— A lua fica mais bonita quando você olha sem os vidros da janela atrapalhando. – Anna confessou para Asher.

— É, eu concordo, Annie.

— Por quê você me chama de Annie? Meu nome é Anna. – Ela deu um leve sorriso.

— Porque.... Sei lá, achei que era um apelido legal. Você não gosta?

— Não é isso. É que ninguém me chama assim além de você. – Eles conversavam sem se olhar, mas ainda assim, Anna percebeu que Asher ficou sem jeito.

Onze anos se passaram após todos os acontecimentos e mesmo depois de todo esse tempo os dois conservaram o costume de observar a lua todas as noites. Asher Omni agora tinha vinte e um anos, perito na arte das ilusões que treinara em segredo de todos, menos de Anna. Ela, com seus dezessete anos, se aproximava do décimo oitavo dia de seu nome. Seus fios alaranjados se estendiam até as coxas devido à sua extrema aversão ao mínimo corte de cabelo. Seus grandes olhos verde-esmeralda eram expressivos e apenas Asher conseguia entender, detalhadamente, cada traço de qualquer semblante que a moça demonstrava em seu rosto que parecia um coração. Anna Skar permaneceu com sua baixa estatura, sendo necessário levantar-se na ponta dos pés para abraçar alguém. Gostava de usar blusas que escondessem seus braços por se achar magra demais e, caso usasse alguma blusa mais descontraída, sempre levava consigo uma blusa de frio amarrada na cintura para vestir quando fosse sair de casa. Nunca dispensava seu par favorito de AllStars, pretos e surrados de tão velhos, sempre confortáveis.

Asher, por sua vez, era considerado pelas garotas da província como o “poço da perfeição”. Seus olhos cinza-azulados demonstravam uma eterna expressão pensativa, com sobrancelhas grossas, especialmente baixas e quase retas. Os cílios eram tão escuros que era como se ele estivesse sempre com lápis de olho, mesmo sem nunca ter usado, destacando os olhos claros. Mantinha o cabelo preto-corvo relativamente curto e bagunçado. Costeletas desenhavam seu rosto quadrado, com uma barba rala por todo o queixo destacando seus finos lábios naturalmente e levemente rosados. Seu nariz, reto e moderadamente arrebitado, acrescentava um toque de perfeição incomum que combinava excelentemente com toda a sua composição facial. Asher Omni era alto, forte, com músculos levemente definidos que eram convenientemente escondidos pelo sobretudo preto, o seu favorito que ganhara de presente de Anna há uns anos atrás.

Durante onze anos Asher foi quem esteve mais próximo de Anna, ajudando-a em qualquer aventura que a pequena garotinha quisesse seguir. Ela foi forte. Ela nunca esboçou nenhuma lágrima enquanto esteve perto dele ou de qualquer outra pessoa, mas o que ela não sabia é que ele a observava todas as noites, da mesma forma que observava a lua, com admiração. Anna esperava que todos fossem dormir e ia para a varanda de seu quarto, quase em frente ao quarto de Asher, na esperança que ninguém a visse e, então, desatinava a chorar. Era um segredo que ela achava que mantinha sozinha, sem desconfiar que compartilhava com o jovem.

— Asher? Alô, Terra para Asher? – Anna estalou os dedos na frente dele.

— Oh. Desculpe. Eu estava distante. – Ele balançou a cabeça na tentativa de fazer com que as memórias fossem embora.

— É, eu percebi. – Ela levantou o canto dos lábios levemente. – Logo vai começar a chover, vamos entrar? Eu estou com fome.

— E quando é que você não está com fome? Não sei como o vento ainda não te levou. – Anna protestou estapeando Asher no ombro. – Caramba, precisa comer mais feijão, cisco. A força aí está em falta. – Os dois começaram a rir enquanto traçavam seu caminho para a porta do quarto de Anna. Asher deixou que ela fosse na frente e, inconscientemente, olhou para a lingerie que estava delicadamente jogada perto do travesseiro. Imediatamente imaginou a garota vestida com o conjunto branco enquanto a acompanhava com o olhar até a porta.

— Asher?

— Hm, er, vai indo para a cozinha. – A imagem de Anna de lingerie saiu da sua mente momentaneamente quando viu que ela estava vestida com calças jeans e blusa com mangas que cobriam seus ombros. Ele se sentiu culpado por estar imaginando tais leviandades com a menina, visto que neste dia completavam exatamente onze anos após a morte de seus pais. No dia seguinte, entretanto, era seu aniversário de dezoito anos e Asher não sabia o que faria para alegrá-la e fazê-la esquecer momentaneamente da triste data que vivera logo antes de seu aniversário. Ele não conseguia controlar seus pensamentos e não pôde evitar fantasiar Anna com o cabelo todo jogado sobre seu ombro esquerdo e bagunçado, vestida com a lingerie branca, a qual mal podia ver como era, andando em direção à porta. Como podia ter este tipo de pensamentos com a garota, com a pequena Annie?

— Asher, tem pudim na geladeira. – Ele imediatamente olhou para o rosto dela. – Eu vou comer tudo sozinha se você ficar parado aí.

O celular de Asher tocou. Anna olhou para o celular dele e, rapidamente, desviou o olhar ao ver o nome “Diana” escrito na tela. O sorriso que estampava o rosto dela se esvaiu aos poucos e, enquanto ele falava com Diana no telefone, ela foi para a cozinha afogar as mágoas do dia no pudim.

— É, pudim. Somos só eu e você agora. Ha ha...

Durante onze anos Lis procurou a cura para Tiziana por meio da medicina ocidental, medicina élfica e até mesmo medicina espiritual, infelizmente, sem sucesso em todas elas. Tentou todo o tipo de tratamento e, lamentavelmente, Tiziana não resistiu. Faleceu há pouco mais de dois anos, após ter ficado praticamente nove anos em coma. Os médicos que a trataram diagnosticaram-na com morte cerebral e Lis decidiu desligar os aparelhos para encerrar o sofrimento de Tizia.

Entretanto, Syra planejou algo inusitado antes da morte programada de sua irmã. Ela foi até o cofre de Lis e pegou a última memorionita que havia na mansão. Memorionitas são cristais de memória, joias feitas pelos elfos ancestrais, muito difíceis de serem encontradas, quase extintas. Os anciões colocaram um pouco de seus poderes élficos nas joias encontradas em cavernas e dividiram-nas entre as tribos para que fossem utilizadas nos momentos de maior necessidade. Memorionitas podem ser utilizadas apenas uma vez, salvando as memórias exclusivamente de uma pessoa ou apenas uma habilidade mágica específica à escolha do dono do cristal. Em posse deste cristal, Syra o posicionou sobre a testa de Tiziana, presenciando o brilho azulado absorvendo as memórias da irmã. O processo não pode ser parado e as memórias, sejam de uma pessoa ou de uma habilidade, não podem ser excluídas do cristal.

No dia seguinte, após o cristal estar emanando brilho roxo, Syra o guardou em uma caixa de ouro branco para mostrar à Lis no dia seguinte à morte de Tiziana.

— Syra... Minha filha... – Lis abraçou-a com a maior força que conseguiu fazer no momento. – Ainda bem que você está aqui... Você e os meninos...

— Mãe. Eu fui até seu cofre e peguei a memorionita que o Ancião Ashlat concedeu aos seus ancestrais. Eu deixei que absorvesse todas as memórias de Tiziana para que ela viva para sempre conosco. – Syra foi direta. Imediatamente, Lis começou a chorar e abraçou-a novamente. Ela entregou à Lis a caixa de ouro branco contendo a joia com as memórias da irmã e acompanhou a mãe até seu quarto.

— Syra... Eu não vou conseguir ver estas memórias sem sofrer. Por favor, fique com esta caixa e guarde-a de todos. Não quero nem que Fausto saiba desse cristal. Promete, filha?

Syra abraçou Lis e acompanhou a mãe até o quarto.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.