Abismos árticos
1 ALANA cottret
Notas iniciais
A Talamasca
Arquivo de Membros, pasta 405653;
Alana Cottret
17/06/1988 a ?
Nome: Alana A. Cottret;
Idade: 19 anos;
Filiação: Mark Cottret e Julia A. Cottret;
Local de nascimento: Liverpool – Inglaterra;
Formação: Ensino Médio Completo, entrou este ano na faculdade de Ciências Biológicas;
(Arquivo Anexado);
Londres, Inglaterra.
1988, dia 15 de Julho.
Caso da Casa dos Blackmore (Arquivado);
Breve resume de rotina:
“O caso de Liverpool não teve tanta percussão na mídia. Foi sufocando antes. Um de nossos agentes, que tinha residência por perto, descobriu as forças de Inteligências sob ação. Horas depois de sua ligação para a Ordem; residida em Londres; vários agentes foram ao encontro de Cottret. As manifestações se tornaram cada vez mais fortes, chegando a trincar vidros ou estilhaçá-los. Quando os agentes finalmente conseguiram exorcizar as Inteligências, os membros voltaram para a Ordem, depois de alguns dias de observação. Cottret permaneceu na cidade, junto à sua família. Meses após o incidente (exatamente dois meses e 2 dias), Cottret se afastou da Ordem.”
(Arquivo Anexado);
Liverpool, Inglaterra.
1990, dia 10 de maio.
Diário pessoal de Mark Cottret;
“Alana está me deixando doente. Sua presença é aterrorizante, chegando a gerar agonia. E ela é só um bebê. Seus imensos olhos me deixam perturbado, isto é... Tenho vontade de arrancá-los. Quase cheguei a fazê-lo, mas me lembrei que se trata da minha própria filha. Sinto aflição quando ouço seu choro. Dentro da minha cabeça ecoa como se fossem os berros de uma mulher. É meio sufocado, assustado.
... Vai fazer quase dois anos desde que o caso da casa dos Blackmore foi encerrado. Quase dois anos que a minha esposa morreu no parto de Alana.
Durante muito tempo eu não consegui suportar a dor. Tive que contratar uma pessoa que cuidasse dela, pois... Não consegui me aproximar. Julia foi o único amor da minha vida, e apesar de ter jurado à ela antes de morrer que eu viveria apenas para cuidar da Alana, mas, eu não consigo. Não consigo ficar perto dela. E Alana é o único elo forte e real que restou de Julia... Pelo menos palpável, afinal, resta-me ainda a memória. Mas, de um tempo para cá, sinto tudo que eu tudo que eu acredito, preso e guardo com amor, se esvair.
Alana já tem quase dois anos, agora. Vai completá-los daqui 3 dias. É um bebê saudável, pelo o que médico diz. Muito calma, sem nada de anormal. Tem a saúde estável e vai crescer bem. Mas, algo nela... Toda noite ela chora.Parece que seus pulmões vão estourar, pela força que faz. Os berros me assombram. Eu tenho que mandar a babá ver o que está acontecendo, por que eu mesmo não consigo.
Quando a casa está escura, não consigo andar pelos corredores. Não consigo ficar muito tempo também nessa falta de luz. Não consigo dormir mais. Fechar os olhos me arrepia. É como se uma corrente de ar gélida invadisse o cômodo e embalasse meu corpo, mesmo não havendo nenhuma janela ou porta aberta. Isso acontece também quando o aquecedor está ligado.
Alana às vezes fica com a pele gelada e nada parece esquentá-la. A babá diz que tenta de tudo, mas, parece pele morta, e quando finalmente diz isso, torna-se a se calar e vai na cozinha esquentar água para molhar panos, na fútil tentativa de deixar Alana bem.
Alana está com os cabelos bem crescidos, e gosta de deles. Ela gosta dos brinquedos do quarto e gosta de sol. Ela e Elizabeth – a babá -, passam horas no jardim de casa ou no parque; aqui perto, tomando sol.
Elizabeth parece gostar muito da minha filha, ela é praticamente a mãe. Fica muito preocupada com o que Alana come ou não, se dorme ou não. Elizabeth desenvolveu uma ilusão, suponho, já que na entrevista de trabalho, ela relatou ter perdido uma filha recém nascida. Pneumonia foi a causa da morte, se bem me lembro. E deve se por isso que fica um pouco desesperada quando o corpo de Alana fica tão gelado.
Enquanto vejo minha vida passar pela janela do jardim, sinto que eu estou ficando muito velho e cansado. Não sinto mais a disposição que sentia há dois anos atrás. Sinto-me um velho de 70 anos. Meu corpo dói e é como se a energia vital que existisse em mim fosse sugada, principalmente quando Alana está por perto.
Ela me atormenta. Às vezes ela parece sentir que eu não gosto dela. Seus olhos parecem acusadores, mas, logo cheios de mágoa. Ela sabe que eu sou o pai dela, mesmo sem nunca ter tido algo carinhoso. Alana me dá calafrios, com seus imensos olhos azuis. Eles parecem abismos de gelo, é... É exatamente isso. Abismos árticos. “
(Arquivo Anexado);
Liverpool, Inglaterra.
1995, dia 28 de janeiro.
“Não sei por que continuo escrevendo nesse diário, mas, parece o único meio de evitar a loucura. Apesar de saber que escrevendo, eu evito isso, faço desse ato algo periódico.
Alana agora tem 6 anos e completará 7 daqui alguns meses.
Ela continua saudável, a vista médica. Nenhum problema, absolutamente nenhum. Isto me levou, com o passar do tempo, a crer que ela tenha algum problema psíquico. Algo a ver com espíritos, quem sabe.
Conforme ela foi crescendo, a presença daquela mulher, que antes eu ouvia apenas em seu choro; aumenta.
Certo dia, enquanto ela fazia sua lição de casa, sentada diante a mesa, em seu reflexo no espelho pareceu distorcido. Meio como um borrão preto e sobre ele, o vulto de uma mulher. Os cabelos escondiam completamente seu rosto, dando a aparência de estarem molhados. O corpo machucado e estava nua. Foi o que eu consegui perceber, antes de sair daquele cômodo. Mandei Elizabeth ir ficar com Alana, enquanto ela terminava sua lição.
Isso me fez evitar olhar em espelhos durante uma semana, isto é... Até retirá-los, um à um, de dentro da minha casa. Não queria mais ver aquele espírito, apesar de senti-lo ainda.
Depois desse contato, não sei se fiz certo em não alertar a Ordem. Desde aquele dia, qual eu tirei os espelhos, tento conversar com a Alana. Ela parece gostar da minha companhia, mas, fica assustada com as coisas que eu digo. Isso a fez se afastar ainda mais de mim.
Elizabeth mudou de atitude após esses anos. No princípio, era uma mulher séria, de gestos educados e caráter tradicionalista. Agora, do sério, passou ao rude. Mas, não posso afastá-la de Alana. Estão muito juntas, muito apegadas. São como mãe e filha e eu? Apenas um estranho que mora na mesma casa e paga as contas. E na verdade, não faço muita questão de estar sempre presente.
A sensação de abismos árticos que antes eu tive quando Alana era apenas um bebê, continua crescendo.
Ela é agora uma criança calma e comportada. Poucas vezes eu a vejo em silêncio. Está sempre rindo e se divertindo com Elizabeth. E quando esta se afasta, Alana fica muito tempo deprimida. Não consigo animá-la, e perco a vontade de estar com ela... E ela mostra que não precisa muito de mim.
Bem, se torna cada vez mais totalmente dependente de Elizabeth e totalmente independente de mim, cada dia que passa.
Quando Elizabeth finalmente volta para casa, o mundo de Alana volta ao normal. Fica contente e alegre, coisa que antes não cogitava em sua cabeça.
Alana sabe que eu quero distância dela, mesmo às vezes romper isto. Mas, é inteligente. Percebe que eu a analiso, em cada conversa e isso a faz ficar irritada comigo. Não sei mais o que sinto por ela.
Ela ainda me causa calafrios às vezes. O olhar é amedrontador, na verdade, não parece nem com o meu, nem com o de Julia. Ele se torna único, a sua maneira. Alana sabe que me assusta, eu não consigo deixar de me mostrar estarrecido cada vez que ficamos sozinhos. Ela parece ser manipulada por algo mais do que eu posso compreender.”
(Arquivo Anexado);
Liverpool, Inglaterra.
1999, dia 22 de Maio.
“Alana completou 11 anos faz alguns dias. No dia da sua festa de aniversário, uma agitação muito forte ocorreu. A Inteligência que acompanhava Alana desde seu nascimento, entrou em ação finalmente, nos pegando de surpresa. Fez ruídos fortes, mostrando sua presença. Também, deu pancadas na parede, que poderiam fazê-la vir abaixo. Quando finalmente o assoalho oscilou, mandei todos para fora. Alana se recusou a ir, então, quando sua voz saiu muito mais grossa e apelativamente sensual, entendi que não era ela que falava.
Emily. Era esse o nome da mulher que tantas vezes eu havia visto perto de Alana. Ela me afirmou que nunca deixaria Alana em paz, e se eu quisesse vê-la longe de minha filha, precisaria matá-la. Então, finalmente foi embora, por hora. Alana desabou no mesmo instante no chão, desacordada.
Senti que seu corpo estava fraco, debilitado. E que a sua energia vital estava esgotada. Emily havia sugado-a por completo.
Alana ficou inconsciente durante três dias inteiros. Pela primeira vez me senti tão desesperado.
Quando ela finalmente acordou e me olhou com seus olhos imensos, senti tranqüilidade. Pareciam os olhos de Julia. Cheios de calma e doçura, e assim ficaram durante uma semana quase.
Emily ainda vagava pela casa, mas, não chegava perto de Alana, pelo que pude perceber. Elizabeth havia ido embora na mesma noite também, pois, ficou extremamente assustada com tudo que havia ocorrido na festa. Era compreensível. Pela primeira vez havia lidado com uma Inteligência tão forte como esta, que se dizia chamar Emily.
Quando finalmente consegui me lembrar de sua voz, algo me disse que era o mesmo espírito que eu e meus companheiros, havíamos exorcizado da casa dos Blackmore, que pelo visto, se mudaram depois disto. A casa foi abandonada e lacrada. Nunca mais houve uma alma viva que pisou dentro de lá e surgiram entre as crianças e adultos boatos de ser mal-assombrada ainda.
Dizem que às vezes ouvem as portas baterem, os vidros quebrarem e muitos estrondos no assoalho. Dizem também que ouvem uma mulher berrando desesperada, pedindo por ajuda.
Nunca ouvi nada. Infelizmente, minha fica à mais de 35 metros de distância, o que torna isso impossível.
Ontem, resolvi fazer uma caminhada. Então, ao passar diante da casa, vi novamente o vulto de Emily no reflexo de uma janela. Então, instantes depois, vi ele tomando força e sumindo dali, em direção da minha casa. Isso me fez ir correndo até lá novamente, para procurar Alana, que estava sozinha, brincando em seu quarto.
Quando cheguei, Emily havia se apossado do corpo de Alana e ficava jogando-se contra parede. Berrava que era o castigo que eu merecia, por tentá-la vigiar. Quando finalmente o corpo de Alana respondeu da pior maneira, Emily parou. Sabia que se a matasse, nunca mais poderia ter nada que me atingisse.
Não entendo por que ela sente ódio por mim. Hoje de manhã, enquanto cuidava dos ferimentos que ela causou em minha filha, fiquei pensando no por que e nada me veio à cabeça, nem o modo de pará-la.
Então, decidi me mudar de Liverpool. Não sei se o espírito de Emily conseguirá nos perseguir se estivermos longe.”
(Arquivo Anexado);
Londres, Inglaterra.
2002, dia 02 de Dezembro.
“Não faz muito tempo que eu e Alana viemos para Londres. Residimos perto da Ordem, qual eu finalmente decidi voltar a freqüentar. Quando havia me retirado, quem a comandava até então era David Talbot, e agora, quem a comanda é Hideo Ishikawa.Mesmo com esse novo líder, a política parece a mesma.
Muitos dos meus velhos companheiros não me reconheceram, quando entrei pela grande porta que um dia foi da minha morada. Diziam que eu havia envelhecido demais em 11 anos. Então, quando finalmente expliquei o que havia acontecido à mim e à minha família, algo chamou a atenção de alguns dos membros superiores. A princípio, me recusei em trazer Alana para cá, mas, depois achei a melhor resposta. A analisaram, fizeram muitos testes e então a descobriram que era Médium — Uma emissora.
Nós dois nesse período tivemos uma reaproximação muito grande. Ela havia melhorado com a mudança, o que me fez melhorar também. Mas, de alguma forma, eu sentia ainda ela roubando minha vitalidade. Agora, depois de tanto tempo quebrando a promessa que havia feito à Julia, pude cumpri-la. Minha vida girava entorno de Alana.
Muitas vezes, Alana chorava com medo por que sentia a presença de Emily. Já eu, nunca mais a senti, mas, também não ignorava o que ela me dizia.
‘Emily está furiosa e quer vir para cá, papai. Você tem que impedi-la de chegar, se não...’ – Ela me disse isso uma vez, durante o jantar. Calou-se durante dias. Ela parecia pressentir algo ruim.
Quando finalmente a levei à Ordem, depois de alguns meses sem ir até lá junto com ela, Emily manifestou-se novamente.
Berrava e uivava, fazia novamente o corpo da Alana ir contra paredes, machucando-o por completo e dizia que era sua vingança contra mim. Dizia que eu havia a esquecido, que eu não havia feito nada. Não entendi o que ela quis dizer ou se havia nexo no que dizia. Então, ela só parou quando finalmente levou o corpo de Alana a uma das janelas. O vidro cedeu, marcando os braços, as pernas, rosto e mãos de Alana. Emily se retirou de seu corpo, então.
Todos da Ordem não entendiam como uma manifestação conseguia ser tão forte e alguns se sentiam cansados demais, o que havia os impedido de reter o corpo de Alana, enquanto o ataque.
Alana ficou internada durante dias em um hospital inconsciente. Houve muitas fraturas em seu delicado corpo, como também, Alana parecia perturbada. “
A Talamasca.
Londres, Inglaterra.
2006, dia 17 de Março.
Mark Cottret foi encontrado morto. Cometeu suicídio, às cinco horas da manhã, pelo o que dizem especialistas. Ele atirou na própria cabeça com uma Pistola Sig-Sauer P220, conseguida ilegalmente.
Deixou apenas uma carta para sua filha Alana, e sob ela, seu diário pessoal, qual não havíamos conhecimento. O velório aconteceu no dia 18 de Março e o enterro dia 19.
Alana, sua única filha é herdeira do legado do pai, isso inclui: casas, fazendas e carros. Um ano antes havia sido emancipada pelo pai, podendo assim viver sozinha. Mas, preferiu mudar-se para a Ordem por medo.
Há muitos indícios que levam a crer que Cottret matou-se graças a perturbação causada pelo espírito de Emily. Mostrava-se muito confuso quando relatava sobre as insistentes afirmativas do espírito, de que ele era o culpado, que tudo que estava acontecendo com ele não passava de uma vingança.
Alana recusa-se a falar do assunto e como o pai, mostra-se confusa com tudo isto.
Observação: Não tivemos conhecimento do que havia dentro do envelope que Cottret deixou a filha.
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