Abismo de Escuridão
1 Luz e escuridão - Começo e fim
Caminhei na escuridão, não havia nada a não serem as trevas... Eu gostaria de gritar, mas a minha voz morreu na minha garganta juntamente com a coragem em meu peito antes que eu escapasse, eu não agüentava mais... Trevas! Trevas! Por onde eu passava só havia trevas, escuridão. Inferno. Caí de joelhos no chão negro, tudo parecia me puxar para cada vez mais fundo no sombrio, eu estava me afogando, submergindo no obscuro.
“Socorro!” Pensei mais uma vez em gritar, mas seria em vão. A garganta estava seca e as palavras mortas. Então eu afundei mais uma vez, consumida, destruída...
Vida? Morte? Não... Era apenas a escuridão me consumindo, possuindo, devorando... Medo. Fiquei paralisada enquanto abraçava meus joelhos escondendo minha face. Eu já estava perdida e tão logo desapareceria. Pereceria? Talvez eu já tivesse perecido, em vida talvez. Sobreviver não é viver. Então eu simplesmente fui esquecida, abandonada... Só me sobrou a obscuridade. Solidão. Fechei os olhos, afinal escuridão por escuridão, demônios por demônios eu preferia os meus interiores.
Então logo ela veio tomando meu peito por completo, me corroendo de dentro pra fora. Dor. O que era aquilo? Não sei... Eu estava desaparecendo, tudo a minha volta estava desaparecendo, ruindo junto comigo. Mais uma vez eu tremi e vacilei, pensei em gritar, pedir por ajuda, mas já era tarde demais... Eu havia sido esquecida e tudo a minha volta desabou. Escuridão, medo, terror e desespero. Era o fim? Talvez... Eu pude sentir um frio intenso congelando cada parte de mim, endurecendo minha alma e transformando meu coração em gelo para logo ser quebrado. Eu estava abandonada.
A dor agora havia se espalhado por cada parte de meu corpo, roubando-me o ar, sufocando cada célula do meu corpo.
- Adeus!
Foi a única coisa que eu consegui dizer. Depois disso não senti mais nada. A dor havia parado e a escuridão já não me devorava mais. Havia acabado? Eu havia morrido? Luz. Um raio de luminosidade fez a escuridão ruir, vindo veloz em minha direção, cegando-me instantaneamente com a mudança repentina de luminosidade. Era a morte? Talvez... Coloquei a mão frente aos meus olhos para protegê-los da luz, eles já haviam se esquecido dela, tenho certeza. Foi então que o silêncio ruiu junto com a escuridão.
“Você não sente vergonha?”
- Vergonha? – Repeti sem entender a pergunta. Quem diabos estava falando comigo?
“Se entregar dessa forma... Tão fraca...”
- Quem está aí? – Tentei erguer-me, mas estava mortiça, eu não conseguiria sozinha. Eu tinha medo, e se caísse de novo? Se a escuridão me tomasse novamente?
“Não tenha medo. Levante-se. A escuridão só virá se você deixar, se você se entregar...”
- Deixe-me em paz! – Gritei com toda força que eu possuía naquele momento. Estava ouvindo meu pensamento? — Eu só quero ficar só.
“Mas você não tem medo da solidão? Do escuro...”
A voz continuava a me atormentar, ela parecia sair dos raios que agora me iluminavam e a luz que incidia em minha pele me feria. Destruindo tudo. Luz e escuridão. As duas me alanceavam profundamente. Mas qual delas era de fato a qual eu pertencia? Não. Não havia dúvidas... Eu sempre estive entregue ao negrume. Mas porque eu temia tanto?
“Por que por mais profunda seja a solidão e na mais profunda escuridão você se encontre, humanos sempre terão medo do mais completo escuro.”
- Como você pode saber? – Lágrimas escorreram pela minha face enquanto eu contraí meu corpo escondendo meu rosto entre os joelhos novamente. Eu tinha medo, estava fraca e não tinha ninguém.
“Não tenha medo, pois eu estarei com você.”
- Eu estou só. Não há ninguém que possa me entender, todos me abandonaram. – Contraí mais fortemente minhas mãos em minhas pernas, ferindo-me e trazendo à tona a dor para conter as lágrimas teimosas.
“Eu não vou te abandonar.”
Uma mão tocou minha cabeça afagando meus cabelos delicadamente, deixando a dor ir embora, acalentando-me.
“Não tenha medo criança, apenas levante-se e siga em frente.”
- Eu continuarei só? – Lamentei baixo e uma mão surgiu em minha frente, estendida amigavelmente.
“Nunca.”
Agora só havia luz. As trevas que antes me devoravam haviam desaparecido, só havia a claridade. Esperança. A dor que antes eu sentia havia acabado e o frio havia ido embora. Calor.O que era aquilo?
- Eu morri? – Aceitei a ajuda para me levantar. – O que está acontecendo?- A voz havia se calado, mas a luz continuava brilhando. Resolvi seguir em frente como havia dito e a cada passo dado, a luz se tornava mais intensa, mais forte e brilhante. Meus olhos arderam, fechei-os para aliviar o brilho intenso. Minhas pernas fraquejaram e eu caí ajoelhada. Havia sido abandonada novamente? Fui enganada novamente? Uma mão afagou meus cabelos da mesma forma carinhosa que antes. Não, eu não fui enganada.
“Tenha calma criança. Está na hora de voltar.”
- Voltar? – Ainda de olhos fechados por causa da luz intensa questionei. — Eu não voltar às trevas.
“Não tema, ficará tudo bem.”
- Mas eu tenho medo... -Tremi só de lembrar do sufoco que passei. – Não quero sentir aquilo de novo.
“A escuridão que te aflige só lhe fará mal se permitir.”
- O que eu devo fazer? – Levantei-me com os olhos fechados.
“Não permita esquecer-se da luz que tem dentro de você. Humanos possuem tanto trevas e luz dentro de si. Jamais conseguirão pertencer a um único lado, mas cabe somente a você decidir o que você deseja transmitir (para você e para os outros). Mesmo que as trevas por vezes a devore, não esqueça que a luz estará aqui para curá-la. Apenas siga em frente, não importa o mal ou quão obscuro tudo se torne, se você acreditar em si mesma, nada poderá de atingir.”
Arrisquei-me a abrir os olhos para saber quem me acalentava, a luz parecia menos intensa agora. Eu estava certa. A luz estava menos intensa. Olhei ao redor e pude ver que tudo havia desaparecido, simplesmente não havia mais nada. Nem luz, nem trevas. Caí sentada sobre meus joelhos mais uma vez, foi quando eu avistei. Escuridão e luz, lados opostos que seguiam em minha direção. Medo e coragem. Sentimentos e sensações contraditórios. Fim e começo, vida e morte num só momento. Fechei os olhos e aguardei, foi quando de repente eu senti um baque contra mim. Cada parte havia sido atingida por um lado diferente. As sensações se misturaram e em segundos depois não havia mais nada, não sentia mais nada. Tudo havia desaparecido novamente, mas era diferente.
Calor e frio se misturaram. Um calor aconchegante havia tomado conta da minha mão direita, parecia que alguém a estava segurando. Ouvi um ruído e resolvi abrir os olhos. Os meus orbes castanhos fitaram a forma de um homem. Minha visão estava turva. Onde eu estava?
- Caroline? – O homem falou espantado, mas não menos feliz. Senti as mãos dele apertarem fortemente a minha.
Não o reconheci de imediato, mas a voz, sim essa voz eu lembrava. Os esmeraldas dele pareciam ter ganhado vida quando fitaram os meus orbes da mesma cor do chocolate.
- F-Fenando? – Falei com dificuldade o seu nome. Era meu noivo.
- Shhh! Não fale muito. – Calou-me com o seu dedo indicador carinhosamente enquanto lágrimas escorriam dos esmeraldas. – Pensei que tivesse perdido você. – Roçou os lábios carinhosamente em minha testa.
- O-Onde estou? – Perguntei tão baixo que pareciam sussurros, mas naquele momento esse era o tom mais alto que eu poderia alcançar.
- Está num quarto de hospital. – Seus dedos acariciavam minha face fria, trazendo calor.
- O que houve?
- Bem... — Ele pareceu transtornado com a pergunta. – Desde a morte da sua mãe você entrou em depressão. – Ele tomou cuidado com as palavras. – E ontem a noite nós discutimos feio e eu saí de casa. Quando voltei mais tarde você estava desmaiada no banheiro com um frasco do seu remédio vazio ao seu lado. – Lágrimas alagaram os orbes esmeraldas. – Você estava tão fria, pensei que estava morta. – As mãos dele apertaram a minha fortemente mais uma vez. – E por um momento perdi, mas graças a Deus os médicos trouxeram você de volta.
Os esmeraldas derramavam lágrimas de desespero, medo e alegria ao mesmo tempo. Ergui minha mão vagarosamente até a face que agora eu já podia ver com mais clareza.
- Não chore. – Falei baixo colhendo as lágrimas que não cessavam. – Agora está tudo bem. Enquanto tivermos a nós mesmos, ou melhor, quando tivermos um ao outro. Nunca estaremos sozinhos. – Forcei um sorriso, mas minha cabeça ainda doía. – Está tudo bem.
Ele maneou a cabeça positivamente e em seguida abraçou-me cuidadosamente.
Era o recomeço, ou melhor, foi o fim e o começo. Na verdade eu realmente havia morrido - ou pelo menos uma parte de mim - e desejei ter morrido por completo, abandonar tudo parece muito mais fácil, mas não é. A morte não é fácil, a vida menos ainda. Nós só podemos aceitar a morte quanto podemos ter a certeza de abandonar tudo e a todos, quando conseguimos ter a capacidade de dizer adeus sem temor. A ‘morte’ é primeiramente um abandono de si mesmo e eu havia me abandonado ainda em vida. Sobreviver não é viver. Então eu caí, eu me destruí e me senti abandonada, quando na verdade eu que havia abandonado todos, eu mesma havia me desamparado. Então eu temi e me confiei a minha própria escuridão, entreguei-me ao esquecimento e a morte. Cheguei ao fundo do poço e lá fiquei até ser quase absorvida na penumbra. E sei que, por vezes e mais vezes isso vai acontecer... Mas depende apenas de mim mesma decidir levantar e seguir em frente. Porque em meio a toda escuridão há um ponto de luz chamado esperança.
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Notas finais
Obrigada por ler, beijos :*
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