Abandono.

3 Os olhos de Jena.


Encarei a porta de madeira envernizada. Toquei-lhe com a ponta dos dedos e desci até à maçaneta com o impulso do hábito. Respirei fundo antes de entrar e a professora olhava-me indecisa. Arqueou as sobrancelhas e, num gesto leve e passageiro, ordenou que me sentasse . Já no meu lugar, à esquerda, junto à parede verde musgo, ouvi-a pronunciar o meu nome;

—Katrina... Está atrasada!

Acenei afirmativamente.

—Bem, não interessa. Mas com isso perdeu a apresentação dos novos alunos.

Hum... Algo novo! Isso sim interessava-me. Mas não tanto ao ponto de me tornar... vulgar?

—Este é o Thomas e aquela menina ao fundo é a Jena. E eles são...

—Primos!

Ambos falaram e a professora olhou-os em agradecimento pela conclusão. Depois deixou-os continuar; a sua segunda apresentação.

—Eu sou o Thomas, tenho dezassete anos. Eu e a Jena viemos de Castelo Branco para cá devido ao emprego dos meus pais.

—Sim e espero que consigamos integrar-nos depressa.- Jena sorriu; ela também tem o cabelo liso e comprido como o meu, apesar de ser loiro e, neste momento, estar a fazer um puxo desajeitado. Tem pernas finas e ombros arqueados. Quando se sentou na sua cadeira, pude reparar, tinha um sinal- uma mancha do tamanho de uma unha- um pouco mais claro do que a sua pele bronzeada. Não era notório mas pude vê-lo.

Levantou-se logo a seguir para dizer que tinha dezasseis anos. Soltei um riso abafado com a sua forma desajeitada de ser. Os meus olhos verdes encararam a carteira de madeira, mais clara que a porta mas igualmente envernizada. Comecei a brincar com a caneta preta; passava-a pelos dedos, roía a tampa negra como carvão e lamentava esta não ter sabor. Os meus olhos vagueavam todo o lado esquerdo da sala, via a professora escrever com o giz branco no quadro, depois a parti-lo, depois a apanhá-lo do chão e a, por fim, voltar a escrever naquela imensidão verde escura suja de branco. Via-a espirrar devido ao pó e cansei-me dessa visão quando voltei a brincar com a caneta preta.

Jena olhava-me. Os seus olhos azuis como água piscavam a cada quinze segundos. O pescoço comprido não se virava e o desconforto era tanto que não me atrevia a olhá-la. Observava-me, estudava-me como se uma grande prova estivesse para vir. Comecei a corar; já parecia exagero alguém encarar-me por tanto tempo! Fechei os olhos com força e abri-os virando-me com a mesma intensidade do seu olhar. Ela mostrou-se surpresa mas logo voltou à agressividade de antes; as sobrancelhas expressavam a sua intriga mas também a sua vontade de ganhar o jogo que eu começara!

—Jena?

Ela olhou em redor até encontrar a silhueta volumosa da professora que estava de braços cruzados e nariz torcido.

—Começamos bem, não acha? Ainda agora chegou e já está na conversa!

Ela abriu muito os olhos por um segundo e quando estes voltaram ao tamanho normal retorquiu:

—Mas eu não estava...- diminuiu o tom quando viu o semblante zangado da professora, como um touro que acabara de avistar os forcados.- ... a falar.

—Estava distraída; é isso que importa!

Acenou afirmativamente, meiga e tímida. A aula continuou e ambas evitámos olhar uma para a outra. Ela encostada à janela branca do lado direito da sala e eu no habitual desconforto da parede verde musgo.

A campainha tocou e Jena deu um pequeno pulo no seu lugar com o susto do inesperado. A aula passara tão devagar que compreendia o porquê de ela estar distraída. Que seca... Todos começámos a arrumar as nossas coisas; preparava-me para pegar nas minhas- na minha mochila verde escura e no meu casaco de cabedal- quando reparo que Jena voltara a olhar para mim... miúda estranha. Evito uma nova batalha ao sair apressada da sala. Suspiro. Não contava com alguém tão peculiar e notório como a rapariga nova.

Temos o mesma altura, parece-me. Ambos os cabelos são compridos e lisos mas enquanto que a minha pele tem sardas, a dela é tão lisa e bonita que não consigo pensar noutra coisa que não um espelho polido à pouco tempo. As suas curvas são chamativas mas não passam da linha do discreto apesar das jeans e do decote. O meu corpo franzino e miúdo e os meus olhos grandes e "verdes e frescos como a relva mas enigmáticos como a coruja que se esconde atrás do tronco velho do sabugueiro da senhora Ward" parecem uma anedota ao lado das suas iris azuis e das suas pestanas loiras como inúmeros fios de seda doirada. O pai contava-me muitas histórias sobre a coruja da senhora Ward; a coruja pequena que guardava um segredo em cada um dos seus grandes olhos!

Voltei a ver Jena nos corredores mas ou ela não reparou em mim ou então decidiu esquecer o episódio da aula de literatura. Também não fiz questão de relembra-la, seria algo que, mais uma vez, guardaria só para mim! O dia passou.

Consigo ouvir os meus passos no asfalto e começo a conta-los enquanto caminho; algo que faço desde criança. A mãe está a contar comigo e bate palmas a cada cem. Sorrio, e dou-lhe a mão. Avisto o meu prédio ao fundo da rua, desisto da contagem e corro até à porta. Encosto o corpo à parede branca, passo a mão pelo pescoço e olho para uma nuvem sem forma no céu, a única para dizer a verdade. Observo-a por mais um tempo antes de entrar, esperava que ela tomasse alguma forma mas isso não aconteceu e deixei-a sozinha a ser sugada pelo vento.