Preciso admitir que me sinto aliviada pelo Jean ter voltado para São Paulo e não ter me acompanhado até Belo Horizonte. É um sentimento estranho, mas é preciso dizer que essa viagem para minha mãe era uma grande surpresa, não só para ela como para o meu noivo que descobriria que sua sogra não imaginava que estávamos a caminho. Como um efeito dominó, ela descobriria que estou morando com o Jean, o nosso noivado, o casamento em breve e a cereja do bolo que é a nossa mudança para São Paulo. Foi refletindo sobre essa situação que instintivamente tirei minha aliança de noivado. “Uma coisa de cada vez” pensei comigo enquanto descia do ônibus de viagem.

Belo Horizonte era totalmente diferente de Ourinhos e talvez isso tenha pesado forte para minha mãe vir para cá. Recomeço, talvez esse seja um bom argumento para lidar com a Dona Vera. Pego um táxi e passo o endereço da minha tia Marta, irmã da minha mãe.

O prédio da Tia Marta é belíssimo e fica no centro da cidade. Quando criança tinha a impressão de que ela fosse bem de vida, a “tia rica”, aquela que se deu bem, mas hoje entendo que é o fato do meu tio Augusto ser o porteiro do prédio que permitiu sua moradia tão bem localizada. É ele quem me atende na portaria quando chego e aquele olhar surpreso, o mesmo que recebi em Ourinhos, me recepcionou.

— Catarina? — Pergunta meu tio ajeitando seu óculos para me enxergar direito.

— Sim tio, sou eu. — Respondo com um largo sorriso.

— Menina, que surpresa boa — fala meu tio me abraçando animado. — Como você está crescida… e muito diferente.

— Obrigada, Tio. — respondo animada arrumando minha bolsa no ombro ao mesmo tempo em que ajeito minha mala — A Tia Marta está?

— Ela está limpando o 7º andar — responde meu tio segurando minha mala. — Venha, vamos pegá-la de surpresa. Ôh Marquinhos! — Fala meu tio Augusto ao segurança parado na porta. — Cuida da portaria pra mim, que eu já volto, só vou levar a minha linda Catarina até sua tia.

Entramos no elevador e em questão de segundos já paramos no hall do sétimo andar. Desço enquanto meu tio permanece no elevador com a minha mala, dizendo:

— Ela deve estar no 704. Enquanto isso vou colocar suas coisas lá em casa. — Responde Tio Augusto enquanto a porta do elevador se fecha.

O apartamento é quase colocado junto ao elevador, então dou alguns passos e já estou apertando a campainha. Não tenho uma resposta imediata além do barulho do aspirador de pó e do Chrystian e Ralf tocando no fundo. Aperto mais uma vez a campainha então noto o volume da música diminuindo e o aspirador sendo desligado. Conto até três que seria o tempo em que minha tia deveria levar para olhar o olho mágico e identificar quem estava do lado de fora. Então a porta se abre e ela continua me encarando mostrando que não me reconheceu.

— Oi, tia — digo abrindo meu sorriso. — Sou eu, Catarina.

— Catarina?! Oh meu Deus, você está … loira? — questiona minha tia me encarando com um misto de surpresa e espanto. Ela me abraça rapidamente e então me puxa para dentro do apartamento me analisando dos pés a cabeça. — E que roupas são essas? Ganhou na loteria?

— Não tia — respondo ajeitando meu cabelo. Ela aponta para o sofá cinza que ocupava grande parte da sala. Abro minha bolsa e tiro minha aliança de noivado, colocando em seu devido lugar — Estou noiva.

— Jesus, não me diga que é daquele rapaz que sua mãe chegou aqui falando horrores…

—Sim, estou noiva do Jean, tia Marta. — Confirmo balançando a cabeça.

— Menina, o que você está fazendo aqui? — questiona minha tia com as mãos no rosto.

— Eu estou aqui para passar o natal com vocês… — começo calmamente — E pedir a benção dela para o meu casamento.

— Vera vai te matar.- Ela segura minha mão — É lindo, mas você conhece sua mãe: quando ela não gosta de algo, ninguém a faz mudar de ideia.

— Sim, eu sei.

— Ainda mais depois da criancice que fez com ela na rodoviária. Ontem mesmo ela estava resmungando sobre isso — recorda minha tia arrumando o pano no ombro.

— Em minha defesa, foi ela quem começou. Ela queria que eu desistisse da minha faculdade, da minha carreira e viesse pra cá! — rebato. — Eu não sou mais uma criança para ela tomar as decisões por mim..

— Catarina, mas você vai concordar comigo que seria melhor que viesse pra cá… ficar perto da família. Lá você está totalmente sozinha.

— Eu não estou mais sozinha. — respondo erguendo minha mão.

— Você não acha que é muito nova para esse tipo de compromisso? Casamento é uma coisa séria. — Alega minha tia com uma ruga de preocupação bem marcada na testa.— Aliás, quando é mesmo?

— Ainda não temos uma data, mas pelo Jean nos casaríamos este ano ainda. — respondo com um sorriso.

— E quanto a você? — pergunta minha tia.

— Gostaria que fosse em breve. — respondo — Se não for demais, que vocês comparecessem ao nosso casamento.

— Adoraria ir ao seu casamento, mas você sabe que a vida minha e do seu tio é uma corrida pelo prato do dia. Ir até a esse estado seria um gasto que a gente não teria como arcar.

— E se eu pagar? — sugiro, animada.

— Uau, você está podendo mesmo, hein? Guardou o dinheiro que a sua mãe depositava? — perguntou minha tia ríspida. Ela tinha escolhido um lado e não era o meu.

—Não, tia. A família do meu noivo com certeza poderá arcar com isso.

—Certo, mas você está esquecendo de uma coisa … Sua mãe. — fala minha tia — Já parou para pensar que ela não vai te dar a benção? Se não abençoar essa união, o que fará?.

— Eu pensei nisso o tempo todo, mas no fim só há uma conclusão: eu só vou saber se conversar com ela. Onde ela está , tia? — pergunto, séria.

***

Edifício Beau Rivage, esse era o nome do prédio localizado na zona sul da cidade e um dos mais belos que eu já vi. Era ali que nesse momento minha mãe estava trabalhando. Chego na portaria e o porteiro praticamente me deixa entrar .

— Por gentileza — começo encarando o porteiro. — Gostaria de falar com a Vera Lúcia Araújo Freitas.

— Não há nenhuma moradora com esse nome em nosso condomínio, senhorita — responde o porteiro.

— Ela não é moradora, mas sim empregada da família Moreira — explico.

— Um momento — fala o porteiro interfonando para o apartamento. — Bom dia, poderia falar com a Vera? Ah sim, Vera… Sim, tem uma pessoa aqui na portaria querendo falar com você… É a … Desculpa qual é o seu nome?

— Catarina — respondo, nervosa tocando em minha aliança, então lembro que preciso guardá-la novamente, algo que faço em seguida.

— Catarina — fala o porteiro que logo em seguida franze a testa — aham… sim… aham… certo… Tudo bem. — ele desliga o telefone e me encara. Pelo seu rosto com certeza minha mãe não queria qualquer contato comigo.— Venha comigo.

Ele caminha a minha frente e me leva até um elevador exclusivo, onde ele aperta para a cobertura. Conforme o elevador vai subindo meu nervosismo aumenta, até que ele para em frente a uma bela porta de madeira escura que se abre rapidamente, deixando que a figura de minha mãe me recepcionasse.

— O que você está fazendo aqui? — questiona minha mãe, séria me encarando dos pés a cabeça.

— Oi, mãe. Como a senhora está? — pergunto ignorando sua pergunta.

— Achei que tivesse sido bem clara quando disse que se ficasse, poderia esquecer que tem uma mãe.

— Eu preferi acreditar que a senhora não estivesse falando sério — respondi com leve tristeza.

— E por que eu não falaria sério, Catarina? Não conhece a mãe que tem? Ou melhor, tinha?

— Mãe, por favor… — peço segurando as lágrimas.

— O quê? Você achou que fosse vir aqui com essas roupas de grife e esse cabelo...O que fez com o seu cabelo? Quer saber, não importa, aposto que vai responder que foi aquele garoto que sugeriu, ou que achou melhor. Enfim, achou mesmo que aparecendo igual essas granfinas vai me convencer de que fez a melhor escolha e que tudo ficará bem? — questiona minha mãe.

— Não, não foi para isso. Eu não vim aqui para ficar falando com a senhora do elevador. Eu vim aqui porque a gente precisa ter uma conversa como duas pessoas adultas.

— Adultas?

— Sim, mãe. Eu sou adulta e só a senhora não é capaz de ver isso. Porém, eu não quero entrar nessa discussão novamente. Mãe, é natal. Puxa, a gente nunca passou o natal separadas e tudo o que não desejo é que esse seja o nosso primeiro natal assim.

Observo o rosto da minha mãe relaxar com as minhas palavras. E sendo bastante otimista, o canto dos seus olhos parecem hospedar algumas lágrimas. Para mim aquilo é um sinal de que a Dona Vera concordava comigo.

— Vera! — chama alguém ao fundo fazendo com que minha mãe tomasse uma postura mais séria . Em alguns minutos surge uma figura de cabelos compridos e platinados muito bem alinhados que mal tocavam no cardigan bege de gola ampla que usava. Seus olhos verdes me encaram longamente acompanhados por seus grandes cílios. — É pra mim?

— Não, senhora. — responde minha mãe virando em direção da mulher — Essa é minha filha, Catarina. Catarina, essa é a Senhora Moreira, minha patroa.

— Fani Moreira — responde a mulher me analisando atentamente — Tenho a impressão de que conheço você de algum lugar.

— Deve ser das fotos que tenho na minha cômoda, senhora. — responde minha mãe — Precisa de alguma coisa, Dona Fani?

— No momento que você recolha sua filha para dentro da casa. Onde já se viu ficar de conversa na porta? — questiona a Senhora Moreira com o que eu acho ser um sorriso em seus lábios exageradamente preenchidos.

— Sim senhora — responde minha mãe abrindo passagem para mim.

Entro no apartamento todo em mármore branco que me lembrava um palácio de tão belo e de repente sinto meu corpo ser puxado para trás pela minha bolsa:

— Essa é uma réplica perfeita da Hermes Matte Crocodile Birkin — elogia a patroa da minha mãe segurando minha bolsa entre suas mãos.

— Bom, ela não é uma réplica. — respondo levemente ofendida. No mínimo ela pensou que a filha da empregada não seria capaz de ter uma original recém lançada no mercado.

— Você está querendo me dizer que essa é uma original? — Questiona Fani arregalando os olhos. Ela praticamente arranca a bolsa do meu braço para poder analisar melhor todos os detalhes — Esse fecho possui 10 quilates em diamantes… Sem falar no couro de crocodilo. Você está andando com um quarto de milhão de reais pelas ruas! Desculpe-me a empolgação, mas é que eu sou colecionadora de bolsas e estou namorando essa há muito tempo… Sua patroa é muito generosa com você.

Ela gira minha bolsa analisando cada parte da impecável costura sem nem ao menos esperar que eu responda sua pergunta. Aliás, não foi uma pergunta, foi uma afirmação, mas eu estava com desejo de rebater aquilo e minha mãe sabia e pela sua cara, já demonstrava claramente a insatisfação por saber o quanto estou sendo mimada pelo Jean.

Quando menos se espera, escutamos um pequeno objeto cair da minha bolsa bater no chão de mármore. Tentei ser rápida, mas a Fani Moreira foi muito mais e acabou com a minha aliança de noivado entre seus dedos. Meus olhos se arregalam e procuram os rosto da minha mãe, mas tudo o que encontro é a Fani que me encara de olhos arregalados, no mínimo agora já deve estar me taxando de ladra:

— Você é a moça que ficou noiva no jantar de apresentação de residentes da USP! — exclama.

— Sim, você estava lá? — pergunto com coração na boca.

— Óbvio, meu irmão começou sua residência lá também. Meu marido também foi residente lá e nunca perdemos nenhuma festa dos Chateaubriand que são muito amigos da minha família. Lembra Vera que eu cheguei comentando sobre um noivado surpresa?

— Sim, a senhora disse que foi a coisa mais brega que já tinha visto em toda sua vida — responde minha mãe com o tom mais áspero que poderia soltar naquele momento. Aquele tom não era para Fani, mas sim para mim, igual a um míssil.

— Eu tenho certeza que não disse com essas palavras — comenta Fani levemente sem graça sorrindo para mim. — Vai me dizer também que ela é verdadeira?

— Sim, meu noivo fez com o mesmo joalheiro do Doutor Frederico Chateaubriand, se eu não estou enganada. — respondo, séria.

— Mas que mundo pequeno, não é mesmo? quem diria que a filha da minha empregada era a noiva que me fez invejar a sua aliança de noivado!

— Pois é, quem diria. — reforça minha mãe me encarando, séria.

O clima entre nós duas estava muito pesado a ponto da sem noção da Fani que ainda admirava minha aliança ser capaz de notar. Ela dá uma última olhada e então me devolve junto com a minha bolsa:

— Pronto, coloque essa linda aliança em seu devido lugar, ou então da próxima vez em que cair , poderá perdê-la para sempre. — Ela me encara por um bom tempo então continua. — Eu tenho alguns assuntos a tratar, então fiquem à vontade para conversar na cozinha. Até mais e foi um prazer conhecê-la.

— O prazer foi todo meu — respondo com um leve sorriso enquanto coloco a aliança em seu lugar.

Ela nem bem sai da sala e já me deparo com a Dona Vera de braços cruzados:

— Noiva, você está noiva. — ela repete bem devagar como se estivesse processando os últimos acontecimentos. Ela sorri sarcasticamente e então continua. — E você ainda teve a audácia de olhar dentro dos meus olhos e dizer que veio até aqui porque queria passar o Natal comigo.

— Eu vim passar o natal com você, mamãe — afirmo nervosa. Então respiro e continuo. — E também vim pedir a sua benção para o nosso casamento.

— Mas nem por cima do meu cadáver. — Rebate minha mãe caminhando em direção a outro cômodo do apartamento.

Caminho atrás da minha mãe que não faz a menor questão de me esperar. Sei que ela está chateada e que errei em ter omitido o meu noivado assim.

— Mãe, por favor. — Peço caminhando atrás dela. — Vamos conversar… Como pessoas maduras.

— Pessoas maduras? — rebate minha mãe entrando na cozinha. Ela caminha em direção ao escorredor de louça e continua falando ao mesmo tempo em que guarda os utensílios domésticos — Pessoas maduras? Igual a você e ao seu noivo que são mentirosos patológicos? Não, muito obrigada!

— Mãe, eu ia te contar…

— Quando? — questiona minha mãe fechando a porta de vidro do armário com força. — Diga-me, pois agora fiquei curiosa.

— Eu ia te contar hoje quando voltássemos para a casa da tia. A gente tem muita coisa para conversar, mãe. Muita coisa aconteceu desde…

— Desde que você saiu correndo pela rodoviária e pegou um táxi, escolhendo um macho ao invés de mim, sua mãe — completa Dona Vera.

— Desde que você achou que poderia escolher o que eu deveria fazer da minha vida! Desde aquele dia em que você virou e disse que eu deveria desistir da minha faculdade, ou melhor, do meu futuro porque você achou que eu não era capaz! — Reajo falando alto com a minha mãe pela primeira vez em toda minha vida.

O silêncio nos coloca cada uma em um canto da cozinha. Minha mãe pega alguns pratos e começa a secar e então pergunta:

— E como está a sua faculdade?

Abaixo a cabeça pensando com cuidado nas minhas próximas palavras enquanto sinto os olhos da minha mãe pousarem sobre minha cabeça, aguardando pela resposta. Ergo minha cabeça e lá está ela com um prato nas mãos suspenso como se já soubesse a resposta, apenas esperando a confirmação:

— Decidimos que o melhor a se fazer é transferir minha faculdade para São Paulo, que é para onde vamos nos mudar após o casamento, por isso no momento ela está trancada.

— Decidimos? Quem são essas pessoas? — pergunta minha mãe franzindo a testa.

— Eu e o Jean, nós decidimos que assim é melhor.

— Claro, tinha que ter o dedo dele. — comenta minha mãe com sarcasmo.

— Nós, mãe! Foi uma decisão conjunta, a senhora não ouviu! — Rebato apontando o dedo para mim.

— E foi uma decisão conjunta o casamento? A mudança para outro estado?

— Sim! Tudo decidimos juntos.

— Você está grávida? — questiona minha mãe, nervosa.

— O quê? Claro que não, mãe! — respondo, ofendida com a suposição.

— Então me explica como essa decisão conjunta é diferente da proposta que fiz a você? — Pergunta minha mãe se apoiando na pia.

Aquela pergunta foi como um soco no meu estômago. Abro meus lábios várias vezes buscando palavras que fossem minimamente capazes de respondê-la, mas nenhuma vinha à minha mente. Lá no fundo, eu sentia que a resposta era que nada era diferente, mas ao mesmo tempo não era… Se eu fosse um robô naquele momento eu teria sem dúvida entrado em curto, mas não sou e minha criadora esperava ansiosa por uma resposta plausível. Naquele momento desejava que o Jean estivesse aqui, pois assim ele seria capaz de respondê-la a altura, mas ele não estava e sim eu que balançava a cabeça nervosa e frustrada com a pergunta da minha mãe:

— A senhora não sabe a quantidade de acontecimentos que tivemos neste ano para chegarmos a essas decisões.

— Então fale pra mim o que foi que aconteceu para que você deixasse um homem definir como você deve viver a sua vida e a sua mãe não.

— Não adiantaria explicar, você não seria capaz de compreender — rebato erguendo os ombros enquanto as lágrimas caíam de meus olhos — Nem estaria disposta a tentar.

— Eu realmente não sou capaz de compreender essa ânsia que você tem em ser a esposa de alguém — afirma minha mãe.

— E eu não consigo compreender o que a senhora tem contra, em eu ser a esposa do Jean!

— Eu não tenho nada contra, em você ser a esposa do Jean — rebate minha mãe erguendo o seu dedo em minha direção — Você está entendendo tudo errado , mocinha.

— Desculpe-me, mas não é o que parece. — afirmo enxugando minhas lágrimas.

— Catarina, não há nada de errado em ser esposa de alguém, mas você não tem ideia do peso que é ser a esposa de alguém. Quer um exemplo: a Dona Fani. Ela é esposa de um cardiologista e todo mês ela faz algum procedimento estético para manter a juventude e assim seu marido não olhar para outra. Quando ele está em casa, ela pisa em ovos e tudo gira em torno dele. Eu não te criei para ser a esposa de alguém, eu te criei para ser alguém.

— Eu sei mãe, mas eu não sou a Fani — respondo — A senhora me criou e sabe disso.

— Você pode não ser ela, mas o Jean… Há ele tem pelo menos 50% de chance de ser igual ao marido da Dona Fani.

— A senhora não gosta dele mesmo — acuso balançando a cabeça.

— Não é sobre gostar ou não, Catarina. O marido vai ser seu e não meu. É sobre fato e o que eu te disse é um fato. Você veio atrás aqui de uma resposta e eu darei sob uma condição.

— Condição?

— Eu lhe dou a benção — afirma minha mãe — Eu dou a minha bênção com o maior prazer, se o seu casamento for após você se formar.

— O quê, mas mãe eu acabei de explicar para a senhora a nossa situação… Não tem a menor possibilidade de esperarmos tanto tempo...

— Por que não? São apenas quatro anos, agora nem isso — fala minha mãe — Se ele te ama tanto quanto diz vai esperar o tempo que for para ficar com você.

— Mãe, o meu relacionamento não é um filme romântico… As coisas não funcionam assim.

— Então faça as coisas funcionarem — rebate minha mãe agora curvando seu corpo sobre a mesa da cozinha — A minha condição é essa: case-se após sua formatura, ou…

— Ou?

— Ou melhor, vá embora agora , fale com ele e se o Jean concordar, venham até mim os dois juntos que farei questão de não só dar a minha benção, como tratá-lo igual a um filho. Nunca mais questionarei as decisões de vocês e serei a primeira a defendê-los, se preciso for. — completa minha mãe — Agora, se decidirem continuar com essa loucura, não volte nunca mais aqui. Porque não há mais nada aqui para você.

— Tudo bem, depois do Natal eu falo com ele e tenho certeza de que ele acaba aceitando isso. Ele sabe o quanto a senhora é importante pra mim.

— É melhor você voltar hoje mesmo, pois eu não vou passar o Natal com você. — revela minha mãe.

— Por que não? — questiono, nervosa.

— Sabe o que acontece quando a esposa de alguém se separa? Ela se torna um nada, pois ela não buscou nada para si. Então ela acaba trabalhando no Natal para a esposa de alguém. Esse é o fim de quem vive como a esposa de alguém.

***

Cheguei em Campo Grande após as festividades natalinas, não que eu tivesse passado com a minha tia, longe disso. Assim que voltei para a casa dos meus tios, disse que precisava voltar para casa com urgência, algo sobre o bufê, ou mentira semelhante, algo em que estou realmente ficando muito boa.

Para o Jean, não precisei mentir, pois ele andava tão ocupado que nem ao menos me ligou para saber se estava bem. O que eu fiz foi me hospedar em um hotel e ficar lá pensando em como conversar com o meu noivo sobre a possibilidade de adiarmos o nosso casamento até o final do meu curso.

Não era uma condição inviável e muito menos sem lógica, em algum momento eu creio já ter pensado nisso, mas não consigo me lembrar o que me fez desistir. Essa situação me lembrou das vezes em que o Jean me trancava em seu apartamento para que eu pudesse refletir. Sinceramente não gostava muito quando ele fazia isso, mas agora tirar esse tempo sozinha em quarto foi bom pra mim, pois consegui criar as mais variáveis reações do Jean quando tocasse no assunto e como contorná-las sem que haja gritos, louças quebradas, ou até mesmo mais uma tentativa de suicídio.

Estava tão pensativa a confiante de que conseguiria resolver essa situação com a minha mãe que nem ao menos percebi que o motorista da família do Jean que foi me buscar no aeroporto havia pegado um caminho completamente diferente do que deveria quando vi a poeira da estrada de chão tomando o banco de trás do veículo:

— Desculpe-me, mas para onde estamos indo? — pergunto nervosa observando a paisagem rural se tornando predominante.

— Ordens do Senhor Jean. — responde o motorista — Seria melhor a senhorita entrar em contato com ele , caso deseje mais explicações.

Aceno com a cabeça e então começo a procurar meu celular dentro da bolsa invejada pela Fani. Disco o número do Jean e em poucos minutos sua voz animada me atende:

— Oi meu amor!!! Como foi sua viagem? E com sua mãe, aliás eu já até posso imaginar que ela não deu a benção...

— Foi boa, sobre a benção é melhor conversarmos pessoalmente. — digo sentindo os solavancos do carro na terra batida — Escuta, já estou com o motorista de vocês, mas acho que ele errou o caminho para a casa de vocês …

— Ele não errou o caminho — afirma o Jean — Você não está indo pra casa.

— Não? Então para onde estou sendo levada? — questiono curiosa.

— Confia em mim?

— Confio. — respondo erguendo a sobrancelha enquanto tento imaginar a relação de confiança com o caminho que o motorista pegou.

— Ótimo. Até mais. — finaliza Jean desligando o telefone.

Eu nem tive tempo de me despedir, mas tive tempo de sobra para ficar projetando respostas para o lugar onde esse motorista está me levando até que entramos em uma outra estrada de chão marginalizada por cana de açúcar por um bom trecho. No seu final uma bela fazenda nos dá boas vindas, então uma das hipóteses que levantei foi a correta: estávamos na fazenda dos pais do Jean.

Devo admitir que com toda a situação com a minha mãe havia esquecido que a festa da virada de ano seria ali. Respiro aliviada observando a paisagem do lugar que já estava todo decorado em tons pastéis, verdes e Marsala. Com certeza aquilo era coisa da minha sogra que ama essa paleta. Só não imagino que gostasse tanto a ponto de fazer a decoração da virada com elas. Os tons estavam por toda a parte bem como as cadeiras e mesas. O carro continua seu percurso não me permitindo ver mais coisas e então estacionamos próximo a capela de tijolinhos da fazenda que ficava um pouco afastada do casarão principal.

A porta do veículo se abre e sou praticamente puxada pelo Jean que me cobre de beijos e um forte abraço apertado. Então ele se afasta e posso notar que ele estava muito bem vestido com um terno branco e camisa social parcialmente aberta. Abro meus lábios para fazer a pergunta mais óbvia naquele momento quando ele dispara:

— Bem vinda meu amor, ao nosso casamento!