Abandono Imprudente

16 Sorte? Não é o meu caso.


- Tem certeza que não está se drogando? — acordei com a pergunta mais ridícula que a Charlie poderia me fazer. — Você só dorme! Dorme e acorda e volta a dormir.

- Cala a boca sua tapada! — eu dei um tapa em seu ombro e ela deu um gritinho. — Esse é meu modo de fugir da realidade, dá pra me respeitar?

- Dormir ou se drogar? — ela disse dando um sorrisinho irônico.

- Vai se fuder.

Peguei o travesseiro e atirei na cara dela que quase caiu da cama.

- Vamos ter visita pro jantar?

- Vamos, uma revista vem me entrevistar e eu convidei eles pra jantar. — disse desanimada.

- Péssimas notícias amiga, hoje eu vou jantar com o Sammy em um restaurante. Hoje é dia de comida japonesa e como os amigos dele não podem ir, ele me convidou.

- Sério? — fiz bico.

- Infelizmente. — ela me deu um abraço. — Jura que não fica brava comigo?

- Tudo bem, fui eu que avisei de última hora mesmo. Vai se arrumar pra sair Charlotte Parker.

Charlie saiu do quarto e eu fui tomar um banho. Escolhi uma roupa simples: calça jeans meio rasgada, uma blusa de banda velha que eu tenho e no pé eu não coloquei nada. Gosto de ficar descalça em casa, é meio que um hábito. Quando eles chegarem eu coloco uma sapatilha, sei lá. Enfim, desci e percebi que Charles tinha feito um trabalho impecável com o jantar, ele sempre me surpreendia.

Tinha frango com molho branco e queijo, salmão com molho de alcaparras e filé ao molho madeira. Amo todos esses pratos e sei que esse é o motivo por todos eles terem sido preparados. Ele colocou mesa pra quatro mas acho que três já seria suficiente. Ouço uma buzina e abro a porta. É o Sammy. Grito pra Charlie e ela desce linda e maravilhosa como sempre. Vejo os olhos de Sam a encarando de cima a baixo. “Eles deviam namorar!”, penso, mas não ouso abrir minha boca para comentário algum relacionado ao assunto.

Sento no sofá pra esperar o pessoal da Viclavier. Já são dez para as nove e o horário que tínhamos combinado era 8:30. Tomara que nada de ruim tenha acontecido. O relógio marca 9:27 quando o interfone finalmente toca. Abro a porta e tenho um susto. Lá está Victorys LaVierne e do seu lado está... Nolan? Desde quando ele trabalha na Viclavier? Porra, essa revista era de Los Angeles, eles devem ter sido transferidos. Que falta de sorte — ou excesso dela.

- Eu sou Victorys e esse é Nolan Fall. — ela diz apontando pro lado.

- É sempre bom ver você de novo! — Nolan diz segurando minha mão. A retirei rápido. Até demais.

- Quer dizer que vocês dois se conhecem de outros carnavais? — Victorys encara Nolan.

- Muito tempo atrás. Grandes amigos. — tento encerrar o assunto.

- Muito mais do que amigos. Namoramos por um longo tempo, amor. — me segurei pra não gritar com ele. Amor? Desde quando ele me chama de amor? Insuportável.

- Que seja. — eu digo sem mostrar desespero. — Vamos ao que interessa. Quais são as perguntas? — eu digo dando um sorriso.

- Ah sim! Vamos pra um lugar onde eu possa posicionar meu gravador e começamos.

A entrevista começou bem. Ela me perguntava coisas básicas. Como o corpo foi encontrado, quem é que encontrou, se ele estava morto quando chegamos. Respondo que ele já estava morto, que é indescritível a maneira como o corpo foi encontrado mas que havia muito sangue e que quem encontrou foram os policiais. Vic pergunta se eu já sei os resultados da biopsia e respondo que os resultados saem mês que vem e que a única coisa que sabemos é que foi latrocínio. Então Nolan pergunta qual era a minha relação com ele. “Éramos grandes amigos, se assim posso dizer. Ele foi o único que confiou em mim quando eu precisei do trabalho. Ele sempre me apoiou e sou grata a ele por isso”, eles vão me perguntando se eu suspeito de quem seja e muitas outras coisas e eu vou dando minha opinião em tudo — e omitindo o que eu queria, óbvio.

Ao todo foram feitas umas 20 perguntas até que ela começa a se interessar pela minha história. Ela fica surpresa quando eu digo que trabalho desde que entrei na faculdade e que eu estudo e trabalho mesmo tendo apenas 19 e, que sou dona de uma mansão em Nova York. Ela começa a fazer uma entrevista sobre mim o que me deixa meio desconfortável na verdade. É então que ela pergunta: “você está solteira?” e eu não sei o que responder. Eu simplesmente dou uma gargalhada e digo: “não sei se posso chamar o que eu tenho de namoro”. Nessa hora Nolan me encara como se estivesse refletindo sobre o que eu falei agora pouco — e ele fica calado o resto da entrevista.

Quando ela termina de fazer as perguntas nós vamos jantar. Victorys vai embora cedo dando a desculpa de que tem que ir as comprar pois não tem nada em casa. Ficamos então apenas eu e o Nolan. Charles já foi pra cama e eu fiquei encarregada da louça porque não achei justo ele lavar sendo que ele trabalhou o dia inteiro nesse jantar. Recolho os pratos da mesa e Nolan não se acanha e me ajuda com tudo.

- Certo, você lava e eu seco, pode ser?

- Tanto faz. — respondo.

Começamos a lavar a louça e um silêncio perturbador invadiu a cozinha. Só era possível escutar o barulho de um prato batendo no outro e os talheres se espalhando pelo escorredor. Na realidade, eu não quero quebrar o gelo porque sempre que eu faço isso, eu direciono a conversa para um lugar onde eu não quero chegar. Sou tirada de meus pensamentos por sua voz rouca:

- Esse machucado na sua testa é por minha culpa, não é? — ele abaixa o meu rosto e encara o curativo.

- Com certeza. — é o máximo que eu consigo dizer.

- Mas está tudo bem ou...

- Ele sangrou muito ontem. — o interrompi. — Ainda bem que a Charlie estava comigo.

- Certo, e onde vai estar a Charlie quando eu for embora?

- Provavelmente com o Sammy, uai! Ela vai passar a noite com ele no bar provavelmente.

- E você vai ficar aqui sozinha? — ele me olhou pensativo.

- Onde mais eu ficaria? — o fitei agressivamente. — O que você sugere senhor?

- Eu sugiro fazer o seguinte. Como esse machucado vai ameaçar abrir de novo e eu fui o culpado de tudo isso, eu vou ficar e ser o seu enfermeiro particular.

- Não, eu não quero que...

- Cala a boca, sua teimosa! — ele diz tapando minha boca com a mão. — Eu vou ficar e não tem porém, entendeu?

Apenas revirei os olhos e voltei a lavar a louça. Não tentei discutir! No fundo eu sabia que tinha grandes possibilidades do corte abrir e eu queria a companhia dele, eu realmente gostava de tê-lo ao meu lado — mas isso não vem ao caso. Entrei no closet e coloquei uma camiseta gigante pra dormir. Quando eu entro no quarto ele está deitado na cama apenas com um cueca box. Me deitei ao lado dele. Havia um grande espaço entre a gente, ambos estávamos encarando o teto. O motivo eu não sei mas o silêncio estava bom.

Ele segurou minha mão e dessa vez eu não a retirei. Olhei pra cima e ele sorriu pra mim — me fazendo desviar o olhar sem corresponder. Ele começou a acariciar os meus cabelos e dessa forma eu adormeci.

***

Escutei algo vindo de lá de baixo e abri meus olhos rapidamente. Então percebi que estava abraçada com Nolan. Tenho certeza de que fiquei corada na hora, a muito tempo eu não fazia isso e era estranho, como se tudo tivesse voltado ao normal mas não voltou, está longe disso.

Não me movi, apenas fechei os olhos novamente e adormeci nos braços dele. Pensei em dar um beijo de leve em seu rosto mas desisti, se ele acordasse seria horrível, então eu apenas me acomodei em seu peito e adormeci outra vez. Não demorou muito tempo e escutei o barulho mas dessa vez parecia mais alto.

Resolvi ir verificar se o Cobain não estava fazendo arte — porque a madrugada é a hora favorita dele pra fazer isso. Saí do quarto deixando Nolan na cama. Tentei ser o mais cautelosa possível pra não acordá-lo e consegui. Andei pelo corredor até chegar na escada de vidro. Encarei meus pés pra não falsear na escada e cair — quando sinto uma força descomunal me impulsionar pra baixo. Sinto o peso em minhas costas e podia jurar que elas estavam quebrando. No desespero eu tentei me agarrar no corrimão mas não adiantou e eu saí rolando.

A surpresa veio nos últimos degraus. Como se já não fosse ruim o suficiente estar caindo da escada, os três degraus do final da escada resolveram ceder, estilhaçando em mil pedaços e perfurando o meu corpo em todos os lugares possíveis. Um deles entrou fundo no meu ombro me fazendo gritar de dor.

Olhei pra cima e vi um vulto preto. Pensei ser fruto da minha imaginação então cerrei os olhos mas o vulto não se mexia, ele parecia observar sua obra, como se ele tivesse me empurrado e tenho quase certeza de que foi mesmo. Fecho os olhos, os obro em seguida e então vejo a sombra se mover rapidamente pro corredor. Em seguida, vi Nolan me olhar de lá de cima:

- Meu Deus! — ele murmurou e sumiu. Depois de um tempo ele apareceu com o telefone na orelha. — Ela está muito ferida! Eu não sei explicar o que aconteceu cara! Eu acho que ela caiu da escada mas é difícil dizer.

Depois disso eu simplesmente apaguei. Não lembro mais de nada, só lembro de um negro que tomava meus olhos, de uma dormência que tomava cada parte do meu corpo e de uma falta de ar gigantesca. Que a sorte esteja ao meu lado.

Notas finais
Sorte foi a palavra da fic mas eu acho que o que ela tem mesmo é um puta de um azar, só acho. Conversem comigo, por favor, reviews serão ótimos. Queria ter inspiração suficiente pra postar o próximo capítulo antes de fazer uma semana mas não sei se... obrigada por lerem até aqui, faz toda a diferença, bjs :)