Abandono Imprudente
1 Mais do mesmo
Os dias estão passando mais rápido. Dias mais rápidos pra mim significam menos tempo. Menos tempo pra sentir, menos tempo pra viver, menos tempo pra ser feliz, menos tempo pra tudo. Sentada na sala, pareço até sentir a Terra girar em torno de si mesma, mas eu estou ali, imóvel, pensando em coisas impensáveis, coisas que nenhuma garota pensa, ou isso é pelo menos o que eu acho que é, mas não significa que esteja certo nem tão pouco errado.
O que estou fazendo com a minha vida? Ao menos isso deveria ser fácil de entender, não é mesmo? A si mesma? Onde chega a sua capacidade? Qual é o seu limite? Eu sou meu limite. Até onde posso chegar não entendendo a mim mesma? Não consigo decifrar qual a minha realidade. O confronto com meu eu todos os dias me deixa aflita. Eu teria medo de me encarar. O medo pode ser visto em meus olhos a milhas de distância. Ou seria a raiva? Fogo. Não, gelo. Uma pedra. Seria mais fácil descrever uma pedra.Verônica. Sim, nomes. Nomes deveriam definir e decodificar cada ser humano como único e diferente. Eu diria excepicional. Falha. Nenhum ser humano é único. Não que ele não queira ser diferente dos outros. Digamos que sempre existe um padrão. Padrões. Na minha opinião, feito para ser quebrado. Na opinião de milhões e milhões de pessoas que se consideram melhores que eu justamente por seguir e se ajustar nesses padrões, algo a ser seguido, respeitado.Ah, sim. Verônica. Nome complicado para alguns, simples para outros. Uma descrição? Difícil. Não sou o tipo de pessoa que está rodeada de amigos, mas tenho os meus bocados e neles sei que posso confiar. Solitária. Essa palavra descreve bem o que eu basicamente sou porque eu não acho que eu vá encontrar muitas pessoas como eu neste mundo. Olho para o mundo, o mundo que eu consigo enxergar, um mundo além de minha janela, um mundo péssimo que vejo com olhos cansados.Aprendi a conviver com tudo que sempre julguei futil e desnecessário. Ignorei as coisas que me eram desinteressantes. Desenvolvi uma tática de proteção contra o julgamento das outras pessoas. Eu sorrio. Mesmo que eu sinta como se uma avalanche estivesse prestes a estilhaçar meu corpo, lá está meu sorriso mostrando ao mundo quem é que manda.Acordo muito cedo, me espreguiço lentamente por uns dois minutos e levanto, jogo água bem gelada na cara e desço os 40 degraus da sala principal de minha casa. Passando por uma porta trabalhada, chego à mesa de cristal da sala de jantar. Meu suco de laranja bem doce estava na jarra cheia de gelo, o bolo de coco com calda de chocolate, já pela metade, estava em um bomboniér ornamentado. Havia frutas na mesa, mas eu jamais as tocava. Pra quê comer frutas? Mais uma coisa sobre mim que, talvez, as pessoas nem imaginam. O pão e a manteiga haviam sido compradas à pouco pelo meu melhor amigo e mordomo Charles e o cheiro já estava no primeiro degrau. Desci apressada. Charles já estava tocando o sino dizendo que o café da manhã estava na mesa então desci com mais pressa ainda! Ele puxou minha cadeira de veludo vermelho:– Obrigada Charles, você é o melhor!– Não fiz mais do que meu trabalho madame.– Quantas vezes eu tenho que dizer que é pra me chamar de Verônica seu bobo? Parece que eu falo grego contigo!– Desculpa senho... Verônica. Sou acostumado a essas coisas ...– Se desacostume então. Sou nova demais pra ser chamada de madame ou esse tipo de formalidade que sabe muito bem que eu detesto desde sempre. Uma madame faria uma careta? — disse fazendo caras e bocas para Charles.Naquele momento eu ri, o que era difícil, e Charles até pensou bem antes de rir comigo. Charles é um homem culto que não gosta muito de rir. É gentil, educado, cavalheiro e trabalha aqui a alguns anos mas ainda não se acostumou a ser ele mesmo! Sabe falar mais de seis línguas, incluindo mandarim, francês, inglês e latim. Andava sempre de smoking, apesar de eu já ter dito a ele que isso não é necessário. Como já disse, odeio formalidade.Então ele pegou a jarra e colocou exatamente um copo de suco. Depois ele foi pegar o pão para passar a manteiga e:– Epa, que que é isso Seu Charles? Tá ficando louco? Eu tenho mão, sabia? Num precisa passar manteiga no pão e cortar o bolo. Eu me viro!– Desculpa, eu vou indo então ... pra cozinha.Finalmente, eu mesma peguei o pão e passei a manteiga. Devorei rapidamente como se nunca tivesse comido antes. As coisas vão bem aqui em casa. Nada de bom acontece mas, em compensação, nada de ruim acontece também. Aquilo que dizem sobre rotina é realmente verdade. Depois de alguns anos você se prende a ela. As vezes até demais, de maneira que ao passar do tempo, você perde as coisas que se dizem insignificantes.O telefone toca. Até ai a minha vida parece típica, irônica e sem ação. Mas como eu disse, apenas acabei de acordar e como eu, é difícil de enxergar o mundo através da sua janela, os sentimentos ficam mais fundo e o mundo vai além do que se mira a olho nu. Tem coisas que são indetectáveis e não estão espalhadas em frases de bolso ou nas morais de histórias infantis. São coisas que só você sabe, coisas que só você no seu intimo mais profundo e obscuro vai jamais saber. O interessante é que eu me acho tão madura e mesmo assim, eu não deixo que ninguém pense no que eu penso e não deixo ninguém participar do meu obscuro. Na verdade, não deixo nem ao menos as pessoas participarem dos momento claros, o que as pessoas chamam de felicidade. Creio que se existisse tantos momentos felizes assim em minha vida, obviamente eu teria que compartilhá-los. Mas por enquanto eu conto pra mim mesma. Gosto de escrever, está aí algo que eu gosto de fazer desde pequena. Minha mãe costuma dizer que o Diário de uma menina é o reflexo de sua própria vida. Ela está certa. Desde que eu tinha 10 anos eu escrevo absolutamente tudo no meu Diário. Um documentário sobre a minha vida? Leia meu Diário.
Dia 28 de fevereiro de 2009.Querido diário, Infelizmente, nada saiu da rotina hoje. Juro que as vezes me pego pensando se algum dia o telefone vai tocar por algo mais do que trabalho. Será que sou tão amargurada a ponto de ninguém ao menos querer ouvir minha voz? Não, não, não. Impossível. Eu sou engraçada até. Fiz o Charles rir hoje de manhã, isso não é ótimo? Bom, seria um dia ótimo se não fosse o Sr. Trick no telefone. O hacker ainda não foi encontrado. Quem sabe depois que mais um banco for saqueado eu possa solucionar o caso! Nunca podemos suspeitar de poucas pessoas! Dizem: "todos são inocentes até que prove o contrário!", mas eu penso que todos são culpados até que eu prove o contrário. Suspeito de tudo e de qualquer um. O mais insignifante pode mudar o rumo dos acontecimentos. Todos são suspeitos. Menos eu. Isso não seria racional.Estava pensando em quem poderia ser esse hacker que estamos procurando. Deve ser alguém muito inteligente, afinal, roubar bancos de maneira eficiente, sem sair de casa, sem deixar rastros e sem alarmar o mínimo possível só podia ser coisa de mestre. Não entendo muito bem como funciona esse tipo de coisa, mas um bobalhão qualquer não conseguiria tal artimanha. Eis o que penso que seja o plano.Ele deve arquitetar o plano desde e o máximo até o mínimo detalhe. Com certeza, em primeiro lugar, ele deve arranjar uma agência em que o furto, por maior que seja, não fosse detectado de primeira, ou seja, um lugar tão grande e tão cheio de dinheiro que roubar sete ou oito milhões não fizesse lá tanta diferença. Então, logo após isso, ele deve pensar se ele dará o golpe de uma vez ou se irá saquear um pequeno valor de várias contas diferentes. Até agora, ele desfrutou de ambas as opções. Só então, ele deve escolher um dia bom para desenvolver o plano. Talvez numa sexta feira. Dia de pique. Muitas pessoas efetuando pagamentos que esqueceram ao longo da semana, todo mundo querendo ir embora, pessoas entediadas e então, lá está a deixa para que o hacker possa agir. É de se adimirar suas táticas, se for desse jeito que cogitei. Dessa maneira, ele nunca teria que fugir, ou mudar de nome nem nada. Apenas teria que conter gastos exuberantes para que ninguém suspeitasse.Ora, ora. Os primeiros pensamentos do dia e já são suficientes para entediar metade do planeta Terra. Por favor Verônica, você tem que se arrumar. Hoje não é sábado, você tem que ir trabalhar. Denovo. Pelo menos não é segunda feira. Odeio segundas feira tanto quanto odeio o resto dos dias. Mas eu não posso faltar. Tenho apenas 19 anos. Trabalho e estudo, tudo ao mesmo tempo. Isso dobra a responsabilidade que tenho em quase tudo em minha vida. Sim, eu trabalho. Não sou a universitária que faz estágios remunerados. Mas devem se perguntar o que um menina tão nova e sem graça faz em um emprego cobiçado por milhares de pessoas com bem mais esperiência que eu. Simples. Acho que pela primeira vez na minha vida, eu me destaquei em algo. Estudei muito, por muito tempo eu mal preguei meus olhos estudando e estudando mais, pra conseguir o que eu queria. Gostaria de ter essa mesma força de vontade em outras questões da minha vida. Talvez, assim, minha vida fosse menos enrrolada do que ela costuma ser.Enquanto penso em todas essas coisas, aproveito e subo correndo as escadas, pronta pra passar uma maquiagem no rosto e escolher minha roupa, mesmo sabendo que não á tempo pra demorar, a vida exige rapidez. Então passei a mesma maquiagem de sempre, o básico. O que esconde minhas olheiras de noites mal dormidas e me deixa melhor do que eu me vejo ao acordar. Escolher roupa não é comigo. Nessas horas eu queria que a Charlotte estivesse aqui comigo. Minha melhor amiga no mundo todo. Ela me entende melhor que eu mesma. Como não amar? Escolhi uma roupa e imaginei dona Charlotte me dizendo: "Não, isso não, denovo não! Será que não vê que as pessoas já enjoaram de te ver desse jeito?". Como se ela estivesse mesmo ali, soltei palavras ao vento:– É isso mesmo que eu vou vestir Charlie! Eu nem existo naquele emprego. Não vou me trocar denovo. Nem por você.Pude imaginar seu famoso olhar de desaprovação pra mim. Aquele que só ela sabe fazer e que muitas vezes já me fez mudar de ideia. Mas não. Hoje ele não iria funcionar em mim. Eu estava atrasada. Peguei as chaves do carro e fui correndo pra garagem, tropeçando em meus próprios pés. Seria outro dia no qual eu teria que sobreviver.
Notas finais
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