Abstenção Lúcida
7 Reunião Lúcida
Notas iniciais
Abstenção Lúcida.
Evidência 7 – Reunião Lúcida.
Eu tive um sonho realmente estranho.
Eu estava em uma igreja, vestindo um terno preto e esperando alguém no altar, minha família estava emocionada na fileira da frente, de repente, a porta da igreja se abriu e uma noiva entrou pacientemente na igreja, com o véu cobrindo seu rosto.
Ela estava sendo acompanhado por um manequim de terno, acredito que seja pelo fato de que não sei quem é a noiva e muito menos o pai dela.
Eu estava nervoso, não sei por qual motivo, afinal de contas era apenas um sonho, eu olhei para os lados e vi os supostos padrinhos, Douglas e Luana além de Jasmim.
Mas nenhum sinal da Mara.
O manequim apresentou a noiva e ela subiu até o altar, todo o procedimento foi realizado por o padre e quando ele finalmente pediu para eu beijar a noiva eu tirei o véu de seu rosto.
Era a Mara, com um sorriso estampado no rosto.
– O que foi querido? Parece nervoso?
Eu comecei a tremer e suar frio, e logo em seguida eu despertei com um grunhido, eu pulei da cama e larguei a coberta no chão, me encostei-me à parede e senti o quão gelado era, talvez porque meu corpo estava quente por causa da coberta.
Logo eu tentei raciocinar o porquê eu estava pensando tanto nela, será que era porque eu tinha reencontrado uma paixão de escola?Será que isso tem haver com o quadro que eu desenhei dela sem querer? Ou porque ela me ajudou tanto que eu nunca paguei o que devia a ela?
A pior parte do dia foi quando eu tentava usar todas as minhas forças para me manter acordado enquanto Mara dava a aula de “artes” em minha casa, seus lábios mexiam, mas eu não conseguia ouvir o que ela dizia, minha visão estava embaçada e os olhos pareciam pesar toneladas.
“Preciso me manter acordado”. – Eu pensei enquanto apoiava o queixo no braço.
Eu me beliscava para tentar manter acordado, mas sem sucesso, até que ela decidiu interromper meu sono ao me chamar várias vezes.
– Nicholas? Está prestando atenção?
– Ah! – Eu esfreguei os olhos. – Sim, estou sim, mais ou menos.
Ela me encarou aflita.
– Você está péssimo, aconteceu alguma coisa?
– Apenas não consegui pregar os olhos essa noite.
– Pesadelo?
Eu fechei os olhos para tentar lembrar e logo a imagem da Mara com vestido de noiva apareceu na minha mente, eu tentei me livrar daquela imagem coçando a cabeça.
– É mais ou menos...
Ela respirou fundo, juntou os livros e se levantou.
– Eu percebo que será inútil se eu continuar com a aula, você pode tirar um dia de folga, amanhã voltaremos neste ponto.
Assim ela partiu, não pude saber se ela estava irritada ou triste, apenas frustrada ou até preocupada, quando parei para raciocinar eu logo lembrei que era a primeira vez que eu estava sossegado em casa sem se preocupar com trabalho ou com artes.
Enquanto eu arrumava o quarto, eu recebi uma ligação de Douglas, ele me explicou que tinha conseguido folga e pediu para que nós nos reuníssemos, na reunião além dele estaria a noiva dele e a Luana, e eu segundo as orientações dele, queria que eu levasse minha namorada, eu logo inventei uma mentira para cobrir a outra, tecnicamente eu diria que havia terminado com ela por conta da decisão de ter mudado minha carreira e seguido meu sonho de ser artista, eles iriam me consolar e tudo voltaria ao normal...
O plano realmente era perfeito.
Enquanto eu me dirigia até o lugar estipulado, Mara se dirigiu até a porta da minha casa, ao bater mais de uma vez logo percebeu que não havia ninguém, ela sorrateiramente coloca a mão dentro da caixa de correios e puxa a chave reserva, abrindo o apartamento.
Ela procurava por algo que estivesse me incomodando e tirando meu sono, quando ela encontrou o quadro que eu havia desenhado ela sem querer em baixo do armário...
Ela encarou o quadro de maneira enigmática e franziu os lábios...
Eu estava nervoso, havia conhecido a noiva de Douglas e nós três estávamos em um restaurante não tão sofisticado como você pode imaginar, eu os tinha entretido ao contar minha aventura em descobrir meu verdadeiro talento e como foi difícil deixar o ramo de direito para apostar todas as fichas na área de artes, mas mesmo que eu tentasse enrolá-los, a pergunta que eles queriam que eu respondesse era.
– Enquanto sua namorada?
Eu coloquei a taça de vinho na mesa e pensei em como eu iria responder aquela pergunta, mas algo me impediu de responder, eu fiquei em silêncio enquanto eles esperavam ansioso pelas respostas...
– Eu!
Qual é! Não é difícil mentir? Eu já menti tantas vezes, já sai de várias enrascadas milhares de vezes com minhas mentiras, e para piorar a situação eu me lembrei no momento que Mara disse a mim que mentir apenas estava me fazendo se enganar.
Não é tão fácil manter a fachada quando você sabe a sua verdadeira natureza, as vezes me pergunto como as pessoas conseguem mentir tão descaradamente sem sentir um pingo de remorso.
– Eu!
Mara aparece na minha mesa, acabando de vez com minha história de como eu havia terminado com minha namorada.
– Olá, desculpe o atraso querido! – Ela me beijou na bochecha e sentou ao meu lado. – Prazer! Sou a namorada dele!
– Eu não sei o que dizer!
Eu me levantei e peguei o braço da Mara.
– Podemos conversar a só um instante?
– Claro! – Ela logo se despediu dos três – Nós iremos voltar!
Eu estava prestes a dizer a real e acabei sendo interrompido por ela, no fim uma mentira inconveniente se tornou em uma verdade ilusória, nós dois estávamos fora do restaurante quando eu perguntei a ela.
– O que foi isso que aconteceu agora?
– Ora, eu não queria que eles pensassem que você era mentiroso e decidi participar disso!
– Mas eu estava prestes a inventar uma desculpa do porque minha namorada veio, porque isso logo agora? E aquele incentivo de que eu deveria ser sincero acima de tudo?
Ela permaneceu em silêncio, quando começou a rir timidamente.
– Você é engraçado quando está bravo.
– Eu to falando sério! – eu reclamei.
– Escuta! Independente de que história você fosse contar eles não iria acreditar, aquela história sobre as artes ficou muito forçada, ninguém abandona uma carreira estável para apostar tudo em um sonho, vai por mim.
– Eles caíram com essa história.
– Como pode ter certeza? Você é um mal mentiroso, Nicholas.
– Se eu sou um mal mentiroso, porque raios você participou nessa mentira?
– Porque, como eu disse, eles não iriam acreditar na sua história.
Enquanto eu discutia sobre o plano de Mara em participar naquela mentira, os três nos via pelo vidro dava-lhe a impressão de que estava tendo uma briga ou algo assim.
– Eles estão discutindo a relação ou é impressão minha? – Indagou a noiva de Douglas.
– Eu não sei dizer...
No fim nós dois participamos do resto da refeição, discutimos histórias da época do ensino médio e também sobre o futuro de novas carreiras, mas por dentro me sentia vazio, como um manequim, logo eu não poderia esperar sinceridade nas pessoas em minha volta.
– Com licença, eu preciso ir ao banheiro! – eu disse.
Vou até o banheiro e analiso meu rosto deprimido sobre o espelho, tecnicamente eu podia ouvir vozes, muitas vozes, enaltecendo meu fracasso, julgando minhas escolhas, criticando o porque eu ter abandonado meu antigo estilo de vida e o porque eu estou naquele restaurante.
Enquanto sofria uma crise existencial, Douglas conversava com Mara e logo colocou o jogo na mesa.
– Vamos falar sério, Nicholas é péssimo em mentir, e toda vez que ele mente, ele fica nervoso, você realmente não é a namorada dele e ele não é um artista, estou certo?
– Faz sentido ele ter inventado aquilo quando ele nos viu, ele sempre queria passar para as pessoas uma impressão de superioridade. – Completou Luana.
– Eu... É... Bem! – Disse Mara, ela apertou forte sua bolsa, respirou fundo e olhou para ele.
– Nicholas realmente não tem um talento propriamente dito, e tudo que ele faz é um fracasso, a família dele sempre espera demais e isso acaba fazendo eles se decepcionarem, todo esse julgamento e pressão por parte de seus entes queridos o fizeram ser o que é hoje, mas mesmo sendo um arrogante, presunçoso, narcisista e mentiroso, ele me ajudou quando eu tive problemas de realocação social no passado.
Os três se entreolharam confuso, e eu apenas assistia a declaração de Mara de longe.
– E eu sinto que sou a única que possa endireitá-lo, do mesmo modo que ele me endireitou naquela época e no fim, ele possa ser feliz com suas conquistas!
Qual é o problema dessa menina? Eu nunca sequer a ajudei, nem sequer me lembro dela? Não é possível que todo esse esforço fosse porque eu a levei até na casa dela para ela não se molhar na chuva? Isso não faz todo sentido.
Douglas e Luana riram sem parar, as risadas chamaram atenção de todos que estavam no restaurante.
– Até parece, ele realmente não vale a pena ser salvo! – Comentou Douglas.
– Eu até um dia tinha apostado com Douglas de que iríamos encontrar ele pedindo esmolas na rua, mas até que ele não tá mal.
Então minhas dúvidas sobre o que eles pensavam de mim eram verdadeiras, assim eu fui até o lugar da minha mesa, mas Mara se levantou com um olhar triste e enraivecido, ela me puxou, impedindo que eu sentasse.
– Acredito que ouvimos mais do que suficiente, o Nicholas não precisa de amigos falsos como vocês!
No fim eu apenas ouvi a risada dos três enquanto acompanhava ela de volta pra casa.
– Agora é sério, o que eu fiz pra você que você deve tanto?
– Isso não importa, vamos embora! – resmungou Mara.
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