Notas iniciais
temo q este seja o ultimo capitulo durante um bom tempo... mas como disse, farei o possivel aproveitem

Fazia frio naquela madrugada. Lá em baixo, poucos eram os corajosos que se aventuravam pelas ruas e mesmo estes trajavam grossos casacos. Apesar de aquela região não ser alvo de nevascas, o frio durante o final do ano era forte e comum.

Num apartamento no sétimo andar de um prédio localizado em uma vizinhança não muito segura, havia uma garota. Eglantine estava sentada no chão da sala abraçando os joelhos. Seu pijama de flanela estava todo amassado e o cabelo, que antes tinha belíssimos e exóticos tons de azul e preto, agora estava desbotado, desgrenhado e continha as raízes loiras, os olhos perderam parte do brilho e ela tinha olheiras e bolsas pesadas embaixo deles.

No silêncio do apartamento, passos foram ouvidos e do corredor apareceu um homem. Kevin vestia seu pijama, calça de moletom e uma camiseta rasgada, suas tatuagens pareciam brilhar ao luar, mas seus olhos carregavam tanta preocupação que a beleza que o detalhe lhe proporcionava não importava.

Kevin foi de encontro a sua namorada e inclinou-se ate estar a sua altura para que pudesse sussurrar em seu ouvido:

— Está tarde. Venha para cama.

Eglantine não moveu um músculo e não pronunciou nenhuma palavra também. O moreno sabia que ela não iria por o braço a torcer, então voltou para o quarto e retornou carregando um grosso cobertor.

Sentou-se ao lado dela e se cobriu o cobertor para logo depois chamá-la para se juntar a ele. Eglantine arrastou-se para perto dele e Kevin a abraçou, envolvendo os dois com o tecido e tirando-os do frio.

Ele disse baixinho:

— Eu sei que é difícil, mas você não pode parar de dormir e comer por causa disso... Vai acabar morrendo desse jeito, loira.

— E que diferença faz? Emily era a única que se importava de verdade comigo e agora ela nem está aqui.

Aquilo doeu no coração de Kevin. Ele se importava com ela, se importava muito... Mas, ao mesmo tempo, sabia que aquilo era apenas um reflexo da perda que sua loira havia sofrido, ela não falaria aquilo dele em seu juízo perfeito. Sendo assim, ele apenas disse:

— Ela pode não estar aqui agora, mas tenho certeza que onde quer que ela esteja não iria querer que você ficasse desse jeito.

Os dois ficaram em silêncio por um tempo. Kevin não sabia que ela estava absorvendo a informação que ele havia lhe dado e tomando aquilo como uma verdade ou se estava simplesmente tomando o assunto com encerrado. Mas Eglantine o surpreendeu dizendo:

Se ela estiver em algum lugar.

— Loira...

— Quem garante que o corpo dela não está largado em um beco qualquer ou boiando num rio?

— Não fale isso. Se ela já estivesse morta, a polícia saberia. Algo me diz que aquela garota está viva. Eu sei que a conheço muito pouco, mas sei que ela amava muito você e sua mãe, apesar de todas as falhas. Ela vai se manter firme e forte até que vocês a encontrem.

— E se não a encontrarmos? E se ela desaparecer para sempre? Podemos achar ela só quando ela tiver uns quarenta anos e a essa altura... Não vai nem se lembrar de quem somos... Agora mesmo ela pode estar em um porão sujo e fedido, doente e passando fome e sede... Pode estar apanhando de alguém, pode estar sendo usada para algum experimento maluco ou como escrava ou...

— Não deveria pensar no que pode estar acontecendo com ela e sim no que você pode fazer para encontrá-la.

— Eu já nem sei mais o que posso fazer.

— Pelo menos, eu sei que onde quer que ela esteja não é assim que ela está imaginando você.

— Como assim?

— Fraca fisicamente por falta de sono e comida, chorando pelos cantos o dia inteiro, parando a vida completamente.

— Não venha com esse papo de “ela iria querer que você fosse feliz”.

— Mas é verdade. Ela iria querer que você continuasse sua vida e que fizesse de tudo para tentar achá-la... E isso não ajuda em nada.

— Eu sei... Mas eu sinto tanta falta dela — a menina encolheu-se no abraço mais ainda — Dói tanto...

— Sei disso loira, mas aguente firme por ela.

Os dois permaneceram assim, abraçados no chão da sala compartilhando calor enquanto Kevin ouvia Eglantine chorando baixinho e descarregando as mágoas...

[...]

Aquele dia de primavera estava explendido. O sol brilhava, porém seu calor era aplacado por uma brisa fresca que batia nas árvores frondosas e nas flores belíssimas estavam por desabrochar. Estava tudo perfeito para a ocasião.

Era quase hora do almoço e uma moto parou em frente a casa da família Gomez Doyle. Kevin estava dirigindo e, por incrível que pareça, trajava um terno negro que incluía até mesmo uma gravata. Sua namorada, Eglantine descia da garupa. Ela carregava uma cara de insegurança e timidez, o que por si só já era meio estranho, mas também vestia uma calça jeans, uma camiseta simples e tênis de corrida e seu o cabelo agora estava completamente loiro e mal cuidado.

Virou-se para o namorado ainda montado na moto e perguntou:

— Tem certeza que é uma boa ideia?

— Absoluta. Ela precisa de você.

— Uhum... Mas e se ela não gostar do presente?

— Ela vai gostar. E não é o presente que mais importa, de qualquer forma.

— Sei disso.

Os dois ficaram parados por um tempo. Kevin esperando e Eglantine criando coragem. Então ele disse:

— Uma hora você vai ter que entrar. Eu e Angel passamos aqui na volta do cemitério.

Depois disso, ele colocou o capacete e arrancou na moto, dando uma leve buzinada antes de ir embora.

A garota respirou fundo e caminhou até chegar a porta para então bater nela. Não demorou muito e Rosa atendeu ficando surpresa ao ver quem estava esperando. Arregalando os olhos e abrindo um sorriso ela disse:

— Senhorita Eglantine! Que prazer em vê-la!

— Oi Rosa, achei que estava aproveitando com a família.

— Ah não. As meninas foram passar o dia com as filhas, mas minha mãe foi visitar minha irmã lá no litoral e eu não quis deixar a Dona Charlotte sozinha.

— Sei... Ela ta aqui?

— Sim, não saiu do quarto o dia inteiro. Talvez você consiga fazê-la comer alguma coisa.

Disse a empregada, abrindo passagem para a visitante entrar.

— Sim, tentarei.

Rosa retirou-se para a cozinha onde estava preparando o almoço e Eglantine rodou o olhar pela casa... Fazia tempo que não entrava por aquela porta... Mas agora havia coisas mais importantes a se fazer do que ficar relembrando o passado.

Subiu as escadas rapidamente e alcançou a suíte principal da casa. A porta estava fechada, então bateu três vezes, mas não ouve resposta. Sendo assim, entrou e encontrou sua mãe deitada na cama coberta de lençóis e travesseiros.

Eglantine atravessou o quarto e abriu as cortinas com força. Charlotte levantou o tronco e olhou para ela. O rosto estava amassado e os olhos inchados e vermelhos, parecia ter envelhecido uns dez anos só naquele tempo.

— O que houve?

— Feliz dia das mães.

A loira chegou perto da cama e colocou cuidadosamente uma caixinha de presente simples na frente da mais velha. Charlotte virou-se na cama e disse:

— Obrigada, mas não quero presente.

— Pelo menos abra.

Ouviu-se um suspiro, mas por fim, a mulher abriu a caixa. Dentro havia um colar prateado com um pingente de coração. Charlotte tirou da caixa e o admirou na sua mão. Glá disse:

— É um relicário. Abra.

A mais velha abriu com cuidado o delicado presente e deu um suspiro ao ver o que guardava. Dentro havia uma foto de Glá quando ainda estava na escola, sorrindo abertamente com o cabelo loiro esvoaçante e do outro lado sua pequena Emily, também sorrindo com um canto do rosto sujo de chocolate ou lama... Suas duas filhas encaravam-na em profunda alegria.

— Peguei uma foto antiga minha, pois você gosta do meu cabelo desse jeito.

Disse Eglantine, apesar de que sua mãe continuava olhando fixo e estaticamente para o relicário.

— Essa foto da Em eu achei no meu celular. Acho que você nunca tinha visto ela.

Uma lágrima solitária correu pelo rosto da mais velha e pode ser ouvido um sussurro bem baixo vindo dela:

— Obrigada.

A loira não disse nada, apenas abaixou a cabeça, de repente tímida com o presente que havia dado. Sua voz também saiu baixa quando disse:

— Tenho um igual, mas com uma foto sua e dela.

— Você... Quer uma foto minha no relicário?

Eglantine olhou para cima espantada, sua mãe carregava um olhar envergonhado. Ela disse:

— Mas é claro que sim! Você é minha mãe!

— Uma boa mãe não teria feito o que eu fiz...

— Não, não teria... Mas você fez o que pode... Só... Não soube lidar com a situação...

— Eu sinto muito. — as lágrimas começaram a correr soltas pelo rosto de Charlotte — Sinto tanto... Você é meu bebê Eglantine... Sempre vai ser meu bebê... Eu não conseguia... Não podia acreditar que aquele mesmo homem por quem me apaixonei... Aquele homem gentil e honesto... Havia machucado o meu bebê... E pior ainda... Saber que eu não consegui te proteger... Que eu não tinha sido uma boa mãe para você — os soluços impediam que ela falasse tudo o que queria de uma vez — Cada vez que te via com aqueles amigos estranhos, que te pegava fumando ou... Se cortando... Era como se uma faca penetrasse o meu coração... Eu sabia que aquilo tudo era culpa minha.

— Não, mamãe, nada disso foi culpa sua. Não foi você que-...

— Mas eu não te protegi meu anjo... Eu deixei acontecer... Eu falhei como mãe... Sei que não deveria, mas... Eglantine, você pode me perdoar?

A essa altura, a própria Eglantine já estava chorando e foi com lágrimas nos olhos que ela disse:

— Sim, mamãe.

Mãe e filha se abraçaram e choraram juntas naquele dia. As duas lamentando o passado e temendo o futuro. Lamentavam terem sido tão burras por terem causado e mantido uma briga tão sem sentido e feito um lar turbulento para a pequena Emily que tanto amavam... Mas, principalmente, temiam não verem a Gomez menor de novo... E nunca terem a chance de lhe pedirem desculpas e dizer que a amavam muito...

Notas finais
espero q tenham gostado e mais uma vez sinto muito comentem