Abstrato
11 Quebrei Suas Janelas
“Eu quebrei as janelas do seu carro embora isso não tenha consertado meu coração partido. Provavelmente vou ter sempre essas cicatrizes feias, mas agora não vou me preocupar com essa parte. Eu quebrei as janelas do seu carro depois que eu te vi deitando ao lado dela. Eu não queria, mas tomei a minha vez, estou contente que fiz isso porque você teve que aprender.” Era isso que estava tocando no meu ipod logo que saí da casa de Guilherme e me tranquei em meu quarto. Na madrugada ele tinha me chamado para sairmos juntos, porém hoje a tarde tinha pedido para ir para casa dele que queria conversar comigo. Eu estava chateado demais com o fato de Lucas ter ido embora, e mesmo que isso me torne uma vadia, achei que trocar uns beijos com Guilherme e ganhar um carinho fosse me deixar melhor, porém não foi isso que aconteceu.
— Oi! — Eu disse baixinho e entrei no quarto dele. Era um lugar bonito. Meio bagunçado e com pôster de motos e carros por todo lado. Nem parecia um quarto de um adolescente veado. Não tinha divas pop e nem bandas de kpop como no meu. — Você disse que queria conversar.
— Senta aí. — Ele disse levantando da cama e sentado na mesma. O cabelo estava desgrenhado e eu pude perceber que ele tinha passado o dia inteiro ali deitado.
Eu caminhei e sentei na cama ao lado dele. Ele ficou me encarando. Parecia triste. Eu fiquei encarando de volta. Respirei fundo e sorri sem graça.
— Então? — Eu disse baixinho. — O que você quer falar comigo? Eu o senti meio estranho na ligação. Aconteceu alguma coisa com você?
— Mais ou menos. — Ele diz de supetão e então se cala, fica em silêncio como se estivesse avaliando o que iria me dizer. Eu respirei fundo esperando. — Eu e o Manuel...
Então o namorado de novo. Ou melhor, o antigo namorado. Eu continuei encarando de forma inexpressiva. Não queria demonstrar que o nome do garoto tinha me incomodado.
Ele continuou calado. Eu fiquei irritado com isso.
— E então? O que tem você e o Manuel? — Eu perguntei encarando. Estava estressado demais para ficar com joguinhos do silêncio.
— Nós voltamos. — Ele disse baixinho e eu senti meu mundo parar. Oi? Fiquei encarando. Ele teve a vergonha de desviar o olhar e olhara para baixo. — Eu sei que parece loucura. Mas eu o amo. Ele me ama e tivemos uma conversa séria ontem. Eu acho que nós merecemos uma segunda chance. Ele está vindo para cá na semana que vem.
Eu senti vontade de chorar, mas acabei rindo. Ele só podia estar brincando com isso, né?
— Espera para ver se eu entendi. Você dizia me adorar, cantou uma música para mim dizendo que eu era o seu amor e o seu melhor amigo. E agora você me diz que voltou com seu ex? — Eu perguntei rindo e suspirei. — Ai ai, acho que entendi errado.
Ele me olhou e os olhos estavam tão tristes. Fiquei encarando e mordi meu lábio. Senti vontade de gritar, chorar, morrer. Mas continuei quietinho. “Então você não vai falar?” Pensei.
— Eu sinto muito Edu...
— Você sente muito? Você está sendo ridículo. Você não pode apenas sentir muito. É sobre sentimentos de um suicida que você está falando. — Eu grito e Guilherme se encolhe lentamente. — Você não pode dizer que gosta de mim e no outro dia dizer que está de volta com o seu ex.
— Eu confundi as coisas está legal? Eu estava confuso. E você estava tão próximo. Eu achei que era uma coisa quando não era. Nós somos bons amigos, não tenho certeza se seriamos bons namorados. — Ele falou sério e aumentando o tom de voz também.
— Eu descobri uma coisa. O Manuel tinha razão, sabia? — Eu disse bravo e levantei da cama dele. — Você é realmente um imbecil não demorei a descobrir.
Eu virei às costas e saí caminhando. Ele correu até mim e segurou meu braço. — Espera! — Ele disse. Eu virei com raiva e dei alguns murros em seu peito. Ele me olhou perplexo e eu comecei a chorar.
— Não me toca! — Eu gritei e saí correndo do seu quarto. Estava realmente nervoso. Ele era um idiota. E eu um egoísta. Mas não aquele momento, não mesmo. Eu não iria pensar nas minhas confusões entre Lucas e Guilherme. Eu apenas iria sofrer minha dor.
Passei correndo pelos pais dele que estavam na sala e saí da casa. Eu me ajoelhei na grama verde perto da piscina e fiquei olhando a água. Aquele momento eu me odiei pelos anos de natação. Seria tão fácil morrer ali.
Levantei do chão e vi o carro de Guilherme. “Não!” Eu pensei. Mas quando deu por mim já estava com a chave de casa riscando toda a lata do carro dele. Eu sorri enquanto riscava corações e escrevia Gui e Manuel. Eu olhei em volta e corri até a sua garagem. Procurei em uma caixa de ferramenta e achei uma chave de fenda grande, voltei até o carro e bati no mesmo. Quebrei os retrovisores e depois o vidro da janela do motorista. O alarme disparou e eu joguei a chave no chão e saí correndo. Só parei de correr depois de estar na rua em frente da minha casa. Eu sequei as lágrimas com a barra da camiseta e entrei em casa.
— Está tudo bem? — Mamãe que estava dando a mamadeira para Marcela me perguntou.
— Está sim. Eu só vou pro quarto agora... — Eu disse baixinho e corri pelas escadas. Não queria ver ninguém por um bom tempo.
“Devo admitir que me ajudou um pouco ao pensar em como você se sentiu quando viu aquilo. Eu não sabia que eu tinha tanta força, mas estou feliz que você viu o que acontece quando você percebe que não pode apenas brincar com os sentimentos das pessoas. Dizer que as ama e depois mostrar o contrário, e provavelmente vai dizer que foi infantil, mas eu acho que eu mereço sorrir”. Eu estava ouvindo Bust Your Windows da Jazmine mesmo, e ninguém tem nada a ver com isso. As lágrimas não paravam de vir. Eu tinha sido tão idiota. Mil coisas passaram na minha cabeça.
Como alguém como ele iria se apaixonar por mim?
Eu sou mesmo patético em achar que ele iria escolher a mim quando ele poderia ficar comum cara lindo como o Manuel.
Eu senti enjoo só de pensar que eu quase o escolhi e não o Lucas. Será que o Lucas ainda iria me querer depois que eu contasse o que fiz e por que fiz? (Nesse momento eu chorei mal alto e até solucei).
Eu era um imbecil mesmo, imbecil e egoísta. Como poderia estar o julgando? Provavelmente se o Lucas tivesse continuado aqui teria sido eu que teria dito o que ele disse.
Eu queria o Lucas... Não, não queria. Não podia!
Fiquei olhando meu teto enquanto a música estava tocando sem parar no repeat. Só havia uma pessoa que eu queria nesse momento, mas não poderia ter. O que eu diria para Lucas? “Então, eu quebrei o carro dele porque ele me deu um fora, é sim, fiquei chateado mesmo quando estava dando esperanças para você!” Eu soaria patético. Ouvi batidas na porta e arrancei os fones dos ouvidos.
— Que? — Eu perguntei gritando.
— Vem jantar! — Minha mãe disse calma. — O seu pai não vem jantar em casa hoje.
— Estou sem fome, faço alguma coisa depois! — Gritei de volta e esperei resposta.
Não veio. Mamãe tinha descido. Eu continuei deitado na cama. Então ouvi meu celular tocar. Era Lucas mais uma vez. Estava o evitando desde ontem, desde a hora que ele partiu. E tinha que ser forte agora. Não iria atendê-lo, mesmo que tudo que eu mais precisasse no momento fosse seu conforto. Eu não podia. Coloquei o celular em modo avião e deitei na cama pedindo que a morte me levasse. Não sei qual foi o momento que peguei no sono.
Quatro semanas depois e eu me encontrava no mesmo lugar, deitado na cama e olhando para o teto branco. Então pensei “Por que usar quatro semanas se eu podia usar um mês? Não sabia só era esse meu pensamento, acho que um pensamento abstrato, assim como eu.” Eu não tinha vontade de nada, banho era a única coisa que eu fazia. Quantos quilos eu deveria ter perdido? Não sei. Estava apenas esperando a morte chegar. Eu tinha tido uma ascensão maravilhosa, tinha feito amigos e quase tido um namorado, mas a queda foi muito cruel.
Lucas parou de tentar entrar em contato comigo depois que eu o ignorei por uma semana. Acho que ele cansou de mim, ou deve estar pensando nesse momento que eu estou Guilherme e desistiu de mim, o que dá no mesmo. Guilherme por sua vez, não fala comigo desde aquele dia. Ele deve me odiar por ter destruído o seu carro.
Eu estava na espiando escondido na janela quando seu namorado chegou. Os dois eram apenas sorrisos no quarto, enquanto eu era só tristeza no meu quarto. Aquele dia eu quebrei algumas coisas em casa. E meus pais tiveram total certeza que era hora de voltar para sessões intensas de psicólogos, quem sabe um psiquiatra.
Meus pais passaram a me vigiar, não saem os dois juntos. Não me deixam mais sozinho. Acreditam que eu retrocedi e que me encontro pior que há três anos. Eu não concordo. Mas quem sou eu para dizer alguma coisa, não é mesmo?
Amanhã eu tenho consulta, mas nesse momento tudo que quero é ficar aqui quieto, no escuro. Fecho os olhos e fico em silêncio.
Morte.
É apenas isso que me vem à cabeça.
Eu sento na cama. E ouço a palavra morte no quarto. Eu piso os pés descalços no chão frio e fico de pé. Os meus pais esconderam objetos que julgaram perigosos e esconderam todos os remédios de casa.
Mas eu tenho uma coisa.
Ascendi à luminária e caminhei até o meu guarda roupas e afastei o mesmo. Estava chorando e tremendo. Achei um pequeno canivete colado com fita adesiva no fundo do móvel. Arranquei de lá e abri o mesmo. A lâmina brilhou na meia luz e eu fiquei pensando.
Então eu passei a chorar mais forte. Fechei meus olhos e segurei a lâmina com firmeza na mão direita. Fiquei pensando em tudo da vida, em como eu sempre quis ser capaz de prever o futuro para saber como seria a minha vida. Se ela fosse ruim, eu iria acabar com tudo logo, ou quem sabe poder ser um super herói e proteger a mim mesmo de tudo e todos. Mas acho que tudo que sempre quis mesmo foi ter o dom de ficar invisível para me esconder de todos que me chamavam de o veadinho da escola e da rua.
Ali no escuro e com a lâmina na mão lembrei-me do motivo que me levou a tentar morrer da primeira vez. Eu nunca contei para ninguém, nem para o meu psicólogo. Eu não queria que ninguém soubesse, não queria que me olhassem com nojo de mim. Eu não queria... Não queria que meus pais soubessem que aqueles meninos baixaram a minha roupa. Que eles me bateram e disseram que me dariam o que eu gostava. Não queria que ninguém soubesse que eles subiram em cima de mim e fizeram aquilo comigo.
Eu nunca fui normal. Era o que diziam.
Mas eu era normal. Eu só era diferentes para eles.
O veadinho está satisfeito agora. Eles disseram ao sair. Eu corri. Corri para casa e me tranquei. Fiquei esperando até o outro dia. E então eu fui. Eu fui até a praia e tentei morrer.
As lágrimas quentes pela face, a mão com o canivete tremendo. Eu não iria errar dessa vez. Não iria errar dessa vez. Eu iria fazer pelos meus pais, eles não mereciam me ver sofrer tanto assim. Faria por Lucas, ele não iria me aceitar quando soubesse a verdade sobre a minha virgindade, não aceitaria tudo que fiz nos últimos dias e nos últimos anos. Faria também por Guilherme, que tinha sido meu melhor amigo, até eu destruir com ele como destruía com todos.
Passei o canivete no pulso, e passei de novo. E de novo.
O sangue escorreu, mas não parei. Troquei o canivete de mão e fiz com o outro braço. Gritei de dor e me ajoelhei no chão. Eu tinha que acertar dessa vez. Meus pulsos sangrando. Eu estava ficando fraco cada vez mais fraco sentia o líquido quente pingando em minhas coxas e então eu apaguei.
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