Abraça-me
1 Capítulo I: Pai e Filha
Notas iniciais
Olhos azuis revelavam-se para o mundo em mais uma manhã ensolarada; vagavam lentamente pelo quarto do apartamento que recentemente foi comprado. Soltando um bocejo, o dono de tais orbes azulados levantou-se da cama de forma sonolenta para iniciar sum rotina matinal. Rumou para o armário e apanhou uma toalha; deu alguns toques, desconexos pelo sono, no despertador antes de caminhar para o banheiro.
Não tardou em abrir o chuveiro; a água fria entrando em contato com sua pele bronzeada não o fez sequer estremecer – já estava plenamente acostumado com aquilo. Passaram-se alguns minutos e o homem finalmente se deu por satisfeito com seu banho e desligou a corrente de água; tomando a toalha novamente, ele começava a sair do banheiro apenas parando na frente do espelho para visualizar seu reflexo no vidro.
Limpando certas gotículas de água que, de alguma maneira, conseguiram respingar sobre sua reflexão, ele contemplou sua imagem.
Cabelos loiros e esvoaçados cobriam suas duas safiras; sua face livre de qualquer expressão fazia com que as marcas em suas bochechas ficassem perfeitamente alinhadas. Seus olhos ganharam um toque gélido e rancoroso antes de ir de volta para o quarto se vestir.
Não muito longe dali – em outro cômodo, na verdade – outra pessoa também começava a despertar de seu profundo sono. Seu quarto era todo adornado em rosa, com vários brinquedos de pelúcia espalhados pelos móveis e cantos. Uma pequena forma retirou as cobertas que a escondiam e sentou-se na cama ao ouvir o despertar do relógio. Cessando o alarme, pequenas mãos esfregaram olhos sonolentos; os orbes se abriram para revelarem suas cores em verde escuro; os finos e curtos fios de cabelos negros agitavam-se em sintonia com o pequeno corpo.
Acordar de manhã cedo realmente é um saco...
Banindo tais pensamentos de sua mente, a pequena figura – uma garotinha de não mais que sete anos – abriu a porta de seu quarto e traçou um modorrento curso mirando a cozinha.
O som do fogão sendo ligado preencheu seus ouvidos, olhando mais atentamente a criança pôde notar o loiro alto que estava começando a cozinhar.
“Ohayō, papai.” A menina cumprimentou o loiro assim que o viu preparando o café da manhã, ele a olhou antes de oferecer um aceno mínimo com a cabeça.
“Já se decidiu, Yune?” Ele perguntou, fazendo a menina gingar desconfortavelmente na cadeira em que se sentou.
O tom do rapaz foi severo e ríspido, algo que certamente a machucava muito. Sempre foi assim desde que sua jovem mente a concedeu o apanágio da memória. Por mais que ela tentasse, ele nunca lhe demonstrou a mínima ação de afeto.
Ele nunca a abraçou.
Ele nunca segurou em sua mão.
Raios...
Ele nunca sequer a tocou!
E o pior de tudo era o fato daqueles orbes azuis o traírem quase que sempre; por incontáveis vezes a garota podia notar a tristeza que aqueles dois oceanos tentavam com tanto custo reprimir todas as vezes que ele se distanciava dela. No fundo de seu coração a menina tinha esperança que, um dia, o loiro iria mudar e retribuir todo o amor e carinho que ela lhe sentia por ele; esta mesma esperança que a impedia de desanimar.
Afinal de contas...
Ela era uma Uzumaki, pelo amor de Kami!
“H-Hai, otō-sama.” A garota finalmente respondeu.
Naruto quebrou mais um ovo na frigideira e esperou o alimento começar a fritar.
“E então?” O Uzumaki perguntou.
Yune respirou fundo.
“Quero ir para a escola civil,” Olhou para as próprias mãozinhas cerradas sobre a mesa, para criar coragem para continuar. “não acho que quero ser uma kunoichi, papai.”
Ela ousou levar seus olhos verdes para dar de encontro com as duas safiras do loiro, esperando uma reprovação que nunca veio. Para sua surpresa, Naruto a fitava por cima dos ombros com certa dose de...
Alívio?
Antes que a menina pudesse tirar mais conclusões, ele se virou para o fogão rapidamente.
“Tudo bem, faça o que achar melhor, irei respeitar sua decisão.”
Como?!
“Não está irritado comigo?!” Yune exclamou, totalmente surpresa.
Naruto a mirou mais uma vez, sobrancelhas levemente arqueadas.
“Não.” Colocou o ovo em um prato e depositou o alimento na mesa, em frente à pequena morena. “Por que o espanto?”
Yune desviou o olhar, corando. Sua mão direita esfregando seu antebraço esquerdo timidamente.
“B-Bem, otō-sama,” Começou. “o senhor é um shinobi e vai se tornar Hokage daqui há algum tempo... Achei que quisesse que eu seguisse seus passos.”
Naruto suspirou brandamente enquanto chacoalhava a cabeça.
“Não iria lhe obrigar a fazer algo que não queira, Yune.” Naruto puxou a cadeia em frente a pequena e sentou-se. “Se você está satisfeita com sua decisão, vá em frente.”
A menina piscou algumas vezes.
“H-Hai, otō-sama. Arigatō.”
Minutos se passaram e logo fatias de bacon jaziam alinhadas com os ovos estrelados no prato da criança; dita menina apenas olhava para a comida sem aparentar o mínimo de interesse em ingerir o alimento.
Naruto notou isso e puxou o prato de Yune para si, a pequena morena lhe lançando um olhar de curiosidade. O loiro então apanhou um dos ovos com seus talheres e o pôs lado a lado com o outro, em seguida posicionou duas fatias de bacon debaixo dos ovos; no final formando uma figura que aparentava estar sorrindo.
O loiro tratou de entregar o alimento de volta para a menina.
“Melhor agora?” Ele indagou, ainda no mesmo tom de desinteresse.
Yune piscou mais algumas vezes antes de perceber o que seu pai havia feito. Uma risada doce escapando por seus lábios enquanto Naruto soltou um sorriso mínimo para não ser visto pela criança.
“Sim, papai!” apanhou um garfo e engoliu um prova. “Obrigada por cuidar de mim, amo muito o senhor!”
Caso Yune não estivesse tão entretida com seu café da manhã, ela poderia claramente perceber o estado catatônico em que aquela sincera declaração desencadeou sobre o corpo do Uzumaki – Naruto estava estático. Suas mãos começavam a suar frio e sua face lutava para permanecer impassível e não permitir que sua máscara de indiferença caísse por terra.
Naquele momento toda a sua força de vontade o segurava para não fazer a coisa que mais queria naquele mundo.
Abraçar sua filha.
Amaldiçoando tudo o que sua mente conseguia vagamente lembrar. Naruto retornou sua atenção para sua comida, fazendo o melhor que podia para ignorar o cantarolar alegre de Yune em sua frente.
Como a vida é injusta!
...
Os dois Uzumakis saíram do apartamento sem o mínimo de pressa. Estavam mais do que adiantados para irem até a academia civil fazer a matrícula de Yune. Ambos andavam em silêncio, Naruto a três passos de distância da morena à sua direita. Viraram duas esquinas e adentram a rua principal que ficava no meio de Konoha.
Vez ou outra os aldeões cumprimentavam Naruto, afinal, ele – que anos atrás não passava de um pária da vila – havia ganhado status de herói não só na Folha, mas em todas as Nações Elementais. Yune não pôde deixar de sorrir; sabia da infância sofrida de seu pai e presenciar cenas como aquela apenas fazia com que seu coração se enchesse de orgulho e alegria.
Avistaram o prédio que servia como escritório do Hokage e caminharam em sua direção até virarem para a direita, na direção oposta da academia ninja.
Deram de cara com um prédio bem estruturado e novo – construído após a batalha contra Pein – suas paredes eram completamente envernizadas e polidas. Um grande banner estava estendido na entrada ostentando kanjis enormes para que todos os habitantes pudessem ver.
‘Academia Civil de Konohagakure no Sato: Matrículas Abertas!’
Sentindo-se um pouco insegura, Yune olhou para seu pai em receio; Naruto apenas lhe ofereceu um aceno com a cabeça indicando que tudo ficaria bem.
Os dois adentram o estabelecimento e rumaram diretamente para o escritório da diretora. Subiram alguns lances de escadas e encontram o lugar que procuravam.
Naruto bateu na porta antes de ouvir...
“Entre.” Uma voz se fez presente do outro lado da porta.
O loiro abriu passagem para Yune e entrou logo em seguida. Pai e filha ocuparam as duas cadeiras vagas na frente da mesa da diretora.
“Bom dia, senhora Nara.” Saudou Naruto de forma polida.
Nara Yoshina – a mãe de Shikamaru – havia se voluntariado para assumir o cargo de diretora da educação das crianças que não escolhiam o caminho ninja da vida. A princípio para espairecer a cabeça após a morte de seu esposo durante a guerra, a viúva acabou por se envolver de tal forma com o emprego que aceitou um contrato vitalício com o conselho a vila. Ela não havia mudado muito; apenas umas novas rugas aqui e acolá, e seu cabelo longo agora era quase sempre visto em um rabo de cavalo longo.
Naruto sempre seria infinitamente grato para com a Nara; afinal, ela foi uma das pessoas que tomou conta de Yune quanto ainda era um bebê já que o Uzumaki não foi capaz por conta de certas...
Circunstâncias.
Malditas, infames e indesejáveis circunstâncias!
“Ah, Naruto-san! A que devo sua visita?” Perguntou com um sorriso no rosto.
“Vim para matricular Yune na academia, já que ela decidiu que não queria ser uma ninja.” Respondeu o loiro.
“Oh sim!” O sorriso de Yoshino se alargou enquanto virava para olhar a menina ao lado do loiro. “Fico feliz que tenha decidido ingressar em nossa instituição, Yune-chan.”
“Obrigada, Yoshino-oba-san!” As duas mulheres riram.
“Bem, Naruto-san, Teremos que preencher estes documentos para oficializarmos tudo.” A Nara retirou algumas folhas de papel de dentro de uma gaveta da escrivaninha. Apanhando uma caneta de dentro do bolso de sua blusa, ela começou o questionário. “Muito bem, vamos começar...”
...
Minutos camuflaram-se como horas enquanto os três ali presentes naquela sala preenchiam a ficha técnica da pequena Yune. Dita menina ficou absolutamente sem palavras ao perceber o quando seu pai sabia de sua vida, hábitos, gostos e desgostos. Claro, ele era a pessoa que cuidava dela vinte e quatro horas por dia, mas ainda assim era algo impressionante – e mais incrível ainda sendo o fato que todas as respostas eram oferecidas com extrema certeza.
A máscara de apatia que Naruto utilizava aparentemente escondia um par de safiras extremamente observadoras e vigilantes.
Yune deixou um sorriso traçar seus lábios ao saber que seu pai realmente a conhecia como ninguém.
Mais alguns momentos se passaram e tudo enfim foi concluído.
“Bem, acho que é isso.” Naruto começou. “As aulas começam semana que vem certo, senhora Nara?”
“Sim.” Yoshino confirmou.
Um fuzuê foi ouvido do lado de fora da porta. Todos os pares de olhos dentro da sala se dirigiram para aquela mesma direção.
“Aqui estão os papéis que a senhora me pediu, Yoshino-san.”
Um rapaz jovem disse enquanto entrava pela porta carregando uma imensa pilha de papéis. Ele possuía cabelos castanhos e repicados com olhos da mesma cor. Sua característica mais marcante sendo o grande cachecol que usava como adorno.
“Ótimo, e isso deve lhe ensinar a não pregar mais essas pegadinhas.” Yoshino repreendeu ao tomar as folhas de papel do jovem. “Sério, você está grandinho demais para essas coisas, Konohamaru-kun.”
“Ah, mas o que eu poso fazer?! Está dentro de mim!” Os olhos castanhos finalmente miraram Naruto. “Aniki!”
O Uzumaki apenas sorriu levemente e acenou com a cabeça.
“Nī-chan!”
Yune pulou nos braços do Sarutobi, este que retribuiu com uma grande gargalhada.
“Como vai Yu-chan?” Apanhou a pequena garota nos braços. “O que estão fazendo aqui?”
“Viemos fazer minha matrícula na academia!” Yune bradou contente. “Não é legal?!”
“Oh é mesmo?” Konohamaru disse. “Então que tal irmos tomar um sorvete para comemorar?”
Os olhos de Yune se arregalaram; gingou sua cabeça rapidamente em direção a Naruto pondo toda a sua força em seus olhos de cachorrinho sem dono.
“Otō-sama...” Ela começou.
O loiro suspirou.
“Tudo bem Yune,” Mirou Konohamaru. “leve-a para casa assim que terminarem, tudo bem?”
“Pode deixar, chefe!”
“Arigatō, papai!”
Então os dois rapidamente se foram para a sorveteria, deixando para trás apenas os sons das risadas que compartilhavam.
Já sozinhos na sala, Yoshino permitiu seus olhos decaírem levemente antes de se pronunciar.
“Como está o desenvolvimento do selo?” A Nara perguntou.
Naruto abaixou a cabeça antes de responder.
“Fiz alguns avanços, mas...” Seu tom ganhou um ar melancólico. “Mesmo com a ajuda dos bijūs... Ainda não consegui quebrar o encanto daquele patife.”
Yoshino repousou uma mão amiga sobre o ombro tenso do Uzumaki.
“Não desista Naruto.” Ela disse. “Tenho certeza que você vai poder ser feliz com sua filha mais cedo do que imagina.” A Nara sorriu.
“Obrigado... Yoshino-san.”
“Não há o que agradecer, Naruto.” A mulher retornou para detrás de sua mesa. “Apenas continue firme. Você é Uzumaki Naruto afinal de contas!”
Ele sorriu – um sorriso um pouco mais vivo que todos aqueles que havia soltado naquele dia.
Se despediu de Yoshino e rumou para sua casa. Chegou e não tardou em abrir a porta tendo certeza de deixá-la destrancada para quando Yune e Konohamaru voltassem. Andou até o seu quarto e mordeu o polegar direito; após uma rápida sequência de sinais o loiro espalmou a mão na parede e os selos que adornavam a área brilharam intensamente antes de revelarem uma porta antes escondida.
Naruto caminhou dentro da passagem secreta e ligou a luminária que revelou a sala de tamanho médio em que ele se encontrava. Rumando até uma mesa próxima, moveu pilhas e mais pilhas de pergaminhos contendo complexos selos e pincéis já secos de tanto uso até encontrar o material que buscava – mais pincéis e pergaminhos; estes bons para uso.
Começou a estudar todos os designs que havia feito até então e se preparava para começar uma nova obra; porém antes guiou seus orbes azuis até uma foto em cima da mesa.
Ele, até então com dezenove anos, e Yune, esta que não passava de uma recém-nascida, em seus braços. Aquela era a única fotografia em que ele aparecia sorrindo ao lado da garota, a única em que estava completamente feliz ao seu lado...
A única em que a segurava em seus braços sem nenhuma intensão de soltá-la.
Preso em cima da moldura encontrava-se um cartão comemorativo desgasto e velho – provavelmente feito há alguns anos atrás. Nele, a caligrafia de uma criança era claramente identificável.
Aquele era o cartão que Yune o havia presenteado no dia dos pais de anos atrás; o mesmo dia em que a garotinha havia aprendido a escrever suas primeiras palavras.
O que estava escrito?
‘Para Uzumaki Naruto, o melhor pai do mundo inteiro. Amo você, Yune.’
Apanhando a foto e o bilhete, Naruto permitiu que suas verdadeiras emoções emergissem. Ao final de tudo as lágrimas corriam livremente sobre sua face bronzeada.
“Eu também te amo muito... Minha filha.”
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