Notas iniciais
Boa leitura!

Bem, tudo começou no dia em que a minha mãe resolveu me matricular em um colégio interno que fica a mais de dois mil quilômetros de casa. Ele se chama Morgan High School.

— Eu só estou fazendo isso para o seu bem, Eren. Aqui não há escolas de qualidade para você e eu quero um futuro brilhante para você. Além do mais, você é muito teimoso e impulsivo. Um pouco de disciplina rigorosa fará bem.

Depois que o meu pai desapareceu, ficamos só minha mãe e eu. Eu estava apreensivo por deixá-la sozinha. Se alguma coisa acontecesse, eu não estaria lá para ajudar. Mas, assim como eu, ela é muito teimosa e não iria mudar de ideia. Acabei desistindo de discutir com ela e resolvi aproveitar os meus últimos dias em casa antes de ir a esse colégio.

Um dia antes do início das aulas, eu arrumei as minhas malas. Comecei a vasculhar a casa à procura de quaisquer objetos que eu poderia precisar lá. Eu estava atrás de uma calça que eu havia perdido quando tropecei e caí de cara no chão. Olhei para trás no lugar onde o meu pé tinha se prendido e notei uma fissura no assoalho. Oh! É removível! Retirei com cuidado o pedaço de madeira e encontrei uma chave dourada, com um formato de losango na ponta. Como eu nunca percebi essa falha no piso?

— Mãe! Eu achei uma coisa no chão! – Eu gritei e fui à cozinha para mostrá-la a chave. – Você sabe o que é isso?

Eu nuca vi a minha mãe tão assustada em toda a minha vida. Ela tirou-a de minhas mãos e disse:

— Onde você achou isso? Você andou mexendo nas coisas do seu pai de novo?

— Eu a encontrei em um buraco no assoalho. O que ela abre?

— Isso é do seu pai. Só interessa a ele, está me ouvindo? Não faça mais perguntas. Ela vai ficar comigo. Volte a arrumar as suas malas, Eren.

Droga! Ela sempre fica enigmática com tudo relacionado ao meu pai. Eu só gostaria de saber o motivo. Eu continuei a empacotar as minhas coisas, o que durou o resto do dia.

Na manhã seguinte eu acordei cedo, tomei o café da manhã e peguei as minhas malas. O meu voo seria em duas horas e eu já estava pronto. Esperei a minha mãe terminar de se trocar.

— Vamos? O táxi já está nos esperando.

Chegamos ao aeroporto com antecedência e, por esse motivo, fomos tomar café enquanto esperávamos a hora de eu embarcar. Eu estava triste porque eu não queria deixar a minha mãe. Eu não queria deixar a minha casa e os meus amigos. A quem eu estou tentando enganar? Eu tinha algum amigo? A minha única amiga foi Mikasa, mas, depois que os pais dela morreram, ela sumiu. Eu tinha sete anos. Ninguém me disse o que aconteceu com ela. Ela era como uma irmã para mim. Ainda sinto a falta dela.

-... Com você. Faz tanto tempo que eu não a vejo. Você se lembra dela? Está me ouvindo, Eren? – Os meus devaneios me distraíram e eu não ouvi uma palavra do que ela disse.

— Hm? Ah, sim, lembro. – Ela não gostaria de saber que eu não prestei atenção no que ela estava falando.

– Diga a ela que eu mandei lembranças. – De quem ela está falando? – Ela vai te mostrar o colégio e te ensinar as normas de conduta.

— Ok. – Como eu vou descobrir de quem ela está falando agora?

— Eren, eu quero pedir desculpas por ontem. Eu não devia ter sido tão ríspida a respeito da chave. Mas são coisas do seu pai e eu não quero que você mexa. Eu pretendo manter tudo do jeito que ele deixou.

— Tudo bem. Que horas são? – Eu queria acabar logo com isso.

— Oito horas e vinte minutos. Está na hora. Você embarca no portão 10. Aqui está a sua passagem. – Seus olhos ficaram marejados. – Se cuida, tá? Eu vou sentir a sua falta. – Ela me abraçou tão forte que eu mal consegui respirar.

— Eu também vou sentir a sua falta. – Ela me deu um beijo na testa. – Tchau, mãe.

Alguns minutos depois eu já estava dentro do avião a caminho do meu pesadelo. O voo foi tranqüilo, sem turbulências. Porém, eu estava muito estressado por causa de toda essa mudança, o que me impediu de dormir a viagem inteira.

Incrível como a paisagem mudava conforme eu avançava para a Morgan High School. Passei por oceanos, longos trechos de terra e por inúmeras ilhas. Isso me fez pensar sobre como eu conheço pouco sobre o mundo. Há tantos lugares incríveis que eu não conheço. Um dia gostaria de explorar cada metro quadrado que há na Terra.

Em quinze anos eu nunca saí da cidade onde morei. Minha mãe sempre disse que era porque não era seguro. Eu achei muito estranha essa história de ir a outro país para estudar. Há colégios muito bons lá. Às vezes eu penso que aconteceu alguma coisa, mas ela nunca me contaria. Eu só espero que esteja tudo bem.

Durante o voo um garoto que devia ter a minha idade sentou-se ao meu lado, na janela. Ele era loiro, com um corte reto que terminava logo abaixo do queixo, magro e com olhos de um azul intenso. Eu observei que ele também ficou maravilhado com o que via através da janela do avião, ainda mais do que eu. Talvez mais um sonhador que espera ter tantas aventuras pelo mundo quanto eu. Eu percebi que estava observando-o quando ele voltou-se para mim, surpreso, e seu rosto ficou vermelho de repente. Será que ele está bem?

— Er... Está tudo bem? Você está com o rosto muito vermelho. Será que não é febre? – Ele ficou ainda mais corado e desviou os olhos.

— N-Não, eu estou ótimo... É só calor, eu acho...

— Eu me chamo Eren, e você? – Eu disse, estendendo a mão. Ele a apertou.

— A-Armin. Prazer.

Continuamos conversando até o avião aterrissar. Descobri que, assim como eu, Armin tem quinze anos. Como eu tinha previsto, ele também tem grande interesse em viajar pelo mundo um dia e conhecer todos os lugares possíveis. Ele tem uma tonelada de livros de geografia sobre todos os continentes com muitas imagens e informações interessantes. Ele falou sobre eles com tanta paixão que eu vi que esse era o maior sonho dele. Talvez eu adote esse sonho também. Armin, incrivelmente, nunca conheceu o mar, assim como eu. A primeira vez que vimos o mar foi pela janela desse avião.

Acho que, em anos, eu nunca me diverti tanto com uma pessoa. Armin é absurdamente inteligente. É muito bom conversar com ele, pois seu conhecimento é muito amplo, então ele entende de qualquer assunto. Ele me disse que a sua matéria favorita é matemática. Como? Pode repetir? Eu acho que não ouvi direito. A matéria que eu mais detesto é a matemática. Eu nunca me entendi com os números. Acho que eles não gostam de mim. Armin seria um bom professor. Durante o voo, ele resolveu um sudoku de nível difícil em menos de cinco minutos.

Quando o avião pousou, nós saímos dele e fomos pegar as nossas bagagens. Depois disso, fomos juntos à sala de desembarque, onde havia uma mulher de uns trinta anos, usando óculos de armação retangular, com cabelos castanhos amarrados, segurando uma placa, onde estava escrito:

E. Jaeger

A. Arlert

Notas finais
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