O celular chamado está desligado, ou não pode receber essa ligação no momento, tente novamente mais tarde… Obrigada.

Era isso que passei o final de semana e o início daquela manhã de segunda escutando do celular da minha mãe. Buscava por explicações, mas tudo o que recebia era essa mensagem da caixa postal. Disco mais uma vez enquanto espero Jean chegar, já que ele está surpreendentemente atrasado , na esperança de que em algum momento ela vai me atender e assim evitando aquele terrível pressentimento de que algo ruim poderia ter acontecido.

Arrependo-me de todas as vezes em que não a atendi quando ela me ligou, como desejava ter atendido só uma delas… Ela quis tanto falar comigo e eu a ignorei completamente. Sempre ocupada demais, ou com algo importante demais para atendê-la naquele momento. Fecho meus olhos prestando atenção em cada toque:

— Catarina?

Abro meus olhos e me deparo com o Jean já estacionando na frente de casa. Ele estava sério e entendo o motivo: como certeza ele queria saber o que eu fazia ao telefone.

— Vamos — chama meu namorado com cara de poucos amigos.

Desligo a chamada e entro no carro, calada, assim como ele permanece enquanto coloco meu cinto.

—Então, com quem você estava ao telefone? — pergunta Jean.

— Eu estava tentando falar com a minha mãe — respondo ao mesmo tempo em que mexo em meus cabelos, frustrada. — Ela não me atende… E você , por que chegou atrasado?

— Isso é culpa deles — responde Jean virando seu rosto para trás.

—Oi, primeira dama — cumprimenta Sérgio .

Viro meu rosto e me deparo com o amigo de Jean com sua cabeça raspada igual ao meu namorado. Porém, a surpresa maior é que ele estava acompanhado da caloura loira do sucão, ou como Sérgio fez questão de apresentar:

—Jaqueline, essa é a Catarina. Catarina, essa é a Jaqueline.

—Pode me chamar de Jaque — afirma a loira.

— Olha só, mudou o visual — comento com o Sérgio — Eu já achava vocês parecidos, agora com esse corte estão quase gêmeos.

— Estamos tão parecidos que você até nos confundiu no shopping — resmunga Jean só para eu escutar.

— Para evitar de você me beijar achando que é o Jean, ou brigar com ele, toma mais essa novidade — fala Sérgio mostrando seu antebraço esquerdo: Uma tatuagem do seu time de coração — Agora não tem erro.

—Ou ela pode se acostumar com o dia-dia já que todos nós vamos juntos para a aula — comenta Jaqueline que sorria para o Jean, ignorando minha existência..

Eu viro meu rosto para frente, séria. Pelo visto aquela não seria a última vez em que daríamos carona para eles. Tento não observá-la pelo retrovisor, mas minha mente me forçava e cada vez que fazia isso a encontrava olhando fixamente para o Jean que se mantinha sério ao volante. Claro, em alguns momentos eu seguia o olhar do meu namorado para o retrovisor e tinha quase a certeza que ele a encarava também. Havia um clima no ar e eu podia sentir. Então as palavras que ele havia me dito na noite anterior surgiram em minha mente: Não vá por esse caminho.

Aperto o visor do meu celular e abro a caixa de mensagens na esperança de encontrar alguma mensagem da minha mãe, é nela que preciso focar nesse momento.

***

Graças ao Jean, chego na minha sala atrasada. Para a minha sorte, a professora ainda estava conversando com alguns alunos em sua mesa, um deles é o Patrick que nem ao menos me encara.

Aproximo-me para saber do assunto, já que sem dúvida é sobre o nosso trabalho, ou melhor, sobre o trabalho ao qual estou em falta, mas já tenho uma ideia de como compensá-lo, fazendo toda a parte expositiva e claro, apresentando. É o mínimo que eu poderia fazer.

— Bom se é o que deseja, preciso reforçar que não temos outros alunos que possam fazer o trabalho em com vocês. Você terá de fazê-lo sozinho… — comenta a professora ao Patrick.

—É isso que estou fazendo desde o começo — afirma Patrick.

— Se a sua parceira concorda… — continuou a professora me encarando — Porém, estejam cientes de que o prazo permanece o mesmo.

— Patrick, a gente pode conversar? — pergunto, nervosa.

— Okay, professora. Obrigado. — responde Patrick se afastando sem ao menos falar comigo.

Caminho ao seu lado , mas ele me ignora totalmente , até sentar em sua cadeira, irritado.

—Patrick, o que foi? — pergunto, preocupada segurando no braço dele que se desvencilhou do meu toque — Fala comigo.

— Falar o que? — pergunta Patrick olhando para frente.

—Não sei… — respondo encolhendo os ombros — Eu queria entender o por quê você foi até a professora pedir para fazer o trabalho sozinho…

— Como ficou o seu quarto, Catarina? — pergunta Patrick me encarando, ferozmente — Deve ter sido horrível ver suas coisas serem molhadas por conta do ralo entupido do banheiro…

Observo atentamente o rosto do Patrick enquanto tento processar uma resposta. Sinto que é uma armadilha , talvez ele tenha dúvidas sobre o que de fato fiz no final de semana, ou o pior, ele descobriu a verdade e está me testando. Seja qual for seu motivo, só me restam duas opções: Manter a mentira ou contar a verdade:

— Patrick, eu…

Porém, antes que eu pudesse fazer a minha escolha, o Patrick a fez por mim mostrando a minha foto saindo do salão de beleza no sábado. Algum aluno me viu e colocou no perfil social da Universidade com o título : A NOVA NAMORADA DO JEAN SAINDO DO SALÃO.

— Você mentiu pra mim. Você não teve a decência de ser honesta comigo, mas esse não é o único motivo. Catarina, não sei qual é o seu objetivo fazendo o curso, mas parece que você já conquistou a sua vida financeira estável e agora isso aqui se tornou um hobby pra você. Só que para mim é disso aqui que sairá meu ganha pão. Então não posso deixar que nada e nem ninguém atrapalhar o meu futuro.

—É isso o que pensa de mim? — questiono, ofendida, tentando não chorar.

— Eu não sou o único que pensa assim. E olha não adianta chorar porque eu não acredito em você. Não mais. — responde Patrick se virando.

Ergo minha mão em direção ao braço do Patrick, mas então recuo. Não tenho nada a dizer em minha defesa. também não consigo prestar atenção na aula que acontece arrastada.

Assim que terminou Patrick saiu apressado e eu claro fui atrás. Ainda não tinha nada para dizer, mas o mínimo seria um pedido de desculpas:

— Patrick — chamo tentando alcançá-lo.

— O que você quer? — responde Patrick se virando , irritado — Olha só, vou deixar uma coisa bem clara aqui; Eu não quero mais ter contato com você. Eu não sou amigo de quem é cadelinha de macho!

Ele volta a caminhar pelo câmpus enquanto fico paralisada com suas palavras ditas altas o suficiente para quem estava ao redor prestar atenção. As lágrimas começam a escorrer pelo meu rosto, pela vergonha e também por pesar. Então escuto a buzina do Jean e tento limpar o meu rosto o mais rápido possível ao mesmo tempo que ando em sua direção.

Entro no carro e meu rosto vermelho me entrega imediatamente, fazendo com que Jean me encare , nervoso:

— O que foi ?

— Nada — respondo ajeitando meu cabelo enquanto olho para fora.

— Catarina… O que aconteceu?

— nada — reforço encarando o Jean..

Meu namorado respira fundo e então liga o carro , em direção a saída da Universidade.

— Eu estava pensando e acho melhor cancelarmos a visita na casa dos seus pais — comento , cautelosa.

— Como é? — questiona Jean, surpreso. — Que história é essa? Você me perturbou querendo conhecer os meus pais e agora está dando para trás? Você ficou maluca?

— Não, mas é que aconteceu um imprevisto e preciso fazer um trabalho esse final de semana que é crucial para minha nota.

— E é por esse imprevisto que você estava chorando?

— Sim…

— E isso envolve o Patrick? — questiona Jean me encarando.

Eu olho para o Jean e tudo o que sinto é vontade de chorar o que faço em seguida. Jean me observa atentamente, até que começo a contar o que aconteceu, até chegar nas últimas palavras do Patrick, onde a expressão do meu namorado muda completamente. Conheço aquela expressão, já a tinha visto antes e não gostava nenhum pouco. Para o meu azar , o alvo perfeito agora passava na frente do carro: Patrick de cabeça baixa.

Em questão de segundos, Jean desceu do carro ligado no meio da rua movimentada e caminhou em direção ao rapaz que estranhou a aproximação. Vejo os lábios do Patrick se abrir e serem fechados com um soco do Jean. O primeiro, de vários outros que vieram em seguida.

Desço do carro nervosa, mas minhas pernas me travam próxima ao carro.

— Jean, para! — grito tentando chamar atenção do meu noivo que continua a desferir golpes no Patrick no meio da rua.

Finalmente consigo caminhar na direção deles, me aproximo do Jean e seguro em seu braço com toda minha força tentando impedir mais um golpe contra o rosto ensanguentado do Patrick que está no chão. Porém ele me empurra, me fazendo cair no chão. Somente quando ele me viu no chão, transtornada chorando que o Jean parou e voltou a si. Ele vem até mim e me puxa pelo braço me conduzindo em direção ao carro..

— O que você fez? — digo enquanto ele me senta no banco do passageiro. Observo ele entrar no veículo . — O que você fez?

— Ninguém tem o direito de fazer sofrer . Ninguém pode fazer você chorar, eu não vou permitir isso. Eu sou capaz de qualquer , Catarina. Qualquer coisa... — responde Jean de olhos fechados. Ele os abre e me encara, sério — Você nunca mais vai falar com esse cara, está me entendendo? Eu te proíbo de falar com ele, de agora em diante. Estamos entendidos?

— Sim...

***

Não conseguia dormir, nem ao menos fechar os olhos, sem que a cena dos dois não surgisse em minha mente. Eu tentava em vão voltar para o momento em que contei ao Jean e desfazer o que fiz… Voltar a sábado e ter ido à biblioteca e tudo ter ficado bem. Também tinha medo pelo Jean, medo do Patrick ter denunciado o que ele fez. Isso sem dúvida colocaria o futuro do Jean em risco. Aquilo tudo era culpa minha e não havia nada que eu pudesse fazer. Talvez tentar falar com o Patrick, mas aí estaria quebrando a promessa que fiz ao Jean. Foi fácil cumprir o que prometi ao Jean, pois o Patrick não apareceu o resto da semana.

Jean não parecia se preocupar com o desaparecimento do Patrick e nem com o que fez, ou disfarçava bem, já que contava com ar de vencedor ao Sérgio e a Jaqueline que riam da situação..

— É sério, o mané passou bem na minha frente — continua Jean , debochado — Ele pediu!

— Cara , bem feito para aquele maconheiro — afirma Sérgio — Esse nunca mais nem olha para a primeira dama.

— Ele foi bem babaca mesmo, Cat — fala Jaqueline tocando no meu banco.— Ainda bem que você tem esse príncipe do seu lado para te proteger.

Eu me mantinha em silêncio, segurando o choro . De certa forma a Jaqueline tem razão, o Jean reagiu para me defender… Afinal, qual namorado aceitaria escutar que um cara falou aquelas coisas para sua namorada?

É nisso que me apego para me confortar para justificar a atitude do Jean, afinal se ele fez o que fez… foi por culpa minha.

O Jean encosta o veículo em frente a minha casa e tudo o que desejo é descer o mais rápido possível, mas ele segura meu braço e me puxa contra ele, me dando um beijo apaixonado:

— Eu te amo — declara passando a mão pelo meu cabelo —Não esquece que temos o jantar dos meus pais nesse final de semana.

— Você não desmarcou? — questiono, surpresa. — Eu disse pra você que precisava estudar esse final de semana…

— Sim, mas eles são pessoas muito ocupadas, Catarina — rebate Jean — Se você deseja mesmo conhecer os meus pais você terá de comparecer ao jantar.

— Mas Jean…

—Olha só, você é quem tem que se decidir. Eu fiz tudo que estava ao meu alcance para isso acontecer, mas se quiser mesmo conhecê-los, será agora, ou então…

— Ou então…?

— Só Deus sabe quando. Se é que haverá outra possibilidade. Já que se você faltar , vai mostrar pra eles que são irrelevantes e isso sem dúvida será negativo para sua imagem com a minha família — explica Jean calmamente — e você não quer isso, quer?

***

A casa do pais do Jean era magnífica ao ponto de me sentir envergonhada por estar ali. Escolhi o melhor vestido que comprei com a Stephanie para aquela ocasião, azul claro de alças largas e que faz o meu corpo perfeitamente até o joelho. Fiz um coque que aprendi na internet e a maquiagem foram as meninas que deram o seu melhor, mas agora vendo o hall de entrada, não senti que estava à altura. Jean aperta minha mão levemente para me trazer a realidade.

— Boa noite, Sr Jean — diz a empregada nos recepcionando.

— Onde estão meus pais ? — pergunta Jean.

— O Sr. Vasconcelos está no escritório e a senhora na sala principal , descansando.

— Ótimo. — responde Jean nos conduzindo para um dos corredores da casa.

Logo identifico pelo imponente espaço que ele veio me apresentar sua mãe que estava sentada em um dos sofás brancos que compõem aquela sala que parecia ter saído de uma revista de decoração.

— Mamãe — fala Jean se aproximando da Sra. Vasconcelos . Ele dá um beijo carinhoso na face de sua mãe e então se vira para mim — Mamãe essa é a Catarina. Catarina, essa é a minha mãe.

—Prazer — digo estendendo minha mão em sua direção

Ela não toca em minha mão, muito menos faz questão de sorrir para mim. A Sra. Vasconcelos apenas me observa com desprezo de cima até embaixo diante da minha ousadia.

— Já falou com seu pai, querido? -pergunta sua mãe.

— Ainda não tive esse prazer… — responde Jean com uma careta.

—Ele está ansioso para falar com você. Ele quer saber das novidades…

—Tudo bem. Fiquem vocês duas aqui se conhecendo melhor enquanto vou enfrentar o Senhor Vasconcelos — fala Jean se retirando.

O silêncio entre nós era constrangedor, aquela bela senhora de cabelos loiros nem ao menos fazia questão de me olhar, ficou apenas sentada em seu sofá branco enquanto eu seguia minha vistoria por aquele enorme cômodo em busca de qualquer elemento que acabasse com aquela tensão. Em pouco tempo encontrei algo que poderia servir de base para conversação: um belo porta retrato dourado com a fotografia de uma criança sendo amamentada por sua mãe. Seguro a fotografia por entre minhas mãos então me viro em direção a mãe do Jean:

—Que foto linda — comento tentando quebrar o gelo entre nós. — É o Jean?

— Não.

A matriarca se levanta do sofá caminhando vagarosamente, até chegar ao meu lado. Ela puxa o retrato das minhas mãos com delicadeza e então passa uma das mãos pela fotografia ao mesmo tempo em que se permite um sorriso. Ela respira fundo e diz:

—Esse é o meu Eduardo. Meu anjo.

— O irmão do Jean — concluo, sem graça. Ótima escolha, Cat, penso comigo.

— Sim, mas ele não está mais entre nós — comenta colocando a foto em seu devido lugar.

—Sim o Jean me contou a respeito.

— É mesmo? — questiona a Sra. vasconcelos com ar de surpresa — O Jean falou a respeito do irmão?

—Sim. — reforço com meu melhor sorriso — Ele tem um grande carinho pelo irmão.

— Ele disse isso? E o que mais o meu filho falou para você?

—Inclusive, o Jean me contou que escolheu cardiologia infantil por influência do que aconteceu com ele. Também me contou que vocês tentaram de tudo e agora sente que o mínimo que deve fazer é tentar ser melhor para aqueles que precisam.

— Nossa, estou grata por essas informações. Foram anos gastos com terapia que teriam sido simplificados se vocês tivessem se conhecido antes… O pai dele sem dúvida dirá que teria economizado uma pequena fortuna por ter tentado entender a mente misteriosa de nosso filho.

A matriarca então cruza os braços me observando atentamente. Pelo que consigo entender, tudo aquilo era uma grande novidade para ela . o jean não tinha o hábito de se abrir com ela, como foi capaz de abrir comigo, o que me fez sentir especial.

— O jantar está servido — avisa a empregada da porta.

— Vamos — diz a Sra. vasconcelos para mim — Tenho certeza que o meu marido vai amar te conhecer.

Caminhos em silêncio até a sala de jantar que é tão bonita quanto o cômodo anterior e lá encontro com o Jean já sentado próximo a um senhor de cabelos grisalhos, mas tão elegante quanto a mãe do meu namorado. Quando vira seu rosto em minha direção, tenho a certeza de que é o pai dele, o Dr. Carlos Vasconcelos, pois é a cara do Jean mais velho.

— Até que enfim- resmunga o médico em voz alta — Venham, sentem-se.

— Querido, esta é a Catarina , namorada do Jean — diz a esposa ao marido enquanto aponta em minha direção.

— Outra namorada, não é , meu filho? — comenta Dr. Carlos com Jean que parece desconfortável.

—A única,meu pai — responde Jean que agora me observa com um leve sorriso — Venha, meu amor, sente ao meu lado.

Atendo ao seu pedido o mais rápido que consigo. O silêncio na mesa só era interrompido pelo barulho de nossos talheres. Tento ocupar minha mente recordando as normas de etiqueta aprendidas com a Stephanie, a cada prato que os empregados colocam à mesa. Já estamos na sobremesa quando a matriarca sorri para mim dizendo:

—Então você cursa Letras? — Pergunta a mãe de Jean.— Interessante. Sabe a Letícia, ex- namorada do meu filho, cursava odontologia, um curso maravilhoso, digno … Eu , mesma sempre achei que ela sempre teve um grande potencial…

— Hoje ela cursa letras também, inclusive estamos na mesma turma.

— É mesmo — comenta surpresa. — Isso só mostra que os acontecimentos do final do ano mexeram com sua cabecinha. Afinal, que, em sã consciência trocaria Odontologia, não é mesmo?

— A senhora trocou. — revela Jean, irritado.

— Eu não troquei — rebate a mãe tomando a taça de vinho.— Eu abdiquei por algo maior. Aliás, esse é o único motivo aceitável para abrirmos mão de um sonho.

— E qual é o motivo? — questiono, curiosa.

— Oras, sua família… seu lar — respondeu a mulher segurando na mão do esposo — Quando eu engravidei e abri mão disso por algo maior.

— E assim nasceu o Jean ?

— Não — responde o pai sério comendo sua fatia de bolo de chocolate — Nem de longe…

— Jean é o nosso bebê arco-íris.- revela a matriarca.

— Então era o Eduardo? — Confusa . Achei que o Jean fosse o mais velho.

— Sim, meu querido Eduardo. — confirma a loira com uma leve tristeza que logo se dissipa dando um lugar ao sorriso direcionado ao médico — . Aliás, querido, ela contou que o Jean escolheu cardio por conta do irmão.

— Hum é mesmo? Engraçado porque eu jurava que fosse pelo fato de ser a única área que aceitou o meu filho transgressor.

— Você sabe que não é verdade — fala Jean em um tom mais baixo.

— Inclusive ele até a pouco estava me questionado se consegui dar um apoio na entrevista para a residência.

— Carlos, por favor… Esse não é o momento. — pede a Sra. Vasconcelos.

— Você sabe que não foi bem isso que te pedi — argumenta Jean, irritado.

— Ah é mesmo? E você também não me pediu para abafar sua briga de trânsito? Não pediu para que eu use meus contatos mais uma vez para evitar os seus escândalos — questiona Dr. Carlos encarando, sério. Então se vira para mim — Você sabia disso? Que o seu namorado brigou no meio da rua ?

— Se for sobre o que aconteceu na segunda feira. Sim, eu estava com ele, mas…

—Que ótimo, então você encontrou outra maluca igual a você — comenta Carlos, nervoso.

— Carlos! — repreende a matriarca.

— Ela não é maluca! — grita Jean batendo na mesa.

—Não se atreva a erguer a voz dentro da minha casa, moleque! — reage o pai de Jean erguendo seu corpo sobre a mesa.— E nem você ouse a se intrometer — finaliza encarando sua esposa.

— Vamos embora , Catarina — ordena Jean se levantando, eu o atendo prontamente.

— Eu lhe proíbo ! — grita o doutor batendo na mesa.

— Jean, por favor não vá — pede a mãe segurando o choro.

Porém, Jean praticamente me arrastou para fora da casa ignorando qualquer um dos dois e os empregados que se esquiavam de nós .Entramos no carro e mais uma vez meu namorado sai, cantando os pneus, demonstrando toda sua irritação. Fico em silêncio observando assustada o veículo se movimentar negligentemente entre os carros, Jean não parecia estar preocupado se as suas atitudes iriam causar alguma tragédia. Consigo notar que não estamos fazendo o trajeto da minha casa então o encaro, preocupada:

— Para onde estamos indo?

— Nós? Nós estamos fugindo de toda a maldade deste mundo — responde Jean enigmático.

— Fugindo? — questiono , nervosa.

—Sim, estou lhe tirando do meu inferno e a levando agora para o meu paraíso.

Foram mais alguns minutos de angústia , até que o Jean entrou em uma das maiores torres residenciais que já vi no centro da cidade. Ele estaciona em uma das vagas e então abre minha porta, sua expressão está mais tranquila.

— Senhorita- fala em um tom cavalheiresco enquanto estende a mão em minha direção.

Aceito o gesto e caminho ao seu lado de mãos dadas até o elevador. Nem bem entramos no elevador e Jean toma meus lábios sem se preocupar com a presença de outros moradores. Seu beijo tem um toque de fúria, como se ele fosse me possuir ali mesmo. Tento impedir suas mãos que avançam sobre meu corpo por cima do meu vestido, mas foi uma batalha perdida.

Assim que chegamos ao andar já estou descabelada e meu batom não existia mais . Jean me ergue por entre seus braços e me carrega até a porta de seu apartamento.

Ele abre a porta e as luzes se acendem mostrando que o apartamento não ficava nenhum pouco atrás da decoração que vi na casa de seus pais. Jean volta a tomar meus lábios e a me conduzir para dentro apartamento. Eu me afasto um pouco, tentando recuperar o fôlego e digo:

—Você não vai me mostrar seu apartamento? — pergunto em tom de brincadeira.

— Agora vou te mostrar o cômodo mais importante. — fala Jean tomando meus lábios novamente.

Ele volta a me puxar contra seu corpo, forçando com que eu me segurasse em seus braços. Seu beijo me desnorteia e sou conduzida até o quarto , onde me empurra em sua cama. Jean joga seu corpo por cima do meu e em seguida prende meus pulsos acima da minha cabeça com uma das mãos enquanto a outra explora por debaixo do meu vestido. Fecho meus olhos tentando me deixar ser conduzida pelo clima…

Porém, enquanto Jean beija meu pescoço, minha mente me recorda do olhos estão vívidos de Jean, sua respiração ofegante e o que mais me impressiona é o sorriso estampado em seu rosto enquanto batia nos rapazes da Festa de Medicina. Abro meus olhos e o encontro deslizando pelo meu corpo. Ele se ergue e então tira sua camisa rapidamente, deixando seu peitoral exposto. Volta a se deitar sobre mim, suas mãos ávidas já se encontram tocando em minha calcinha e volto a fechar meus olhos. A mesma imagem, só que não eram mais os rapazes e sim Patrick ensanguentado. O meu colega me encara enquanto seus lábios se abrem em minha direção…

Ajude-me...

— Para! — grito me erguendo rapidamente. Passo as mãos pelos meus cabelos enquanto choro, desesperada.

— O que foi , Catarina? — pergunta Jean , assustado.

— Desculpa, mas eu não posso… — digo balançando a cabeça — Eu não consigo fazer isso…

— O que? — questiona Jean tocando em meu rosto. Ele se aproxima mais e então me abraça — O que foi?

— Eu não consigo fazer isso… ainda . — respondo abraçada a ele — Desculpa, mas eu não sinto que estou no clima.

— Não se preocupe, querida — fala Jean se afastando — Pode deixar essa parte comigo…

Ele volta a tomar meus lábios a me empurrar em direção a cama. Suas mãos estão mais descontroladas, mais ágeis dispostas a me despir o mais rápido possível. Com muita dificuldade consigo me afastar de Jean que fica nitidamente revoltado com a minha recusa:

—Qual é o problema agora, porra?

— O problema é que eu não consigo. Não dá! — respondo me afastando da cama.

—Como assim não dá? — questiona Jean sentado na cama.

— Jean, nós acabamos de sair da sua casa sob gritos do seu pai! Eu nem ao menos sabia que havia falado com ele sobre o que aconteceu com o Patrick.

— Olha só, relaxa. Meu pai é assim mesmo, daqui a pouco ele volta ao normal e até esquece as coisas que falou — explica Jean erguendo os braços em minha direção.

—Mas eu não. Desculpa Jean , mas…

—Não, escuta você! — berra Jean se levantando da cama e caminhando em minha direção. Ele aponta o dedo rente ao meu rosto — Eu fiz tudo o que você me pediu! Falou que precisava da benção daquela velha, eu fiz por você! Disse que precisava conhecer os meus pais e eu fiz isso por você!

— Eu agradeço por tudo que fez por mim… — sussurro com medo.

—Eu vesti você! Eu lhe dei tudo o que uma garota poderia querer! Eu briguei e ameacei meu futuro por você! E o que você me deu em troca? Eu te pedi o mínimo… Eu lhe pedi o seu amor e o que você me deu até agora? Nada! — berra Jean enraivecido. Ele se afasta e joga o abajur contra a parede.

Eu me afasto assustada com o que ele acabou de fazer. Meu instinto diz para que eu saia dali, algo que faço impulsivamente. Assim que segurei na maçaneta da porta de saída escuto os passos do Jean que param no meio da sala. Abro a porta, mas sua fala me segura por alguns instantes:

— Isso, faça como todas as pessoas da minha vida, me abandone quando eu mais preciso de você.

Paro e me viro encarando Jean que está chorando e passando a mão pela cabeça, desesperado. Aquela cena me corta o coração, eu não sou a única que foi ferida aquela noite, ele também. Questiono-me se os pais dele sempre foram assim com o próprio filho e se isso influenciou em seu comportamento. Meu coração me diz que sim e também que estava sendo injusta com o homem que fez de tudo por mim. Fez todos os meus gostos e caprichos sem pensar duas vezes. E o que lhe dei em troca, apenas o abandono. Ele não merece isso…

Olho mais uma vez para minha mão na maçaneta da porta, ele não está me impedindo de ir, ele não me pediu para ficar, mas era justo com ele não ficar? Ao mesmo tempo, se eu ficar sei exatamente o que irá acontecer… Era justo comigo?

Olho para a maçaneta da porta e...