Abdication
8 Capítulo 8
Notas iniciais
É hoje o dia.
Melanie disse a Andrew que ia visitar a família e assim o fez. Derek estava pior do que na última visita.
– Houve batida dois dias atrás — Valentina conta enquanto serve café para as duas. Com leite para ela, puro para Melanie. A garota nunca gostou de leite e nem nada derivado dele, ao contrário da sua família e da maioria dos moradores por ali, que bebiam leite todos os dias. — Os médicos disseram que a expectativa de cinco meses era alta demais. Comecei a juntar algum dinheiro para comprar a cura, mas pouca coisa sobra e tudo o que eu consegui comprar foi uns comprimidos para o sangue que ele estava vomitando. Pelo menos isso parou.
– Quanto tempo ele tem? — Melanie pergunta, na esperança de que se a mãe responder pelo menos três meses, ela pode conseguir comprar a cura com o dinheiro do PMI.
– Os médicos disseram que se ele continuar do jeito que está, no máximo um mês.
Melanie quase desaba. Derek, seu irmão mais novo, seu melhor amigo...
Ela se lembra de uma noite, quando os dois eram pequenos, e ela estava com medo dos monstros no armário. Derek havia lhe contado uma história de terror e ela não conseguia dormir. Ele sempre pareceu ser o irmão mais velho, não ela. Derek foi até o seu quarto, a abraçou e disse que monstros como Frankenstein ou Drácula não existiam. Os dois irmãos conversaram durante muito tempo até ela pegar no sono e quando acordou, a garota de sete anos ficou feliz em ver o irmão de seis ainda dormindo do seu lado no pequeno colchão de solteiro do quarto dela.
– Os monstros não são como esses caras — Derek havia lhe dito. — Os monstros de verdade estão no mundo real, mamãe sempre diz isso.
Melanie nunca se esqueceu daquele dia, nem nunca queria esquecer, pois foi naquela noite que ela começou a perceber como as pessoas realmente eram cruéis.
A morena se levanta e vai até o quarto do irmão. Ele está acordado, bem mais pálido do que o normal, com os cabelos castanhos suados e com os olhos verdes como duas pedras.
– Mellie — ele estende a mão para ela. Ele está queimando de febre. — Você veio.
– Eu prometi que voltava, não prometi?
– Soube que você passou na prova.
Ela concorda com a cabeça. A voz dele soava cansada, como se ele usasse todas as suas forças para abrir os lábios.
– Pena que eu não estarei aqui para ver você se tornar uma militar.
Melanie toca o rosto pálido e quente do irmão.
– Você vai estar sim, eu lhe prometo.
Derek força um sorriso.
– Você não deveria prometer o que não pode cumprir — ele fala calmamente e toca a mão quente dela, a retirando devagar do seu rosto. — Está tudo bem, Mellie. De verdade. Eu nunca temi a morte.
– Mas eu sim e eu não o deixarei morrer — ela olha no fundo daqueles olhos verdes, um pouco mais escuros do que os dela — nem que para isso eu tenha que invadir algum maldito hospital e roubar aquela cura para você.
+++
Ela se despediu da sua mãe e do irmão. Depois, a luz do dia, conseguiu ver o enorme X vermelho na porta da sua casa. O sinal da Praga. O X da morte.
Melanie decidiu visitar Jessica Palmer, sua madrinha.
– Que surpresa — Jessica abriu a porta amarelada para ela. — Entre.
A morena se senta a pequena e velha cadeira de madeira perto da mesa ao lado da janela. Jessica se senta a sua frente.
– Gostaria de pedir desculpas pelo que eu falei na nossa última conversa — ela começa. — Não deveria ter contrariado a sua fé. Deveria ter a respeitado. Sinto muito.
Depois disso, a conversa fluiu naturalmente. Jessica disse que não havia nada o que ser desculpado, pois Melanie estava nervosa por tudo o que havia passado. Elas conversaram sobre Derek e sua saúde, o trabalho árduo na fábrica de armas, o PMI, até que o assunto parou em sua mãe.
– Valentina é uma guerreira — Jessica diz. — Sabe que o meu pai era General do Exército, não é? O Marechal Fieldmann, pai de Vincent, era o único acima dele. Hoje está morto, amém, menos um Fieldmann no mundo. Bom, meu pai me treinou durante a minha vida toda, mas eu não era boa com história. Você sabe, tenho dislexia, déficit de atenção... sou péssima para decorar essas coisas. Não passei na prova.
– Mas você me treinou — Melanie completa. — Eu sei como você é boa.
– Tentei treinar seu irmão, mas sabemos como a saúde dele é frágil e como ele é mais da linha do raciocínio do que para a frente de batalha.
– Derek sempre preferiu a linha estrategista — a morena murmura. — Sempre suspeitei que ele seria algum agente infiltrado, se algum dia tivesse a chance.
– Ele sempre teve potencial — Jessica sorri como se se lembrasse de algo. — Treinei sua mãe também.
– Sério? — ela se surpreende.
– Valentina é a melhor mulher que eu já vi segurando uma arma — a madrinha lhe segreda -, mas ela não gostava de usá-la. Tinha medo de matar alguém.
Melanie pensa no assunto.
– Ela... — a morena tenta perguntar, mas as palavras não saem. — Ela já...
– Atirou em alguém? — Jessica completa a frase. — Sim. Ela já matou alguém? Não.
Isso a alivia um pouco. O ar sai devagar pela sua boca e ela fecha os olhos por alguns segundos.
– E você, Melanie? — a madrinha lhe pergunta. — Já atirou em alguém? Já matou alguém?
A lembrança daquela noite vem como uma torneira jorrando água gelada em cima dela.
Era frio, ela precisava fazer aquilo. Não havia escolha. Ele tentou, mas ela não deixou. Melanie sabia que não era o certo a se fazer, mas no fundo ela queria. Lá no seu íntimo, ela desejava aquilo. Não havia escolha, ela sempre disse a si mesma. Não havia para onde fugir. Será mesmo que não havia? Claro que sim.
Nós sempre temos uma escolha, a voz de Desirée, sua primeira amiga nas ruas, ecoou na sua cabeça. Mas não se preocupe com isso. Era um pobre coitado que não tinha onde cair morto, ninguém sentirá falta dele. Todas as pessoas matam alguém algum dia. É a ordem natural das coisas. É a lei da sobrevivência.
A ordem natural das coisas. A lei da sobrevivência.
Seria mesmo natural um ser humano matar alguém como ele? Seria mesmo necessário que alguém tivesse que tirar a vida de um próximo para sobreviver?
Não. É tão errado, ela sabe. Mas tão, tão...
– Melanie? — Jessica a desperta.
Inexplicável, ela define.
– Não com uma arma de fogo — a morena se entrega.
Jessica se aproxima dela.
– Como foi?
– Não quero falar sobre isso — ela se levanta. — Eu tenho que ir. Vou passar em casa buscar algumas roupas antes de partir.
A madrinha se levanta e a abraça. Melanie retribui, um pouco nervosa.
– Eu lhe desejaria boa sorte, mas você não precisa dela — Jessica fica na ponta dos pés para beijar na testa da morena. — Quem tem talento não precisa de sorte.
+++
Melanie ficou pensativa o resto do dia. Andrew percebeu.
– Ficou tudo bem? — ele pergunta, se sentando na ponta da cama do seu quarto, onde a morena está dormindo desde que chegou lá. — Quero dizer, com a sua família.
Ela concorda, simplesmente balançando a cabeça.
– Como está o seu irmão?
– Morrendo.
Andrew não consegue perceber que ela não quer conversar, mas Melanie o entende. Ele quer fazer com que ela se sinta melhor, mas nada pode ajudá-la. Nada e nem ninguém.
– A tristeza é um sintoma tanto nos parentes quanto nos atingidos pela Infecção de Carrick.
– A tristeza é um sintoma de se estar morrendo — ela murmura. — A tristeza é um sinal de que você sabe que alguém importante para você vai morrer e você não pode fazer nada. Impotência é o que me descreve agora.
Andrew toca o rosto dela e Melanie não o afasta.
– Eu adoraria poder fazer alguma coisa .
– Nossas formas de viver são muito diferentes, Andrew. Há menos que você me arranje cem mil notas, você não pode fazer nada para ajudar.
É muito dinheiro, Andrew sabe. Até se ele tivesse doente o seu pai demoraria algum bom tempo para desembolsar o dinheiro.
– Você não pode ficar assim, Melanie. As pessoas vão e vem. Elas vivem e morrem. O seu irmão pode se curar se você conseguir o dinheiro para a cura, mas você tem que concordar comigo que é melhor ele partir desse mundo do que ficar definhando em uma cama o resto dos seus dias.
Ela respira fundo e olha para ele.
– Por que você sempre encontra as palavras certas?
– Por que você é tão bonita? — as mãos dele se fecham ao redor da sua bochecha como uma concha e a puxam devagar para ele.
Melanie está frágil nesse momento e tudo o que ela precisa é de alguém para apoiá-la. Ela sabe que não é certo usar alguém como Andrew para ser como um ponto de parada em meio a uma longa e demorada corrida, mas não há nada que ela possa fazer, porque o seu corpo está tão, mas tão exausta de fugir... por isso ela não se afasta quando os lábios de Andrew tocam os dela.
Ela abre a boca devagar para que a língua dele possa entrar. Foi um beijo calmo, terno. Algo totalmente fora do normal para ela. Melanie estava acostumada com beijos furiosos, puxadas de cabelo, apertões, chupões e mordidas. Beijar alguém tão carinhosamente assim a abriu um buraco no peito, a lembrando que ela nunca havia beijado alguém ou dormido com algum homem antes de fugir para as ruas.
As mãos de Andrew a puxam pela cintura, para mais perto dele. As mãos de Melanie correm para a barra da camiseta dele, imaginando o que ele está querendo. Porém Andrew a para.
– Você não precisa fazer isso se não quiser — ele murmura, fazendo uma trilha de beijos pelo rosto dela.
Ela olha no fundo dos olhos dele. Aquele mar azul, onde ela vê desejo, porém também vê carinho e contenção. Ela nunca viu nada assim na face de um homem.
– Mas eu quero.
Ela o empurra para a cama e retira a camisa dele, passeando as mãos pela sua barriga definida.
– Temos vinte minutos antes da nossa partida para o aeroporto — ele murmura.
– É tempo suficiente para mim — as mãos dela descem para a calça jeans dele e ela sorri de forma maliciosa. — Você não faz ideia do tamanho da fogueira em que você está entrando, sr. Duninghan.
– Eu não me importo — ele sussurra. — Nunca tive medo de me queimar.
+++
Depois do curto momento de prazer entre os dois, Melanie e Andrew tomaram um banho rápido juntos sem outras intenções, se vestiram, pegaram as malas e desceram. Melanie pegou algumas poucas roupas um pouco decentes em sua casa e as outras Heather fez a generosidade de emprestá-la. Uma buzina soou do lado de fora da casa no momento em que os dois se despediam da caçula dos Duninghan. Josh entrou na sala ao lado de Amber.
– O que você está fazendo aqui? — para surpresa de Melanie, Andrew não está falando com o irmão. — Eu não quero você dentro dessa casa.
– Essa casa também é minha, irmão — Josh fala.
– Essa casa deixou de ser sua desde o dia em você saiu por essa porta — ele vira-se para Amber. — Você tentou matar Melanie na semana passada.
– Tivemos uma breve discussão — ela sorri para a morena. — Está tudo certo agora, não está?
A morena não responde. Josh encara ela de forma impaciente enquanto Andrew está com um enorme ponto de interrogação flutuante em cima da testa. Amber tenta esconder a raiva e o desprezo, mas o veneno de naja escorre pelos cantos da sua boca. Melanie quase pode vê-lo pingar no tapete.
– Tudo estará certo quando eu dar uma cor nessa sua cara pálida — a Hemingski rosna. — Sabe que cortes ficam rosados depois que viram cicatrizes? Quem sabe uma atravessando o seu rosto ao meio não combin...
– Chega — Josh a interrompe. — Vamos logo para o aeroporto.
– Nós não vamos com você — Andrew diz. — Nosso táxi está chegando.
– Hum, Drew, Josh se ofereceu para dar carona a vocês — Heather corta a discussão entre os irmãos. — Eu não pedi o táxi. Sinto muito.
Melanie olha para o relógio na parede da sala.
– Andrew, nós vamos nos atrasar se esperarmos um táxi — ela murmura em seu ouvido. — É sábado e é de noite. O trânsito está uma loucura.
O moreno respira fundo.
– Nós vamos, mas é só desta vez.
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Seria uma viagem longa. Todos embarcaram no avião, menos Heather. Ela disse que levaria o carro de Josh para o apartamento dele, mas é claro que não perderia a oportunidade de chegar dirigindo um carrão como aquele em alguma festa. Enfim, a viagem de avião mal havia começado e Melanie já se sentia o estômago embrulhado assim que o avião subiu.
Seriam duas horas de avião até a última cidade grande do extremo norte, uma cidade de nome difícil que Melanie não sabia dizer. De lá eles pegariam um ônibus até o porto e do porto pegariam um navio para sabe-se lá onde, já que nunca foi revelado a ninguém o trajeto percorrido por motivos de segurança. A morena achava que em Meurer era frio, mas quando desceu do avião na cidade do nome esquisito, ela congelou. Andrew lhe deu uma luva preta grossa e ela agradeceu por isso, porque seus dedos estavam duros mesmo dentro da luva quentinha.
Eles pararam para comer uma coisa rápida no aeroporto e pegaram um ônibus, que graças ao céus tinha aquecedor e estava ligado. O clima até o porto foi de descontração, todos conversavam e riam, mas Melanie estava congelada demais pelo frio para mostrar os dentes.
– Ei — Beatrice Beckering sentou ao seu lado quando Andrew saiu para conversar com alguns amigos. — Como você está?
– Congelada.
A loira sorri.
– Eu também achava que em Meurer era frio demais, até ir até mais ao norte com meus pais em uma viagem. Eu quase morri congelada.
– Você viu a altura da neve lá fora? — Melanie pergunta. — Está acima dos meus joelhos.
– Ainda bem que a estrada até o porto é alta.
Depois disso elas conversaram até chegar ao porto. Lá elas se separaram, pois Beatrice disse que tinha que achar o irmão. Melanie colou em Andrew e eles fizeram uma parada do lado de fora do ônibus. Estava ainda mais frio do que no aeroporto. Por que diabos Fredrick Whitmore não falou com eles dentro do ônibus, onde tem aquecedor?
– Sei que para vocês é difícil acreditarem, mas para onde nós vamos, apesar de ser ainda mais ao norte e no meio do mar, é calor. Com a nossa tecnologia avançada de Frömming, implantamos aquecedores em todo o complexo e fizemos testes para implantá-los no solo sem prejudicar a ninguém.
Frederick falou algo sobre radiação e sobre o local ainda ser frio, porém um pouco mais quente do que ali. Eles embarcaram em um enorme navio, que para Melanie era um exagero. Então ela percebeu que havia turistas lá e que eles estavam pegando carona em um cruzeiro.
O balanço do mar a fazia ter vontade de vomitar e a sua realidade a fazia querer pular na água gelada e sumir, mas ela não fez nenhum e nem o outro. Mais dois dias de viagem de navio e ela chegaria lá, mais dois dias que ela precisa aguentar.
Apenas mais dois dias.
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