Abdication

14 Capítulo 14


Melanie não treinou naquela noite. Era sexta-feira, então o final de semana ela também faltou nas suas aulas noturnas. Infelizmente, segunda o pesadelo retornou.

Ela jantava com seus colegas de chalé. Hillary e Matthew tinham saído mais cedo, assim como Jasmine que desapareceu assim que o pessoal do terceiro chalé se juntou a eles para a sobremesa.

Andrew a beijou antes de sentar. Ela sorriu para ele e apertou sua mão embaixo da mesa.

– O que você vai querer?

– Hum... — ela pensa. — Mousse de morango — ela sorri — com chantilly– completa.

Andrew concorda e se levanta, indo pegar o doce para ela.

– Começo de namoro sempre me emociona — Morgana Aguirre se pronuncia com o seu sotaque fortemente espanhol. — Tudo é muito lindo, principalmente quando se está com Andrew.

Melanie percebe o tom de ironia na voz da morena e decide ignorá-la. Ela olha para trás a procura de Andrew, mas ele pegou uma fila enorme.

– Hum, Morg, que tal deixarmos esse assunto para depois? — Beatrice sugere, sempre tentando manter a paz.

– Não há momento mais propicío do que esse.

– Propício — Melanie a corrige e respira fundo. — Será que você não pode esconder um pouco da sua inveja?

Ela já tinha ouvido algumas coisas sobre filhos de nobres e outras pessoas importantes. Principalmente na juventude. Baladas, bebidas, drogas e sexo.

– Não estou com inveja, estou nostálgica — ela sorri descaradamente. — Toda vez que você beijá-lo, lembre-se que muitas outras já estiveram no seu lugar e fizeram a mesma coisa. Toda vez que você dormir com ele...

– Gosto de homens experientes — Melanie a corta. — Não tenho tempo a perder ensinando ninguém.

– Até porque você já fez muito isso na sua... jornada, não é mesmo? Como prostituta...

Comentários como aqueles não a incomodavam mais. Depois de ouvir tantos daqueles, ela não dava mais bola.

– Aposto que a primeira vez dela deve ter sido ótima — uma voz conhecida sussurra atrás dela. — Foi antes ou depois de você ser quem é, Melanie?

Tyler. Como sempre. Todo santo dia ele tinha que tirar pelo menos três minutos do seu tempo para atormentá-la.

– Será que vocês todos podem parar de cuidar da minha vida? — ela se irrita. — Vocês não tem outras pessoas para incomodarem?

Ela vira-se para Morgana.

– Por que em vez de me invejar você não corre para a emissora do seu pai para fazer um comercial de sapatos?

– Olha só quem está por aqui semeando a discórdia... — a voz de Josh a atinge com força. Suas mãos pousam nos braços encasacados dela. — Temos treino agora.

– Eu nem comi a sobremesa.

Josh segura o seu braço e a faz levantar. Ele não usa força, mas ela sente a irritação e tensão dele. Melanie vê Andrew se aproximar da mesa. Ela se afasta de Josh.

– Eu já disse que vou comer a sobremesa antes.

Os presentes se surpreendem pelo tom de voz que ela usa com o Destruidor.

– Se você não aparecer em cinco minutos será punida — ele murmura no ouvido dela.

Quando Andrew chega com a sobremesa, ela faz questão de dar um beijo bem intenso nele na frente de todos. Josh, Tyler, Morgana... para ela ninguém mais importa.

Suas mãos deslizam para a nuca de Andrew e o puxa mais para si, enquanto as mãos deles passeiam pelas costas dela.

– Obrigada — ela sorri e volta a beijá-lo quando vê Josh se afasta com os olhos pregados nos dois. Suas bolitas azuis tempestuosas estavam fervendo de ódio.

+++

Melanie estava batendo em um saco de pancadas por pelo menos vinte minutos. Cansada, ela foi até o bebedouro e depois se jogou no chão gelado.

Um pé a chuta devagar.

– Você está fora de forma, vamos melhorar isso.

– Fora de forma? Estamos treinando a um mês durante as noites. Eu sei que estou recuperada dos dias que passei na enfermaria.

Josh pega a mão dela e a obriga a levantar. Ele a empurra para frente do saco de pancadas laranjado do tamanho de um ser humano.

– De novo.

Ela acerta um soco onde provavelmente é o estômago do ser.

– Está errado. De novo.

Ela respira fundo e acerta mais um soco no estômago dele.

– Afaste os pés — Josh fala e assim ela o faz. — Menos. Isso. Agora vai.

Ela acerta uma série de socos dessa vez, um atrás do outro.

– Você só sabe socar o estômago do seu adversário?

– É o meu ponto forte.

– Você tem que explorar as fraquezas do seu inimigo e fazer disso a sua força — ele suspira e pega as mãos dela novamente, fechando as duas em punhos resistentes. — Use uma das mãos para se proteger e outra para atacar. Uma mais a frente e a outra perto do queixo para bloquear um ataque na mandíbula. Isso é essencial.

– Por que você se ofereceu para me treinar?

Ele não responde.

– Eu juro que não te entendo. Você não quer ficar comigo, mas também não me deixa ficar livre.

– Eu nunca te prendi — ele sussurra. — Por favor, vamos voltar para o treinamento.

Melanie dobra levemente as pernas, posiciona os punhos como Josh a mandou fazer. Então ela deu um soco no boneco.

– Aqui — a mão dele desliza para a barriga dela e a aperta de leve.

– Você está tensa. Se usar força para endurecer o seu corpo perderá força nos punhos.

A respiração de Melanie se torna irregular.

– E o que eu devo fazer? — ela sussurra, virando somente a cabeça para o lado, ficando com seus lábios a centímetros dos dele.

– Melanie...

– Eu me afasto, mas eu sei que você não quer isso. Eu sei que quando você está com ela, pelo menos por uma fração de segundo, pensa em mim.

– Para com isso — ele desvia o olhar.

– Por que você não admite logo? Nós ficamos uma vez e pronto. Ninguém nunca irá saber. Eu sei que você quer. Nós dois sabemos. Nós dois queremos.

– Pelo amor de Deus, Melanie, você está com o meu irmão.

– Eu estou com ele por você — a morena vira-se completamente para Josh e o faz encará-la. — Apenas três palavras suas e eu desisto de tudo.

– Por que você está fazendo isso comigo? — ele suspira perto do pescoço dela, pressionando os lábios na sua orelha.

Porque eu te amo, ela pensa em dizer, mas seria estúpido demais da parte dela.

– Porque eu sempre consigo o que eu quero.

E nesse momento ela tem certeza que ele vai ceder. Tão rápido quanto uma estrela cadente despencando do céu, ele a beija.

Seus lábios pressionam os dela com urgência, como se alguém fosse entrar ali a qualquer momento e a arrancaria dos braços dele. Bom, eles ouviriam se alguém caísse na rede.

Melanie esquece Andrew, das câmeras ali embaixo e do perigo que eles estavam correndo. A verdade era que ela não se importava. Ela realmente não ligava.

Os lábios de Josh deslizam para o seu pescoço e suas mãos para a cintura dela. Melanie encontra seus dedos finos e gelados na nuca dele, o puxando para mais perto.

Tudo havia desaparecido. Não existia mais a Terra ou a gravidade. Nada mais a prendia ao mundo. Ela estava flutuando. Nada e ninguém existia, porque eles estavam juntos naquele momento. Ela não queria pensar em um futuro próximo ou distante, apenas nesse momento maravilhoso.

As mãos de Josh levantam a barra da blusa dela e encontram sua pele morena e lisa.

Josh se afasta dela por um instante.

– Vamos para outro lugar.

Então a realidade bate a sua porta. Para outro lugar? Era tarde, mas é óbvio que sempre tem gente por aí. Ir para onde? Para o chalé dela cheio de gente ou para a Casa Grande, onde a noiva dele e a família dela estavam dormindo no quarto ao lado?

Ela se afasta mais, abrindo um buraco entre eles. Melanie percebe o que está para acontecer. Ela se deixou cair em tentação. Ela havia prometido a si mesma que não seria mais uma mulher fácil e o que ela estava fazendo? Na primeira oportunidade se jogou para cima dele, se ofereceu como um prato de carne fresca a venda.

Andrew é uma boa pessoa. Ele gosta dela. Ele está com ela. Ela começa a pensar no tão temível futuro. O que Josh poderia oferecer a ela? Uma noite, duas?

Ele pode lhe fazer juramentos de amor ou promessas para o futuro, dizer que vai desistir do casamento para ficar com você enquanto vocês estão no calor do momento, mas ele irá voltar para a sua esposa, as duras palavras de Amber a atinge com uma força incomum. Todos os homens sempre voltam.

Ela se sente tão culpada de repente. Ela não entendia. Nunca ligou para o fato de que Josh tivesse uma noiva, por que isso agora?

Andrew, o nome ecoa na sua cabeça.

É claro. Ela se sente culpada por causa dele.

– Não podemos fazer isso aqui — Josh murmura.

– Até porque é aqui que você traz a sua branquela, não é mesmo?

Josh faz cara de confuso. Falso, ela pensa.

– Não entendo.

– Você e Amber se comendo em cima da mesa.

Ele respira fundo.

– Melanie, você tem que entender que...

– Sim. Ela é sua noiva. Por isso nós não ficaremos nem aqui e nem em outro lugar.

– Mas você queria.

– Mas eu não quero visitar a sua cama de vez em quando, te esquentar em uma noite de frio para depois ter que juntar minhas roupas as pressas para me esconder da sua noiva. Não quero pular a janela do seu quarto ou ficar horas a fio trancada no armário esperando e ouvindo vocês gemerem juntos quando deveria ser eu? Sinto muito se eu não sou assim. Eu não nasci assim, Josh. A vida me fez desse jeito. Eu não quero mais isso pra mim.

As lágrimas se acumulam dos seus olhos, mas ela não deixo nenhuma cair por um bom tempo. Quando a primeira lágrima carregando consigo um peso de dois anos cai, ela sinto um alívio repentino.

Ela nunca havia chorado em dois anos. Desde a noite em que partiu da casa da mãe. Nem na sua primeira noite nas ruas, nem quando teve a sua primeira vez com Tyler, nem com a dor da fome ou do sexo ou do frio. Nenhuma dor era forte o suficiente para derrubar a fortaleza que ela havia construído ao redor de si.

Parece que essa era.

– Melanie...

Uma última tentativa, ela promete a si mesma, porque sabe que se não tiver pelo menos uma noite ao lado daquele homem, ela nunca terá paz na vida. Sem ter ele ao seu lado por pelo menos alguns minutos, ela nunca se perdoará por não ter tentado.

Ela agarra o braço dele e olha para cima, o obrigando a encará-la profundamente. Aquele mar azul... ela sente que poderia morrer em paz se estivesse olhando para ele.

– Me diz que você não sente nada — Melanie murmura. — Me diz a verdade. Admita que você não tem sentimentos por mim ou me deixe ir.

Josh passa as mãos pelos cabelos. Ela percebe que sempre que ele faz isso é porque está nervoso.

– Melanie, eu não posso...

Ela respira fundo, solta o braço dele, pega os cacos do seu orgulho, os junta e recolhe o seu time de campo.

– Então, por favor, me deixe ir embora.

– Eu não estou te impedindo.

Melanie olha para a mão dele, seus dedos enlaçados nos dela. Ela respira fundo, decepcionada e aliviada ao mesmo tempo.

Ela fica olhando para os dedos dele por um bom tempo, com medo de soltá-los e nunca mais encontrá-los ali para ela quando precisasse.

– Vamos ignorar tudo isso, ok? Eu não quero tratamento diferenciado — ela sussurra. — Eu queria ser tratada como qualquer um pelo menos uma vez na vida.

– Você não é qualquer uma.

Josh então percebe o que vai perder. O que ele sente por essa mulher vai muito além de desejo. Algo nunca imaginado antes. Nenhuma outra garota foi tão ousada com ele, até porque o seu histórico o condena. Quando ele a viu na porta da sua casa, com o seu irmão, ele ficou feliz por ele ter arranjado alguém, apesar dos insultos proferidos a ele, mas conforme as semanas passaram... desde aquela noite, quando ela o tocou, que ele não parava de pensar nela e no que poderia ter acontecido naquela cozinha.

Ele não podia perder aquela chance. Ele não podia perdê-la.

– Eu não posso, mas eu quero — ele admite. — Eu não devo, mas você está certa. O que eu não posso fazer é mentir para mim mesmo.

Ele a puxa pela cintura e a encara por alguns minutos. Melanie mantem seus olhos bem abertos, fixados nos dele. Petrificada, é como ela se descreveria.

– Eu quero ficar com você, Melanie.

Então ele a beija novamente, dessa vez com calma. Ela libera a passagem da língua dele para dentro da sua boca e fecha os olhos para apreciar aquele momento que provavelmente não duraria.

Toda vez que os lábios de Josh tocavam os dela, Melanie sentia um frio esquisito percorrer pela sua espinha. Correntes elétricas na coluna, borboletas no estômago e molas nas panturrilhas. Todo o seu corpo tremia como um bambu em meio a tempestade. Ela aprendeu nos últimos dois anos o que fazer quando estava diante de um homem, mas com Josh era diferente. Com ele, ela perdia o rumo.

– Um dia eu desistirei dela — ele fala. — Quando sairmos daqui nós poderemos ficar juntos. Eu prometo.

Eles estão de olhos fechados, testas coladas, lábios se tocando de vez enquanto, corpos dançando levemente mesmo sem música. Aquela sensação é tão boa que ela não quer largá-lo nunca mais.

– Por favor, não faz isso — ela pede. — Não me promete o que você não pode cumprir.

– Eu não quero ficar longe de você — Josh admite. — Eu não consigo mais. Estou cansado de lutar contra isso, você está certa. Eu sei quem eu quero e eu não vou mais negar isso. Não me importo com esse noivado arranjado.

– Josh, eu sou uma pessoa muito insistente, você sabe disso. Depois de hoje é melhor você não me pedir para desistir.

– Eu não vou.

Ela sorri e o beija novamente. Bem lentamente, com os lábios se movendo devagar e com calma.

Talvez seja um sonho, ela diz para si mesma. Talvez eu acorde agora.

– Eu te dei a opção de deixar para lá — ela fala. — Por que você mudou de ideia de repente? Eu disse que poderia ser apenas mais uma...

Ele empurra uma mecha rebelde do cabelo dela para trás da sua orelha. Seus dedos passeiam pela bochecha dela.

– Porque você não pode mais se esconder de mim, Melanie — Josh sorri. — Eu posso te ver.

+++

– Ela está com ele — Amber fala. — Ela nos criará problemas.

– Eu arranjei você para Andrew, não para Josh — a voz de Vincent soa forte e bruta, mesmo sendo transmitida através de um monitor. — Você deveria ter feito ele se apaixonar por você, Amber.

– Antes um do que nenhum deles — a loira bufa. — Morgana tentou com Andrew, mas aquela prostituta do setor Fieldmann parece que fez macumba para os Duninghan se apaixonarem por ela. Os dois!

– E o que nós faremos agora? — Tyler pergunta, bravo. Ele nunca concordou com os planos de Vincent, mas o que poderia fazer? Reclamar com o Senhor de Meurer? Dizer que ele desejava a prostitua que Vincent queria para si?

– Podemos levá-la depois do PMI — Frederick sugere. — Assim Melanie não levantará suspeitas.

– Vamos separá-los — Vincent diz. — Morgana terá que fazer algo quanto a isso. Ou Jasmine, não sei. Estou pagando caro para todas essas mulheres e não recebo retorno algum. Quanto a Melanie, eu a quero viva e sem um arranhão. Intacta.

– E o que pretende fazer, milorde? — Frederick pergunta.

– Eu a trarei para o meu palácio — o Senhor de Meurer decide com um sorriso macabro nos olhos. — Quando o PMI acabar nenhum Duninghan ou qualquer outro homem encostará na minha Melanie novamente.

O que nenhum deles percebeu é que a morena escutava atrás da porta.

Notas finais
Cabeças começarão a rolar.