir privilegiada , continuava insistindo para conhecer mais a respeito dele. Naquele momento eu me senti a personificação da ingratidão e egoísmo. As vezes , eu me questionava sobre o que ele tinha visto em mim. Ele sempre tem de me explicar as coisas que não consigo entender sozinha e sempre com aquele sorriso que me faz suspirar e seu olhar crítico. A forma como ele fala a respeito de todos os assuntos me passa segurança e um certo receio, afinal sempre que eu abro a boca, sinto que estou falando bobagem.
Esse, ao meu ver, é o motivo pelo qual ele sempre me apresenta como sua amiga a qualquer conhecido. Até sua postura mudou comigo, sem gracejos, mãos dadas , nem ao menos uma palavra afetuosa, quando um deles aparecida , eu me tornava mais uma, recebendo o mínimo de atenção. Na verdade, o tipo de atenção que uma conhecida recebe. Mas não posso reclamar, afinal não temos nada sério e Jean é muito popular , não apenas em nosso meio, mas em qualquer outro. A prova disso é que a maioria das pessoas que encontrávamos eram amigas dos seus pais, ou de algum amigo dele. A popularidade de Jean era assustadora e a calma como lidava com aquele mostrava que tinha nascido para aquilo.
Quando notei já era domingo à noite, onde mais uma vez ele parou em frente ao pensionato, deixando o ar de bons amigos de lado e me beijando ardentemente. Seu toque por cima do meu vestido estava mais ousado e meu corpo correspondia ao desejo de Jean. Eu sei o que ele quer, de fato também quero, mas minha razão me dizia que era cedo demais. E mais uma vez, respiro fundo e fazendo o maior esforço para afastar os lábios de Jean dos meus , sem antes receber uma mordida de advertência, bem como suas mãos debaixo do meu vestido. Ele me fuzila com seus olhos enquanto encosta a cabeça no banco.
— O que foi , Catarina? – pergunta, ofegante.
—Nada... – respondo , sem jeito enquanto arrumo meus cabelos — Só está bem tarde e preciso acordar cedo amanhã, afinal será meu primeiro dia de aula.
— Eu sei... amanhã volta a minha rotina – comenta Jean segurando minha mão entre as suas e a levando até seus lábios — E tudo o que eu mais desejo é ficar mais tempo com você.
—Ficamos juntos a semana toda. – digo, sorrindo.
—Não foi suficiente para mim – alega Jean me puxando para os seus braços. Seu rosto se aproxima do meu, já sinto seus lábios nos meus — Desejo você, sempre...
— Jean... – solto enquanto seus lábios descem pelo meu pescoço — Eu realmente preciso entrar.
—Sem problemas, só me prometa que verei você amanhã cedo. Quero levá-la ao seu primeiro dia de aula...
—Não acho uma boa ideia – comentei me recusando enquanto toco no botão de sua blusa.
— Por quê? – pergunta Jean se ajeitando no banco, já me encarando sério.
— Diferente de você , eu ainda não me sinto pronta para ser o centro das atenções, uma coisa que definitivamente irá acontecer quando descobrirem que estou saindo com você...
— Eu não me importo – diz Jean sorrindo.
— Não quero que você crie inimizades por minha causa... até por eu não temos nada a sério... E quando descobrirem sobre nós, irão ficar forçando que as coisas caminhem para algo mais sério...
—Mais um motivo para ir com você. Eu os farei recuar com minha presença– argumenta Jean. Ele toca em meu queixo — Ninguém forçará você a nada, enquanto eu estiver do seu lado, garanto.
— Eu realmente preciso fazer isso sozinha, como ponto de partida para minha nova vida.
— Tudo bem , Catarina. Já que não quer que eu faça parte desse momento importante da sua vida– responde Jean abrindo a porta do meu lado, extremamente irritado. Ele aponta para fora — Boa noite, tenha um ótimo primeiro dia amanhã, nos falamos quando der...
—Jean, não é isso... – digo tentando esclarecer os fatos. Pronto , ativei o Jean Vasconcelos errado.
— Então o que é? – pergunta, ríspido me fazendo encolher.
— Você não acha muito cedo para fazer partes de coisas importantes na minha vida? A gente só está se conhecendo, e fazer algo como isso é para quem já está em um outro nível... como namoro. E até onde eu sei, somos apenas amigos... Que se beijam, mas não deixamos de sermos amigos. – explico com toda calma do mundo.
— Então é isso que você acha que eu sou? Seu amigo? – questiona Jean, irritado.
— Mas não é isso que você diz para as outras pessoas? Que somos amigos? Se não somos amigos, o que nós somos , Jean? Estou confusa...
— Boa noite , Catarina – diz Jean sem me dar uma resposta.
— Jean... – chamo segurando para não chorar.
— Boa noite , Catarina — reforça sem ao menos olhar para mim e já ligando o carro.
— Boa noite – respondi, sem jeito descendo do carro.
Bem como todas as noites, mais uma vez sinto que fui expulsa do carro de Jean. Seu humor se altera a cada situação. Durante a semana , eu mesma passei a defini-lo como Jean sincero e o sensato, duas personalidades totalmente diferentes. Quando as coisas saem como ele gosta, ele se torna o Jean sensato: um cara alegre , descontraído, meigo... Mas quando algo não sai como ele quer ou quando eu geralmente não concordo com ele, eis que surge o Jean sincero: explosivo, sério e impiedoso, como agora. De fato, não conheci ainda o Jean como achei que iria e um ponto de interrogação a seu respeito se permanece.
Entro no pensionato enquanto escuto o ronco forte do carro de Jean que sai cantando pneu, achei que meu dia estava no fim quando noto que as meninas estão na porta do meu quarto com o notebook da Tiemi iluminando o pátio. Aproximo do quarto, curiosa para saber o que elas estão fazendo ali.
— Boa noite, futura senhora Vasconcelos – cumprimenta Alissa, sorrindo.
—Boa noite , garotas com o incrível hábito de ficarem na porta do meu quarto – retribuo passando entre elas e abrindo a porta — Qual é a boa?
—Diga-nos você – rebate Tiemi mostrando a tela do computador em uma página do curso com um baita foto minha aos beijos com Jean antes de entrarmos em um dos restaurantes que conheci naquela semana. A foto em si não me surpreende, mas sim o título " A nova conquista de Jean Vasconcelos" e a ficha técnica com todas as minhas informações pessoais, com coisas bem íntimas que só contei para as meninas e o Jean. Encaro as garotas , irritada — Vocês não tinham o direito de falar nada a meu respeito para quem quer que seja. Como ousaram fazer isso comigo? Logo vocês que sabem muito bem que nós não estamos juntos a esse ponto.
—Mas não fomos nós – defende Jennifer — A gente veio aqui justamente pra saber se vocês estão realmente namorando.
—É claro que nós não estamos namorando – digo, nervosa. Então respiro fundo — A gente é só amigos.
— Amigos? Sei, conta outra vai – comenta Cláudia, incrédula.
—Todo mundo sabe que vocês estão se pegando... – diz Alissa.
—Mas isso não dá o direito de vocês se intrometerem na minha vida! – disparo, irritada puxando o computador das mãos da Tiemi — Nós temos de denunciar essa publicação... O Jean não irá gostar nada de ver seu nome envolvido nisso...
— Tudo bem , Catarina, relaxa. Daqui algumas semanas eles esquecem isso e tudo ficará bem — explica Tiemi tentando me tranquilizar
— Bem? Acho melhor vocês atualizarem a página – solta Cláudia , nervosa mexendo no celular
Atualizo a página e logo dou de cara com um enorme título:
ELA ESTÁ DE VOLTA!!! LETÍCIA FOI VISTA FAZENDO A MATRÍCULA NO CURSO DE LETRAS.VEM NOVIDADE POR AÍ...
Analiso sua foto tirada na frente da secretaria com os papéis da matrícula nas mãos e completamente alheia ao seu paparazzi. Letícia era diferente de mim, loira de cabelos lisos cortados na altura das orelhas , usava uma camisa verde claro e uma saia rodada que eu só vestiria em um evento muito importante. Em poucos minutos surgem vários comentários
"O QUE SERÁ QUE O JEAN ESTÁ PENSANDO DESSA PEQUENA SURPRESA? "
"JEAN? EU QUERO É SABER O QUE VAI ROLAR QUANDO AS DUAS SE ENCONTRAREM"
"VERDADE... SOU TEAM LETÍCIA"
"EU SOU TEAM CATARINA"
Os comentários passam a se dividir em grupos em apoio a ela e a mim. Aquilo tudo era tão surreal que devolvo o notebook para Tiemi tentando processar o que acabei de ler:
—Espera um pouco, quer dizer então que a ex do Jean está de volta? – pergunto, transtornada.
—Sim, e não apenas isso. Ela voltou e está no mesmo curso que o seu. – responde Tiemi.
— Pense pelo lado positivo – começa Alissa — Agora você irá conhecer a Letícia e tirar suas próprias conclusões a respeito dela.
— Onde está o lado positivo em estudar com a ex do seu namorado? – questiona Cláudia, incrédula.
— Além do fato dele não ser meu namorado – corrijo.
— EU acredito que ela tenha escolhido Letras por ser um sonho dela. Isso é possível – comenta Jenniffer.
— Lógico, com todos os cursos que existem na Universidade, ela escolher o mesmo que o da Catarina foi algo bem por acaso. Acorda, é óbvio que ela vai perseguir a Cat. – dispara Tiemi, impaciente.
— E não só ela... – solta Cláudia olhando para a tela do computador.
— Como assim? – pergunto, preocupada.
—Prepare-se, pois amanhã o seu primeiro dia de aula será igual a noite do Oscar. – avisa Cláudia.
****
Não , eu definitivamente não desejo ter um primeiro dia de aula cheio de drama, penso comigo enquanto entro no meu quarto sozinha. Encostei na porta e deslizei até o chão enquanto minha mente ferve pensando em como minha vida toda foi assim e tudo o que eu mais queria era ter um dia de paz e tranquilidade . E até mesmo aquilo me foi tirado de mim. Respiro fundo dedilhando a tela do meu celular ,imaginando quais surpresas o amanhã ainda me reserva. E não só a mim, tenho certeza que Jean não tem a menor ideia do que está prestes a acontecer.
Disco seu número a fim de avisá-lo a respeito. O telefone toca até cair na caixa postal. Tento mais uma vez... Um toque... dois toques... três toques...
— Fala – diz ele com voz de poucos amigos.
—Oi... – digo tentando segurar minha apreensão ao escutar sua voz. — Tudo bem?
— O que você quer , Catarina? – pergunta , ríspido, mostrando que ainda está bravo comigo, me deixando pior ainda.
—Desculpa pelo o que aconteceu no carro, Jean – peço.
— Saiba que você me magoou com aquele papo de sermos só amigos – responde ainda sério. — Eu realmente me senti como se fosse mais um em sua vida, quando eu a trato como se fosse única na minha.
— Desculpe, não foi minha intenção — reforço, envergonhada pela minha infantilidade com ele.
— Eu te desculpo... Espero que tenha ligado também para dizer eu posso levá-la amanhã — sugere Jean.
— Não... E duvido que ainda terá vontade de fazer isso depois do que eu fiquei sabendo – digo.
—Nada e ninguém me fará desistir de levá-la amanhã.
— Nem mesmo a Letícia? – pergunto, mordendo meus lábios em seguida.
—Letícia? – repete Jean.
—Sim, Letícia , sua ex namorada, noiva ou seja lá o que for.
— O que essa maluca fez dessa vez? O que ela te contou? Ela está aí? — Pergunta Jean, irritado.
— Não , ela não está aqui... As meninas me mostraram uma postagem de uma página da universidade falando a respeito dela ... Você sabia que ela fará o mesmo curso que eu esse semestre?
—Não , claro que não! – responde Jean, ríspido — Esse mais um motivo para eu levar você a faculdade amanhã.
— Eu estou ligando justamente para evitar você de fazer isso. Eu não quero esse tipo de exposição...
— Catarina, você não está entendendo. Ela está fazendo isso para me atacar... Ela é paranóica e obcecada por mim. É capaz de tudo, entendeu? De tudo para me afetar... Agora que ela sabe de você, não tenha dúvidas que ela não vai medir esforços para te prejudicar. Então, amanhã e todos os dias eu irei levar e buscar você da faculdade...
—Jean, não precis...
—Caso encerrado , Catarina – interrompe, autoritário — Pego você às sete. Boa noite.
—Jean? Jean? – chamo em vão, pois ele simplesmente desligou sem ao menos esperar uma resposta minha.
****
Os raios de sol entram em meu quarto pelas frestas da janela, normalmente não notaria isso, mas meus olhos não fecharam a noite enquanto minha cabeça fervilhava pensando em como fui parar naquela situação. Levanto da cama , tomo um banho demorado , imaginando o que a Letícia seria capaz de fazer comigo na frente de toda faculdade. Eu sempre achei que a faculdade fosse ser totalmente diferente da escola, mas pelo visto é apenas uma extensão com toda a imaturidade envolvida. Devido essa conclusão escolha uma camiseta branca e jeans mais simples e fácil de lavar, prendo meu cabelo em rabo de cavalo e tênis, caso ocorra uma briga entre nós duas.
" Em que eu estou pensando? Briga? Eu não vim pra cá para isso." penso enquanto solto meu cabelo, deixando meus cachos rolarem pelos meus ombros. Sinto vontade de trocar minha roupa para o vestido que eu tinha em mente, mas vai que a Letícia seja realmente uma pessoa perigosa. Melhor prevenir do que remediar. Pego minhas coisas e saio do quarto , me deparando com Alissa:
— O Jean já está esperando por você – avisa.
—Obrigada – agradeço fechando a porta.
— Achei que fosse sozinha hoje...
— Pois é... mas o Jean achou melhor me levar...
—Por causa da Letícia? – pergunta Alissa, curiosa.
A buzina do carro de Jean me assusta, pelo visto não sou a única ansiosa. Sorrio para Alissa e caminho em direção ao portão. Aquela situação era tão surreal para mim , preciso falar com ele e realmente saber mais a respeito de Letícia, mesmo as meninas me contando tudo aquilo, preciso que saia dos lábios dele. Aproximo da porta do passageiro do carro e abro já disposta a tirar aquela história a limpo:
— Jean , nós precisamos conversar – começo me deparando com um rapaz sentado na frente junto com Jean — Oh, desculpa!
— Oi, tudo bem? Quer sentar aqui? – pergunta o rapaz de olhos cor de mel tão sem graça quanto eu.
— Não precisa , Sérgio – diz Jean impedindo o amigo de abrir o cinto — Ela irá atrás. Aliás, Sérgio , essa é a Catarina, minha amiga.- finaliza. Sim , ele ainda está me punindo pelo o que eu disse na noite anterior.
— Prazer – diz Sérgio sorrindo.
—Prazer – retribuo.
— Tem certeza que não quer trocar de lugar?– pergunta mais uma vez só que dessa vez para mim.
—Não tem problema – respondi abrindo a porta de trás.
Sento no banco atrás enquanto vejo minha oportunidade virando fumaça. Os dois continuam conversando ignorando minha presença no carro. Fico olhando a paisagem mudar tentando esquecer a angústia que vai crescendo conforme nos aproximamos da faculdade, diferente de Jean que ri alto da piada de Sérgio que também está tranquilo.
Prendo a respiração quando percebo que Jean já está estacionando na frente do meu curso. Jean sequer olha me olha pelo retrovisor, mas é notável sua impaciência:
— Chegamos – diz, sério.
— Obrigada pela carona- agradeço, tímida.
Desço do carro confusa com a atitude de Jean. Por que ele me trouxe se nem ao menos se deu o trabalho de falar comigo? De me acompanhar até a minha sala?
— Catarina – chama Jean me fazendo virar. Ele se ajeita no banco do motorista colocando seu óculos de sol — Venho te buscar assim que terminar minha aula... Espere-me aqui.
Mais uma vez sai com seu carro sem esperar qualquer resposta minha, algo que já estou começando a me acostumar. Viro em direção a entrada do bloco dando passos incertos, não sei o que irei encontrar ao chegar na sala, mas o percurso foi o mais estranho, com todas aquelas pessoas me cumprimentando e eu não conhecia nenhuma delas. Algumas diziam "força" , ou "estou do seu lado", parecia até que estava indo para o ringue de boxe.
Abro a porta da sala e já tem algumas pessoas , mas nem sinal da Letícia. Escolho sentar no fundo, mesmo não sendo meu lugar favorito ,ao menos ficarei um pouco fora do foco da turma. Cada vez que a porta se abre meu coração vai parar na boca, mas nunca é a ex do Jean. Aos poucos , os alunos vão surgindo e preenchendo as cadeiras e minha angústia vai diminuindo enquanto minha esperança vai me dando hipóteses que me agradam, como o fato da Letícia ter desistido do curso, ou decidir não vir por conta da publicação. Seja como for, sem dúvida será melhor assim:
— O lugar está vago?
— Está sim – respondo me esforçando ao máximo para minha voz sair, nem que fosse um sussurro, como agora.
Sim, Letícia em carne e osso puxa a cadeira ao lado da minha e senta.
—Obrigada – agradeceu com um enorme sorriso.
Tento evitar, mas não consigo desviar meu olhar , diferente dela que em poucos segundos já está conversando com outra pessoa, me ignorando completamente. Ela parecia tão calma, alegre e... livre. Em nada parece a louca ,barraqueira, paranoica, obsessiva, aproveitadora e ciumenta Letícia de quem todos me falaram. Fico até envergonhada dos pensamentos que tive do que poderia acontecer em nosso encontro. Pelo visto , para ela, eu era apenas mais uma acadêmica.
Eis que surge a professora de PRÁTICA DE ENSINO I como ela escreve no quadro fazendo com que todos prestem atenção. Ela se vira ajeitando seus cabelos negros em coque com uma caneta e então senta na ponta da mesa encarando a todos. :
—Bem vindos ao curso de Letras com habilitação em português — Inglês! – começa dizendo a todos nós. — Meu nome é Rosana e serei a professora de Prática de Ensino de vocês nesse período. Antes de começarmos a aula quero que cada um de vocês se apresentem para o resto da classe – ela para um segundos ouvindo as nossas reclamações. Passamos a vida toda escolar fazendo isso, devo admitir que me frustrou um pouco saber que isso ainda acontece na faculdade — Sala, antes de começarem a reclamar, saiba que isso é fundamental para a nossa aula.Além do fato que dentro de uma semana vocês formarão panelinhas e ocorrerá uma grande divisão de grupos na sala... E com certeza não irão falar com muitos daqui depois de um tempo. Então para começar, quero que se levantem, digam seus nomes, por que escolheram o curso e o que pretendem fazer após a conclusão, okay? Vamos começar por aqui.
Um a um da fileira da porta começou a se levantar e se apresentar, nesse tempo eu fiquei pensando em minhas escolhas , por que eu escolhi o curso? O que pretendo fazer depois? Eu sabia essas respostas na ponta da língua então não seria um problema para mim como foi para alguns ali. Então fiquei analisando o resto da turma , tentando adivinhar por que estavam ali. Foi um jogo bem divertido, acertei alguns, errei outros. Até que chegou a vez da Letícia , que se levantou toda sorridente. Eu senti um frio na barriga, pois eu finalmente ia saber o que a fez escolher Letras e o que ela pretende depois :
— Bom dia, meu nome é Letícia... Eu escolhi Letras por ser algo bem diferente do que eu planejava da minha vida. Estou em uma fase de (re) descoberta.
— Quer dizer, pós — pé na bunda né? – grita alguém do fundo da sala. Eu procuro em vão encontrar a pessoa , enquanto a turma toda ri daquela situação.
—Então quem sabe o que Letras pode me trazer, não é mesmo? – continua Letícia sem se abalar — E eu não tenho ainda a menor ideia do que irei fazer. -Ela senta logo em seguida sem ao menos me encarar.
— Sua vez – diz a professora apontando para mim.
—Bom dia, meu nome é Catarina. Escolhi Letras, pois meu sonho é um dia ser revisora de uma editora.
— E ser a próxima senhora Vasconcelos! – grita o mesmo rapaz de antes.
— Okay, quem é o engraçadinho ? – pergunta Rosana, recebendo apenas o silêncio da turma — Obrigada, Catarina. Vamos para o próximo.
Sentei e fiquei o tempo todo olhando para frente, tentando ignorar os olhares curiosos, os burburinhos ao meu respeito. Senti em vários momentos o olhar de Letícia em minha direção. Depois de alguns minutos a professora continua sua aula, mas não consigo prestar muita atenção com a minha cabeça fervilhando diante daquela situação. A segunda aula, linguística I . Dou graças a Deus quando finalmente as aulas acabaram e já posso ir embora. Então eu sinto alguém tocar em meu braço:
— O que foi? – pergunto ríspida me virando.
—Desculpa te incomodar – diz um rapaz se encolhendo diante a minha grosseria. Seus olhos castanhos me encararam , surpresos, na verdade até eu mesma fiquei surpresa com minha reação. Ele ajeita seu cabelo rastafári que encosta de leve em sua camisa regata. O que mais me chama atenção é sua tatuagem tribal que toma todo o seu antebraço direito – Eu notei que você não tem uma dupla para a aula de Linguística e gostaria de saber se gostaria de fazer comigo? Olha, eu sou ótimo com pesquisas, cumpro prazos , sou aberto a opiniões...
— Tudo bem – respondi ajeitando minha mochila dando meu melhor sorriso para ele.
—Meu nome é Patrick – solta o rapaz de cabelo rastafári. Ele mordeu os lábios, enquanto bate as mãos ao lado do corpo, demonstrando estar ansioso – Esse é o momento em que você diz o seu...
— Catarina! – grita Jean de algum lugar.
Viro procurando por ele, e o encontro dentro de seu carro do outro lado da rua, com Sérgio a tiracolo. Sua cara não é a das melhores, mostrando estar impaciente.
— Preciso ir – digo para Patrick,apressada.
— A gente combina sobre o traba...
— Adeus – despeço sem ao menos olhar para trás. Praticamente corro em direção ao carro, entrando ofegante – Oi...
— Oi, Ca...
— Quem é ele? – pergunta Jean, ríspido, sem ao menos olhar para mim.
— Quem? – pergunto, confusa.
— O maconheiro que estava falando com você – solta Jean, irritado com minha ignorância.
— Não sei do que está falando
—Estou falando do cara com o cabelo de maconheiro que estava falando com você agora mesmo– dispara alterando sua voz.
— EU não o conheço – respondo, nervosa.
— Tem certeza? – questiona Jean me encarando pela primeira vez. Seus olhos buscam qualquer indício de mentira da minha parte.
— O seu nome é Patrick e pediu para fazer um trabalho comigo... É tudo o que eu sei.
— Patrick... – repete Jean saindo com o carro.
— Nome de maconheiro – solta Sérgio. Então os dois riem e então ele se vira para mim e continua – Aliás , Catarina, você tem que tomar muito cuidado com o seu curso... Curso de humanas, sabe como é, todo cuidado é pouco?
— O que tem o meu curso ser de humanas? – pergunto, curiosa.
— Curso de humanas só tem drogado, lésbica, puta, viado... Eles enchem a cabeça dos novatos com aquelas nóias de igualdade, identidade de gênero, drogas é algo bom... aí depois fica reivindicando merdas aqui na faculdade. Não caia no papo deles – adverte por fim.
— Sei... – digo, pensativa e ao mesmo tempo assustada com as informações.
—— Catarina não é esse tipo de garota. – solta Jean, me defendendo. Por algum motivo, me senti feliz por ele pensar que sou diferente.
— Aham, a Marisa também não era, mas aí juntou com aquele nóia de Psicologia e veja como está agora. – rebate Sérgio, irritado — Esses dias, esbarrei com eles no mercado, ela estava usando um short que mostrava toda a bunda. Não sou machista, mas acho inadmissível uma mulher usar esse tipo de roupa para sair com seu macho. Eu deixo minha mulher usar esse tipo de roupa em casa e só para mim... Essa coisa de deixar a mulher usar essas roupas inadequadas , é coisa de homem frouxo. Ela estava parecendo uma perereca esticada... coisa horrorosa... E o cabelo, parecendo mais um ninho de urubu. Espera só a Catarina começar a se envolver com o noinha de hoje. Daqui a pouco está ouvindo Bob Marley, puxando um beck...
— Isso não vai acontecer – responde Jean, ríspido.
— Como pode saber? Ela é mulher... é só tomar um chá de pica do cara, já era. – solta Sérgio , então ele me olha de cima abaixo – A menos que encontre o cara certo.
Senti nojo da forma como ele me olhou, me senti suja, senti asco... minha vontade era sair correndo do carro. Observo Jean, seu rosto está fechado,segura o volante do carro com as mãos com tanta força que as juntas de seus dedos estão brancas. Ele respira fundo sem encarar o amigo. Então Sérgio se vira em direção da janela, calado, ele tinha passado os limites com o Jean e sabe disso. Em poucos minutos ele para em frente a casa pomposa de Sérgio que desce sem ao menos me dar um tchau para mim. Continuei no banco de trás enquanto Jean dirige em direção a minha casa. O silêncio reina entre nós até chegar na frente do meu portão.
— Obrigada pela carona – digo abrindo a porta.
Desço do carro e caminho em direção ao meu portão, então escuto o barulho de porta se fechar, o que me faz virar e encontrar Jean parado atrás de mim.
— Como foi com a Letícia? – pergunta Jean, sério.
— Bem... Ela me pareceu bem normal... Acho que foi tudo um grande exagero da minha parte. Você não precisa se preocupar mais em me trazer. – respondo, sincera.
— Ela é ardilosa... Deve estar armando alguma coisa – comenta Jean, o que me parece mais um pensamento do que falando comigo — Não se preocupe, amanhã estarei aqui novamente.
— Não precisa... – solto, sem graça.
— Até amanhã – finaliza Jean tomando meus lábios, ardentemente. Ele sorri ao ver meus olhos abrindo devagar e então entra em seu carro.
Minha semana só estava começando.
****
Entro no carro do Jean mais uma vez naquela semana que parecia sem fim. Já era quinta , e mais uma vez sou ignorada pelo Jean, escuto as piadas do Sérgio, vejo a Letícia que nem se abala com a minha presença... não era uma rotina agradável, pelo menos não para mim. A única coisa boa era o Patrick, ele era engraçado e passou a sentar do meu lado nas aulas.Conversávamos bastante sobre tudo.
Descobri que ele decidiu escolher o curso, pois ajudava em uma ONG e queria alfabetizar crianças ribeirinhas que não tinham acesso à escola, o que nos fez direcionar nosso trabalho para esse tema. Sua mãe era empregada doméstica e seu pai era marceneiro, seus olhos sempre brilhavam quando falava deles ou da ONG. Parece estranho, mas eu me sentia mais livre conversando com o Patrick, como se ele me entendesse, o que deixava Jean visivelmente incomodado quando ia me buscar. Ele nunca disse nada, mas eu podia sentir que Patrick o irritava.
— Então eu disse pra ela: quem mandou beber todas ontem...Sabe como é: Cú de bêbado não tem dono – continua Sérgio contando uma de suas noites de gandaia, algo que passei a ignorar. Mas daquela vez , eu me senti estranha, como se estivesse escutando algo realmente errado.
—Desculpa, Sérgio, mas ela queria transar com você? – pergunto, curiosa.
— Sério, Catarina? Você não perguntou isso... – diz Sérgio, sarcástico. Ele se vira em minha direção falando , irritantemente, devagar enquanto pontuava suas palavras com os dedos – Ela usava uma roupa que era um vale sexo ,ela foi na festa e bebeu todas, ela entrou no meu quarto e parou em um motel comigo... Você realmente acha que ela não queria transar?
—Desculpa, é que pareceu que você...
— Estuprou ? – questiona Jean, sério – Você acha que Sérgio a estuprou?
— Não... quero dizer...
— Relaxa, Catarina. Eu não a estuprei, até porque parece que por ali passou a torcida do flamengo, se é que me entende? Não foi estupro... foi só um sexo surpresa.
—E qual é a diferença? – pergunto mais uma vez.
— Não é óbvio? – rebate Sérgio. Ele volta ao seu lugar rindo enquanto olha para Jean – Pelo visto a Catarina já está indo para o lado esquerda da coisa... Eu falei que isso ia acontecer.
— Eu não estou... Eu só quero entender como funciona.
— Essa é a questão, você não entenderá – intervém Jean – Você é mulher e vocês se ofendem por qualquer coisa. E chega desse assunto.
Encosto no banco, me sinto ofendida com as palavras de Jean e ainda mais por Sérgio achar graça . Viro-me para a janela deixando me levar pelos meus pensamentos. Paramos na frente da casa de Sérgio que desce, mas dessa vez vem até minha janela , me forçando a abaixá-la.
— Ei , Cat – chama Sérgio – Você vai na calourada amanhã?
— Calourada? – pergunto sem entender.
— Como assim você não sabe o que é uma calourada? – questiona Sèrgio, incrédulo – Esse é o maior evento da faculdade. Todos os cursos reunidos, todo mundo vai estar lá. Se você quiser, eu posso te levar.
— Ela irá comigo – solta Jean, irritado.
— Na verdade, eu acho que irei com as meninas – digo.
— Bom, você quem sabe – diz Sérgio – Nos vemos lá.
E novamente, silêncio... Sei que ficaremos assim até chegar ao portão da minha casa. Fico observando Jean e sinto que estamos distantes um do outro, ou pelo menos ele está distante de mim. Acho eu nada irá vingar entre nós e que está na hora de seguir em frente. Ele pára o carro na frente da minha casa, desce e abre a porta do carro para mim, dando sua mão para segurar enquanto saio. Jean me puxa para seus braços ,me prendendo entre ele e o carro. Seu beijos são intensos, suas mãos me exploram sem se importar com quem passa pela rua. Seus lábios deslizam pelo meu queixo, pescoço e então para em meu ouvido , sussurrando:
— Quero que vá comigo para a Calourada.
— Como sua amiga – coloco meu indicador sobre seus lábios, o interrompendo.
— Você não é só minha amiga – rebate Jean tirando meu dedo e me beijando até eu ficar sem fôlego — Amigos não se beijam assim...
— Mas nós só beijamos assim quando estamos aqui, longe de todos – argumento me afastando.
— Aonde está querendo chegar? – pergunta Jean, sério. Mas ele não espera que eu formule a resposta e já dispara outra em seguida — Quer que eu saia te beijando por aí para que você supra essa necessidade das pessoas saberem que está saindo comigo?
—Não , claro que não! – respondo , ofendida.
— Não é o suficiente doar o meu tempo a você , levá-la para a faculdade e a todos os lugares que eu amo? O que mais você quer ? Então o que mais você precisa para entender que você não é só uma amiga para mim?
— A questão não é essa – respondo , nervosa.
—Então qual é a questão? – pergunta ríspido.
— A questão é que isso tudo é muito confuso — digo passando as mãos pelos meus cabelos. — Ao mesmo tempo em que temos tudo, não temos nada... Não somos nada. Eu me pego pensando no que raios estou fazendo, afinal não deveria estar querendo algo mais sério, já que meu foco aqui é apenas a faculdade.
— Você quer algo mais sério? – questiona Jean com as mãos na cintura, autoritário.
— O que eu quero é tudo esteja bem claro entre nós. Só que não está e eu não posso continuar assim. Sinto muito , Jean.
— Tudo bem , Cat. Eu sei que sou um cara complicado de se envolver, que tenho assuntos não resolvidos Mas saiba que você se tornou alguém importante na minha vida, alguém que me dá forças para levantar de manhã...E você quem faz os meus dias melhores – declara Jean se aproximando. Ele toca em meu queixo bem de leve me fazendo encará-lo – Então eu quero que saiba que não irei desistir tão fácil assim de você.
Ele beija minha testa e então entra em seu carro. Acompanho-o até desaparecer na esquina. Entro em casa rezando para não encontrar as meninas, quero ficar sozinha depois daquela turbulenta manhã. Chego em meu quarto, aliviada pelas minhas preces terem sido atendidas. Deito na minha cama e fecho os olhos desejando que aquela manhã tenha sido apenas um sonho.
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