Abstenção Lúcida
6 Paixão Lúcida
Notas iniciais
Tudo começou doze anos atrás, mais ou menos...
Eu não era um tipo de pessoa sociável na época e isso de alguma forma incomodava os valentões da escola, certa vez eu acabei esbarrando em um dos valentões que se acidentou logo em seguida, depois daquele dia eu fui marcado, os amigos deles iriam acabar comigo no fim da aula e no fim eu consegui escapar.
Eu corri mais do que minhas pernas podiam suportar, meu peito queimava e meus rins doíam, eu respirava ofegante e mantinha o ritmo, mas mal percebi que eu havia entrado em um beco sem saída.
Completamente encurralado, esse cara e mais dois meninos estavam prestes a me espancar, quando o primeiro deles levantou o punho eu fechei os olhos, depois disso eu apenas ouvi pessoas gritando algo como “pega ela” ou “não deixem ela escapar”, quando abri os olhos eu a vi.
Uma garota tão fraca quanto eu, ela tinha acabado de deixar três garotos que eram muito maiores do que ela no chão, eu estava assustado enquanto os garotos corriam para salvar sua vida.
– O deixem em paz, ou vão ter que me encarar! – Gritou a garota e um deles protestou.
– Essa menina é maluca, vamos embora!
Foi assim que conheci Luana, ela me deu a mão, me ajudando a levantar.
– Você está bem?
Muitos garotos naquela época se envergonhariam com o fato de ter sido protegido por uma menina, principalmente naquela idade, mas eu não me importei. O segredo daqueles meninos de terem apanhado de uma garota estava comigo e caso eles tentasse algum tipo de vingança eu iria espalhar esse boato até que suas vidas fossem destruídas por completo, mas acredito que não foi esse motivo que eles pararam de peitar contra mim na escola e sim que eu me tornei amigo de Luana naquele dia...
Mais tarde eu descobri que ela treinava artes marciais e havia ganhado várias medalhas em sua vida, seu pai era militar e ele sempre ensinava defesa pessoal para que a menina pudesse se defender, houve até uma época que eu tentei aprender artes marciais com o pai dela, mas isso é outra história.
Não só por ela ter me salvado e sim tinha certa admiração por ela ser tão forte mesmo com um porte físico parecido com o meu, diferente de mim ela se levantou após levar várias surras na vida e mudou o jogo ao seu favor...
No ensino médio Douglas entrou no nosso grupo e após três anos cultivando aventuras calorosas, o mundo encerrou nossa jornada e cada um seguiu seu caminho...
Com um pesar no coração ela pediu para que eu me encontrasse com ela no último andar da escola, nós dois encarávamos o time de futebol treinando com um olhar depressivo do tipo.
“Tudo acabou”.
– Eu fui aceito em uma faculdade federal.
Eu a encarei com certo espanto, acreditava que isso fugia demais de seu tipo, mas depois aceitei aquela notícia compreendendo a felicidade dela.
– Incrível, eu realmente esperava isso de você.
Ela negou pesadamente.
– Não era essa a resposta que eu esperava.
– Como assim?
Ela pegou minhas mãos, mesmo que ela treinasse a vida caratê, suas mãos eram delicadas.
– Me prometa passar na federal para que possamos nos ver de novo...
Eu havia entendido a relutância em seu coração.
– Isso não é um fim do mundo, ainda podemos nos encontrar...
– Apenas me prometa!
Uma lágrima escorreu em sua bochecha, eu fiquei sem reação, eu não sabia o que fazer ou o que dizer, ela percebeu meu rosto inexpressivo e enxugou as lágrimas com as mangas se virando.
– Me desculpe!
E assim ela deixou o ultimo andar, deste então eu não a mais vi e nem entrei mais em contato com ela, acredito que não era a despedida que ela esperava.
Voltando aos dias atuais meu passado começava a me visitar um por um, primeiro Douglas, temendo pela sua carreira de sucesso eu acabei inventando uma, graças a Mara eu pude descobrir qual era meu potencial e apostei todas as minhas fichas em uma carreira artística e agora Luana que também parecia ter uma carreira de sucesso, logo mais tarde eu pude sentir os olhares julgadores de minha família nas minhas costas dizendo o seguinte.
“Eles estudaram na mesma escola que você e cresceram na vida? Você é patético”. – Meu pai dizia em minha mente.
“Eu realmente acreditei em você”. – Dizia Mara.
“Veja onde estou e morra de inveja Nicholas.” – Dizia Luana.
“Você realmente é um imprestável, mal consegue viver em tantas mentiras”. – Dizia Douglas.
Internamente eu gritava com todos os meus pulmões enquanto puxava meus cabelos.
“Parem de me julgar, pelo amor de Deus.”.
– Você ainda não me respondeu o que faz aqui? – Indagou Luana que estava me encarando.
– Ah, sim, eu na verdade vim aqui para estudar obras de artes, afinal de contas eu comecei minha carreira de artista.
– Estranho. Douglas disse que você tinha uma carreira renomada na advocacia.
– Eu tinha! – Não acredito que menti até para ela. – Mas Uma pessoa me fez enxergar que meu verdadeiro potencial era nas artes.
– Entendo. Até que me lembro duma época que você tinha aprendido a desenhar para agradar as mulheres da nossa classe, mas acabou não dando certo, deste aquele dia eu sempre achei que você tinha abandonado aquela ideia.
Eu ri ao relembrar daquela história.
– Entendo! – Ela sorriu de maneira sincera. – Eu realmente estou feliz por você, mas o que me conta de bom? Vendeu algum quadro?
– Como acabei de começar nesse ramo eu consegui vender um.
– Sério? Por quanto?
– Acredito por quatro mil e quinhentos.
– Caramba! – Disse ela surpresa. – Isso é incrível Nicholas!
– Sim, mas como eu estava devendo quatro mil por conta dos instrumentos profissionais eu ainda estou no vermelho.
– Incrível, mas eu ainda quero ver um quadro seu se for pedir muito. – Ela pegou o celular.
– Claro que não.
– Eu só quero atualizar a agenda, você poderia me dar o seu número?
Eu dei meu numero do celular e ela anotou em seu aparelho, ela ligou para certificar que era o numero certo e meu celular tocou.
– Sabe! Eu tenho muita coisa para fazer, mas eu ti ligo um dia para marcarmos alguma coisa, afinal de contas acredito que você fica mais em casa fazendo quadros.
– É mais ou menos isso.
Eu senti um alivio no peito após dizer a verdade para ela, eu espero que ela conte para o Douglas minha mudança de vida, assim minha mentira morre de vez, se tornando apenas uma historia engraçada que talvez eu conte para meus futuros filhos, estranhamente ao pensar nisso eu acabo encarando Mara a minha frente.
–Eu estou orgulhosa de você, esse é o primeiro passo para aceitar quem realmente você é...
Eu começo a suar frio e não sei por qual motivo e ela percebe meu desconforto.
– Você está bem?
– Mas é claro que estou, vamos para casa.
– Está bem! – Disse ela desconfiada...
Em casa desenhando um quadro qualquer, eu tento lembrar de outras historias que eu havia convivido, esse ar de nostalgia me atingiu em cheio ao ver Luana de novo, no entanto minha mente foi impregnada pela Mara, e quando eu percebi eu tinha desenhado ela em uma roupa de casamento, eu não era tão bom em desenhar feição humana, mas aquele quadro era identificável.
Eu me desesperei ao ver que eu havia desenhado e decidi destruir o quadro, antes de eu fazer isso alguém bateu a porta.
– Nicholas? Sou eu, a Mara, posso falar com você?
Eu comecei a tremer e também suar frio, comecei a procurar algum lugar onde eu poderia colocar o quadro proibido.
“O que eu faço! O que eu faço! O que eu faço!.”.
– Só um minuto.
Todo o barulho que eu causei dentro do quarto fez ela se desconfiar ao máximo, ela bateu na porta três vezes.
– Está tudo bem aí?
– Sim! Está. – Gritei qualquer coisa. – Só estou me trocando, espera um segundo.
Eu abri o guarda roupas e aquele montante de roupa caiu sobre mim.
– Porque tem tanta roupa nesse armário? Não uso nem um terço dela. – Eu reclamei.
Eu pude ouvir a porta ranger com a abertura.
– Estou entrando, se estiver sem roupas, por favor, me avise...
Eu no reflexo joguei o quadro para debaixo do armário e ela logo me viu atolado com um monte de roupas em cima de mim.
– Pelo jeito as “roupas” é o que eu não vou me preocupar...
– Oi Mara, ótimo dia não acha? – Eu disse sem graça.
Segredos eu sei esconder muito bem, e aquele quadro que eu fiz sem querer deveria ser destruído de qualquer maneira.
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