Abdução para Neverland.
2 Capítulo 2. Costurando a Sombra.
Notas iniciais
– Viu a sombra em algum lugar? – Peter perguntou, parecendo genuinamente preocupado.
Wendy olhava em todo lugar, sempre o mais silenciosamente possível, para não acordar seus irmãos.
– Mas que estranho isso, nunca vi ninguém perder a própria sombra, minha mãe já disse para o João que se ele continuasse esquecendo as coisas uma hora iria esquecer a própria sombra, mas não sabia que ela estava falando sério. – Disse Wendy infantilmente, o mais baixo possível, ainda procurando.
Enquanto ela olhava debaixo da cama, Peter sorriu de maneira sombria, e com um movimento quase que inconsciente de suas mãos ele começou a movimentar sua sombra com facilidade.
– Ali! – Peter deu um quase grito abafado e apontou para sua sombra fugitiva.
Wendy arregalou os olhos, não era que ele estava falando a verdade? Os dois então correram atrás da sombra, Wendy não imaginou como pegaria uma sombra, mas Peter conseguiu, e a prendeu sobre a pressão de seus dedos.
– Venci! Te peguei sombra! – Peter dizia orgulhosamente.
– Mas... Como vamos fazer ela voltar pra você? – Wendy perguntou quase tímida.
Peter a analisou profundamente e suspirou por dento, ela realmente era como uma flor, ele sabia que o quarto estava mal iluminado, e com a visão humana dela, ela não poderia ver muito bem seu rosto, isso era bom, porque ele estava com uma expressão que não condizia com a situação que ele acabara de pintar.
– Não sei, será que com sabão ela remenda? – Peter usou intencionalmente a palavra “remendar”, pois ele tinha visto um kit de costura perto de sua cabeceira, e sabia que acharia a ideia do sabão boba, e daria outra ideia.
Como o previsto, Wendy dançou perfeitamente a valsa que ele compôs.
– Que ideia boba! Claro que não dá pra remendar com sabão, mas... Acho que tenho algo que pode te ajudar! – Wendy correu até o material de costura que sua mãe tinha deixado em seu quarto, até agora era um milagre seus irmãos ainda estarem dormindo.
Peter aproveitou para dar uma rápida analisada no quarto, era um lugar grande, e a parte em que Wendy dormia era toda branca e cheia de babados, ele pensou que combinava com ela. Wendy voltou da extremamente curta caminhada com um sorriso.
– O que vai fazer? – Peter perguntou a olhando desconfiadamente, ele aproveitou que aparentava ser pelo menos uma no mais velho que ela e a olhou de cima, decidiu também que gostava de parecer maior quer ela.
– Vou costurar ela nas suas botas! – Peter assentiu solenemente.
Ele se sentou em sua cama, e Wendy no chão, Ela viu que naquele lugar o luar iluminava todo o menino, e ela se deu conta que ele não poderia ser um mero limpador de janelas. Ele usava uma roupa toda verde escuro, cheia de bordados estranhos em azul, prata e preto, ele tinha um chapéu igual, de um formato engraçado e com uma pena vermelha de decoração, então ela reparou em seus traços, ele tinha cabelos ruivos e rebeldes, olhos negros e sobrancelhas grossas, seus traços eram finos, nariz empinado, e sua pele bem pálida, cheia de pintinhas. Ela concluiu que ele era bonito, poderia ele ser uma fada?
Peter percebeu que ela o encarava, e fingiu não ver, gostava muito da atenção para acorda-la de seu transe. Então alguns segundos depois ela pegou sua boa, seu toque era gentil e infantil, ela começou a imaginar onde era mais fácil costurar na bota.
– Pode me emprestar sua sombra? – Wendy perguntou, distraidamente.
Peter assentiu e entregou sua sombra a ela, seria impossível costurar isso em algo, mas ele queria que ela fizesse isso, então fez sua sombra se comportar como se estivesse sendo costurada.
Wendy começou o trabalho, costurou a sombra na parte de trás de seu sapato, e quando disse ter terminado, Peter se levantou rapidamente.
– Consegui! Viu como sou astuto? – Peter começou a se vangloriar, Wendy ficou horrorizada.
– Mas fui eu que costurei!
– Sim, sim, você também ajudou. – Peter disse sem graça.
Pan então se levantou e começou a dar cambalhotas no ar.
– Você pode voar! – Wendy estava maravilhada, então ele era uma fada!
Peter voltou ao chão.
– Posso sim. – Disse ele, simplesmente.
Wendy então se deu conta que eles ainda não tinham sido apresentados, eram estranhos! Ela então tratou de concertar isso.
– Sou Wendy, Wendy Moira Angela Darling. Qual o seu nome, menino? – Disse ela fazendo uma pequena reverencia.
– Que nome comprido! Meu nome é Peter, Peter Pan. – Disse ele, fingindo avaliar a sombra costurada.
– Peter Pan? Que nome curto! Me diga então, você não é daqui, é? Parece uma fada! Aposto que é uma, estava voando como uma, onde estão suas asas? – Wendy não se aguentava mais.
– Fada eu? Claro que não! Sou um menino, mas conheço muitas fadas, elas que me ensinaram a voar, de onde venho tem muitas! – Peter foi tão casual quanto possível, mas sabia a reação que causaria. Os olhos de Wendy de repente se encheram e ficaram brilhantes, manter seus modos de mocinha estava tão difícil!
– Jura?! Onde você mora? Posso... Posso te visitar? – Pronto! Toda a educação que seus pais lhe deram foi por agua abaixo, tinha acabado de se convidar para a casa de alguém, isso era muito grosseiro! Ela se repreendeu mentalmente.
– Claro que sim! Lá vivem um monte de crianças, você pode contar histórias pra eles, se quiser pode ser a mamãe deles, eles nunca viram uma menina, pobrezinhos, só as fadas, sereias e ninfas, mas elas não parecem meninas, elas são... fadas sereias e ninfas. – Peter tocou em seu ponto fraco, aproveitando para enfatizar as criaturas cujas quais ele sabia que qualquer criança daquele mundo se fascinaria.
Peter já tinha estado lá, sabia que as humanas do sexo feminino, mesmo jovens, eram criadas para cuidar de suas crias, era um lugar bem sexista onde as fêmeas sempre sofriam mais que os machos, elas tinham uma palheta de opções de vida extremamente limitada, então era fácil ver o que fascinava Wendy. Cuidar, ser mãe. Ela fora criada assim, mas ele pretendia ensinar ela muito mais do que apenas essas bobeiras. Cada segundo gostava mais de sua decisão, viu que era um desperdício enorme deixar uma alma boa assim em um mundo horrível como aquele em que ela vivia, onde ela seria destinada ou morrer sozinha e infeliz, sendo sempre oprimida socialmente por essa escolha, ou pior, viver sua vida toda servindo a um macho, até seus dias acabarem e nada restar dela, sem realizações ou aventuras. Ele definitivamente a estava salvando.
Ele a encarou com um sorriso puro demais para sua alma já escura, ela sem querer soltou um gritinho e começou a pular em felicidade.
– Obrigada! Eu vou ser como uma mãe! E sereias, e fadas! Ninfas! – Ela pulava e dava gritinhos de alegria.
Peter ficou com nojo e ódio, A criação que aquela alma estava recebendo era distorcida e cruel, apenas para amansar ela e a tornar uma boa escrava, e ainda a fazer desejar por isso! Como ousam? Ela tinha tão pouco tempo de vida naquele lugar, e ainda queriam que ela o dedicasse inteiro eternamente a um macho de sua espécie! Ele entendia que o ser humano foi feito para procriar, pois não podia viver muito, e ele entendia que isso era natural, mas não era natural fazer alguém só se dedicar a isso por toda uma vida enquanto seu companheiro dedicava-se a si mesmo e ainda achava que era uma obrigação da outra o servir!
– Mas, como posso ir? Provavelmente você veio voando, e eu não posso voar! – Disse Wendy, fazendo Peter acordar de seu devaneio odioso.
Ele decidiu encanta-la um pouco mais. Com um movimento, produziu um pozinho brilhante mágico e jogou sobre ela.
– Só tenha pensamentos felizes, e vai voar! – Disse ele fazendo movimentos com as mãos.
Ela fez força, foi engraçado, então começou a flutuar e bater os braços, como um pássaro.
– Parece um pássaro, Wendy Bird. – Wendy ficou vermelha com o comentário.
Ele já estava fora da janela, fazendo sinal para ela seguir ele, quando ela parou de repente, e caiu para o chão, ela estava triste.
– Mas e meus irmãos? Não posso deixar eles aqui! Que monstro seria eu se visitasse tal terra tão mágica e os deixasse para trás, sozinhos? – Wendy lamentou.
Peter bufou. Ele não queria os irmãos dela, eles só o atrapalhariam, ele a queria, apenas ela! Seus planos se atrasariam muito, mas se é isso que seu passarinho queria quem seria ele para recusar?
– Podemos leva-los também, se é isso que realmente quer. – Disse ele fazendo um movimento com a mão, um sinal para ela acorda-los.
Wendy pulou em alegria, mudando de humor rapidamente. Correu para as camas de seus irmãos e com empurrões desajeitados os chamou.
Ele acordados viram Peter voando, e uma enxurrada de perguntas, exclamações e sons sentimentais vieram dos garotos.
Peter foi paciente, viu que para conseguir o coração da menina, teria que ser agradável com seus irmãos. Cujos quais ele internamente desprezava, pois sabia o destino que eles tinham, escravizar alguma fêmea e ainda achar isso normal, como se fossem de raças diferentes, e ainda tivessem o direito sobre isso. Demoraria vários anos para aquela sociedade evoluir o bastante, e ele sabia que sem interferência, aqueles meninos seriam iguais.
Mas o que ele não faria por seu pequeno pássaro?
Oh, essa queda foi rápida, até para os padrões bipolares de Pan, e em poucos minutos ele já caiu. Caiu no amor.
... continua...
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