Absolution - Glitter-gulch
11 Capítulo 11
Notas iniciais
Quando eu fui acordá-lo, eu reparei que ele já tinha feito isso, a um bom tempo, aparentemente.
Assim que abri meus olhos percebi que ele não estava mais deitado em cima de mim, nem em qualquer lugar da cama, na verdade, ele não estava em lugar algum. Os cobertores estavam todos curiosamente sobre mim, aconchegantemente, puxados até meu queixo, como se Frank nunca tivesse passado por ali. Eu me sentei e olhei pelo quarto a procura dele. Meus olhos pararam na minha mesa, onde Frank estava apoiado, sentado no chão com os braços em torno dos joelhos.
- Você está bem? –Perguntei em voz baixa, provavelmente porque eu havia acabado de acordar.
Ele acenou de leve. Eu não me convenci, ele parecia deprimido demais, empurrei os cobertores e fui até ele. Ele ficou me olhando enquanto eu me sentava a sua frente.
Passei a mão levemente sobre seu olho roxo, ele estremeceu.
- Ta muito feio? –Ele perguntou, eu mordi o lábio, pensando no que dizer.
-Um pouco inchado –Eu disse tirando minha mão.
Frank olhou para o chão como ele sempre fazia. Ele parecia tão triste. Mas mesmo com um olho roxo, ele ainda era tão incrivelmente lindo. Eu ainda estava querendo falar sobre aquele beijo, mas eu sabia que Frank tinha problemas maiores, ele não precisava de um garoto o enchendo sobre “sentimentos” e tal. Eu acho que ele provavelmente se arrependeu.
- Se anime –Eu disse e ele me olhou brevemente, antes de voltar a encarar o chão.
Eu olhei para meu despertador perto da cama, ainda eram 6:12AM.
-Nós vamos ver sua mãe agora, não? –Eu perguntei pegando seu queixo e o fazendo me encarar.
-Você ainda vai comigo? –Ele disse confuso.
-Claro. Eu só tenho que me vestir e já volto, ta bem?
Não sei porque pedi sua permissão, mas ele concordou de qualquer modo.
Eu fui até o armário, peguei meu jeans preto e uma camisa qualquer, então comecei a procurar uma cueca.
-Eu já volto –Repeti e sai correndo para o andar de cima, até o banheiro do hall.
Frank não havia se mexido quando voltei, se bem que ele não parecia mais tão deprimido, o que era bom.
-Tem que usar o banheiro ou qualquer coisa? –Perguntei quando entrei no quarto.
Frank balançou a cabeça, eu vesti um casaco e depois coloquei mais uma jaqueta.
-Você não fica com calor com tudo isso? –Ele perguntou impressionado.
-Não, não… Eu só gusto de ficar coberto, acho –Disse, ele desviou os olhos –Pronto?
Ele se levantou concordando.
-Podemos pular o café da manhã? Eu só quero ver se minha mãe está bem, pegar meu material e ir embora. Eu não quero ficar mais do que eu deveria...
-Claro –Eu respondi com pressa, pegando um cachecol e procurando minha mochila.
A caminhada para a casa de Frank não demorou muito, menos de dez minutos provavelmente, mas pareceu mais comprida. Era estanho estar fora de casa tão cedo, era antes de todos terem saído para trabalhar e, no mínimo, uma hora antes das crianças começarem a pensar em acordar para a escola. Foi então que pensei...
- Frank, seu padrasto não vai estar em casa nesse horário?
- Não mesmo –Ele disse andando mais devagar –Ele costuma sair às sete, já vai ter saído quando chegarmos lá.
Ao menos uma boa notícia.
Eu reconheci a vizinhança, estávamos nos aproximando da casa de Frank, estava de um ângulo diferente do que eu vi na última vez, estava estranha. Era difícil explicar, é como se tivesse uma nuvem negra sobre ela, pode ter sido só minha imaginação.
- O carro dele não tá aqui –Frank disse –Deve ter saído.
Nós entramos, eu tremi. Não estava frio, mas alguma coisa fantasmagórica passou por mim, me deixando desconfortável. Alguns objetos da sala de estar estavam quebrados ou rasgados, mas Frank não piscou.
- Hm... Gee, você pode ir pegar meu material e eu te encontro aqui em cinco minutos? E vou ver minha mãe.
Eu concordei e fui para o quarto de Frank. Para minha surpresa, não havia nada quebrado em seu quarto, pelo menos nada que fosse visível. Eu demorei um tempo olhando ao redor, só por curiosidade, e eu quis saber as coisas que Frank gostava de fazer quando não estava sendo atormentado por seu padrasto. Tinham várias coisas do Misfits por ali, CDs em geral, algo que tínhamos em comum. Meus olhos pararam em um pôster do Black Flag que estava na parede e eu franzi o nariz. Frank não precisava saber que eu não era fã.
Eu quase tropecei em sua mochila sem ver por onde andava. Então eu a peguei e joguei sobre meu ombro, em procura de qualquer outra coisa que ele possa precisar.
Não achando nada, voltei para o andar de baixo para esperar por ele no hall. Eu teria me sentado, mas não tinha exatamente lugar para sentar, a sala de estar inteira estava uma bagunça.
Frank voltou apressado para o hall alguns minutos mais tarde, tentando esconder a preocupação. Eu sorri de leve para animá-lo e o entreguei a mochila.
-Ela está bem? –Perguntei, ele concordou de leve.
-Ela ta tão abalada, Gee, ela só fica deitada na cama sem nem dizer uma palavra. Eu ficaria, mas ela quer que eu vá pra escola, ela disse que eu preciso me distrair...
-Ela está certa – Eu confirmei.
-Eu vou apanhar de qualquer jeito, acho. Talvez tenha alguma mudança se for de alguém diferente...
-Frank! Cala a boca –Eu engasguei ao dizer isso- Ninguém vai te bater na escola, tenha certeza disso.
-Como? Você não pode estar em qualquer lugar de uma vez! Estamos em salas diferentes, anos diferentes.
-Eu sei, mas eu vou cuidar de você, prometo.
Frank me olhou como se eu fosse louco e foi para a porta.
Andamos para a escola em silêncio, nenhum de nós pronunciou uma palavra. Não havia muito o que dizer.
Frank estava chutando pedras alheias na calçada de uma maneira frustrada, obviamente pensando em uma solução para todos seus problemas. Eu o observei pelo canto do olho, pensando porque eu não conseguia chamar sua atenção.
Nós passamos pelos muros da escola e Mikey estava esperando na entrada, seu rosto contorcido em uma careta.
-Onde diabos você esteve? –Ele perguntou, brevemente preocupado, brevemente irritado –Mamãe ficou louca quando viu que você havia sumido!
-Eu só fui dar uma andada –Eu disse, não menti.
-Poderia ter ligado pra ela... Oh, oi, Frank –Mikey de repente percebeu que Frank estava do meu lado, mas, por sorte, não pareceu achar que estavamos juntos –Onde você estava ontem? Perdeu a aula de inglês!
-Me desculpe, eu não estava bem.
-Ah, bem, nós estamos com um professor substituto hoje também, então não teremos nada pra fazer!
Mikey parecia o oposto de Frank no momento, tão alegre e agitado.
-Você está bem? –Perguntou percebendo como ele estava deprimido.
Frank imediatamente fez uma cara alegre e balançou a cabeça.
-Claro, só um pouco doente ainda...
-Talvez você deva ir pra casa...
-Não! Eu estou bem –Respondeu apressado, eu olhei pra ele, Mikey não reparou.
-Ta bem, melhor irmos então, tchau, Gee –Mikey foi pelo corredor relutantemente, olhando para Frank.
Eu apenas pude assistir enquanto eles desapareciam pela multidão que entrava. Frank olhou sobre seu ombro e eu sorri para ele saber que me veria mais tarde. Ele deve ter entendido, porque sorriu de volta.
Eu estava seriamente começando a considerar a possibilidade de eu estar me apaixonando por ele.
Notas finais
Salvem os unicórnios!
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