Abigail e a Fera de Hillstone
1 PRÓLOGO
Hillstone, 1649.
O rosto de Field McCoy estava coberto pelo chapéu enquanto caminhava contra o vendo gelado ate a casa da família Hill que ficava próxima ao lago, o caminho esburacado estava dificultado pela lama deixada pela chuva de fim de tarde e seus pés afundavam vez ou outra vacilando o corpo para trás e então sacudia os braços como uma ave sem saber voar para recuperar o equilíbrio. Olhou em volta, certificando-se que ninguém o espreitava, mesmo que estivesse difícil ver alguma silhueta no bosque, especialmente mais sombrio naquela noite sem lua. Bateu o ferro em forma de argola pendurado na porta com força, segundos depois fora atendido por Elizabeth Hill, seu cabelo loiro estava preso em um de seus costumeiros coques arrumados, a pele branca como porcelana se destacava no vestido de cor lilás, os olhos azulados da mulher estavam apreensivos, ela deu passagem para que McCoy entrasse, alisou sua barriga, segurando de forma maternal como costumava fazer desde que crescera consideravelmente nos últimos meses de gestação. Caminharam lado a lado em um silencio desconfortável ate a sala de estar onde todos já estavam reunidos, Elizabeth caminhou ate seu marido, pondo-se ao seu lado, que passou a mão em sua cintura de forma protetora, McCoy por sua vez sentou-se na única cadeira que restava vazia. O silencio perdurou por alguns minutos ate que Tony Bennet resolveu se levantar e com sua voz grave disse para que todos pudessem ouvir:
– Eles estão irritados. Não há muito que possamos fazer.
– E se fugirmos? – Sugeriu a esposa de Gabriel Hill que olhou preocupada para as escadas que davam para os quartos da residência onde seus filhos dormiam serenamente.
– Não adiantaria muito, talvez demorasse algum tempo para nos acharmos, mas eles achariam. São poderosos demais.
Samuel “Sam” Hill pigarreou, arrumou seu bigode como costumava fazer antes de dizer algo e se colocou a frente do grupo.
– Então vamos obedecer?
– Não entregaremos ninguém – Marido de Elizabeth, Jonh, disse nervoso mesclando raiva.
– Filho… Compreendo a sua dor – Tony o respondeu – Mas sacrifícios sempre são feitos e em tempos de guerra, devemos saber quando o fazer.
– Se trata do meu filho, Tony! Meu filho! – Jonh gritou exasperado – Uma criança que ainda não nasceu… Meu filho não tem culpa de nada – Elizabeth puxou com carinho o marido para perto, com as mãos nos ombros dele tentou acalma-lo que não tirava os olhos do homem que ameaçara a vida de seu filho, a mulher foi forte não deixando nenhuma lagrima cair.
– Não vamos entregar nosso filho – Disse com calma e determinação.
Dita as palavras, uma explosão fez doer os ouvidos de todos os presentes, a porta da frente foi arremessada se transformando em pedaços minúsculos, passos pesados rangiam o piso indo em direção ao grupo, logo surgiu um homem alto, forte e amedrontador que sorria de forma maligna. Os cabelos eram loiros como os raios do sol, a pele branca destacava seus lábios incrivelmente vermelhos, podia ser considerado bonito se não fossem seus olhos azulados que se podia ver o mal dançando, o cheiro que emanava dele ardia as narinas de algo que só puderam distinguir depois: sangue.
– Eu estou atrasado? – Sua voz mórbida e gelada paralisou todos, ele riu em tom debochado claramente se divertindo com a situação – Peço desculpas, eu não sabia que roupa era apropriada para esse tipo de ocasião, mas ainda bem que cheguei a tempo de ouvir o veredito final.
O silencio perdurou na sala enquanto ela se aproximava mais do grupo.
– Onde esta a criança?
– Ela não será entregue – Jonh disse de forma heroica.
– Eu sei… – Ele revirou os olhos, ergueu a mão direita sacudindo como se fizesse descaso da situação ao instante que vasos de flores e vidraças iam sendo estraçalhadas – Eu ouvi claramente e pagarão o preço pela escolha – Ele disse desmanchando o sorriso com os olhos fixos em Elizabeth, as orbitas de seus olhos escureceram, ergueu as palmas das mãos para o alto e proferiu as palavras:
“Maledictus homo quicumque venerit et mali patientur”
Quando seus lábios selaram a profecia, um clarão negro explodiu na sala. Elizabeth fechou os olhos por alguns instantes, quando voltou a abri-los, estava sozinha na sala com seu marido. Gritos de tormenta começaram a surgir horas depois, ouviram por dias por todo vilarejo. Crianças eram mortas pelas próprias mães de forma sanguinária, sendo estranguladas e depois decapitadas, algumas abriam os corpos de seus filhos ainda vivos retirando os órgãos, em seguida todas elas faziam o mesmo ritual, bebiam o sangue de seus filhos e com prazer sorriam com seus dentes avermelhados por alguns segundos, mas passado a alucinação, gritavam e choravam pelo que haviam feito causando suicido em massa, os homens estupravam as mulheres e as espancavam ate que virassem um bolo de carne, não se lembrando do que fizeram, atacavam o próximo e uma guerra começava. Elizabeth e Jonh eram os únicos que não haviam sido afetados, vendo todo o caos se espalhar pelo vilarejo. Quando não restou ninguém, o silencio se prolongou, mas Elizabeth ainda podia ouvir as lamúrias e os gritos pela cidade, as imagens de pessoas sendo ateados fogos e as mães com seus filhos mortos, não era mais a mesma. Olheiras fundas agora circundavam seus olhos azuis e tristes, o cabelo que sempre impecável no coque, tinha fios fora do lugar e desordenado, Jonh que não pronunciara nenhuma palavra também tinha aparência cansada, aparentavam anos mais velhos.
– Ninguém entregará meu filho – Jonh sussurrou as palavras repetidas vezes, em sua cabeça ele só conseguia ouvir a profecia que aquele homem havia feito e a explosão causada depois, que por alguma razão, ele sobreviveu. Todos a sua volta não existiam mais, apenas as cinzas de seus corpos.
Um grito ensurdecedor saindo da boca de Elizabeth fez com que ele a olhasse pela primeira vez, a sua mão repousava sobre a barriga, os olhos reviram as orbitas e seus lábios se comprimiram em dor. Ela levantou o vestido e puderam ver uma linha de sangue escorrer por suas pernas, ela se sentou encostada a parede.
– Vai acabar assim? Meu filho irá morrer aqui? – Gritou perguntando não a seu marido, mas aos que botaram um fim em tudo.
O Clã Salazar.
Enquanto suas contrações aumentavam, passos pesados vinham em sua direção, o mesmo homem que dias atrás os visitara apareceu com uma risada gélida. Ele se abaixou apenas dois passos de distancia, olhou para a expressão sofrida de Elizabeth e em seguida para Jonh que não dissera absolutamente nada, nem mesmo se movera.
– Não somos tão ruins. Se quiser, posso cuidar dele – Piscou, Elizabeth o olhou incrédula.
– Tudo isso só para ter meu filho? O que há de tão especial?
– Vocês nos traíram, nada mais justo do que pegar algo em troca.
– Você destruiu meu vilarejo. Já é algo em troca… Meu marido esta louco… O que mais você quer?
– Que tal escolhermos o nome do seu filho? Eu gosto de Benjamin.
Ela soltou mais um grito, algo se partia dentro dela, por horas no chão sentiu dor e gritou agonizada, o homem loiro estava na mesma posição que antes rindo satisfeito, quando a boca de Elizabeth proferiu o ultimo grito uma criança caiu ao chão, ela o pegou com cuidado verificando que nada havia acontecido, fez a menção de sorrir, mas lembrou-se do monstro que os olhava.
– Então, gosta de Benjamin?
– É uma garota… – Sussurrou com a voz falha, os cabelos grudavam na testa com seu suor. A boca seca e pálida, os olhos não tão diferentes de antes, mas com um brilho de esperança que, talvez, pudesse viver com sua filha em outro lugar e esquecer o passado, mas a imagem do monstro a sua frente dizimava qualquer e menor esperança que surgisse, o gemido da criança a fez voltar o olhar, notando que deveria oferecer leite. Com dificuldade, tirou a alça do vestido, com o seio a mostra ofereceu a criança que aceitou.
– Estava pensando – Ele murmurou – Que tal Alicia?
– O que tem um nome se vai mata-la daqui a pouco?
– O que? – Riu alto causando arrepio na mulher – Não vou mata-la.
– Não vai?
– Vou deixa-la viva para que sofra cada segundo do resto de sua vida e para que você possa ver sem poder fazer nada.
O sorriso maligno e macabro surgiu na expressão dele mais forte que antes.
– Eu irei me vingar de tudo que esta fazendo.
– Acha que tenho medo de você? É só uma mortal que se eu estalar os dedos… – Ele o fez fazendo o chão rachar, mas algo em Elizabeth mudou, os olhos que outrora fora azuis caramelizaram brilhando cada vez mais como felinos na noite, o sorriso meigo se transformou em um sorriso vingativo, a sua voz se tornara sombria quando disse:
– Sou Elizabeth Ridley III, descendente do clã Lunaris e assumo meu posto como…
– Não pode ser.
–… A escolhida.
O clarão explodiu em uma cor amarela esbranquiçada fazendo tudo sumir. Quando Elizabeth abriu os olhos estava na mansão que um dia achou que nunca mais voltaria, estava em New Orleans.
*************
Olhou-se no espelho pela milésima vez, passou a mão na saia do vestido nervosa. O berço branco balançava gentilmente com seu bebê, olhou mais uma vez para ter certeza que estava lá. Não queria deixa-lo sozinho, ainda tinha medo, mesmo estando tão longe de Hillstone. Um lobo de pelugem cinza entrou no quarto silenciosamente, ergueu as patas dianteiras colocando-as sobre o berço, como se ele próprio estivesse verificando também que o bebê estava lá.
– Fique com ela. Preciso conversar com tio Mackenzie – Sussurrou para o lobo que baixou o focinho e depois se deitou nos pés do berço – Não a deixe sozinha por nada – Sussurrou antes de fechar a porta. Elizabeth arrastou seu vestido azul ate o escritório de seu tio, que ficava no andar depois dos quartos, sua pele formigava a cada passo que dava. Quando bateu na porta pela terceira vez sentiu seu estomago retorcer.
– Olá Elizabeth – Seu tio sorriu carismático e convidativo, o cabelo grisalho e as rugas ao redor dos olhos davam um ar de intelectual, usava terno e gravata de linho cinza – Fico feliz que esteja em casa.
– Estou por ela.
– Compreendo – Ele disse virando-se para a enorme janela que tinha atrás de si, vislumbrando a visão do seu jardim – Sacrifício…
–… “Sacrifícios sempre são feitos e em tempos de guerra, devemos saber quando o fazer.” – Repetiu o que Tony Bennet dissera uma vez, que ao seu ver, parecia ter sido há muito tempo.
– Inteligente – Ele sorriu concordando, voltou a olha-la, dessa vez curioso – E o nome da criança, qual será?
– Rosalie.
– Não deixaremos que a peguem. Não agora que é uma de nós novamente. Você e sua bebê estão seguras.
Elizabeth consentiu.
– Mas irão se vingar. Não aceitaram tão fácil.
– Estamos prontos. Estamos esperando.
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