Abra a porta
1 Capítulo único
Ouvir meu vizinho de porta gritando durante as madrugadas já havia se tornado uma rotina. Acordar com o susto dos meus irmãos e o meu próprio também. Nós não sabíamos exatamente o que ocorria do outro lado daquela porta, apenas costumávamos supor por meio das vezes nas quais mamãe grudava o ouvido na madeira pedindo desesperadamente por silêncio, que talvez ele tivesse no meio de um ataque de pânico, ou coisa parecida. Não tínhamos certeza.
Isso já durava pelo menos duas semanas e eu estava exausta, apesar dos meus curtos treze anos de vida. Mamãe entrou em um constante estado de alerta, pedindo sempre por silêncio enquanto os pequenos, irritadiços, brigavam entre si até que eu os desse um tapa na cabeça. Ela acendia velas antes de dormirmos e balbuciava qualquer oração de olhos fechados enquanto eu fazia sombras com as mãos na projeção da luz que clareava as paredes emboloradas de nosso apartamento velho e pequeno no subúrbio da cidade.
Ao longo dos dias, várias suposições se formaram acerca do terror noturno de nosso vizinho. Dona Meredith, uma senhora dentro dos padrões para alguém da terceira idade, passava os dias cuidando do pouco cabelo que lhe sobrara e afiando a língua com qualquer notícia ou resto de notícia que ecoasse pelos corredores. Certo dia, logo no início de toda essa bizarrice, ela trombou conosco na saída e alertou mamãe sobre uma suposta possessão. Temerosa como conheço, aposto que essa é a grande razão de todas as orações que temos sido obrigados a fazer, já que isso nunca aconteceu antes.
Além da velha Meredith, duas moradoras do primeiro andar, que mamãe afirma não gostar por motivos vergonhosos – e misteriosos, já que ela nunca nos conta — afirmaram que o vizinho bateu na porta delas durante um desses ataques e segundo elas, ele não falava coisas normais e certamente era um sonâmbulo descontrolado. A indignação era, em todo caso, que ele não tivesse sido atendido por médicos ainda, já que isso vinha afetando o sono delas. O único comentário após o relato das vizinhas, exposto em uma reunião marcada às pressas pelos moradores, foi:
— Antes fosse apenas o de vocês.
Esse foi por conta do Sr. Zanato, um velho ranzinza que furou todas as bolas que tive até hoje. Por glória divina, como diz mamãe, ele mora no último andar.
— Bom, tentamos conversar com o Sr. Simas, mas ele não atende a porta. O interfone está mudo, supomos que esteja quebrado. Temos que tentar abordá-lo nos corredores. Essa é a única alternativa, em minha opinião...
Diz Lourdes, responsável pela Associação de moradores, soltando um longo suspiro logo após, enquanto acaricia a enorme barriga de gêmeos. Em seguida, seu marido a ampara e lhe beija a boca de uma forma um tanto quanto nojenta. Meus irmãos soltam um “Eca” e eu sou obrigada a pedir que calem a boca. Foi tudo o que o olhar de mamãe suplicou.
— Bom, se essa é a única alternativa, acho que todos devemos voltar para casa.
Dessa vez é minha mãe que comenta, me trazendo uma forte onda de alívio. Não podemos mais ficar sozinhos em casa e onde ela vai, nos carrega junto. Se não podemos ir, ela nos tranca em casa e diz que volta rápido. Sempre me mostra onde estão as coisas de comer e me pede pra jamais, em hipótese alguma, mexer com fogo. A razão é sempre a mesma: “Não quero filho desfigurado”.
Voltamos correndo pra casa, eu e meus irmãos, apostando uma pequena corrida. O prêmio é o direito de brincar primeiro com uma cítara que ganhamos de natal. Todas as partituras foram rasgadas por Thomas, o mais novo, mas mamãe as remendou com fita adesiva depois de deixá-lo de castigo dentro do banheiro por três horas.
Naquela noite, não diferente das outras, ela arma um altar em nossa pequena e desgastada mesa de jantar. Acende três velas novas dessa vez e retira uma pequena teia de aranha que estava grudada a imagem do santo.
— Vamos pedir para que os santos nos protejam.
Ajeito Thomas em meu colo.
— Nos proteger do que, mamãe?
Ouso perguntar o que só eu entre meus irmãos seria capaz, apesar de saber que eles também não entendem esse momento. Ela me olha de forma ríspida e puxa uma de minhas mãos, segurando-a com determinada vontade enquanto foca seus olhos esverdeados nos meus.
— Ágata, algo ruim está acontecendo aqui. É a única coisa que precisa entender. Não questione mais nada, apenas peça para que nos protejam.
Ela solta minha mão lentamente, segurando seu olhar de aviso sobre o meu. Mamãe tem medo.
Ela se vira para o pequeno altar e pede silêncio a Vicente, o do meio. Logo, ela começa suas preces um pouco confusas e eu a observo. Thomas puxa a manga de minha blusa e aponta pra parede, onde ele tenta imitar as sombras que sempre fazemos. Sorrio pouco e controlo suas pequenas mãozinhas formando um gato.
Tomamos leite amornado antes de ir pra cama e mamãe confere as duas trancas da porta de entrada. Ela nos cobre e repete:
— Não abram a porta caso ele bata aqui. Me chamem imediatamente, sim?
Aceno cautelosamente com a cabeça ouvindo Thomas e Vicente concordarem em conjunto com um “Shim”.
— Boa noite.
Me reviro na cama por um tempo, pensativa sobre o que vem acontecendo. Penso em ligar pra Lorena, minha amiga da escola, mas o telefone fixo fica na sala e certamente mamãe me daria uma sova se soubesse que tenho passeado de madrugada. Sei que Lorena passa boa parte das noites em claro, porque sua mãe trabalha como garçonete em um bar famoso da cidade e não tem com quem deixá-la, então ela fica na cozinha com alguns funcionários, jogando qualquer coisa no celular da mãe. Ela é viciada nessas coisas e esse é um motivo pra mamãe não gostar muito dela.
Acabo esquecendo um pouco a história toda sobre o vizinho e o sono vai me levando aos poucos. Porém, quando estou quase que completamente imersa, os gritos agoniantes começam. O primeiro é o suficiente para que eu abra os olhos e solte o ar desesperadamente, levando a mão ao peito e sentando o mais rápido possível.
Aguardo o choro de meus irmãos e procuro por eles na escuridão do quarto, mas eles permanecem em silêncio total. Mamãe também não aparece para acalmá-los, sussurrando xingamentos ao vizinho. Olho novamente em volta enquanto minha respiração se normaliza. Todos estão dormindo. Foi um pesadelo.
Fico irritada de ter sonhado com isso, mas de toda forma, viro meu travesseiro e me consolo de que teria sido pior se fosse real. Sempre é. Ajeito o cobertor sobre meu pequeno corpo e fico em silêncio. Antes que o sono sequer reapareça, alguém bate na porta de entrada. Ele. De longe, consigo ouvir uma batida repetidamente abafada.
Sinto um enorme frio percorrendo minha coluna e me sento novamente. Com pressa e medo, jogo o cobertor sobre a cama e vou até o quarto de mamãe, fechando a porta do meu antes. Cutuco-a enquanto ouço as batidas afobadas mais uma vez.
—Abra, Ágata. É seu pai.
Mamãe diz apenas isso, virando-se para o outro lado despreocupadamente.
— Mas mamãe, a senhora disse que...
— Estou cansada, abra a porta para seu pai.
Fico em silêncio por alguns segundos, cogitando se essa seria a coisa certa a se fazer. As batidas se intensificam e eu resolvo ir até a sala. Caminho devagar, encolhendo os dedos dentro da meia felpuda de coelho.
— Quem está aí?
Cruzo os braços em frente a porta e aguardo uma resposta. As batidas se intensificam e não há nada além disso. Me aproximo um pouco mais, o coração batendo nos ouvidos. O ritmo é bem parecido com as batidas na porta.
Pouso minha mão sobre a maçaneta, temendo muito quem está do outro lado. Antes que eu abra, ouço o grito paralisante de novo. Meu corpo se desespera e me afasto rapidamente, de costas. Acabo tropeçando em alguma coisa e sinto meus pés enroscados. É uma sensação de se estar presa a uma corda pelos tornozelos. Tento me recordar se havia algo parecido no chão da sala, mas antes que eu sequer consiga, algo me puxa pra baixo.
Tento soltar meus pés desesperadamente, mas nada parece ter efeito, nem mesmo os chutes e pontapés mais fortes. Não consigo entender o que houve e só reparo que literalmente atravessei o piso da sala quando me descubro em um intenso breu.
—Mamãe! Socorro!
Me assusto com meu próprio choro, alto e cheio de lágrimas que escorrem até a base do meu pescoço. Procuro uma fonte de luz ou qualquer coisa com a qual eu possa me guiar pra descobrir onde estou. Minha cabeça gira, o grito de meu vizinho ecoando de um jeito horrível. Quando isso vai parar?
Guio minhas mãos pelo ambiente, procurando algo familiar, que realmente encontro. Puxo minha pelúcia preferida debaixo de um travesseiro grande, muito semelhante ao meu. Forço meus olhos um pouco mais e apalpo a lateral do que parece ser uma cama. A minha própria cama.
Solto o ar enfurecida e percebo que não há nenhuma corda amarrada aos meus tornozelos. Me levanto e ando até o interruptor, acostumada com o ambiente no qual dormi durante toda a minha existência. Acendo a luz como se minha vida dependesse disso e avisto meus irmãos dormindo em paz, cada um em sua respectiva cama. Thomas aperta os olhos por conta da claridade repentina e se revira.
Tento me acalmar com o pensamento de que era apenas mais um pesadelo antes de ouvir as batidas na porta novamente. Corro até o quarto de mamãe, dessa vez sem medo de alardes. Estou em pânico.
—Mamãe, acorde!
Chacoalho seu corpo sonolento, implorando pra que ela acorde.
—Preciso de você, mamãe!
Ela nem sequer mexe um dedo.
—Abra, Ágata. É seu pai.
Minha mente martela a mesma frase cinquenta vezes. Por que ela disse a mesma coisa?
—Mas...
— Estou cansada, abra a porta para seu pai.
Me pego novamente caminhando até a sala. As batidas na porta se tornam cada vez mais fortes e uma nova angústia cresce dentro de mim. Preciso abrir a porta dessa vez. Paro em frente, segurando a maçaneta com mais força.
O grito ecoa novamente pelo ambiente e não há mais tempo. Me afasto com um medo corrosivo, meus pés enroscados novamente no que parece uma corda. Sou puxada com mais força, atravesso o que parece ser o piso da sala e caio novamente em minha cama. Corro as mãos e encontro a pelúcia e o travesseiro. Tudo da mesma forma que deixei.
Me levanto, as pernas trêmulas. O que está acontecendo? A voz de mamãe ecoa e minha cabeça. Ágata, algo ruim está acontecendo aqui. Vou direto para a sala, sem nem mesmo questioná-la sobre as batidas na porta, já insistentes.
Antes que ele grite novamente, giro a maçaneta, mas a porta não se abre. Giro as chaves insistentemente, mas elas ficam presas na metade do percurso. Xingo mentalmente com todos os palavrões que já ouvi mamãe cochichar, entrando em outra montanha russa de medo.
O vizinho grita novamente, esmurrando a porta dessa vez. Grito junto, sentindo o que quer que seja me puxando novamente pro buraco. Não me dou a chance de pensar, apenas levanto da cama e vou até a porta.
Destranco tudo o mais rápido possível e solto o ar, deixando as mãos caírem ao lado do corpo. Meus olhos se enchem. Abra, Ágata. Abra.
Ele bate e bate incessantemente. Abro a porta. E lá está o vizinho. Um corpo grande, com cabelos pretos no topo da cabeça e um rosto no qual eu só podia entender os olhos. Grandes e muito escuros.
Ele ri de início, uma risada quente e aparentemente feliz. Ou doente. Me observa por poucos segundos, exibindo uma expressão pouco amigável logo em seguida.
— Ágata...
Mais uma vez ele ri. Estou completamente paralisada. Sinto algo fluído e quente escorrendo por minhas pernas, juntamente com a sensação de algo amarrando meus pés. Serei puxada. Isso o faz rir mais ainda. Meus olhos também escorrem e um som involuntário ecoa de minha garganta. Um soluço.
—Ágata, algo ruim está acontecendo aqui. É a única coisa que precisa entender.
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