Abstrato

14 Dizendo Eu Te Amo


Eu nunca tinha ido a um enterro antes. Quando o vovô pai da minha mãe morreu eu era muito bebê. Não compareci. E depois de comparecer a esse eu tinha toda convicção do mundo. Eu não queria ir a outro nem como o morto. Eu podia sentir a dor de Lucas e de sua mãe. Eles estavam arrasados. Outros familiares também choraram muito, me senti mal por não conseguir demonstrar meus sentimentos. Fiquei quieto. Parado e abraçado a Lucas. Eu não soube o que falar. Nem quando aqueles homens desceram o caixão eu disse algo. Apenas o abracei mais forte.

Quando chegamos à casa de Lucas, a sua mãe logo tomou um remédio calmante e tratou de subir para o quarto. Não queria falar nada com ninguém e muito menos comer. Lucas até discutiu com ela sobre isso. Eu me senti um intruso ali vendo aquela discussão complicada. Ele voltou e sentou-se no sofá ao meu lado.

— Eu vou tomar um banho e logo preparo algo para a gente comer enquanto você toma banho também. — Ele falou baixinho e me encarou. Trouxe a mão até meu rosto e me acariciou. — Obrigado por estar aqui.

Eu apenas balancei a cabeça em afirmativa e sorri sem jeito. Estávamos aqui há dois dias já. Ontem quando chegamos Lucas me deixou aqui com sua priminha e correu para o hospital para resolver a burocracia de retirada do corpo. E quando voltou tarde da noite foi apenas para me buscar para o velório.

Ele estava com uma cara tão cansada. Eu fiquei olhando e ele sorriu sem jeito também. Estava tentando não demonstrar sua tristeza. Pelo menos não na minha frente.

— Então vem. Eu vou tomar banho. — Ele entrelaçou a mão grande a minha e me saiu puxando.

Entramos em seu quarto e eu logo reconheci. Já tinha visto tanto aquele quarto pela tela do meu computador. Era igualzinho como na imagem. Tão arrumado, diferente do meu.

— Eu vou lá. — Lucas falou arrancando a roupa e ficando apenas de cueca. Saiu levando a roupa em direção ao banheiro do seu quarto e se trancou lá.

Eu fiquei olhando o cômodo. Era muito bonito. A cama mesmo de solteiro era grande e estava com uma colcha do Harry Potter. Eu sorri quando vi aquilo, ele era mesmo um viciado. A parede branca tinha alguns escritos que eu não conseguia ler pela tela, aqui pessoalmente eu li todos, eram feitiços de bruxaria do mundo preferido dele. O quarto tinha outras coisas de sua saga favorita espalhada. Fiquei olhando tudo e não sei quanto tempo se passou e Lucas saiu do banheiro e a fumaça do vapor invadiu o quarto. Ele me olhou espionando e sorriu.

— Então você estava mexendo nas minhas coisas? — Ele perguntou me acusando e eu fiquei vermelho. Eu não sabia o que fazer, mas então ele começou a rir. — Estou brincando, bobo. Eu não ligo para isso, esse quarto também é seu. Há anos que você entra aqui.

Balancei a cabeça ainda estando constrangido.

— Vai entra no banho, porquinho! — Ele falou apontando o banheiro. — No armário embaixo da pia tem toalhas.

Eu caminhei rapidamente para o banheiro. Não sei por que, mas aquele momento me deu vontade de fugir dele. Estávamos num momento improprio. Porém, ele ali de toalha com aquele corpo úmido estava me fazendo ter pensamentos horríveis sobre o que poderíamos estar fazendo. E isso era errado, tínhamos acabado de enterrar o pai dele.

O banho me relaxou.

Quando voltei para o quarto Lucas já não estava lá. Então vesti uma calça e uma camiseta regata e saí em direção à cozinha. Ele deveria estar lá. Cheguei com o intuito de ajudar, mas ele já tinha preparado uma janta.

— Você fez isso? — Eu perguntei olhando as coisas que tinha na mesa. — Não, né?

— Eu descongelei isso, apenas! — Ele disse rindo. Eu não sabia como ele conseguia estar assim mesmo depois dos dias estressantes. Lucas era mesmo forte. — Agora vamos jantar que amanhã quero te levar para conhecer uns amigos.

Eu apenas balancei a cabeça e sentei a mesa. Nós jantamos e conversamos sobre os sentimentos. Sobre o que tinha acontecido e sobre o que aconteceria agora com essa grande perda. Depois fomos dormir e foi fácil fazer isso. Fazia muito tempo que eu não dormia.

Apesar do cansaço nós dois acordamos logo cedo. É mais ou menos cedo. Já era tarde, mas o horário era cedo para nós. Eu fiquei sentado na cama dele. Ele já não estava no quarto quando acordei. Fiquei esperando ele voltar. Isso demorou. Porém quando voltou estava bonito.

— Eu estava vindo te acordar. Nós vamos sair. Vamos à casa do meu amigo de faculdade! — Ele disse. — Vou dar um tempo para você se arrumar meu anjo.

Saiu do quarto e fechou a porta. Fiquei encarando a mesma. Fazia um tempo que não nos beijávamos na boca. Para ser sincero nosso último beijo tinha sido ainda na minha casa. E isso era estranho. O que estava acontecendo? Ele... Eu tentei não pensar nisso e vesti uma roupa. Não tinha levado muitas, Lucas não esperava que eu passasse muito tempo, acho. Pois não colocou muitas mudas de roupas em minha mochila. Eu vesti uma camiseta de mangas longas e depois um macacão jeans. Logo desci para a sala.

— A sua mãe vai ficar sozinha? — Eu perguntei quando cheguei até ele que estava sentado no sofá.

— Não. Minha tia está lá no quarto com ela. Então está pronto? — Ele perguntou me olhando. Eu balancei a cabeça em afirmativa. — Então vamos.

Lucas pegou chaves no centro da mesa no canto da sala e saiu. Eu o segui. Ele chamou o elevador e descemos até o estacionamento. Ele não foi para o carro do meu pai. Foi em direção a outro carro.

— Você tem carro? — Eu perguntei.

— Sim. Por quê? — Ele perguntou destravando o carro e abrindo a porta para mim.

Eu entrei e esperei ele entrar também para poder voltar a falar. — É que você nunca me falou sobre isso. Eu não sabia. — Falei colando o cinto.

Lucas saiu com o carro e me olhou de lado.

— Não vi motivos para dizer. Então cara eu tenho carro desde os meus treze anos. — Ele falou rindo. — Isso seria muita idiotice. Mas só tenho carro porque meu pai sempre insistiu. Ele que me comprou e ele que trocou meu carro por um modelo atual todos os anos.

Eu assenti e fiquei em silêncio enquanto ele saiu e tomou a estrada. Nós estávamos numa avenida grande não tão movimentada e eu não fazia ideia de para onde íamos. A viagem não durou muito e nós estacionamos em frente a outro condomínio.

Lucas desceu, e eu poupei dele abrir a porta para mim. Eu mesmo pulei do carro e bati a porta. Olhei o prédio. Era um lugar muito bonito. Deveria custar uma fortuna. Lucas caminhou até o interfone e eu o segui. Ele tocou.

— Boa tarde. — Falou uma voz masculina.

— Boa tarde, eu sou o Lucas Morin e vim visitar meu amigo Murilo do apartamento 302. Ele já sabe que eu venho se puder avisar! — Lucas disse perto da caixinha.

— Só um minuto. — A voz do homem respondeu. Lucas me olhou e sorriu. O homem voltou a falar. — Estou liberando a entrada. Pode subir.

O portão destravou e Lucas abriu e me deu passagem. Eu entrei e Lucas bateu o portão. Caminhamos juntos até a portaria do prédio para pegar o elevador. Eu estava meio desconfortável. Se o amigo de faculdade de Lucas morava ali. Ele deveria ser muito rico. Nós subimos.

Lucas tocou a companhia do apartamento e então a porta logo foi aberta. E eu vi um garoto moreno com cabelos cacheados e armados abrir a porta. Ele era tão bonito. A pela numa cor tão linda meio parda. Era realmente perfeita diferente de mim com essa pele branca e sardenta. Eu olhei para o garoto que não fez cerimonia e logo se jogou nos braços de Lucas.

— Eu senti a sua falta. Como você está? — Falou o garoto apertando Lucas. — Eu soube do que aconteceu. Eu sinto tanto...

— Eu sei que sente Murilo. Eu também sinto muito por não ter vindo antes. Eu soube da sua avó e soube da bomba também. Estava muito preocupado, mas meu pai estava doente e eu viajei e foi só tudo uma loucura. — Lucas disse meio triste. E eu fiquei olhando os dois. Pareciam tristes e pelo que Lucas falou aquele garoto também tinha passado por uma perda recente. E ele falou sobre uma bomba. Mas isso eu não fazia ideia.

O garoto então me olhou e sorriu para mim. — Esse é o tão famoso Eduardo? — Ele perguntou e caminhou até mim, me abraçou forte. — Prazer, eu sou Murilo.

— Prazer! — Eu disse sorrindo sem jeito.

— Mas vamos entrar. Que modos os meus. Venham. O Tomaz está jogando vídeo game lá no quarto eu vou chama-lo. — Murilo disse dando passagem para nós e eu logo entrei e fui seguido por Lucas. Era um apartamento bonito com um grande sofá preto.

— Caraca, a cozinha tá bem diferente. Mil vezes melhor assim. — Lucas disse observando a cozinha do apartamento.

— É depois da explosão eu quis mudar tudo, sabe? Eu gostei assim, minha mãe que ajudou a escolher. — Murilo disse prendendo os cabelos num coque. — Eu vou chamar o Tomaz, e vocês fiquem a vontade. A casa é sua Lucas, sabe.

O garoto saiu em direção a outro cômodo e eu sentei no sofá e olhei Lucas.

— Houve uma explosão aqui? — Eu perguntei meio confuso.

— É houve. Alguém mandou uma bomba de presente de aniversário para o Murilo acredita? Por sorte o Tomaz que é noivo, marido, sei lá... — Ele riu sozinho. — Conseguiu jogar a bomba na cozinha. Era pequena, não houve muitos estragos.

— Nossa que horror... — Foi tudo que consegui falar e ouvi as vozes. Murilo então voltou com outro homem muito bonito. Eu fiquei encarando. Os dois formavam um casal tão lindo que eu até senti uma pontinha de ciúmes.

— Fala aí cuzão! — Disse o outro homem que voltou com Murilo então foi até Lucas e os dois se abraçaram num abraço de mano com direito a abraços nas costas. Os dois começaram a conversar. — Pô velho, você sumiu meu. Faz isso não.

Eu fiquei olhando os dois e achei meio ridículo a forma como se abraçaram. Murilo sentou do meu lado e riu para mim.

— Não liga. Esses dois são sempre assim. Parecem héteros. Eu acho ridículo. — Murilo disse e eu ri. — Eu estudo com o Lucas. No final do ano a gente se forma graças aos deuses. E você? O que faz?

— Eu? Eu estudava, mas vou perder esse ano. Problemas pessoais. — Eu disse tentando cortar o assunto.

— Eu entendo! — Murilo disse. — Não, eu entendo mesmo. Eu já passei anos horríveis na escola. Mas vai dar tudo certo. Eles não escrevem Eduardo beija garotos, né? — Murilo riu. E eu ri só para não deixa-lo sem graça, não havia entendido. Por sorte ele mesmo resolveu mudar o assunto. — Como vocês se conheceram? O Luc disse que foi pela internet e tals.

— É foi num chat de bate papo! E você e o...

— Tomaz!

— É Tomaz. Como se conheceram?

— É uma longa história sabe? Foi tudo meio que por acaso. Eu sou lá do interior e vim para a capital conhecer um namorado que eu namorava há um ano e tinha conhecido pela internet também, nós nunca tínhamos nos visto e resolvemos fazer isso para cumprir todas as promessas que fizemos. E você tem sorte de ter encontrado um amor tão especial e verdadeiro como o Lucas, mas estou fugindo do assunto, vou voltar para a loucura da história do meu relacionamento. Eu vim conhecer esse cara, porém o mesmo, esse meu namorado terminou comigo assim que me viu lá na rodoviária mesmo. Eu estava sozinho numa cidade que não era a minha e com medo de voltar para casa. Eu tinha planos de vir estudar aqui na capital, quando eu contasse isso para meus pais eles me proibiriam. Então eu me lembrei de um cara que eu tinha trocado uns livros na internet e enviei mensagem para o Tomaz, até então desconhecido para mim. Ele tinha passado a mesma coisa. A mesma decepção, só que seu namorado não tinha aparecido. — Murilo riu baixinho como se estivesse lembrando-se disso tudo que tinha acabado de me contar. — Então o maluco do Tomaz me encontrou, saímos para comer e conversar e ele propôs que eu fosse para a casa dele e fingisse por um mês ser o namorado dele que não tinha vindo do Rio porque nós nos parecíamos e sua família não ia descobrir. E eu fui com medo e achando tudo muito louco, mas eu não podia perder a chance de vir estudar em São Paulo. E sabe Eduardo? Essa foi à decisão mais certa da minha vida. Fiquei dias fingindo ser outra pessoa e passando perrengues horríveis. Principalmente com a minha sogra. Mas tudo valeu a pena. Eu encontrei a melhor pessoa desse mundo.

Eu sorri quando ele disse isso porque seus olhos brilharam de uma forma linda. Ele olhou para o homem que conversava com Lucas e eu vi que ele o amava de verdade.

— Então ficamos juntos. E estamos juntos até agora. Na época eu tinha a sua idade, sofri muito, me senti confuso. Achei que amava meu ex-namorado, chorei. Briguei por ciúmes. Fiz muitas loucuras. Mas no fundo era ele, no fundo sempre foi ele que eu procurei. E a coisa mais certa que fiz foi dizer eu te amo. Ele e eu precisávamos disse. — Ele falou sorrindo e então mudou totalmente o rumo da conversa. — Vocês aceitam beber alguma coisa?

Eu apenas balancei a cabeça em afirmativa e vi Murilo levantar e sair. Fiquei olhando Lucas e pensando na história de Murilo. Nossas histórias eram diferentes, mas parecidas em alguns aspectos. Eu tinha que fazer uma coisa.

Ficamos rindo e conversando até a noite. Os amigos de Lucas eram legais, notaram meus pulsos enfaixados e em nenhum momento perguntaram sobre, eles se mostram divertidos e me acolheram como se me conhecessem há anos. Eles eram lindos juntos.

Tarde da noite fomos embora. E depois de nos despedirmos e entrarmos no elevador eu parei o mesmo e encarei Lucas.

— Por que parou o elevador? — Ele perguntou confuso.

Eu respirei fundo e fiquei parado em frente a ele. Sorri sem jeito.

— Eu preciso te dizer uma coisa, Lucas. Eu preciso dizer que eu te amo. Eu já deveria ter dito isso há muito tempo. Antes mesmo de você ter ido atrás de mim. Porque eu te amo. Você é o meu melhor amigo e é mais que isso também. Eu te amo muito. — Falei sério e sentindo as bochechas queimarem. Eu tinha certeza disso. Eu o amava. Não podia ter demorado tanto para perceber.

— Eu também tenho uma coisa para dizer. — Ele falou sério. E eu senti meu peito murchar. — Eu aceito.

— O que? Aceita o que? — Eu perguntei confuso.

— Aquele pedido de namoro que você me fez antes de virmos. Eu aceito porque eu te amo, Eduardo. — Ele falou sorrindo.

Eu sorri e não tive muito tempo para pensar. Ele me puxou e nós nos beijamos ali mesmo no elevador. Foi o melhor beijo da minha vida.