Abre-te, Sésamo
7 Capítulo 7
Notas iniciais
Então eu sou só um brinquedo para Levi? Esse tempo todo ele estava me usando para satisfazer as suas necessidades? Eu não podia acreditar. É incrível como você consegue se enganar sobre uma pessoa. Eu fui usado, descaradamente. Fui abusado por um adulto, e ainda por cima professor. O meu professor. Aquela pessoa a quem os estudantes devem se espelhar e podem confiar. Será que é isso, mesmo? Descobri hoje que não é bem assim.
Sentia-me traído, humilhado, sujo. Como ele pôde fazer isso comigo? Por que eu fui burro o bastante para achar que ele sentia o mesmo por mim? Aquele homem não tem emoções. Desde o primeiro dia em que o vi percebi isso. Por que me deixei levar pela sua lábia? Eu mal conseguia suportar o aperto em meu peito. Mas, dessa vez, eu não vou chorar. Eu tenho que aprender a ser forte. E, se tiver de ser da pior maneira, que seja.
Levi’s POV
Por que aquele filho da puta do Irvin tinha que ter aparecido no melhor momento? Estávamos prestes a iniciar a diversão de verdade e fomos interrompidos pelo diretor chato e careta. Eu não estou nem aí se houver um escândalo na escola. A MHS já esteve de pé por mais de duzentos anos. Se fechar agora, está mais do que na hora. E, se eu perder o emprego, foda-se também. Dinheiro não é problema, eu tenho muito dinheiro. Se acontecer um imprevisto, posso viver muito bem sem nunca mais trabalhar. Eu leciono porque gosto, porque eu acredito que os jovens de hoje não passam de antas estúpidas, que não servem para nada, e eu posso colocá-los nos eixos.
Porém, é claro que o que eu disse a Irvin não é inteiramente verdade. Eu só disse aquilo para ele parar de encher o saco. Não vou negar que aquele pirralho é muito gostoso e foi uma grande tentação para mim desde bati os olhos naquele corpo pela primeira vez, mas não é como se eu não ligasse para ele. É claro que eu não estou apaixonado, nem tem essa possibilidade. Eu não sou mais um adolescente. Entretanto, Eren é meu estudante, apesar de tudo. E eu me importo com o seu progresso em relação à matemática. Aquele idiota não seria nada sem a minha ajuda.
Eu ainda não entendi por que motivo aproveitei-me de sua paixonite para os meus próprios interesses. Parando para pensar sobre isso, talvez eu não tenha feito a coisa certa. Talvez. E não posso simplesmente chutá-lo agora. Sinto que tenho que ser mais delicado se o garoto realmente sente algo por mim. Apesar de não parecer, eu sou humano. Se eu tiver que arcar com as consequências, eu farei. Talvez se nós conversarmos com calma... Eu preciso resolver esse problema.
Na manhã seguinte, após bater o sinal, eu já estava em minha sala com perfeita pontualidade. Abri a porta e permiti que os estudantes entrassem. Eu tinha certeza de que Jaeger ficaria rubro assim que visse o meu rosto. Eu estava redondamente enganado. Ao olhar em meus olhos, ele estava com uma expressão triste, e eu arriscaria dizer decepcionada. Sentou-se em sua carteira, cabisbaixo, e não prestou atenção à aula. Permanecia mirando um ponto fixo no caderno, observando algo que só era visível em sua mente.
Bem, eu não tenho tempo para crises existenciais adolescentes. Segui normalmente com as minhas explicações pelo resto do período. O sinal bateu e todos os alunos seguiram para a aula seguinte, e vi que Eren, como sempre, ainda estava guardando o seu material. Como era lento! Aproveitei a oportunidade:
– Não se esqueça de vir às 14h.
– Sim, senhor. – disse baixinho, sem olhar para mim, ainda cabisbaixo. Terminei de guardar os papéis na pasta.
– Oy, Eren! O que há com você? – mas ele já havia saído da sala de aula.
Às duas horas, como tínhamos combinado, Eren apareceu. Não estava diferente de algumas horas atrás. Esse seu comportamento está muito estranho. Sem bochechas coradas? Sem gagueira? Por que essa expressão tristonha? E, acima de tudo, por que isso me importa tanto? Eren é só mais um estudante. E eu conheço muito bem adolescentes. Crises de identidade são muito comuns nessa idade. Mas por que eu acho que não é só isso?
– Eren, pode sentar-se aqui do meu lado. – apontei para a cadeira à minha direita. Ele sentou-se e ficou encarando a mesa. – Olhe para mim. – ele obedeceu, e vi em seu rosto uma expressão de leve curiosidade. – O que você tem hoje?
– Nada. – ele tinha um tom entediado.
– Não minta para mim. Qualquer um pode perceber que algo incomoda você.
– Por que o senhor se importa com isso? – por que eu me importo? Essa era uma boa pergunta. Nem eu sei responder.
– Por que eu não me importaria?
– Eu pensei que eu não fosse nada para você, que eu fosse só um brinquedo. – do que diabos ele está falando?
– Você fumou ou algo assim? Eu nunca disse isso. Olha, você deve ter sonhado.
– Não, você disse. Ontem. Eu ouvi você e o diretor Irvin quando eu saí da sala. – eu me enfureci. Aquele pirralho está xeretando onde não é chamado agora?
– Você é um imbecil, mesmo! Quem lhe deu o direito de ouvir a conversa dos outros? Além do mais, não passou pela sua cabeça que eu talvez tivesse dito aquilo para que o Irvin não me enchesse mais o saco? Você acha mesmo que eu vou simplesmente baixar a cabeça e obedecer a ele? – ele se surpreendeu, mas manteve-se calado. – Não tire mais conclusões precipitadas.
– Mas, então, o senhor, hum... Gosta de mim? – pude ver o seu rosto se iluminar. Eu não entendi o sentido da sua pergunta, e não o deixaria ter esse gostinho.
– Já disse para não tirar conclusões precipitadas.
Eren’s POV
Será que ele realmente gosta de mim? Quer dizer, ele não respondeu à minha pergunta. Isso significa que ele sente algo por mim. Ou ele só está tentando evitar que eu me machuque? É impossível saber o que ele está pensando! Ele raramente esboça alguma emoção e, quando o faz, geralmente é raiva. Às vezes eu me surpreendo com o que eu penso. Quero dizer, como eu posso pensar que um dia ele irá gostar de mim? Eu sou péssimo na matéria que ele leciona, não posso negar que sou um pouco lento, sou muito mais jovem, sou seu aluno e, ainda por cima, sou homem. Por que eu fui me apaixonar por uma pessoa que está destinada a seguir rumos totalmente diferentes dos meus?
Não consegui deixar de pensar nisso durante toda a aula de matemática, e era impossível me concentrar. Levi chamou minha atenção inúmeras vezes, e não deixou de me dar tapas.
– Entendeu?
– O quê? – e novamente os meus devaneios desviaram-me da aula. Ele se irritou e segurou o meu rosto na região das bochechas com uma só mão, e aproximou a minha face da sua.
– Eren, você acha que eu gosto de ensinar para as paredes? Se as pessoas fazem um favor a você, seja grato. Você pode, por favor, prestar atenção ao que eu digo? Ou você não precisa mais da minha ajuda? Quer parar com as aulas?
– N-Não! – exclamei. Vê-lo três vezes por semana é uma tortura. Preciso dele todos os dias. Seus lábios se abriram em um sorriso torto, quase imperceptível.
– Por que esse desespero? – meu rosto atingiu rapidamente o tom magenta. Eu tentava formular algo convincente.
– P-Porque... – mas os seus lábios tomaram os meus, em um movimento delicado, porém rápido. Em menos de um segundo eu já não raciocinava direito. A única coisa que eu conseguia pensar era como os lábios de Levi ficavam mais atraentes quando combinados aos meus. Nossas línguas se moviam em uma sincronia perfeita. Eu não poderia pedir outra coisa no mundo. Aquela era uma das melhores sensações já experimentadas por mim. Quando separamos os lábios, necessitando de ar, Levi disse, ainda um pouco ofegante:
– Acho que você já pode ir, Eren. Até amanhã.
– Até amanhã, senhor. – roubei rapidamente um último beijo seu e saí apressado.
Ao entrar em meu dormitório, não pude esconder o sorriso que estava em meu rosto.
O último mês que passou foi totalmente diferente do que eu pensava que seria. Levi não perdeu uma oportunidade de me torturar. Havia muitos momentos em que ele simplesmente me ignorava, sendo totalmente frio comigo. Havia outros, porém, em que ele me atacava sem mais nem menos. É claro que isso mexia muito comigo. Um dia eu estava radiante e no outro chateado por não receber atenção. Mas não é como se eu fosse implorar aos seus pés.
Em um típico dia de aulas extras, minha boca estava sendo completamente devorada por Levi. Eu podia sentir meu rosto corar e meu coração bater descompassado. Não podia negar que estava adorando. Mas, como a minha vida está sempre me sacaneando, batem na porta.
– Levi, o Eren está aí? – era Hanji. – Eu preciso falar com ele.
– Maldita – sussurrou Levi, abrindo a porta. – O que você quer?
– Eren, você pode me acompanhar até a minha sala? – ela não estava sorrindo como sempre. Parecia algo sério. Saí da sala de Levi, evitando olhá-lo nos olhos. Ele, porém, agarrou o meu braço e disse em meu ouvido:
– Quando voltar vá direto ao meu dormitório. – senti um arrepio. E-Ele não estava pensando em... Não, não pode ser!
Levi’s POV
Aquele garoto estava me deixando louco. Eu simplesmente não conseguia parar de pensar nele. Em como seria tê-lo em minha cama, submisso, gemendo o meu nome enquanto praticávamos o coito. Não é um pensamento apropriado para um professor, mas foda-se. Jaeger é gostoso e está me proporcionando sonhos um tanto... Proibidos. E eu não consigo parar de imaginar se ele é tão bom na vida real como em meus sonhos. E eu não estou fazendo nada de errado (apesar de ele ser menor de idade). Eren gosta de mim, seus olhos não mentem. O pobre garoto acha que consegue esconder, mas é tão transparente. Às vezes dá pena. Às vezes. Mas ele vai se divertir hoje. Talvez fique sem se sentar por uns dois dias, mas ele vai gostar.
Eren’s POV
Chegamos à sala de Hanji e nos sentamos. Ela permaneceu com a mesma expressão séria. Estava ficando preocupado.
– H-Hanji? O que aconteceu?
– Eren, eu não sei como lhe dizer isso. – Oh meu Deus, ela descobriu sobre Levi e eu! Ela deve estar querendo me dizer para ficar longe dele.
– Hanji, eu posso explicar! Eu não sei o que estava pensando, quando vi aconteceu!
– Do que está falando, Eren? – opa. Não era isso. – Bem, de qualquer forma, tenho que dizer que sua mãe foi assaltada. Vários homens invadiram a casa e... Bem... A sua mãe foi assassinada.
– O quê? – eu não conseguia segurar as lágrimas que teimavam em escorrer pela minha face. – A minha mãe morreu? – eu não devia ter vindo para essa escola. Se eu estivesse em casa, nada disso teria acontecido! É tudo culpa minha!
Ela me abraçou e esperou eu me acalmar. Quando eu parei de chorar, ela disse:
– Tenho que lhe informar que, infelizmente, você não tem nenhum parente próximo para ficar com você. Você terá que ir a um orfanato e não poderá estudar mais aqui. – ela tinha uma expressão triste no rosto. – Irão buscá-lo amanhã. Desculpe, Eren. Eu realmente não posso fazer nada. Ah, mais uma coisa: a sua casa foi hipotecada pelo banco, e a única coisa que você recebeu de herança foi isso. – ela me entregou uma chave, aquela que eu encontrei debaixo do assoalho. – Sua mãe queria que ficasse com isso caso acontecesse alguma coisa com ela.
– O que ela abre?
– Eu não sei, querido.
Em um minuto eu estava arrasado. No outro, estava determinado. Eu sei que a morte de minha mãe não parece ter a ver com a chave, mas, se ela queria que eu ficasse com ela – que era do meu pai –, eu tenho que descobrir o que ela abre. E o orfanato não me deixaria sair para isso. Tenho que bolar um jeito de fugir da escola. Mas como? Estou em uma ilha. Não venderiam passagens internacionais para um adolescente. Sem falar que sair da escola é praticamente impossível.
Sairei escondido no fim da tarde, quando os portões da escola ainda estiverem abertos. Colocarei na mochila o mínimo possível: uma muda de roupa, dinheiro e, é claro, o anuário. Tentarei conseguir mais coisas sobre o meu pai antes de sair. O resto eu acho desnecessário. Eu compro no caminho. Depois, esperarei anoitecer e todos irem dormir e pularei o muro. Quando eu sair da escola, irei ao cais e negociarei com algum marinheiro para me levar para casa. Se eu for visto na rua, provavelmente chamarão a polícia ou um assistente social que me levará à escola, e estarei encrencado.
Quando fui à biblioteca, descobri que não havia mais nada sobre o meu pai, o que me deixou decepcionado. Eu não iria, porém, desistir. Tenho certeza de que o que eu preciso saber está trancado em algum lugar na minha casa, e, agora, eu tenho como abrir.
Aproveitei o momento em que Armin saiu do dormitório para tomar banho e arrumei rapidamente a minha mochila. Saí do quarto antes que ele retornasse, e fui esgueirando-me até o térreo. Mal coloquei um pé para fora da porta e ouço uma voz familiar:
– Oy, Eren. Aonde está indo? – senti um arrepio na espinha. Droga! Ele não vai me deixar sair! E deve estar furioso comigo. Afinal, esqueci completamente de ir ao seu quarto.
– S-Senhor Levi, eu... Desculpe-me, eu não pude encontrá-lo em seu dormitório.
– Eu entendo, Hanji me contou tudo. – o que era aquilo em sua voz? Era... Compaixão? – Sinto muito pela sua mãe. Eu fui ao seu quarto para conversar com você caso quisesse, porém Armin disse que você tinha sumido. Mas por que está com essa mochila?
– P-Porque...
– Você por acaso não está tentando fugir da escola, está? – olhou-me, desconfiado.
– Eu não posso ir a um orfanato agora, senhor! E eu preciso resolver umas coisas sobre o meu pai. Por favor, não me dedure! – ele começou a rir.
– Você acha mesmo que vai conseguir escapar daqui sem a ajuda de ninguém? Há guardas em cada canto. Em algum lugar eles iriam ver você e você estaria perdido. Venha comigo até a sala dos professores.
– Não, por favor, não conte ao senhor Smith!
– Não seja idiota, Eren. Eu não vou fazer isso. Irvin me irrita demais com suas manias de perfeição com relação à escola.
A sala dos professores estava vazia. Nós entramos e Levi trancou a porta.
– Agora quero que me conte tudo sobre o seu pai e por que precisa sair daqui.
Eu disse a ele tudo o que eu sabia: o seu desaparecimento, a chave do assoalho, a minha mãe privando-me de vê-la, o anuário, a sua morte e como a chave retornou a mim. Levi permanecia calado, sem esboçar nenhuma reação. Por fim, levantou-se e disse:
– Pegue a sua mochila. Não podemos perder mais tempo. Estamos indo à sua casa.
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