Notas iniciais
Sejam bem vindos ♡ Espero que gostem e boa leitura.

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Às vezes a vida parece um pouco complicada demais para encarar uma segunda-feira de manhã. Eu costumava me imaginar chegando aos dezesseis anos um pouco diferente da forma como eu cheguei, pra ser sincera, bem diferente. Quando era pequena fantasiava sobre ter o corpo dos sonhos, andar de saltos, ter centenas de garotos loucos por mim, as melhores roupas e as melhores amigas. Ter aquela vida que habitualmente assistia na televisão, onde todos pareciam tão felizes e satisfeitos com serem quem eram. Eu acho que o queria mesmo era aquela segurança que eles pareciam ter. Uma vida litorânea talvez? Sentir-me confortável em biquínis, aprendendo a surfar e com os cabelos clareando de tanta exposição ao sol. Era uma coisa boba pensar sobre isso, mas no fundo era tudo sobre esperar um pouco mais pra mim do que eu tinha. Mas hoje, olhando para trás eu estou feliz que as coisas não sejam dessa forma. Creio que seja tudo mais real quando as coisas não parecem perfeitas demais. Mas a busca pela perfeição faz parte da essência de cada um, por mais que se negue. Eu quero ser mais do que eu sou, quero ter mais do que eu tenho, quero ser sempre melhor. Mas não faço realmente nada a respeito disso pra falar a verdade, nunca fiz.

A vida tem dessas, a gente espera demais o futuro chegar e nos surpreender, mas esquecemos que quem faz o nosso futuro somos nós mesmos.

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“Você precisa se levantar em algum momento, você sabe disso não sabe?” A luz da porta abrindo me cegou brevemente enquanto meus olhos tentavam se adaptar a claridade. Coloquei meu braço sobre o rosto como forma de protesto à triste verdade: sim eu tenho que levantar em algum momento, mas enquanto eu puder ficar debaixo das cobertas eu ficarei. Resmunguei alguma coisa em resposta à mamãe enquanto ela voltava pelo corredor e parava em frente ao banheiro compartilhado do segundo andar. “Cameron sua camisa já está em seu quarto, eu não sei o que você está fazendo ai dentro há meia hora, mas ande logo com isso”.

“ESTOU ME BARBEANDO MÃE, ME DÊ UM POUCO DE ESPAÇO PELO AMOR DE DEUS”. Uma risada ecoou pelos corredores, a risada da mamãe era uma das coisas que eu mais gostava sobre ela, ela ria o tempo todo.

“Você não tem barba para se barbear querido, agora de qualquer forma, acabe logo o que quer que esteja fazendo, sua irmã deve levantar dentro de alguns minutos e não quero atrasos”. Seus passos seguiam cada vez mais baixos enquanto se afastava.

A porta do banheiro se abriu e Cameron saiu do banheiro enrolado em sua toalha e abriu a porta do meu quarto um pouco mais, permitindo a entrada de uma maior quantidade de luz do que eu já estava acomodada. Qual o problema das pessoas em respeitar meus cinco minutos a mais da soneca?

‘’Você vai à festa da Jay sexta? A garota do segundo?“. Sentei na beira da cama enquanto alongava meus braços, esfreguei os olhos enquanto Cam se olhava no meu espelho se admirando como sempre fazia.

Meu irmão é dois anos mais novo que eu, é um garoto bonito e se parece muito com nosso pai, tem esses cabelos castanhos com um corte estilo militar que ele alega que o deixa mais ‘maduro’ e ‘másculo’. Ele tem dado bastante importância ao que as pessoas pensam ou deixam de pensar sobre ele, mais especificamente ao que Jay e as amigas pensam sobre ele. Cam havia caído de amores por ela desde que mudamos para Ryver e ele as viu tomando sol no quintal da casa da frente.

“Porque eu iria?”. Levantei e comecei a recolher minhas coisas para levar para o banheiro. Nécessaire, check. Roupas íntimas, check. Escova de cabelo, check. Olhei de volta para o espelho na esperança de Cam sair do meu caminho. “Vai ficar o dia todo ai se namorando ou vai me dar um pouco de privacidade?”.

“Porque você devia ser amiga dela, você não é de todo ruim e sendo amiga dela você poderia trazê-la aqui um dia para uma festa na piscina e sabe como é, eu vou estar aqui... Ela também...” Ele sorriu enquanto me olhava através do espelho com expectativa e um sorriso brincalhão no rosto. “Além do que, você devia sair mais pig, conhecer as pessoas da cidade, estamos aqui há o que? Um mês já, e não não me lembro de ver você conversando com ninguém além de nós e Hayden”.

Pig. Todos em casa me chamam de pig a pelo menos treze anos. Desde que Cameron nasceu e começou a balbuciar as primeiras palavras ele sempre se dirigia a mim como pig, acabou que o apelido pegou e eu até gosto. Não tinha nada a ver com meu nome no fim das contas, mas era carinhoso e desde que foi Cam quem colocou em mim não via muitos problemas com isso. Ele é só dois anos mais novo que eu e eu o amo como se fosse uma parte de mim. Nós nunca discutimos de verdade, essa coisa toda de irmãos que se estranham nunca realmente se aplicou a nós dois. Já Cam e Austin se estranhavam frequentemente, hormônios masculinos em choque eu suponho. Mas desde que Austin havia ido para a faculdade no ano passado as coisas tem sido bem tranqüilas por aqui.

“Eu estou bem em ficar em casa e evitar um pouco de contato social enquanto termino tudo por aqui”. Peguei minhas coisas e sai em direção ao banheiro que compartilhávamos. “De qualquer forma eu só vou ficar aqui por dois anos, não vejo porque me esforçar para fazer amigos para sempre”. Fechei a porta do banheiro e comecei a me arrumar para o primeiro dia de aula na escola nova.

Papai havia sido promovido havia quatro meses pela empresa de tecnologia para a qual trabalhava a pelo menos dez anos. Nos mudamos para Ryver com ele para apoiá-lo na coisa toda. Eu não via a hora de nos mudarmos, Cam não ficou muito satisfeito, mas eu estou internamente feliz por ter finalmente me livrado daquela escola. Era particularmente, digamos, sufocante.

Terminando de fazer minhas coisas me olhei no espelho do quarto. Não estou nos meus melhores dias, mas estou bem até. Havia cortado meu cabelo a menos de um mês quando chegamos aqui e passamos por um salão bem bonitinho no centro, uma cidade nova, escola nova, nova eu. Meu cabelo castanho antes no meio das costas hoje mal chegava aos ombros, não pretendia tanta revolução mas achei o nome do corte bem engraçadinho e fiz um, como chama mesmo? Ah, long bob. Acho engraçado como algumas palavras soam engraçadas às vezes. Mamãe sempre me questiona quando tomo decisões baseadas em como as palavras ou a idéia da coisa toda soa na minha cabeça, mas desde que eu não sou conscientemente capaz de tomar uma decisão de forma rápida eu simplesmente escolho as coisas pela forma como as ilustro na minha cabeça. Long bob me pareceu um bom nome, e eu fui surpreendida pelo resultado positivo da minha escolha. O castanho continuava intocável, nunca me animei muito em trocar a cor do meu cabelo, Hayden, uma amiga que cultivei da ultima escola, tentou me convencer sobre luzes loiras no ultimo verão, mas ‘luzes’ não me soou tão bem quanto a palavra ‘natural’. Então optei por deixar da forma como está, e estou feliz com isso.

Terminei de me vestir, as botas combinavam com meu suéter creme e ficavam bem com a calça preta. Peguei minha mochila e meu telefone e desci para tomar o café. “Bom dia mãe, o que tem de gostoso ai nessa panela?”. Ela me beijou no rosto enquanto eu suspendia a colher para ver o que ela estava inventando para o café dessa vez. “Isso parece bom, é canela?”

Ela assentiu e tomou a colher de minha mão enquanto sinalizava que estava ao telefone. “Sim, eu estarei ai até as nove, claro, não se preocupe.” Uma pausa e ela colocou nossos pratos no balcão da cozinha. Cameron ficou de pé em minha frente enquanto estendia dos braços para o lado do jeito que sempre fazia quando queria que o ajudasse a ajustar a camisa. Ajustei-a, dobrei o colarinho da camisa e a abotoei a partir do segundo botão. “Vocês dois, suco de maça?” Fizemos que sim com a cabeça e mamãe nos serviu um pouco para cada um.

“Estou bem, ham? Garotas de Ryver, melhor se protegerem porque o furacão Cameron chegou à cidade”. Eu ri enquanto checava o celular para dar uma ultima olhada no meu horário. “O papai chega a que horas?”

“Às oito. Sem telefones à mesa pig”. Guardei o celular no bolso externo da mochila e observei mamãe colocar bananas cozidas com canela no meu prato. “Vocês vão querer dinheiro para comerem ou vão levar algo?”. Sentou-se a nossa frente e tomou um gole de seu suco.

“Vou levar, mas gostaria de dinheiro pro almoço de qualquer forma, hoje tenho aula a tarde”. Respondi enquanto dava uma grande garfada naquela maravilha de comida dos deuses.

“Huh. Seu período é integral? Achei que fosse somente pela manhã. Cam você tem aula à tarde?”. Pegou uns chips de batata caseiros e afogou em sua geléia enquanto esperava pela resposta.

“Não, só o colegial. Mas estou pensando em conseguir algumas horas com alguma coisa.” Ele respondeu quase sem interesse enquanto atacava suas bananas. “Eu vou levar também, mas chego cedo hoje”. Soltou um gemido depois de raspar o final do prato. “Porque tudo que é bom dura tão pouco?”

“Se você comesse mais devagar elas durariam mais”. Ele sorriu e olhou pra mamãe com um olhar brincalhão de quem havia entendido um segundo sentido. “E eu não estou falando de garotas”. Nós rimos enquanto terminávamos o café.

Pegamos nosso lanche e saímos para o carro que estava na garagem externa esperando por nós. Meus pais haviam comprado um carro pra mim no ano passado, um Jeep. Não realmente tinha necessidade de usá-lo uma vez que Cameron e eu estudávamos na mesma escola e geralmente saíamos no mesmo horário, mas com essa coisa toda do turno integral eu creio que posso começar a ir com ele, mas não ainda. Ele chama bastante atenção e isso é a ultima coisa que eu quero.

“Vamos continuar com o mesmo esquema do ano passado? Porque eu posso pensar em umas músicas motivadoras ótimas para começar o dia.” Cameron sentou-se no banco da frente e conectou o cabo de seu celular no radio enquanto mamãe e eu entrávamos no carro.

“Vamos continuar”. Mamãe sorriu e deu uma piscadinha para Cam enquanto ele bufava. “Deixe-me ver o que temos aqui...”. Acoplou seu celular no lugar em que antes estava o de meu irmão e vasculhou rapidamente sua playlist até sorrir satisfeita com sua escolha e clicar em play.

O som de Pinball Wizard ecoou por todo o carro durante todo o caminho que passamos a última semana treinando para não errarmos. Mamãe é uma ótima motorista, com grandes exceções nos seus dias de escolhas de música, quando se empolgava um pouco além da conta nas canções e se distraía com o caminho. Uma vez quando morávamos em Polak ela nos atrasou quarenta minutos porque estava profundamente envolvida em canções do The Clash, só percebeu que desviara do caminho quando chegou na rodovia principal. Desde o incidente treinamos sempre o caminho que vamos seguir pelo menos cinco dias antes, para se caso sairmos da rota, já avisarmos a mamãe.

“Vocês estão nervosos? Sei como o primeiro dia pode ser desafiador, lembro-me de quando tinha a idade de vocês, sorte minha que tinha John. Se não fosse pelo pai de vocês eu não imagino como teria sido meu colegial”. Ela sorriu com a lembrança.

Mamãe e papai namoraram desde os treze anos de idade. Seus pais eram amigos e eles cresceram juntos e com o tempo já não se desgrudavam mais para nada, ele foi seu primeiro beijo, primeiro amor e se me permite dizer, não acho que eles possam se amar mais do que se amam hoje em dia. São tudo um para o outro.

“Eu estou bem”. Assenti enquanto conferia novamente meu horário no celular e enviava uma mensagem de bom início de semestre para Hayden.

“Estou pronto para conquistar corações se é isso que você perguntou mamãe.” Cameron deu uma piscadela e puxou o espelho do passageiro para baixo dando uma ultima checada no penteado.

“Se seu ego inflar mais um pouco meu filho, temo pela nossa falta de oxigênio nesse carro”. Nós rimos enquanto virávamos à direita na rua 3. Mais dois quarteirões e chegaríamos à escola.

Eu não menti sobre estar bem com essa coisa toda de escola nova e primeiro dia. Realmente não dou essa importância toda que muita gente dá. Eu acho que é porque eu não espero muito. Não espero fazer amigos, não espero encontrar o amor da minha vida, não espero ser a melhor da classe, nem nada disso. Muito pelo contrario. Eu só quero levar as coisas da forma mais calma o possível. Minha única preocupação no momento é conseguir encontrar o meu armário, 674, e a sala da classe de Biologia que seria a minha primeira aula do dia.

“Prontinho, chegamos meninos.” Mamãe encostou o carro bem próximo à frente da entrada principal nos deixando apenas alguns metros para percorrer até a porta. “Sejam cuidadosos e qualquer problema me liguem, ok? Amo vocês.” Deixou um beijo em cada um de nós e deu partida no carro assim que descemos.

“Você tem aula em qual prédio Pig?” Cameron ajustou sua mochila em apenas um dos ombros enquanto seguia ao meu lado até a entrada.

“Esse maior aí, o prédio principal. E você?” Questionei-o de volta enquanto observava as pessoas ao redor.

“No de trás.” Ele seguiu comigo até a entrada do meu prédio e se despediu de mim com um beijo na testa como sempre fazia e um meio abraço. “Se cuida pig, qualquer coisa me chama, te vejo em casa” Ele deu uma piscadinha e começou a se afastar quando virou-se para trás “Ah, pense sobre a Jay.”

“Vou pensar” Eu ri em retorno. “Boa aula, até mais”. Assisti meu irmão contornando o prédio pela direita enquanto tomava o último ar antes de entrar no prédio.

Notas finais
Bem vindos! Esse é meu primeiro romance e tenho tido um carinho enorme por ele. Escrevo esse conto pelo pseudônimo de A. Hofgner então podem me chamar de Ann. Posso ter cometido erros durante a escrita e seria muito grata se vocês pudessem me avisar caso os identificassem! Sugestões e considerações são sempre bem vindas, espero que tenham gostado de lê-lo tanto quanto tenho adorado escrevê-lo. Obrigada e até a próxima ♡
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.