Abnormal
2 Meio Caminho Andado
Notas iniciais
Até o dia do show, eu mal consegui dormir direito pensando em quão bom seria finalmente poder provar de uma alma. Não era especificamente o tipo de alma por qual eu me sentia atraída, mas quebraria o galho e mataria a minha vontade.
Ou não.
Quando o grande dia chegou, Anne chegou em minha casa horas e horas antes do horário combinado. Quando eu abri a porta, não pude deixar de reparar na careta dela quando ela viu meu cabelo todo despenteado e as minhas olheiras, anunciando que eu havia acabado de acordar.
Ela cruzou os braços sobre seu busto avantajado e arqueou as sobrancelhas.
– Me diga por que você está desse jeito. – Ela me questionou, – Já passou da hora de se arrumar.
Eu revirei meus olhos e balancei minha cabeça, dizendo que não, ela me olhou curiosamente.
– O show é às dez horas da noite, ainda são duas da tarde. – Eu disse, bocejando preguiçosamente. Eu sou o tipo de pessoa que pratica vários pecados, inclusive os sete capitais.
– Não é isso. – Anne disse, brincando com seus cachos. – Me parece que você só acordou quando ouviu a campainha, tudo bem que hoje é sábado, mas já passou da hora de acordar.
– Eu não consegui dormir bem ultimamente. – Eu disse com minhas pálpebras pesadas ao ponto de eu não conseguir manter meus olhos abertos. – Entre se quiser. – Eu a convidei e então andei para a sala, percebendo que Anne havia me seguido.
Quando olhei para trás, percebi que ela estava maravilhada com a minha casa, olhando para todos os lados e seus olhos brilhando.
– Nossa, é uma bela casa para uma órfã, – Anne sorriu e então percebeu o que ela havia dito. Mas eu não me importava. – oh, desculpe, eu não queria tocar nesse assunto.
– Eu não me importo, – dei de ombros. – é até bom viver sozinha. Muitos adolescentes dizem que os pais mandam muito nos filhos, e eu não sou o tipo de pessoa que gostaria disso.
Pude perceber que ela estava aliviada, sendo uma garota tão delicada, receio que ela não gosta de magoar as pessoas. Mas eu não me sinto magoada de forma alguma.
– É verdade que os pais mandam muito, mas eles são nossos pais, temos que conviver com isso. – Ela sorriu levemente, suas bochechas suavemente coradas. – Fico feliz que você esteja bem.
Eu assenti, mas eu não consegui sorrir de volta. Andei até o meu quarto e voltei com uma escova em mãos, sentei-me no sofá.
– Sente-se, se quiser, – eu ofereci e Anne sentou-se. Ela observou maravilhada enquanto eu penteava meus cabelos com a maior facilidade do mundo. Ela tinha cabelos cacheados, então era óbvio que era difícil para ela cuidar de seus cabelos.
– O seu cabelo é tão lindo! Deve ser tão fácil de cuidar, queria tanto ter um cabelo liso. – Ela disse, se aproximando e agarrando uma das mechas no meu cabelo. Anne era bem bonita, se ela fosse melhor estragava.
– Nunca percebi isso, na verdade, simplesmente o penteio no automático. – Disse, eu era bem neutra sobre a maioria das coisas.
Ela assentiu sorridente. Eu acho que ela é feita de plástico. Só sorri.
Quando chegou a hora de se arrumar para o show, ela arrumou meu cabelo em um coque e deixou minha franja cair suavemente sobre meu rosto; devo dizer que ela tem muito jeito para coisa, eu até gostei de ter o cabelo preso. Fica bem mais leve.
Minhas roupas estavam normais, porém. Estava com uma blusa cinza e calças ensacadas pretas, tênis converse e só. Anne usava uma camiseta amarela que realçava seus cabelos e shorts jeans. Seu sapato era um salto agulha. Não sei como ela consegue se equilibrar.
Chegando no local do show, nos deparamos com uma fila gigantesca. Isso era bem frustrante, ainda mais porque eu queria que estivéssemos na primeira fileira.
– Ai, Kunou, – ela disse com a voz trêmula, receio que ela estava quase chorando. – como vamos chegar lá…? – Ela me indagou. Meus olhos brilharem em vermelho, pela segunda vez naquela semana.
– Estou pensando, Anne, – eu disse, – nós vamos passar. – declarei com confiança, sentindo um tipo de ódio formando dentro de mim, olhei para as garotas a minha frente e elas olharam de volta.
Segurei o pulso de Anne e fui passando junto com ela, e pelo jeito, ninguém parecia reclamar. Meus lábios curvaram-se em um sorriso mau.
– Ei, Kunou, você não pode passar as outras assim!
Ignorei-a, e quando chegamos na área VIP, ela me indagou com surpresa. Eu sorri para ela e meus olhos voltaram ao normal; cor de mel e meio dourados. Cruzei meus braços.
– Kunou, como você…? – Ela indagou. – Não deveríamos estar mortas agora? Aquelas fãs são... São... Elas são violentas! Elas não nos deixariam ilesas se a gente furasse fila.
– Eu não sei, eu só sei que prometi que seu desejo fosse realizado. – Eu dei de ombros. – Mas, me diga. Quanto a gente que esperar até que o show comece?
– Uma hora ou duas, é sempre demorado. Sabe, tem gente que acampa na fila para não perder o show. Mas eu não gostaria de fazer isso.
Eu assenti. Isso iria ser chato.
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