Havia algo diferente nos olhos dela naquele final de tarde. Ele podia dizer, sem nenhuma dúvida. E, ainda que seus olhos não estivessem diferentes, era notório seu desconforto pela forma como ela se remexia na cadeira, pelo seu movimento de mãos. Menelau estava acostumado à Helen. Já a conhecia há alguns meses. A encontrava uma, as vezes duas vezes na semana. E as vezes esbarrava com ela na Freguesia. A conhecia o suficiente para saber que havia algo errado.

Helen notava o olhar observador de Menelau. Estava acostumada à seu jeito silencioso, alerta. Acostumada a ouvir sobre sua vida, semana após semana, naquela adaptação à um mundo tão estranho para ele. Menelau compartilhava suas descobertas: estava aprendendo a ler, a escrever. Era dedicado à melhorar seu português, e, talvez se o conhecesse agora, não pudesse dizer nada a respeito de seu passado de terror. Menelau estava adaptado ao novo século, e Helen não poderia estar mais feliz por ele.

Mas aquela convivência vinha sendo nociva para ela. No começo era apenas uma atração. Ele era, afinal, um homem muito bonito. Havia um interesse em sua história, em ajudá-lo. Mas, a medida que o conhecia, que desvendava seus sorrisos, compartilhava seus sonhos, os sentimentos dela se modificavam. E Helen não podia, é claro que não podia. Ele era seu paciente, afinal de contas. Porém, isso não impediu que seus sentimentos crescessem.

Helen estava decidida a deixar tudo de lado, em focar em seu atendimento. Tentou ignorar a forma como seu coração acelerava, as borboletas no estômago. Tentou dizer a si mesma que os limites profissionais permaneciam estabelecidos. Mesmo quando Menelau insistia em beijar sua mão, e, com o passar das semanas, passou a cumprimentá-la com abraços, que as vezes eram mais longos que o necessário. Permaneciam intactos, mesmo que ela, às vezes, precisasse sentar na cadeira que ele ocupara minutos antes, entorpecida pelo perfume.

É claro que era questão de tempo até que ele conhecesse alguém, se envolvesse com outra mulher. Outra – como se, de alguma forma, ela fosse uma opção. Ainda assim, ela não estava preparada para ouvi-lo falar sobre Vanda – a maravilhosa e invencível Vanda. Uma mulher independente, bem-sucedida, e que não pensara duas vezes ao mostrar seu interesse. Helen, porém, permaneceu imóvel, e o ouviu contar sobre os encontros e beijos.

E foi ali, na semana anterior, no segundo em que Menelau saiu de sua casa, que Helen decidiu que não poderia mais ser uma profissional. Não quando estava tão envolvida. Não quando seria incapaz de ajudá-lo. Quando não queria ajudá-lo. Quando não queria ouvir sobre Vanda ou qualquer outra mulher. Não quando estava apaixonada por ele. Profunda e completamente apaixonada por ele.

Menelau ficou em silêncio quando ela se mexeu novamente, quando os olhos dela estavam em todos os lugares, menos nos dele. Não era comum para ela. Helen o ouvia. E era isso que ele mais gostava nela. A forma como, desde o princípio, ela o vira como um ser humano, quando tudo que Menelau conhecia era a escravidão. A forma como ela parecia acreditar em sua capacidade. E os olhos de Helen eram seu refúgio.

Mas os olhos dela não brilhavam naquele dia, não o encontravam. O azul esverdeado, verde azulado, não se misturava com seus olhos negros. O sorriso, que costumava ser fácil, estava ausente. Havia uma linha entre os olhos de Helen. E por um momento Menelau perguntou-se se aquele óbvio desconforto tinha algo a ver com Bento, que saíra da casa dela segundos antes dele entrar.

Ele evitava pensar nisso. Pensar na natureza da relação de Helen e Bento. Era comum vê-los juntos, fora daquele consultório que ela tinha em sua própria casa. Eles passavam tempo juntos, e Damásia adorava fofocar a respeito dos dois. E Menelau não queria saber sobre isso. Não deveria ser da sua conta, afinal. Ele era um ex-escravo, uma aberração da ciência, um homem que passou 132 anos congelado. E ela era tudo o que ele não poderia ter.

Helen levou algum tempo para notar que Menelau estava em silêncio, completamente distraída com seus pensamentos. Ele falava algo sobre sua nova carreira de modelo, para a marca de Marocas, e Helen não sabia exatamente quando Menelau havia parado de falar. Mas seus olhos encontraram os dele, e ela podia quase ver a mente dele trabalhando. Sempre alerta. Sempre em guarda.

— E então? – ela perguntou, e sua voz saiu abafada.

— É tudo o que tenho pra dizer. – ele deu de ombros, mas encostou-se ainda mais na cadeira, deixando claro que não pretendia sair dali.

Helen assentiu, e respirou fundo. Era a hora de enfrentar o que havia planejado a semana toda.

— Bem, nós precisamos conversar. – disse, apressadamente, olhando para as próprias mãos. – A verdade é que eu não vou mais poder atender você

As palavras dela foram como raios, atordoando os sentidos dele. O que ela havia dito?

— Perdão? – perguntou.

— Eu tenho ótimos profissionais para indicar, para que você continue o tratamento. – Helen levantou-se, pegando um papel em cima da mesa. – Aqui anotei alguns nomes e telefones, todos são excelentes.

Menelau segurou o papel que ela praticamente jogou em suas mãos. Olhou para aqueles nomes – que ele já conseguia ler, uma conquista dele. Deles. Das dificuldades que ele superou ao ouvir as palavras dela. Sabia que era um tratamento, mas sentia que eles eram muito mais do que isso. Ao menos amigos.

— Por que? – Menelau perguntou, completamente chocado.

— Por que, o que? – ela perguntou, ansiosa.

— Por que você não pode mais me atender? – disse, como se fosse óbvio.

E era. E apesar de Helen ter pensado sobre aquele diálogo, não conseguiu encontrar as palavras rápido o suficiente para que soassem naturais, o que fez com que o choque dele se transformasse. Em tristeza, revolta. Em uma sensação de perda.

— Eu sou uma pesquisadora, antes de ser demitida eu fazia parte de projetos de pesquisa. – tentou fazer sua mentira soar natural. – É hora de voltar à isso.

Menelau levantou-se, fazendo com que ela desse alguns passos para trás.

— E Bento? – ele perguntou, antes de conseguir se controlar.

Ela não estava preparada para aquela pergunta, e isso transpareceu em seu rosto, quebrou sua fachada.

— Bento? O que tem Bento?

— Você vai continuar atendendo o poeta? – ele cruzou os braços, tentando defender a si mesmo da resposta dela.

— É... bem, é diferente. – Helen soltou a respiração. – Bento é diferente.

Ali estava, todos os pensamentos dele, suas dúvidas em relação à ela, em relação à Bento. Era óbvio, cristalino. Uma mulher inteligente, estudada, livre, jamais se encantaria por ele. Sempre preferiria o letrado poeta. Ele explodiu, sem saber de onde, sem saber porque.

— Diferente como? – sua voz saiu diferente, mais grave. – Por que ele é branco? Por que sabe ler, escrever? Por que não é um ex-escravo bronco, cheio de cicatrizes?

Os olhos dela se arregalaram, surpresa e choque envolvendo seus sentidos, e Helen não conseguiu reagir.

— A sinhá disse uma vez que não conseguia se acostumar com as minhas cicatrizes. – Menelau disse, irônico, irritado.

Antes que Helen pudesse dizer alguma coisa, ele abriu a camisa, estourando alguns botões. Jogou a peça na cadeira que ocupava, e virou-se lateralmente para ela, suas cicatrizes expostas. As marcas de seu passado, da chibata, do tempo em que era tratado como mercadoria, como um animal, como inferior. Seus olhos continuavam estudando as reações dela – ou a ausência delas.

Mas, apesar do choque pelo que ouvia, seu corpo respondeu à visão dele. Foi a vontade de tocá-lo, de beijar cada uma daquelas cicatrizes, de fazê-lo esquecer aqueles horrores, que fez com que ela se afastasse de Menelau naquele momento. Ela percebeu, tarde demais, que foi um movimento errado, quando os olhos dele brilharam com uma emoção diferente.

— A sinhánão consegue olhar? – questionou, firme.

Foi o uso daquela palavra, que os distanciava tanto, que o rebaixava tanto, que fez com que ela reagisse.

— Não me chame assim. – Helen encontrou as palavras.

— Assim como? Como a dona da casa grande? – Menelau atirou as palavras.

— Você está sendo injusto, Menelau. – ela suspirou. – Não é nada disso.

— Ah, não? É só por acaso que seus planos de voltar pro raio de pesquisa não envolvem o poeta branco? – Por acaso que o escolheu — foi o que ele pensou, mas não disse.

— Eu já disse, é diferente. – Helen sabia que devia mais explicações. – Eu não acho que posso te ajudar mais. – disse, olhando para as próprias mãos.

Aquela conversa não ocorria nada do jeito que planejava. Esperava que Menelau questionasse, mas nunca uma explosão de fúria, uma série de acusações infundadas.

— O que mudou? – ele questionou, cruzando os braços, em um tom um pouco mais suave.

E a mudança na voz dele fez com que Helen olhasse para ele. Um olhar traidor que percorreu o corpo dele, uma resposta que ela não queria dar, mas seus atos insistiam em entregar.

— Você é diferente de todos os meus pacientes. – ela disse, simplesmente.

Diferente em tudo. Na forma como eles alongavam as sessões, e conversavam sobre coisas banais. Naqueles abraços longos, e em tudo que Menelau despertava nela. Ele era diferente de qualquer homem que ela conhecera.

— Por que eu era escravo? – Menelau perguntou, um tom de insegurança em sua voz.

— Deus, não. – Helen deu um passo em direção a ele. – Eu nunca vi você como um escravo. Eu sempre tratei você como um homem livre.

Havia uma súplica na voz dela, e Menelau sentiu-se envergonhado. Era verdade. Helen, mais do que qualquer outra pessoa – inclusive os Sabino Machado, via sua humanidade, seu valor. Seus braços caíram ao lado do corpo, e instintivamente Menelau deu um passo à frente.

— Desculpa. Eu não deveria ter dito aquilo. – passou a mão pelos cabelos. – Você não merece.

Os olhos dos dois se encontraram, e de repente estavam mais perto do que deveriam. As palavras ficaram presas na garganta dela, e Helen respirou fundo, antes de afastar-se, colocando mais espaço entre eles. Espaço que evitasse que ela cometesse uma loucura.

— Por que, então? – Menelau perguntou.

Precisava saber. Se ela sairia de sua vida, ele precisava saber o porque. Ao menos uma resposta que o acalmasse, porque a ideia de não vê-la, de não passar tempo com ela, era assustadora.

— Eu já disse, eu não posso mais fazer isso. – Helen afastou seu olhar do dele, virando-se para à janela.

Para as luzes da cidade que já se acendiam, enquanto a noite tomava conta.

— Por que? – ele insistiu.

— Eu não posso, simplesmente não posso. – Helen cruzou os braços, tentando conter as palavras que queriam sair.

— E por que pode com Bento? – o tom enciumado escapou da voz dele.

— Porque Bento é diferente. – ela se repetiu, virando-se um pouco para ele. – Eu consigo ser profissional e discutir sobre a vida dele, e separar isso da nossa amizade.

Menelau franziu a testa. Ela não estava fazendo nenhum sentido. Embora parte dele sentisse um alívio ao ouvi-la se referir a Bento como um amigo.

— Nós também somos amigos. – ele disse, como se fosse óbvio. – Pelo menos eu quero pensar que sim.

Helen virou-se totalmente para ele, odiando-se por precisar ser mais clara, por entregar ainda mais o que sentia.

— Tem coisas sobre você que eu não quero saber. – ela disse, direta, e virou-se novamente de costas para ele.

— Sobre o meu passado? – Menelau questionou.

— Sobre o seu presente. – Helen deixou escapar, encarando tão intensamente as luzes, como se pudesse ser sugada por elas, para longe daquela conversa.

— Eu não entendo. – e ele realmente não entendia.

Porque interpretada como falta de interesse, e não excesso dele. Porque essa possibilidade jamais cruzaria por sua mente, não até ela respirar fundo, e falar, de forma controlada.

— O que discutimos na semana passada. Eu não quero saber sobre isso. E é parte da sua vida, o que impede que eu seja profissional.

— Vanda? – o nome saiu como um susto.

Helen não respondeu, e Menelau agarrou-se ao silêncio dela. À possibilidade de que aquela mulher que o fascinava tanto pudesse, de alguma forma, sentir algo por ele. Algo além de respeito e amizade. Algo que fosse forte o suficiente para fazê-la não querer ouvi-lo falando sobre outra mulher. E se era sua última chance, se era a última vez que estaria ali, ele preferia arriscar.

Ela não percebeu a aproximação dele, mortificada por ter revelado muito mais do que planejava. E por isso fraquejou ao sentir as mãos dele em seus ombros. Quentes, com delicadeza e aspereza. Helen suspirou ao sentir Menelau deixar as mãos correrem por seus braços. Quando ele a girou, Helen não pode fazer nada diferente de deixar-se levar. O encontrou perto, seu olhar questionador, esperando uma resposta que ela não daria.

— Por que? – quando ele demandou novamente, o hálito de menta dele bateu em seu rosto, e Helen fechou os olhos.

— Não me faça dizer. – ela suplicou, envolvida por ele.

— É pelo mesmo motivo que eu não quero ouvir sobre o poeta? – Helen não viu o sorriso pequeno que brotou nos lábios dele.

Menelau passou a mão pelo rosto dela, delicadamente, controlando-se ao notar que ela inclinava-se para seu toque.

— Porque o meu problema é que eu não quero pensar nele tocando em você. – ele confessou.

Helen abriu os olhos, um pouco chocada, um pouco ansiosa. E as palavras saíram dela antes que pudesse evitar.

— Então temos o mesmo motivo. – Helen viu o sorriso dele se alargar.

E então, as mãos dele seguraram sua cintura, a puxando para ele sem delicadeza, e sua boca buscou a dela. Intenso, apaixonado. Suas línguas se tocaram como explosão, antes que os dois pudessem perceber as mãos de Helen exploravam o corpo dele, as dele descendo pelo corpo dela. Quando Menelau tocou suas coxas, a levantou sem dificuldade.

Ele não deveria saber o caminho, mas sabia. Enquanto as mãos dela tocavam seus cabelos, Menelau desceu os beijos para seu pescoço, a barba roçando na pele sensível, o toque forte dele fazendo com que ela perdesse o controle. Antes que percebesse, ele estava deixando-a na cama – a cama dela. E estava por cima de Helen, sua boca voltando à dela. Mas ele parou, de repente, e seus olhos buscaram os dela.

— Eu nunca fiz isso antes. – ele disse, de repente.

— O que? – ela perguntou, entorpecida, distraída.

— Não com uma mulher que eu gosto. – ainda assim, os dedos dele desceram para os botões da blusa dela.

— Me parece o caminho certo. – Helen sorriu, seus dedos explorando delicadamente aquelas cicatrizes em seu dorso.

— É sua opinião profissional? – Menelau ergueu a sobrancelha.

— É minha opinião pessoal. – Helen o puxou para um beijo.

Mais tarde, quando estava deitada no peito dele, brincando com os músculos de seu abdome, Helen suspirou, feliz. E não conseguiu afastar a sensação de que Menelau era feito para ela.

Notas finais
Eu não resisti, desculpa!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!